Pontos de Leitura. Pierre Lévy, apresentação e bibliografia comentada

Nascido na Tunísia em 1956, Pierre Lévy é um sociólogo, filósofo e pesquisador em ciências da informação e comunicação (CIS) que investiga desde finais dos anos 1980 o impacto da Internet sobre a sociedade, o conhecimento, a inteligência e a cultura. Ele é professor associado da Universidade de Montreal, Canadá, e membro da Royal Society of Canada.

Como foi tratado na entrevista que realizamos, Lévy pode ser considerado como representante da tradição francesa de investigações da técnica e da tecnologia, que é uma das mais ricas do século XX, reunindo autores como Marcel Mauss, André Leroi-Gourhan, Michel Serres, Gilles Deleuze, Félix Guattari, Gilbert Simondon, Régis Debray, Bernard Stiegler etc. Mas, como ele nos disse antes de começar a entrevista, também devemos mencionar sua inserção em uma “tradição canadense” de estudos sobre cibercultura, marcada pelo expoente Marshall McLuhan. Ele menciona também a influência que teve da história da escrita realizada pelo antropólogo inglês Jack Goody.

A obra de Pierre Lévy abarca até agora um período de 33 anos. Nestes Pontos de Leitura, apresentamos sua bibliografia em sequência cronológica, com imagens de capa, resumos de apresentação e breves comentários. Temos o intuito de proporcionar um percurso panorâmico pelo itinerário e uma visão de conjunto da obra, dando informações que aproximem o leitor e estimulem os estudos e leituras. Faremos o mesmo com os outros entrevistados do Ciclo de Humanidades 2020: Serge Paugam, Jean-Louis Laville, Françoise Vergès, Jean-Yves Camus, François Dubet (e Bruno Latour, cuja entrevista não fez parte do Ciclo, mas que pode ser considerada como integrando o mesmo universo de objetivos institucionais e culturais).

Vamos lá?

1987
A máquina universo: criação, cognitição e cultura informática (fran. Paris : La Découverte, 1987 / port. Editora Artmed, 1998).

Em 1987 já havia computadores, mas não a internet tal como conhecemos (a world wide web). Este livro de Pierre Lévy faz parte dos primeiros esforços dos intelectuais de diagnosticar as tendências de “informatização da sociedade” (iniciados por livros como os de Jean-François Lyotard e Pierre Musso). A “máquina universo” é o “computador”, que responderia ao velho sonho da humanidade de tudo calcular, tornando fatível a sonhada mathesis universalis de Descartes e Leibniz. Neste livro, Lévy faz um levantamento dos novos modos de cognição e criação oriundos da informatização (pictóricos, musicais e científicos), buscando identificar as tendências existentes rumo a uma cultura informática que altera nossas formas de perceber a realidade e de criar. Muito antes de os algoritmos ganharem a popularidade que hoje têm, o autor reflete sobre como a simulação digital e o uso de algoritmos como meio de raciocinar cientificamente remodelam nossa forma de considerar os objetos e os sujeitos, tendendo-se a reduzir tudo a “sistemas de processamento de informação” que são calculáveis. Diante disso, Lévy assume uma posição crítica, afirmando que nem tudo é redutível ao cálculo, mas, por outro lado, ele interpreta o processo como fazendo parte de uma história de longuíssima duração, mostrando que as tendências atuais não dizem respeito apenas à informatização, pois correspondem a um processo multissecular de transposição da linguagem para a computação (binária).

1990
As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática (Paris : La Découverte, 1990 / ed. port. Editora 34)

As Tecnologias da Inteligência, segundo livro de Pierre Lévy, faz um inventário crítico da revolução informática e seus efeitos sobre o pensamento humano. Esta obra é ao mesmo tempo um desenvolvimento, uma defesa e uma crítica ao livro anterior, A máquina universo. Desenvolvimento, porque basicamente defende as principais teses, sobretudo a critica das teorias formais e tecnicistas do pensamento e do cosmos, só que agora o faz mais do que como sociólogo, pois se tornou também um desenvolvedor de tecnologias de informação. Mas é também crítica, por causa da abordagem mais abstrata do primeiro livro, que centrou em uma história do devir do cálculo na cultura ocidental, sem entrar mais profundamente nas mediações e contingências históricas. Neste livro então, ele foca nas transmissões, traduções e deformações que modelam o devir social, ou seja, detém-se nas interfaces. A pergunta é: qual é o papel das tecnologias da informação na constituição das culturas e na inteligência dos grupos? Na primeira parte, ele apresenta a “metáfora do hipertexto”, suas possibilidades interativas e diversos usos individuais e coletivos.; na segunda parte, percorre a história do espírito humano em 3 etapas, a oralidade, a escrita e a informática, a fim de mostrar a novidade histórica das novas tecnologias da inteligência; e na terceira e última parte, defende a tese de que estamos nos encaminhando para uma “ecologia cognitiva”, com o desenvolvimento de “coletividades pensantes” e, quiçá, rumo a uma tecnodemocracia.

