Publicamos em sequência, no Fios do Tempo, dois textos que lançam luzes sobre a religião no mundo contemporâneo.
No primeiro, “A Religião dos Robots“, Donizete Rodrigues, professor colaborador na Columbia University (New York) – Seminar Studies in Religion, analisa uma religião criada por IA, o Crustafarianismo.
E no segundo, “Cafés com entidades: a gestão contemporânea da subjetividade“, Nelson Lellis trata da proliferação de publicações religiosas centradas num “café” com suas entidades.
Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!
Fios do Tempo 07 de maio de 2026
André Magnelli
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Cafés com as entidades:
a gestão contemporânea das subjetividades
Ricardo Antunes apresenta um diagnóstico da nova morfologia do trabalho em O Privilégio da Servidão.1 Ele observa como a precarização estrutural adoece o tecido social ao colonizar não apenas o tempo de fábrica, mas a totalidade da vida. O capitalismo contemporâneo, em sua visão, não apenas explora a força de trabalho, mas promove a subsunção real da subjetividade, transformando o tempo de não-trabalho em um espaço de reposição funcional para um sistema exaurido.
O conceito de empreendedorismo de si mesmo explica como a lógica disciplinar metamorfoseou-se: sob uma maquiagem de autonomia, o indivíduo se torna um proletário de si mesmo. Esse indivíduo é impelido a internalizar a gerência, tornando-se chefe e carrasco de sua própria produtividade. A sociedade avança acreditando estar em um caminho de realização pessoal enquanto opera em uma engrenagem de autoexploração voluntária até o colapso. É nesse cenário que surge uma soma considerável de manuais de instruções para essa subjetividade capturada. Trouxe um pouco do pensamento de Ricardo Antunes com o intuito de começar a refletir sobre obras que têm tido êxito no mercado editorial com o intuito de acordar o fiel para um caminho mais eficiente e produtivo, que são os intermináveis cafés com as entidades.
Café e religião sempre foram caminhos para “encontros” com a tradição, com a crença ou com a pausa necessária durante a labuta. No entanto, houve um tempo em que o café era o centro de debates que moldaram a intelectualidade brasileira. Pensadores como Caio Prado Jr., Celso Furtado e Florestan Fernandes usaram o café para explicar a formação econômica e social do país; José de Souza Martins, Boris Fausto e Francisco de Oliveira utilizaram o café para complexificar as relações de poder, o conflito agrário e a transição para o capitalismo. Hoje, essa densidade intelectual parece ter sido substituída por uma metáfora do despertar individualista. Nas prateleiras das livrarias, o café deixou de ser sociologia para virar manual de rotina (aliás, paradoxalmente, também é assustador visitar a área de sociologia em determinadas livrarias, hoje ocupadas mais com títulos de militância identitária do que com análise crítica e acadêmica). Os novos títulos, portanto, mostram que a tendência do mercado é oferecer uma pílula de acolhimento matinal para que o sujeito não precise pensar sobre as estruturas do mundo, reservando apenas a estratégias de como sobreviver a elas de forma resiliente.
Um parêntese. Curiosamente, o mercado brasileiro de café vinha em crescimento constante, mas desacelerou devido à alta nos preços. Segundo dados de 2026 da ABIC, vivemos dois momentos claros: a fase de empolgação (2023-2024), com o consumo de cafés especiais disparando 85%, e o choque de preços em 2025, onde o volume caiu 2,3%, embora o faturamento das indústrias tenha subido 25% (R$ 46 bi). O brasileiro não parou de tomar café (1.430 xícaras/ano), mas recorreu ao café solúvel para driblar a inflação. Teríamos tanto o que falar disso, como: a assimetria do capital (a crise é para quem?), a precarização da reprodução social (o “jeitinho” como sobrevivência) etc. Fecho o parêntese.
