Fios do Tempo. O déficit de mediação: uma análise crítica do modelo de reificação de Axel Honneth à luz das patologias sociais contemporâneas – Edson Marques Filho

Publicamos hoje a leitura crítica de Edson Marques Fillho sobre a teoria da reificação de Axel Honneth.

O autor não apenas apresenta o modelo honnethiano como também desenvolve uma crítica substantiva em diálogo com as contribuições de Christophe Dejours, Rahel Jaeggi e Emmanuel Renault.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!

A.M.
Fios do Tempo, 03 de junho de 2026

Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


O déficit de mediação:
uma análise crítica do modelo de reificação de Axel Honneth à luz das patologias sociais contemporâneas

A reificação, conceito central na Teoria Crítica desde Georg Lukács, foi resgatada por Axel Honneth em Reification: A Recognition-Theoretical View, conferência proferida nas Tanner Lectures de 2005 e posteriormente publicada em português como Reificação: um estudo de teoria do reconhecimento. Honneth propõe um deslocamento decisivo: da análise centrada na forma-mercadoria – que estrutura o argumento de História e Consciência de Classe – para uma análise centrada no desvio de uma postura ontológica primordial de reconhecimento. O gesto é ambicioso: refundar a crítica da reificação sobre bases pós-metafísicas, mobilizando recursos heterogêneos de Heidegger, Dewey, Adorno, da psicologia do desenvolvimento (Michael Tomasello, Peter Hobson) e da filosofia ordinária de Stanley Cavell. Mas esse gesto levanta uma questão que o próprio texto não resolve: ao abandonar a forma-mercadoria como instância explicativa, Honneth ganha em plausibilidade ontológica e perde em poder causal.

O presente trabalho examina essa tensão em três movimentos. Primeiro, reconstrói o modelo honnethiano com a precisão que a literatura secundária frequentemente lhe subtrai, atendendo às fontes que o próprio Honneth mobiliza nas Tanner Lectures. Em seguida, coteja o modelo com as contribuições de Christophe Dejours, Rahel Jaeggi e Emmanuel Renault – três autores que, partindo de premissas distintas, expõem as insuficiências da virada ontológica. Por fim, propõe um eixo articulador – o déficit de mediação – que permite integrar as contribuições sem dissolver suas diferenças, e indica, em conclusão, a necessidade de retornar às formas materiais de condicionamento da vida sob o neoliberalismo, sem abandonar a análise das subjetividades por elas constituídas.

A crítica aqui desenvolvida dirige-se ao modelo de reificação formulado por Honneth nas Tanner Lectures de 2005, e publicado posteriormente no livro Reificação, sem pretender abarcar em bloco os deslocamentos posteriores de sua teoria social, especialmente sua crescente atenção às instituições, à liberdade social e ao trabalho.

A reificação como esquecimento: o modelo honnethiano

Honneth redefine a reificação não como característica inerente à objetivação, mas como patologia da cognição. A tese central é que toda relação objetiva e instrumental com o mundo deve ser precedida por uma postura de engajamento existencial e reconhecimento – uma atitude que ele descreve, na esteira de Heidegger, como Sorge (cuidado), e, na esteira de Dewey, como envolvimento qualitativo prévio à abstração reflexiva. A reificação é o esquecimento dessa postura primordial, que transforma o outro e o mundo em meros objetos numa espécie de amnésia atencional, e não como simples falha cognitiva pontual.

O dispositivo argumentativo de Honneth é mais sofisticado do que a fórmula sugere. Para sustentar a tese da prioridade do reconhecimento sobre a cognição, Honneth mobiliza dois registros de prova. No registro genético, recorre às pesquisas de Michael Tomasello e Peter Hobson em psicologia do desenvolvimento: a chamada nine month revolution mostra que a criança só acede à perspectiva descentrada do segundo na medida em que se identifica afetivamente com a figura de apego – a triangulação cognitiva pressupõe um vínculo emocional prévio, como demonstram, por contraste, os estudos sobre crianças autistas. No registro categorial, mobiliza Stanley Cavell para argumentar que o reconhecimento (acknowledgment) é um pré-requisito não-epistêmico da própria compreensão linguística: entender uma manifestação emocional não é cognoscê-la, é ser afetado por ela de modo que ela faça uma reivindicação sobre nós. Esses dois registros, articulados a Adorno (a passagem de Minima Moralia segundo a qual o ser humano só se torna humano imitando outros, sendo essa imitação o arquétipo do amor), fornecem a Honneth a base para afirmar que o reconhecimento goza de prioridade tanto ontogenética quanto categorial sobre o conhecimento objetivante.