1992
A ideografia dinâmica: rumo a uma imaginação artificial? (fr. Paris : La Découverte / port. Loyola, 1998)

Este livro centra sua atenção sobre os efeitos das novas tecnologias da inteligência sobre o processo de imaginação. No medium anterior, o da escrita, os signos eram estáticos, postos em suportes físicos. No medium informático, ampliam-se as possibilidades de expressão visual do pensamento. Por esta razão, seria importante que os programas de pesquisa não focassem apenas nas “inteligências artificiais”, pois está em curso também o desenvolvimento de “imaginações artificiais”. A ideia de “ideografia dinâmica” não se reduz a um código de programação, ela é uma interface que permite uma linguagem por meio de imagens animadas, é uma forma de escrita possibilitada pelos novos suportes tecnológicos do mundo digital. Na primeira parte, é exposta a ideia da ideografia dinâmica como uma forma de linguagem. na segunda, é defendido que ela é também uma tecnologia intelectual, que é alternativa à lógica e à linguagem fonética; e na terceira e última parte, ele descreve as características da ideografia dinâmica: os ideogramas, os campos de ação, o gerador ideogramático e o lugar do diretor. Desta forma, Pierre Lévy traz neste livro não apenas um repertório das transformações, mas também a proposição do desenvolvimento possível de uma cultura informático-midiática que seja crítica e imaginativa, capaz de superar a lógica da sociedade do espetáculo.

1992
De la programmation considérée comme un des beaux-arts (fr. Paris : La Découvert)

Este livro, publicado no mesmo ano que A ideografia dinâmica e Árvores de conhecimento, é menos conhecido do público e, infelizmente, não foi traduzido para outra língua. A proposta é muito interessante e, parece-me, de marcada atualidade: que tal considerarmos a programação como uma bela arte e os programadores como artistas? Baseando-se em quatro estudos de caso, ele busca mostrar que o trabalho de programação não é apenas técnico, pois envolve uma dimensão social e artística que agrada bastante aos olhos dos humanistas; mais ainda, não deixa de ter proximidade com as origens do humanismo nos tempos do Renascimento. Cito trecho de apresentação de capa: “Durante a Renascença, era normal que os artistas fossem agrimensores ou engenheiros humanistas. Hoje, quando o trabalho dos cientistas da computação é projetar a arquitetura de signos, compor o ambiente de comunicação e pensamento dos grupos humanos, estranhamente nos recusamos a considerar sua atividade como uma habilidade artística e cultural. Baseado em quatro casos analisados em detalhes, mas sem qualquer vocabulário técnico, este livro traz à atenção do público em geral os tesouros da criatividade e da delicadeza empregada pelos programadores. Os ‘humanistas’ e os literários descobrirão então a parte social, artística e apaixonada do trabalho do programador, que geralmente está focada em seu componente técnico. Se a programação não for apenas uma questão de racionalismo cartesiano, teremos que nos resignar a um novo olhar sobre computação! Mas este livro também é destinado aos cientistas da computação. A identidade profissional de um especialista em máquinas e linguagens formais é aqui contrastada com o retrato do programador como escritor, um urbanista de signos, um arquiteto de equipamentos de inteligência coletiva. Os contornos de uma oitava arte, a da construção de artefatos interativos para a comunicação e o pensamento, são então desenhados”.

