Fios do Tempo. Geringonça à brasileira – por Alessandra Maia

Mudanças profundas nas conjunturas exigem realinhamentos nas coalizões políticas. Neste artigo primoroso, Alessandra Maia reflete sobre o tema a partir de uma analogia entre a “geringonça” portuguesa, que permitiu a formação de uma frente entre partidos de amplo espectro político, e os recentes realinhamentos que podem permitir a formação de uma frente ampla no próximo pleito eleitoral.

Boa leitura e bom debate!

Felipe Maia
Fios do Tempo, 18 de dezembro de 2021



Geringonça à brasileira:
conexões Pindamonhangaba-Lisboa e coalizões saudáveis

Uma análise comparativa de longo prazo nos permite afirmar que a chapa Lula-Alkmin é um experimento de geringonça à brasileira? Para refletir sobre tal hipótese, algumas considerações são recomendáveis. Se tal fosse possível, seria um novo modo representativo democrático, para dar um passo para além do centrão, seu imobilismo em movimento e a ameaça que representa hoje seu apoio parlamentar à extrema direita antidemocrática no Brasil.

É conhecida a tese de Marcos Nobre de que é possível identificar no Brasil um descompasso histórico entre uma cultura política pemedebista (encarnada majoritariamente no que se conhece por “centrão”), que domina o sistema político, por um lado, e, por outro, um novo modelo de sociedade possível, que para tanto exige renovações em termos de cultura política.

Tais renovações são observáveis ao longo do tempo pós-Constituição de 1988 no Brasil, e dizem respeito a transformações de longo alcance, parcialmente assimiladas, seja pelo sistema político como pelo sistema econômico. Nobre pontua que a unidade do período Pós-Real em relação ao período anterior se observa em duas grandes fases, quais sejam, o governo FHC por um lado, e Lula e Dilma, por outro. O ponto de conexão entre ambos seria o objetivo comum de tentar dirigir o pemedebismo, e não conseguir reformar radicalmente o sistema político.

Ou seja, guardadas as diferenças de seus projetos políticos, FHC ao alcançar o controle da inflação e estabilizar a economia tornou evidente a desigualdade absurda do país, explicitando-a e trazendo o tema para o centro das disputas políticas. Nesse sentido, o projeto fundamental foi encampado pelo governo Lula no sentido de mitigar as desigualdades e com isso promover um novo modelo de sociedade. A grande virada que tal debate proporcionou na cena nacional foi que se passou a discutir o como e em que velocidade diminuir a desigualdade.

O social-desenvolvimentismo que se sustentou no país, a partir de então, lidou constantemente com os entraves e as barreiras do pemedebismo contra uma mudança no modelo de sociedade, ou o processual do imobilismo em movimento. Houve, assim, um processo identificável a partir dos parâmetros constitucionais de 1988, que leva em consideração a métrica do social, a questão distributiva, o desenvolvimento econômico que não signifique devastação ambiental ou um sistema político estruturalmente corrupto.

 O descompasso entre a sociedade da Constituição de 1988 e o pmedebismo da longa transição brasileira para a democracia se torna a característica principal do sistema político, que sobrevive inclusive como a última âncora pós-golpe de 2016, eleições de 2018 e renovadas denúncias sobre o atual governo. A ameaça consistente à democracia e aos princípios e valores norteados pela Carta hoje se concretiza na coalizão entre centro e extrema direita que é um obstáculo a ser suplantado.

Nesse sentido, uma forma de derrotar o centrão e seu apoio às tendências fascistas de modo efetivo – e democrático – com lastro nas urnas em 2022 pode consistir na aliança entre Lula e Alkmin. Não apenas porque marca os dois principais projetos políticos partidários com sucesso eleitoral em contexto democrático[1], até porque Alkmin precisou sair do PSDB e ir para o PSB para realizar a aliança, como também pelos princípios políticos que tais movimentações sugerem. A explicar.