O deslocamento em relação a Lukács é deliberado. Enquanto Lukács ancora a reificação na estrutura da forma-mercadoria – apoiando-se ora em argumento funcionalista (a expansão do capitalismo exige a assimilação de toda prática à troca), ora em argumento weberiano (a racionalização instrumental se generaliza) –, Honneth a ancora numa ontologia do reconhecimento intersubjetivo, tornando-a independente de qualquer diagnóstico sobre o capitalismo. Ele explicitamente rejeita a equação lukacsiana entre reificação e objetivação como totalizante e simplista: nem toda postura objetivante é reificante; o problema é o esquecimento do enraizamento da cognição num ato prévio de reconhecimento. Honneth distingue dois mecanismos pelos quais esse esquecimento se produz: a autonomização de finalidades cognitivas que perdem o contexto que lhes dá sentido (a metáfora da tenista que esquece que a adversária é sua amiga) e a interferência de esquemas de pensamento que produzem denegação ativa do reconhecimento – neste último caso seria mais correto falar de Abwehr (recusa, defesa) do que de esquecimento.

Esse movimento tem, contudo, um custo filosófico que a literatura frequentemente subestima. A força explicativa de Lukács – e de sua radicalização por Sohn-Rethel, para quem a abstração real da troca é a matriz da síntese cognitiva – reside em mostrar por que o esquecimento ocorre sistematicamente, e não apenas que ele é possível. Ao deslocar a explicação para o plano ontológico, Honneth descreve a patologia sem explicar sua reprodução estrutural. Mais precisamente: o autor reconhece, no encerramento das Tanner Lectures, que sua proposta exige uma sociologia das práticas institucionalizadas que produzem a autonomização da cognição ou os esquemas de denegação. Essa sociologia, contudo, permanece programática. A pergunta que fica sem resposta é decisiva: o que torna o esquecimento do reconhecimento não apenas possível, mas tendencial nas sociedades capitalistas contemporâneas?

Diálogos críticos: Dejours, Jaeggi e Renault

Christophe Dejours: avaliação individualizada e destruição da cooperação

Christophe Dejours, através da psicodinâmica do trabalho, investiga como as novas formas de gestão produzem uma reificação prática que não passa, em primeiro lugar, pela consciência dos sujeitos como esquecimento, mas que se impõe como reestruturação do ambiente institucional. Categoria nuclear da sua psicodinâmica é o conceito de zèle (zelo) – o investimento subjetivo, inteligente e não-prescrito que o trabalhador acrescenta às prescrições para que o trabalho real se efetive, suprindo o hiato irredutível entre o trabalho prescrito e o trabalho real. Esse zelo é, em sua estrutura, um ato de cuidado e de cooperação tácita, irredutível ao indicador. Daí a pergunta dirimente que a obra de Dejours impõe à crítica contemporânea: como é possível sustentar tal zelo em ambientes de precarização do trabalho e de imposição de metas à revelia das possibilidades materiais? A resposta dejouriana é desencantada: o zelo, na ausência de condições materiais e cooperativas, ou se erode – gerando degradação dos serviços, sofrimento ético e adoecimento – ou se mantém ao preço de um sobrecusto subjetivo que se paga na clínica, no corpo e na vida privada do trabalhador. Os dispositivos que Dejours nomeia – avaliação individualizada das performances, governança pelos números (conceito que ele adota de Alain Supiot) e destruição do trabalho vivo – são exatamente as figuras institucionais que tornam o zelo, condição de possibilidade do trabalho bem-feito, simultaneamente exigido e impossibilitado.