1992
[avec Michel Authier] As árvores de conhecimentos (fr. Paris : La Découverte / ed. port. Escuta, 1995)

Neste livro co-escrito com Michel Authier é apresentada a possibilidade de transformar as tecnologias da inteligência em operadores de uma democratização cognitiva. Isso é feito apresentando um software criado por eles, o Árvores de conhecimento, que teria por objetivo desnaturalizar as hierarquias de saberes e constituir uma inteligência coletiva capaz de produzir uma tecnodemocracia. Lembremos de que estamos ainda em 1992, tempos em que programas de computador eram instalados em desktops com disquetes de baixissima capacidade de armazenamento. Curioso, portanto, perceber a tentativa na época de construção do que viam como um dispositivo inovador de aquisição e validação de conhecimentos, como um sistema de reconhecimento dos saberes e das competência, apto a ser usado na educação, nas profissões e na cidadania como um meio de aprendizagem e troca de conhecimentos. Aqui está sendo antecipada toda a potencialidade existente no desenvolvimento da internet e das tecnologias em rede, com as novas possibilidades de gestão e produção de conhecimento que se abrem. O programa ficou datado, mas a ideia se tornou ainda mais atual, sendo retomada na última fase da obra do autor.

1994
A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço (fr. Paris : La Découverte / ed. port. Loyola, 1998)

Neste livro é apresentada, de forma bem aprofundada, a noção que perpassa toda a obra de Pierre Lévy: a de “inteligência coletiva”. A partir do diagnóstico de que, com a era da informação, todos nós nos tornamos de novo, de certa forma, nômades, ele traz uma proposta de investigação sobre o papel das tecnologias na constituição do laço social e na produção coletiva de conhecimento e inteligência. Como fica claro na nossa entrevista, a inteligência coletiva é um fenômeno natural e não se restringe, portanto, às sociedades humanas. Assim, Lévy se propõe a fazer uma exposição da inteligência coletiva como um fato biológico e social em seus múltiplos aspectos: ética, economia, tecnologia, política, angeologia e estética. E, em seguida, apresenta como se compõem os espaços e tempos dos saberes por meio das formas de inteligência coletiva. Este é um livro bem ensaístico, ao estilo do pensamento francês pós-estruturalista, mas talvez a melhor porta de entrada na obra de Lévy. Cito a apresentação de capa do livro:

“A magia dos mundos virtuais está agora ao alcance do público em geral: o número de usuários de redes globais de comunicação computadorizadas está aumentando 10% ao mês. A Internet e a multimídia interativa anunciam uma mudança nos modos de comunicação e no acesso ao conhecimento. Um novo ambiente de comunicação, pensamento e trabalho está surgindo para as sociedades humanas: o ciberespaço. Como nossa cultura será afetada? Acabaremos com nada mais do que uma super-televisão onde renovaremos os laços sociais no sentido de uma maior fraternidade? Neste livro, Pierre Lévy nos convida a parar de pensar em termos do impacto da tecnologia na sociedade e a pensar em termos de um projeto. Os novos meios de comunicação permitem aos grupos humanos reunir suas imaginações e conhecimentos. Como uma nova forma social, o coletivo inteligente pode inventar uma ‘democracia em tempo real’. O autor situa o projeto de inteligência coletiva em uma perspectiva antropológica de longo prazo. Após ter sido fundada na relação com o cosmos, depois na pertença a territórios, e finalmente na integração no processo econômico, a identidade dos indivíduos e os laços sociais poderiam florescer em breve no intercâmbio de conhecimentos. ‘Este ensaio destaca com maestria a necessidade imperativa de ampliar o ‘conhecer-se a si mesmo’ para ‘conhecer-se para pensar juntos’, para definir uma ética de hospitalidade, uma estética de invenção, uma economia de qualidades humanas (…) Para ser lido em estado de emergência.”

1995
O que é o virtual? (Paris : La Découverte / ed. port. Editora 34, 1996)

Começo por citar o texto de capa do livro: “Nossos corpos, nossas inteligências, as mensagens e os bens que trocamos são afetados por um movimento de virtualização rápido e difundido. Esta evolução está até afetando nossas formas de estarmos juntos: comunidades virtuais, empresas virtuais, democracia virtual… Embora a interconexão dos computadores do mundo (ciberespaço) desempenhe um papel crucial na transformação em curso, trata-se de um processo mais profundo que vai muito além da informatização. Devemos temer uma desrealização geral? Estamos sob ameaça de um apocalipse cultural? Este livro defende outra hipótese: entre as evoluções em ação na virada do terceiro milênio, e apesar de seus inegáveis aspectos sombrios, está uma continuação da hominização. Não se insurge contra o presente, nem promove um entusiasmo ingênuo pela proeza tecnológica, este livro explica o que é a virtualização e como ela contribui para a invenção humana. O desafio: compreender a mutação contemporânea a fim de ter a chance de se tornar um ator nela”.

