Fios do Tempo. Breves considerações sobre o perdão – por André Magnelli

Trazemos hoje no Fios do Tempo uma conversa intelectual entre André Magnelli e Paulo Henrique Martins sobre o perdão. Esta conversa entre amigos, mediada por textos, foi motivada pelo convite para participar de um grupo de estudos sobre o perdão, liderado pelo sociólogo argentino Adrián Scribano.

Em meio às reflexões pessoais de fim de ano e de uma transição política em curso, cremos que esta conversa pode ser uma frutífera leitura. Nossos textos buscam mostrar a amplitude e a complexidade da questão do perdão a partir de distintos pontos de vista (existencial, social, cultural, político).

Neste dia 28 de dezembro, publicamos “Breves considerações sobre o perdão“, de André Magnelli. E no dia 29 de dezembro, trazemos “Perdão e aliança pelo justo comum“, de Paulo Henrique Martins.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!

André Magnelli & Paulo Henrique Martins
Fios do Tempo, 28 de dezembro de 2022


Breves considerações sobre o perdão

Estas breves considerações foram escritas numa penada só, motivado pelo convite para participar de um grupo de estudos sobre o perdão, liderado pelo sempre ativo e criativo sociólogo argentino Adrián Scribano. Neste convite, Scribano pediu para cada membro refletir sobre sua forma de aproximação do tema e enviou um trecho de relato etnográfico. Ao tratar de uma “cerimônia do perdão” presente na tradição indígena dos Andes entre os aymaras, sua intenção foi indicar a centralidade sócio-histórica do perdão, que ultrapassa o horizonte da tradição judaico-cristã. Comecemos por citá-la:

Os aymaras têm muitos rituais e cerimônias que são feitas em casa, nos campos ou no topo das montanhas. Cada uma dessas cerimônias começa com uma invocação a toda a criação e a todos os poderes do céu e da terra para acompanhá-los em suas orações. Essa invocação é seguida de uma “cerimônia do perdão”, na qual todos os presentes são chamados a pedir perdão e a perdoar todos os outros, especialmente aqueles que os ofenderam. Em caso de sérias disputas, as partes contrárias deixam a cerimônia para se reconciliarem entre si.

Minha abordagem do perdão é feita no cruzamento de quatro eixos: o dom, o político, o reconhecimento e o amor. Seguindo a citação de Adrián, creio que devemos abordar o tema do perdão por uma perspectiva intercultural, que dialoga o perdão elaborado na tradição judaico-cristã com aquelas manifestações presentes em diferentes contextos culturais, como nas sociedades arcaicas ou na cultura védica.

Creio que há pelo menos três problemas inter-relacionados com o perdão. Primeiramente, como se pode ver a partir do ponto de vista do dom, o perdão é uma maneira – talvez a principal – de evitar ou interromper os ciclos de violência desencadeados pela vingança, com retaliação, contra-retaliação, retaliação… (na vendetta, por exemplo). Como mostram autores como Mark Anspach e Paul Ricoeur, a lógica de dar, receber e retribuir pode sempre degenerar na espiral de violência, e o perdão é, nesse sentido, uma forma de interromper o ciclo, estabelecendo um novo impulso, uma outra lógica. A outra forma de fazer isso é a da justiça estabelecida por um terceiro: o juiz, como parte do Estado. Mas as relações são restabelecidas entre as partes com o perdão, tanto moral quanto afetivamente, ao passo que, na justiça civil e penal, temos sobretudo o objetivo de restituição ou sanção pela pena. Diga-se de passagem que é por isso que são envidados esforços atualmente para que, nas democracias demasiado judicializadas, sejam inseridos nos trâmites da Justiça elementos de uma lógica de perdão por mecanismos de arbitragem e mediação, a fim de restaurar os laços sociais e evitar os danos não-intencionais do aparelho judiciário.