Segundo nos ensina André Freire, ao tratar de Lisboa e a doxa dominante no tratamento das forças de esquerda e direita em Portugal, o termo Geringonça surge de uma implicância política. Tal tipo de cisma, no Brasil de 2021, poderia fazer surgir memes a seu respeito, talvez. Algo à semelhança das implicâncias entre “coxinhas e mortadelas”. O termo originalmente foi usado de forma pejorativa por Vasco Pulido Valente, historiador e cronista dos jornais Observador e Público, e pelo líder do CDS-PP no Parlamento Português. Era uma maneira de, no combate político acerca do XXI Governo Constitucional português, criticar a “aliança governativa das esquerdas” (Freire, 2017, p.26).

Tal observação visa lidar com a naturalização, em geral, do “desentendimento” crônico dos setores progressistas, tido como insuperável. Para lidar com tal dilema, Freire aposta nas soluções que partem das cidades, no caso, de Lisboa:

a solução do tipo de governo de esquerdas encontrada em Portugal é um governo minoritário dos socialistas, mas apoiado no Parlamento pelos partidos da chamada esquerda radical – Bloco de Esquerda (BE), Partido Comunista Português (PCP) e pelo Partido Ecologista ‘Os Verdes’ (PEV).
(FREIRE, 2017, p. 11).

Em Portugal, Freire argumenta que de 1987 em diante só houve uma coligação, e ao longo da história democrática os partidos à esquerda do PS nunca entraram no governo. Quando não governou sozinho, o PS governou com o CDS ou o PSD.[2] Mas o quê, exatamente, tais impressões de Lisboa fariam pensar a um morador de “Pinda”? Certamente, para um eleitor de Pindamonhangaba, a possibilidade de uma aliança com o PT, do seu antigo vereador e governador Geraldo Alckmin, pode parecer algo como “um governo minoritário dos social-democratas” onde a esquerda “radical” trabalhista brasileira governaria. Uma “geringonça à brasileira”. Mas não é só isso.

“Ninguém fundou Pindamonhangaba”. A linguagem ensina que seu nome, coloquialmente, em tupi-guarani significa “lugar onde o rio faz a curva”, e foi povoada sem fundação intencional, depois reconhecida como vila, e cidade. Recebeu do poeta Emilio Zaluar o apelido de “Princesa do Norte”. Uma vila cuja emancipação popular ocorreu e foi atestada pelo então governador do Rio de Janeiro à rainha da grã-Bretanha e infanta de Portugal, Catharina, que baixou Carta Régia dando a vila por aclamada[3].

A lista de políticos presidenciáveis da cidade é longa. E remonta às possibilidades da Geringoça à brasileira para o futuro, se, de fato, o objetivo comum nacional se transformar em suplantar o pmedebismo do centrão característico, que impede as mudanças no país e sua mais nova face de sobrevivência: o apoio ao bolsonarismo e lavajatismo facciosos que corroem as coalizões saudáveis possíveis no país, ao tudo contaminar com a postura amigo-inimigo. Contam as informações dos jornais que Alkmin e Ciro Gomes nasceram no mesmo hospital e pelas mãos do mesmo médico. Passado permeado por relações comuns em qualquer cidade do interior. A tia de um foi professora da mulher do outro. Não obstante, foram representantes de campos políticos opostos na corrida pelo Palácio do Planalto, em 2018. Um passado comum partilhado na Princesa do Norte, não mais que 160 mil habitantes, entre a Rodovia Presidente Dutra e o Rio Paraíba, em São Paulo, próximo à divisa com o Rio.

Foi do Balaio do Kotscho[4] a lembrança de que, em 1993, Lula e Jereissati discutiram a chapa PT-PSDB com apoio de Ciro Gomes. Quem sabe, num país de tantas cidades impostas artificialmente de cima para baixo, de metrópole para colônia, um duplo carpado invertido ao modo Daiane dos Santos na política pode ter lugar. A ideia de ir à contramão, de emancipar primeiro, de fazer aquilo que muitos dizem que não pode acontecer, e fazer com que aconteça e se fortaleça. A ideia principal quando se rompem assimetrias, é que há um ganho para a qualidade da democracia. Multiplicar opiniões e apoios para vencer a desigualdade e os antidemocráticos de modo sustentável, apesar das divergências, pode melhorar a governabilidade, tornar a cena política mais inclusiva e garantir maior diversidade de soluções. A conferir para onde o trem da Geringonça à brasileira nos conduzirá.