Isso é feito, primeiramente, apresentando o conceito de virtual, para, em seguida, analisar as distintas vias de virtualização: do corpo, do texto, da economia, da arte, da linguagem, da técnica e do contrato. Valendo-se notar, a respeito disso, que as últimas três (linguagem, técnica e contrato) foram decisivas para o processo de hominização. Em seguida, após apresentar os distintos operadores da virtualização (o que ele chama de trivium antropológico: os signos, as coisas e os seres, presentes na gramática, na dialética e na retórica), ele parte para as virtualizações mais caras à era informática e do ciberespaço (mas que possuem uma história de longa duração): as distintas formas de virtualização da inteligência individual e coletiva, em suas relações com a constituição dos objetos e dos sujeitos.

1997
Cibercultura (Paris : Éditions Odile Jacob / ed. port. Editora 34)

Este livro é resultado de um relatório encomendado pelo Conselho da Europa, que propôs que fossem abordadas as implicações culturais do desenvolvimento das tecnologias digitais de informação e de comunicação. Creio que, junto com o Inteligência coletiva (mas sendo mais fácil do que aquele), este é um bom livro a ser lido como porta de entrada na obra de Lévy. Ele está estruturado em três partes. Primeiro, apresenta algumas definições: o que é tecnologia, o que é virtual, digital, interatividade, ciberespaço etc. Segundo, expõe suas proposições: tanto a ideia de um universal sem totalidade, que seria a essência da cibercultura, quanto também suas visões sobre as transformações do som, da arte, do saber, da educação, das tecnologias de educação, da cidadania e da democracia na era da cibercultura. E, em terceiro e último lugar, apresenta os problemas da cibercultura e, de certo modo, a defende dos seus críticos, tratando de várias coisas: os conflitos de interesse entre diversos pontos de vista sobre a cibercultra; o problema da “substituição” ou “complexicação” promovida pela informatização; a questão da dominação e do uso regaliano das tecnologias; o problema da regressão do pensamento crítico para um conservadorismo tecnológico que não percebe as potencialidades da cibercultura; a questão das alegadas exclusões e homogeneizações promovidas pela informatização etc.

Cito o texto de capa: “O que é cibercultura? Que movimento social e cultural está por trás deste fenômeno técnico? Podemos falar de uma nova relação com o conhecimento? Que mudanças a cibercultura provoca na educação e no treinamento? Quais são as novas formas artísticas relacionadas a computadores e redes? Como o desenvolvimento do ciberespaço afeta o urbano e a organização do território? Quais são, em uma palavra, as implicações culturais das novas tecnologias? Da digitalização à navegação, incluindo memória, programação, software, realidade virtual, multimídia, interatividade, e-mail, etc., este livro claro, abrangente e acessível para não-especialistas tem como objetivo apresentar as novas tecnologias, seu uso e seus desafios”.

2000
World Philosophie : le marché, le cyberespace, la conscience (Paris : Éditions Odile Jacob)

Este livro é uma espécie de manifesto amoroso por uma expansão da consciência humanista em meio ao cosmopolitismo variegado proporcionado pelo ciberespaço. Não deveria ser surpreendente, mas provavelmente o será a quem lê: Lévy começa (e encerra) o livro com um discurso amoroso, sobre a descoberta pessoal do amor e sua relação com a filosofia. “Oxalá o som do meu bandolim, acompanhado por todos os instrumentos e por todas as vozes que cantam a mesma canção de amor por todo o planeta, oxalá esta pequena música possa trespassar o uivo grave das sirenes do medo, do ódio e do desespero”. Nas epígrafes, estão Heráclito, Espinosa e Teillard de Chardin… A partir da experiência primária de expansão da consciência, pode-se discorrer pelas formas de consciência desprendidas na era digital. Com o advento de uma cidade planetária propiciada pelo ciberespaço evolutivo, podemos agora construir espaços de convivência reflexivos e democráticos, para além dos pertencimentos ao espaço físico e geográfico e fazendo surgir uma unificação planetária da espécie. Eis um novo ímpeto para o avanço de um espírito humano humanista, proporcionada por uma “ecologia mental” e pelo desdobramento de uma inteligência coletiva dinâmica e democrática.