No fim das contas, a paixão brasileira pelo café une-se à sua inclinação à religiosidade. Algumas editoras têm investido pesado nesse nicho. Vejamos alguns títulos: Café com Deus Pai e Café com Deus Pais Teens: viagem no tempo (Junior Rostirola); Café da manhã com os Orixás (João Tokunbó Carneiro); Café com Exu: um encontro com a sabedoria que caminha ao seu lado (Rubens Oliveira); Café com Jesus: palavras proféticas para cada dia e Café com Jesus: com a bênção de Deus Pai para uma nova estação (Vinicius Iracet); Café do Chico não costuma faiá: pensamentos de Chico Xavier para inspirar seu dia (Juliano Pozati); Café com Nossa Senhora (Luiz Alexandre Solano Rossi) – e confesso que, diante do atual cenário, será impossível manter a lista atualizada. Ora, se antes o café discutia economia e política, agora surge como apelo psicológico e metáfora de um despertar… anestesiado.
Minha intuição é que Antunes argumentaria que o sistema atual opera através do apaziguamento ideológico do conflito. O conflito de classes, motor da transformação social, é substituído por uma espiritualidade analgésica. Esses livros operariam como instrumentos de alienação, reduzindo a complexidade da exploração a pílulas diárias de positividade, onde o sujeito não é mais convocado a questionar a precarização ou a agir coletivamente; ele é treinado para suportar o peso da rotina de forma otimizada. Quando a espiritualidade se torna um mecanismo de gestão de desempenho, o indivíduo perde a capacidade de pensar estruturalmente.
Será que alguns desses sujeitos, esgotados pela autoexploração e condicionados a consumir respostas rápidas em cinco minutos, tornar-se-iam uma base permeável para os novos populismos que emergem no espaço público? Talvez Antunes nos permita ver que a gestão neoliberal das subjetividades não age apenas pela coerção, mas pela sedução de um sentido de “cuidado” que, no fundo, apenas prepara o trabalhador para a próxima jornada. (Aqui também me lembro de Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, que nos ajuda a pensar na sociedade do desempenho, na algofobia [fobia da dor],na psicopolítica, que, como disse, não age pelo “poder disciplinar”, mas pela sedução.)
O mercado editorial (religioso ou não), no entanto, não vende apenas livros; vende tecnologias de apassivamento. Ele embala a ideologia dominante em uma linguagem terapêutica (o que Marx diria disso?), operando o que Antunes define como a captura da dimensão ontológica do ser social. Mais questões: Será que a procura desenfreada por esses produtos estaria nos revelando a tragédia da classe-que-vive-do-trabalho nessa era da precarização estrutural e da uberização? Desamparado, sem direitos trabalhistas garantidos e reduzido (e seduzido!) à condição de empreendedor de si mesmo, o sujeito estaria buscando nessa literatura uma espécie de muleta psicológica? Estaria ele consumindo a divindade em doses homeopáticas de cinco minutos para conseguir suportar o “privilégio da servidão”, a necessidade de se autoexplorar diariamente para garantir a própria sobrevivência nesse mundo devorador do trabalho? Tenho minhas hipóteses.
O que o nicho do café com as entidades faz, nessa ótica que aqui adotei, seria operar um duplo fetiche: a contínua transformação da fé em mercadoria e a ocultação das raízes sistêmicas do adoecimento social. O mercado, certamente, enriquece ao oferecer um conformismo travestido de sabedoria, treinando o trabalhador para adotar a resiliência acrítica e a ausência de dor como filosofia de vida, em detrimento do enfrentamento político e da luta por mudanças estruturais.
Aliás, e aqui termino com essa metáfora, o café só ganha sua verdadeira potência após o processo de torra, sob alta temperatura (140ºC). Na sociedade, esse calor não deveria ser a adaptação dócil do indivíduo, mas o resgate do conflito de classes e da organização coletiva. Na atual fase do capital, quem domina e pacifica a subjetividade do sujeito no café da manhã, já garantiu a extração de seu suor sem resistência no resto do dia. Portanto, o verdadeiro despertar não virá de uma leitura que esfria o sangue e apazigua a mente, mas da recusa em aceitar a servidão como destino natural.
Nota
1 Antunes, Ricardo (2018) O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo.

NELSON LELLIS é doutor em Sociologia Política e bolsista pós-doc pelo mesmo programa na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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