Notas

[1] Sobre o assunto ver LOMBARDO; FARIA; GOULART, 2018.

[2] António Costa observa que durante décadas em Portugal, a direita teve vantagem na disputa eleitoral, na capacidade de arregimentar maiorias e condicionar as políticas e medidas dos governos minoritários do PS. “A esquerda é plural e a identidade de cada uma das suas componentes suficientemente firmada para conhecermos as diferenças irredutíveis (…) O dever de garantir uma mudança de governo garantia a afirmação de uma alternativa e que a vontade de mudança de políticas não se frustraria. (…) A legitimidade da representação só os cidadãos a definem no voto, e ninguém pode ver sua legitimidade diminuída” (COSTA, 2017, p. 9). Sobre as relações entre PS e PSD, ver o trabalho de Ana Leite (LEITE, 2018, p. 7-18).

[3] Carta Régia de 10/7/1705, ver Coutinho, 1962, p. 71: “a dita freguezia de Pindamonhangaba chameis a vossa presença os principaes delas e da minha parte lhes estranheis, muito a culpa que cometteram em fazerem villa sem permissão minha por ser isto só de meu poder Soberano e lhes insinuareis que atendendo a ignorancia que alegarão e perdão que me pedirão estando de minha real clemencia lhe faço mercê de os relevar do castigo que merecião e que pello querer a Comodar Hei por bem que crieis de novo a dita villa”. Ver também: https://www.portalr3.com.br/2017/07/pindamonhangaba-312-anos-de-historia-e-crescimento-no-vale-do-paraiba/

[4] Ver https://noticias.uol.com.br/colunas/balaio-do-kotscho/2021/12/01/em-1993-lula-e-jereissati-discutiram-chapa-pt-psdb-com-apoio-de-ciro-gomes.htm?cmpid=copiaecola

Bibliografia

COUTINHO, Mario Maia. O Pai do Municipalismo: Estudo biográfico do Dr. João de Azevedo Carneiro Maia. São Paulo: O Livreiro, 1962.

COSTA, Antonio. Prefácio In: FREIRE, André. Para Lá da “Geringonça”: o governo de esquerdas em Portugal e na Europa. Lisboa, Contraponto, 2017, p. 9-10.

FREIRE, André. Para Lá da “Geringonça”: o governo de esquerdas em Portugal e na Europa. Lisboa, Contraponto, 2017.

LEITE, A. M. F. As Políticas públicas da cultura em Portugal (1995-2015): Análise das posições ideológicas do PS e do PSD, Dissertação em Ciência Política e Relações Internacionais. Departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH – UNL), 2018. Disponível em: http://hdl.handle.net/10362/47277. Acesso em 17 de dezembro de 2021.

LOMBARDO, Jorge; FARIA, Alessandra; GOULART, Mayra. (2018). Análise dos programas eleitorais dos candidatos a presidente em 2014: o posicionamento ideológico do PT e do PSDB. Revista de Sociologia e Política [online]. 2018, v. 26, n. 67 [Acessado 16 Dezembro 2021], pp. 1-20. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1678987318266701

NOBRE, Marcos. Imobilismo em movimento. São Paulo: Cia das Letras, 2013.


Professora de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Possui experiência em ensino e pesquisa em teoria política; sociologia política comparada no Brasil para estrangeiros, estudos da linguagem e tradução; manifestos políticos, análise e aplicação do Manifesto Database (https://manifesto-project.wzb.eu/); políticas interseccionais no Rio de Janeiro, alianças nacionais e internacionais ( saúde, gênero, racismo, violência, educação, partidos, eleições e conselhos na cidade)


Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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