Cito texto de capa: “A grande aventura do mundo contemporâneo não é mais a de qualquer país, nação, religião ou ismo; é a da humanidade… Depois de tanto esforço, aqui finalmente vem a unificação da humanidade: não é um império, uma religião conquistadora, uma ideologia, são imagens, canções, comércio, dinheiro, ciência, tecnologia, viagens, mistura, a Internet, um processo coletivo e multifacetado que está crescendo em todos os lugares. Tentei, neste livro, discernir a unidade da corrente que nos carregava e dar um nome a este processo: a expansão da consciência”.

E cito um texto de imprensa bem expressivo: “O ser humano se tornou um ser planetário. Processos multifacetados estão ocorrendo em todas as áreas. A internet conecta as pessoas umas com as outras, as fronteiras perdem seu significado. O destino do homem é participar ativamente da vida do planeta através do desenvolvimento da inteligência coletiva. A economia virtual é uma realidade. O mercado planetário funciona através da venda de ideias e empresas à maneira das universidades: o homo economicus torna-se um homo academicus. Não podemos mais pensar sobre a economia independentemente de outros campos. A expansão da consciência política, econômica e cultural é a condição para a evolução da humanidade. O ciberespaço, o lugar da criação de todas as formas, da mistura de culturas, ideias e todos os bens de consumo, cria um espaço para a meditação planetária. Tudo é visível, tudo pode ser comprado e vendido e isto quase em tempo real. Neste universo, cabe a cada pessoa desenvolver sua responsabilidade. A expansão da consciência política, econômica e cultural é a condição para a evolução da humanidade” (Idées clés, par Business Digest)

2000
O fogo liberador (Paris : Arléa / ed.port. Iluminuras, 2001)

O Fogo Liberador é um livro fora do comum na obra de Lévy. Não trata de cibercultura ou ciberdemocracia, mas sim filosófico, uma reflexão ética e existencial do filósofo e ser humano Pierre. É enfim um livro de sabedoria repleto de espirtualidade. Depois do que eu disse no livro anterior, World Philosophie, fica claro o quanto sue pensamento é atravessado pela experiência amorosa. Na primeira parte, o “livro da centelha”, pensa em meio a aforismas e máximas sobre o pensamento, o coração e a presença; na segunda parte, o “livro do incêndio”, trata da identidade, dos venenos e do mal; e na terceira parte, o “livro das brasas”, reflete sobre o abismo, a solidão e a luz. Cito seus belos dizeres no prefácio à edição brasileira:

“Este livro aparece no Brasil pouco mais de um ano depois de sua publicação em Paris. As explicações que não dei na França, sinto-me obrigado a fornecê-las aqui, pois tenho com os meus leitores brasileiros uma relação muito mais afetiva do que com os meus leitores franceses. Costumam considerar-me, em geral, um especialista da cibercultura, mas, na verdade, sou um filósofo otimista. Passei a me interessar pelo modo como o mundo funcionava, mais especificamente pelas questões humanas, por-que achava que se entendêssemos as coisas do mundo, teríamos mais chances de melhorá-las. Continuo pensando assim, mas sei agora que não basta compreender o mundo, a humanidade ou a sociedade para que as coisas melhorem. Aprendi que também é preciso conhecer a si mesmo. E esse autoconhecimento não tem nada de teórico, conceitual, discursivo. Não é externo, não o adquirimos de ninguém. Temos todos que descobri-lo em nós mesmos. Somos os únicos especialistas de nossas próprias vidas.