O mecanismo central, em Dejours, não é perceptivo, mas organizacional. A avaliação individualizada parte de um postulado que, do ponto de vista do trabalho real, é falso: o de que o trabalho de cada um é mensurável e comparável individualmente, quando o trabalho é, segundo Dejours, fundamentalmente cooperativo, intersubjetivo e atravessado por arranjos tácitos não codificáveis. Ao instalar esse postulado como infraestrutura administrativa, a gestão por metas destrói o que Dejours chama de atividade deôntica – o espaço de deliberação coletiva em que regras de ofício são negociadas e o julgamento situado é exercido. As consequências são bem documentadas em sua obra: introdução da concorrência entre colegas, dissolução da solidariedade, recurso a métodos desleais, isolamento, sofrimento ético (a obrigação de fazer o que se reprova moralmente) e, em escala epidemiológica, a degradação da qualidade dos serviços prestados – particularmente nas instituições públicas de saúde, ensino e justiça.

É nesse ponto que a crítica dejouriana encontra diretamente as técnicas de gestão associadas ao New Public Management (Hood, 1991). A importação, para o setor público, de dispositivos oriundos da racionalidade empresarial – metas, rankings, contratos de desempenho, auditorias permanentes, indicadores de produtividade e avaliação individualizada – não apenas mede o trabalho: ela redefine o que passa a contar institucionalmente como trabalho. O problema, para Dejours, não reside na existência abstrata de avaliação, mas na pretensão de substituir o julgamento situado dos pares e dos coletivos de ofício por métricas externas, formalmente comparáveis e indiferentes ao conteúdo concreto da atividade. Em instituições públicas, essa operação é particularmente grave, porque o cuidado, o ensino, a decisão judicial, a escuta administrativa e a deliberação profissional possuem uma dimensão qualitativa que só se deixa apreender no interior da prática. Quando a qualidade do trabalho é reconduzida ao indicador, o trabalhador passa a responder menos ao real da situação e mais à forma pela qual será mensurado. A consequência é uma dupla reificação: do usuário, reduzido a unidade de fluxo, caso, processo, meta ou produtividade; e do próprio trabalhador, reduzido a portador individual de desempenho mensurável, separado da cooperação que torna possível o trabalho bem-feito.

Para o argumento deste trabalho, Dejours é decisivo porque desloca a questão do plano subjetivo para o plano institucional sem abandonar a subjetividade: o que se perde não é apenas o reconhecimento intersubjetivo como postura, mas as condições materiais e relacionais que tornam possível qualquer forma de julgamento situado. A banalização da injustiça social, em Dejours, não é esquecimento no sentido honnethiano – é o resultado de estruturas que eliminam o espaço em que o reconhecimento poderia sequer ocorrer. A avaliação individualizada não é, portanto, um sintoma de reificação; é o seu dispositivo produtor.

Rahel Jaeggi: alienação e formas de vida

Rahel Jaeggi complementa e desloca a crítica honnethiana ao resgatar o conceito de alienação como relação de ausência de relação – com o mundo, com os outros, consigo mesmo. Sua contribuição central é mostrar que as patologias sociais não se reduzem a déficits de reconhecimento, mas descrevem distorções estruturais nas formas de vida que impedem a Aneignung – a apropriação do mundo pelos sujeitos como agentes capazes de se reconhecer em seus próprios atos e relações institucionais. A alienação, em Jaeggi, não é simples falha na percepção do outro; é incapacidade de se reconhecer nas próprias atividades e instituições. Cabe registrar, aliás, que o próprio Honneth, em nota de rodapé das Tanner Lectures, remete ao trabalho de Jaeggi sobre alienação, sinalizando consciência das limitações de seu próprio recorte conceitual.