Isso nos leva diretamente ao segundo ponto, que é a abordagem do perdão a partir do ponto de vista relacional e existencial, afetivo e moral. Com Marcel Mauss, Hannah Arendt, Paul Ricoeur e outros, podemos entender o perdão como uma forma de ação que restabelece uma relação com o passado e, possivelmente, institui uma nova relação. Isso pode ser pensado não apenas de um ponto de vista macro-social, como os problemas de dívidas históricas, crimes contra a humanidade, etc., como também de um ponto de vista micro-social. Do ponto de vista macro, o perdão pode ser um meio pelo qual a comunidade política (aquilo que chamamos de o político) se recompõe numa sociedade dilacerada (pela guerra latente ou explícita); do ponto de vista micro, pode ser a maneira como o perdão regenera as relações com os outros e consigo mesmo. Nos dois casos, são levantadas questões sobre a culpa e a responsabilidade (individual ou coletiva) e a liberação pelo perdão das cadeias de causas e danos irreversíveis no curso temporal da vida. Como nos ensina Adrián Scribano, haverá sempre aqui toda uma lógica de afetos e de sentimentos corporalmente situados a serem esclarecidos e elaborados performaticamente.

Nesse sentido, este é o terceiro ponto, com o perdão pode haver “cura” (no sentido etimológico do termo). Neste sentido, remeto o leitor aos brilhantes ensaios e aforismas de Gabriel Restrepo publicados em nosso site, onde ele reflete na esteira de Aristóteles e de sua própria teoria dramática e tramática do social sobre as experiências de anamnese e de amnésia, de anosognosia e de anagnôrisis nos dramas e tragédias de nossa América Latina. Uma citação de um de seus textos, “Dez fragmentos e aforismos em tempos de perplexidade”, pode nos conduzir rapidamente ao bojo do problema:

Os indo-europeus cunharam uma palavra milagrosa: Gar. Ela é a origem etimológica da palavra inglesa care e seus associados em castelhano (e português), cuidado e cura. Para minha surpresa, essa palavra não significa, no entanto, cuidado. É: soluço! E, porque há soluço, haverá de advir o cuidado. Maravilhosa causalidade inversa e recíproca, como um mágico cordão umbilical da psique. Hoje, estamos em um mundo com uma infinidade de soluços sem cuidado. Daí que, de todos os sentidos, talvez o mais indispensável seja o da escuta profunda. Uma escuta que veja a voz da dor; que palpe a fenda das feridas; que entreveja a cor das queixas; que cheire no ar a textura da fala da natureza; e que, em vez de remédios, certamente indispensáveis, seja aberto à misericórdia, à compaixão, à caritas e ao ágape. Sem isso, estaremos tão perdidos quanto Stig Dagerman e terminaremos por repetir a terrível profecia enunciada por Heidegger em sua última entrevista: que apenas um Deus poderia nos salvar.

Creio que este ponto nos leva à questão da relação entre reconhecimento, amor e individuação. Em alguns ensaios recentes, eu argumento que existe hoje uma “ideologização das lutas pelo reconhecimento”, que está se deteriorando em uma visão utilitarista da demanda de ser reconhecido que leva a uma lógica de culpa, vitimização e expiação. Diante da tendência para o fechamento narcisista da demanda, o perdão faz o movimento inverso, pois é uma forma de doação, de abertura ao outro, em que o momento da doação é recuperado em sua própria dignidade, como momento ético-político primordial. Essa leitura do perdão através do dom nos leva, em igual medida, a uma investigação mais ampla do amor e dos amores, como a realizada pelo grupo Social-One (com Gennaro Iorio e Silvia Cataldi) e sua sociologia da ação agápica (ver Sociologia do amor, de Gennaro Iorio, pelo Ateliê de Humanidades Editorial, 2021). E este ponto nos leva também a discussões sobre a ética e a política de cuidado.