O fogo liberador, portanto, não indica uma mudança de orientação em minha carreira de filósofo. Este livro só vem começar a preencher uma lacuna em minha empreitada. É uma espécie de diário de bordo de um início de viagem, no momento da descoberta do viajante. A viagem, no meu caso, certamente não terminou. Mas sei que já começou. É uma viagem empreendida hoje por um número cada vez maior de pessoas que souberam ouvir o apelo da sabedoria. Quis então me comunicar aqui com todos aqueles que seguem a mesma trilha que eu, dividir com eles algumas dificuldades do percurso, mas também algumas felicidades. Não gostaria, neste texto, de passar uma mensagem de mestre, coisa que não sou, mas sim uma mensagem de irmão. Eis então o diário de alguém que se lançou no caminho e que poderia ser útil àqueles que, como ele, também o estão percorrendo

No capítulo sobre o amor, vocês encontrarão o seguinte aforismo: “Só saberás quem és se tiveres sido amado”. Essa frase é a expressão de minha experiência. Só pude me compreender quando encontrei o amor de Darcia. Para outras pessoas, esse amor pode ser de um mestre, um parente, um amigo, ou simplesmente o amor que dedicamos a nós mesmos. Para mim, foi de uma mulher. Desde o momento em que senti o amor que ela me dava e que despertou em mim, comecei a entender quem eu era e compreendi igualmente que, antes de encontrá-la, vivera numa espécie de semi-sonambulismo. Sem Darcia, este livro jamais teria sido escrito […]

Uma última coisa, antes de deixá-los com o livro. Falamos bastante do instante presente, do amor e da ausência de ego, como acontece com tantos trabalhos voltados para a espiritualidade ou para a sabedoria. Mas tratamos igualmente do mal, do sofrimento e dos malvados, o que talvez seja menos comum. Insisto e subscrevo. É muito importante falar do mal. É preciso observar com prudência aqueles que esperam a menor chance para envenenar os outros com seus excrementos mentais. Tais indivíduos só conseguem disseminar seus dejetos no mundo porque deixamos abertas as chagas de nossas fraquezas, de nossa estupidez, de nosso medo. Não podemos dar a menor migalha de poder aos loucos, aos cobiçosos, aos sedutores, aos narcisistas, aos invejosos, aos imbecis que querem sempre ter razão, nem tampouco àqueles que despertam o medo ao seu redor, transidos que são de covardia. Vivamos livres. Vivamos felizes.

2002
Ciberdemocracia: um ensaio de filosofia política (fr. Paris : Éditions Odile Jacob / ed. port. Editora Piaget)

Curiosamente, este livro não foi publicado ainda em português no Brasil, mesmo que seja a sequência natural do livro sobre cibercultura. Não tendo tido acesso ao livro, contento-me em citar o texto de capa: “Na Internet em particular, não só quase todos podem colocar online o que querem, não só estão sendo criados fóruns de discussão, mas também cidades reais, regiões virtuais reais estão nascendo, tecendo links que transcendem as barreiras políticas e geográficas tradicionais. Esta nova liberdade é um perigo ou uma oportunidade? Para Pierre Lévy, ela anuncia o advento da democracia generalizada e lança as bases para uma verdadeira sociedade civil global e talvez novas formas de Estado. Uma síntese visionária das transformações que a ascensão da Internet está provocando na vida democrática”.

2011
La sphère sémantique Tome 1 : Computation, cognition, économie de l’information

Este é o primeiro volume do ambicioso projeto de Pierre Lévy em favor do desenvolvimento de uma Meta-Linguagem de Economia da Informação (Information Economy MetaLanguage – IEML). Eis aqui o avanço do autor em propostas concretas de desenvolvimento de plataformas e ferramentas que tornem possível uma inteligência coletiva democrática. Em publicações futuras, o Ateliê de Humanidades trará alguns textos do autor que apresentam o projeto de forma didática e detalhada, que busca abrir espaço para uma semantização do ciberespaço que está articulada com o avanço de uma nova era das ciências humanas, com advento das “humanidades digitais”.

Esse volume está dedicado a uma exposição do quadro conceitual em que se coloca o projeto, situando-o dentro do processo histórico de transformação do qual o próprio Lévy faz parte. Na introdução geral à obra, são apresentados a visão do projeto – aumentar os processos cognitivos -, o caminho – reconstruindo a aventura intelectual transdisciplinar que percorreu ao longo da vida -; e o fruto – rumo a uma cognição hipercortical. Este robusto livro está dividido em duas partes.

Na primeira parte são apresentados os problemas filosóficos, científicos e práticos para o desenvolvimento da IEML, onde ele expõe sua “filosofia da informação”. Nela são analisados conceitos como o de informação, de cognição simbólica, de conversação criadora e de economia da informação, propondo também uma “mutação epistemológica das ciências do homem”. Como ele diz, “todos esses problemas estão relacionados a uma questão central: como aumentar os processos cognitivos humanos fazendo o melhor uso da memória, da comunicação onipresente e do poder computacional do meio digital?” (p. 53).