A crítica de Jaeggi a Honneth é mais precisa do que frequentemente se apresenta: ela não contradiz a ontologia do reconhecimento, mas aponta que o reconhecimento pressupõe formas de vida suficientemente íntegras para sustentá-lo. Quando as formas de vida estão estruturalmente deterioradas – pela gestão por indicadores, pela precarização, pela fragmentação institucional, pela compressão temporal, pelo achatamento simbólico característico do neoliberalismo –, o reconhecimento intersubjetivo se torna impossível não porque as pessoas esquecem de reconhecer, mas porque as condições intersubjetivas e materiais de sua possibilidade foram erodidas. Jaeggi opera, portanto, a tradução do diagnóstico ontológico de Honneth em diagnóstico de formas de vida – abrindo caminho para articular crítica do reconhecimento e crítica das estruturas materiais.

Emmanuel Renault: sofrimento social e os limites do vocabulário do reconhecimento

Emmanuel Renault oferece uma das críticas mais consequentes ao modelo honnethiano, e o faz a partir de um lugar teórico bastante específico: o da renascença francesa da Teoria Crítica que se reaproxima, com vigor inédito desde a década de 1960, do espírito dos Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844. A filosofia social de Renault assume essa filiação sem subterfúgios: o sofrimento social, a alienação, a desfiguração da experiência sob condições estruturais de dominação e a exigência ética de uma crítica que tome o ponto de vista das vítimas constituem o eixo do jovem Marx que Renault reativa, em diálogo com Hegel, contra a tendência habermasiana de neutralizar a tradição materialista. Esse retorno francófono ao jovem Marx – que congrega, em diferentes registros, autores como Renault, Franck Fischbach e o próprio dispositivo editorial da revista Actuel Marx – não é arqueologia; é uma operação estratégica para reabrir, no interior da Teoria Crítica de língua alemã pós-comunicativa, a questão das condições materiais e antropológicas do reconhecimento.

A crítica de Renault articula-se em dois níveis. Primeiro, o sofrimento social mais profundo manifesta-se precisamente em quem não tem acesso ao vocabulário normativo do reconhecimento. O dominado que não encontra palavras para nomear sua situação não sofre, no sentido honnethiano forte, por desrespeito ou denegação articulável; sofre porque a estrutura institucional eliminou as condições de visibilidade e de audibilidade de seu sofrimento. Renault desenvolve isso através de uma fenomenologia da invisibilidade social – não apenas metafórica, mas literalmente uma relegação ao lado errado da fronteira do visível. Segundo, e correlato: existe uma assimetria entre experiência e expressão da injustiça que abre espaço para a crítica social como porta-voz do sofrimento – função que o próprio Renault assume e que reconfigura a relação entre teoria e prática herdada da Teoria Crítica.

Essa contribuição tem consequência direta para o diagnóstico das novas formas de gestão hospitalar, escolar e judicial. O trabalhador cujo julgamento situado é suprimido pela planilha não é, no sentido forte do termo, desrespeitado de modo que ele possa nomear; ele é tornado estruturalmente mudo. Os critérios pelos quais seu trabalho é avaliado eliminam a possibilidade de que seu saber específico encontre expressão normativa pública. Esse tipo de sofrimento – que não chega à articulação política – exige, segundo Renault, um deslocamento do paradigma do reconhecimento em direção a uma clínica da injustiça que retome a tradição de uma crítica das estruturas materiais sem abandonar a sensibilidade fenomenológica ao sofrimento singular.

O déficit de mediação: uma proposta articuladora

A leitura conjunta desses autores permite formular o que se propõe chamar de déficit de mediação do modelo honnethiano. Não se trata apenas de uma insuficiência ontológica, nem da ausência de uma sociologia complementar que poderia ser acoplada ex post a uma ontologia já estabelecida. O problema é mais radical: a postura de reconhecimento que Honneth pressupõe – apoiada nos achados de Tomasello e Hobson sobre a triangulação afetiva e na análise cavelliana do acknowledgment – exige sujeitos já constituídos em formas de vida íntegras, em ambientes institucionais que preservem a infraestrutura cooperativa do julgamento situado. O que o capitalismo financeirizado destrói, nesse sentido, não é o reconhecimento como postura intersubjetiva isolada – é o tecido material, relacional e institucional que torna esse reconhecimento possível como prática durável.