Finalmente, a abordagem não deve, a meu ver, perder de vista a dialética do perdão, do dar perdão e do ser perdoado. Só assim podemos compreender também os paradoxos intrínsecos do perdão e seu significado existencial-ético: qual é o significado e quais são as condições do perdão? Quando o ato de perdão pode degenerar em auto-vitimização e em negligência, em negação da culpa e na falta geral de responsabilização? 

Lembro-me do belo texto de Theodor Adorno sobre O que significa elaborar o passado (1960). Em nossa sociedade consumista e imediata, recusar o “perdão” e restituir a memória por ser entendido como uma exigência de densidade que resiste à leveza de esquecer tudo no presentismo hedonista. Aí vêm as fortes discussões sobre perdão e anistia em condições onde há grave culpa individual e responsabilidade coletiva por genocídios, assassinatos, etc. Perdão não é amnésia, nem indiferença negligente sobre o que ocorreu. Quando faz sentido perdoar para restaurar a vida política de um país? Quando e como perdoar para romper com uma polarização autodestruidora? Por sua vez, quando faz sentido imputar a culpa, punir e restituir, sem piedade?

Essa é uma questão central não só para os regimes totalitários como a Alemanha nazista, é claro, mas também em nosso contexto latino-americano pós-ditatorial. No Brasil, nós não lidamos bem com isso, sabemos. Entre a lei da Anistia e a Comissão da Verdade, há uma série de malformulados entre nós, que está no germe do que vivemos desde 2013.

Chegado ao fim deste ano, seria possível perdoar aqueles que governaram nosso país se alimentando do não-formulado, denegando as crueldades que somos capazes de fazer na nossa história e deixando-as existir em sua forma nua em um tempo que persiste em retornar os mesmos fantasmas?

Está aí uma coisa que confesso não ter qualquer disposição de fazer: perdoá-los? Em um país construído sobre a denegação e o esquecimento, fazer cumprir a lei e punir aqueles que se julgam acima do direito e aptos a perverter a lei segundo seus anseios deve ser o ato restaurador principal.

Mas e o caso daqueles que entraram nas marés montantes do delírio coletivo, movidos pelas ondas de ressentimentos e mentiras? Devemos perdoar aqueles que não sabiam o que faziam? Não seria por gestos de restauração que desmontaríamos nossas realidades em paralelo e incomunicáveis? A geringonça que foi feita nesta eleição não é marcada pelos rastros de perdão mútuo (no mínimo pragmático) daqueles que por tantas vezes se opuseram em um jogo político infantilizador? Não seria o caso de apenas avançar neste esforço abraçando lealmente aqueles que expressam por sintomas seus apelos mais humanos? Em meio a tantos soluços, o cuidado; e a escuta profunda, como nos ensina Gabriel Restrepo.

Mas com um alerta. Há muito de arrogância em assumir o papel do perdoador. Quem lhe pediu perdão? Por que se arvorar no direito de perdoar alguém por sua suposta culpa? Não seria esta a máscara perfeita para denegar os próprios erros, colocando-se na posição de vítima magnânima? Não seria seu próprio comportar-se diante das coisas um propulsor decisivo na espiral em que todos nós mergulhamos?

Estão aí algumas questões que não nos libertam, em nada, das muitas perplexidades e inquietudes do problema necessário do perdão.

É idealizador, realizador e diretor da instituição de livre estudo, pesquisa, escrita e formação Ateliê de Humanidades (ateliedehumanidades.com). 
 Sociólogo, professor, pesquisador, editor, tradutor, mediador cultural e empreendedor civil/público. É editor do Ateliê de Humanidades Editorial e do podcast República de Ideias. É editor da tribuna Fios do Tempo: análises do  presente. É curador do Ciclo de Humanidades: ideias e debates em filosofia e ciências sociais, co-organizado com o Consulado da França no Rio de Janeiro. Pesquisa na interface de teoria social, tecnociências & sociedade, sociologia histórica do político, teoria antropológica, ética, filosofia política e retórica.

Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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