Na segunda parte, ele apresenta a estrutura da esfera semântica IEML, adentando assim no problema mais propriamente “técnico”, que é o de modelizar a cognição a partir de um conhecimento científico do espírito; aí, ele não apenas apresenta o quadro conceitual que enquadra o projeto, como a noção de inteligência coletiva e reflexiva, como também apresenta sistematicamente o que é a esfera semântica IEML, qual é a metalinguagem e sua máquina. Depois, ele parte para capítulos que apresentam conceitos que dão um horizonte antropológico-normativo ao projeto metalinguístico: os de hipercórtex e de memória hermenêutica. O livro encerra com uma afirmação de perspectiva humanista em favor do conhecimento revolucionado pela esfera semântica, que deve ser explícito e reflexivo. Cito-o suas palavras para tornar claro o projeto:

Graças a esta camada adicional de metadados que aborda a imposição de transformações de grupo sobre uma topologia de conceitos, o “cérebro global” pode dar acesso a uma reflexividade de inteligência coletiva. É por isso que o medium digital se metamorfoseará em um Hypercortex capaz de resolver os problemas de melhoria cognitiva apresentados na primeira parte. O Hypercortex coordenado pela esfera semântica IEML nos permitirá passar do atual estado de computação social distribuída, ainda muito opaco e fragmentado, para um dispositivo transparente e público para a observação científica dos fenômenos de cognição social. Esta segunda parte, intitulada ‘Modelizar a Cognição’, pode ser considerada como a teoria fundamental do programa de pesquisa que proponho aqui (p. 53).

O segundo volume não saiu propriamente em livro, mas está presente em textos que constam no blog de Pierre Lévy. É um trabalho que está em processo. O volume II se dedica a apresentar a sintaxe matemática do IEML, detalhando as operações que traçam os circuitos da esfera semântica. Nele, é apresentada também a gramática da IEML, que expõe os primitivos semânticos da metalinguagem bem como o seu léxico. Para finalizar, cito o próprio Pierre ao apresentar o objetivo deste volume:

O segundo volume funcionará como uma prova da teoria apresentada na segunda parte do primeiro volume. Isso mostrará que a metalinguagem não é apenas uma hipótese, mas que ela realmente existe. Todos os seus aspectos importantes já estão disponíveis, incluindo a gramática e o núcleo do dicionário. Também farei uma demonstração matemática completa da possibilidade de cálculo da esfera semântica. O segundo volume será destinado mais especificamente aos engenheiros de computação e futuros engenheiros semânticos que terão que aumentar a metalinguagem e construir as ferramentas para manipulá-la (p. 54).


Entrevista com Pierre Lévy – Inteligência coletiva digital: os primórdios de uma revolução antropológica?

No dia 03 de dezembro, realizamos a última entrevista internacional do Ciclo de Humanidades 2020, feita no contexto do nosso encontro “Bem vindos à humanidade digital?”. O entrevistado foi Pierre Lévy, que é um sociólogo, filósofo e pesquisador em ciências da informação e comunicação (CIS) que investiga desde finais dos anos 1980 o impacto da… Continuar Lendo →

Ciclo de Humanidades. Bem vindos à humanidade digital?

Chegamos ao último encontro do Ciclo de Humanidades 2020! Ele ocorrrá na próxima quinta-feira, 26 de novembro, com o tema “Bem-vindos à humanidades digital?”. Nos vemos lá! Apresentação Questão As sociedades humanas se encontram em meio a um devir digital. Quais são suas consequências sobre a cultura, a educação e o debate público? Deveremos dar… Continuar Lendo →

Ciclo de Humanidades 2020

O Ciclo de Humanidades: ideias e debates em filosofia e ciências sociais é um espaço de reflexão, exposição e conversa sobre ideias, autores e temas clássicos e contemporâneos. Ele é concebido e organizado pelo Ateliê de Humanidades, juntamente com a BiblioMaison/Consulado da França e com o Instituto Goethe/Consulado da Alemanha, tendo uma periodicidade (mínima) mensal, realizando-se habitualmente na última quinta-feira de cada mês ao longo de todo o ano.

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por Anders Noren

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