Esse eixo articulador aproxima Lukács e Sohn-Rethel de Dejours num pequeno ângulo de luz que cada autor isoladamente deixa na sombra. A abstração real que a troca impõe ao pensamento – analisada por Sohn-Rethel como identidade formal entre síntese social e síntese cognitiva – tem seu correlato institucional contemporâneo na governança pelos números, que impõe ao trabalho vivo uma abstração análoga: a abstração do indicador. O que se perde, em ambos os casos, não é apenas a qualidade do produto ou o vínculo intersubjetivo, mas a possibilidade do julgamento que os qualificaria. A reificação, nesse sentido mais preciso, é a destruição das condições de possibilidade do irredutível – daquilo que, no trabalho humano, resiste à transformação em planilha.

Conclusão: para uma crítica emancipatória em tempos de neoliberalismo consolidado

A análise crítica revela que a proposta de Honneth é um marco necessário, mas filosoficamente insuficiente quando isolada. Ao fundar a reificação numa ontologia do reconhecimento ancorada em Heidegger, Dewey, Tomasello e Cavell, Honneth ganha independência em relação às teorias do valor – mas perde a capacidade de explicar por que o esquecimento tende a ser sistematicamente produzido. Os autores em diálogo mostram que a reificação contemporânea não é fundamentalmente um problema de postura (Honneth), nem apenas de sofrimento ou invisibilidade (Renault), nem somente de destruição da cooperação (Dejours) ou de deterioração das formas de vida (Jaeggi). É, antes, a articulação dessas dimensões num déficit de mediação que tem sua matriz nas formas materiais de organização da vida sob o capitalismo financeirizado.

Disso decorre uma exigência metodológica para a Teoria Crítica hoje. Após décadas de virada normativa, comunicativa e ontológica – em que a relação com a economia política foi sucessivamente atenuada –, o cenário neoliberal consolidado torna evidente que nenhuma análise emancipatória do fenômeno social pode prescindir do retorno às formas materiais de condicionamento da vida. Não se trata de um retorno regressivo a uma economia política simples nem de reativar uma filosofia da história totalizante. Trata-se de reconhecer que o que se chamou de “colonização do mundo da vida” é, em sua matéria empírica, a operação concreta de dispositivos administrativos, financeiros, contratuais e tecnológicos que transformam práticas, instituições e subjetividades. Sem o exame dessas formas materiais – a planilha, o indicador, a métrica de produtividade, a captura plataformizada da atenção, a precarização juridicamente codificada, a financeirização do cuidado e da educação –, a crítica do reconhecimento descreve sintomas sem alcançar suas causas eficientes.

Esse retorno ao material, contudo, é estéril se desacompanhado da análise das subjetividades constituídas pelo neoliberalismo. As formas materiais não operam sobre sujeitos prévios e estáveis; produzem, ao mesmo tempo, modos de subjetivação adequados à sua reprodução – empresário de si, sujeito do desempenho, indivíduo neuronal-otimizante, consumidor-investidor. Esses modos de subjetivação não são epifenômenos: tornam-se a textura íntima da experiência, modificando o que conta como sofrimento, como aspiração, como sucesso, como liberdade. Uma teoria crítica emancipatória precisa, portanto, manter em tensão produtiva os dois polos – analisar como as formas materiais condicionam concretamente a vida e como, simultaneamente, constituem subjetividades que internalizam o condicionamento como projeto pessoal.

O papel da Teoria Crítica hoje é, nesse sentido, triplo: denunciar o esquecimento honnethiano sem perder de vista as estruturas que o tornam sistemático; reconstituir – normativamente e empiricamente – as formas de mediação que a racionalidade financeiro-gerencial destrói; e elaborar uma fenomenologia das subjetividades neoliberais que evite tanto a vitimização quanto a heroicização. Onde essa destruição é mais visível – nas instituições de cuidado, de ensino, de justiça – é também onde o irredutível do julgamento humano resiste, de forma mais clara, à sua redução a indicadores. Aí também, e talvez antes de tudo, repousa a possibilidade de uma reativação prática da Teoria Crítica: ali onde o sujeito, premido entre a forma-mercadoria reatualizada e a forma-sujeito que dela se nutre, ainda assim recusa a planilha em nome de algo que ela não consegue capturar.

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