Fios do Tempo. A fraude da multipolaridade e os limites de Trump: 18 teses sobre as lições do Irã para a Ibero-América – Pablo González Velasco

É muito dificil hoje tratar de política internacional sem que seja na forma de propaganda e agitação política. Na contramão disso, Pablo González Velasco nos brinda, mais uma vez, com uma lúcida análise do cenário geopolítico contemporâneo, conectando a guerra no Oriente Médio com o cenário latino-americano.

Vale a lembrança: sem boa interpretação do que acontece, não há tática ou estratégia política que funcione. E o que resta são becos sem saída voluntários.

Desejo, como sempre, uma excelente leitura!

A.M.
Fios do Tempo, 10 de abril de 2026


Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial



A fraude da multipolaridade e os limites da ação de Trump:
lições do Irã para a Ibero-América

1. Donald Trump não conseguiu uma mudança de regime no Irã, nem aquela “tomada do poder” que vimos no caso venezuelano; no máximo, assistimos a uma mudança na liderança, mas dentro do mesmo sistema. Hoje, o poder real está nas mãos da Guarda Revolucionária: passamos do domínio religioso para o domínio paramilitar. Resta saber se Trump conseguirá que essa nova elite mude sua política contra Israel, mas — diante do caráter espalhafatoso da operação — nos parece que qualquer conquista parecerá insuficiente.

2. Do ponto de vista de Israel, a destruição de ativos mísseis e humanos essenciais já é suficiente para ganhar tempo. No entanto, os iranianos souberam diversificar, descentralizar e acumular mísseis suficientes para se afirmar como uma potência regional chave. Nesse contexto, pensar que o Irã pode obter armas nucleares e colocá-las em ogivas não é, de forma alguma, absurdo. O regime demonstrou mais força do que o esperado, enquanto a oposição revelou-se mais fraca do que o previsto. O plano dos Estados Unidos de armar a oposição parece ter fracassado.

    3. Sem uma mudança política real, os bombardeios — mesmo que atinjam a elite e alvos militares — acabam afetando a qualidade de vida em geral. A consequência, a menos que haja uma surpresa de última hora no seio da Guarda Revolucionária, aponta para um retrocesso. Diante da ameaça de Trump, convém lembrar que a civilização persa é indestrutível; mesmo que não restasse pedra sobre pedra, em um suposto ataque apocalíptico, seus legados e conhecimentos permanecerão.

    4. Diz-se que “a guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam matam-se uns aos outros, por decisão de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam”. No entanto, este conflito quebrou a regra não escrita de não matar a gerontocracia inimiga. Graças à IA e à tecnologia de satélite, a seleção de alvos é hoje cirúrgica e eficiente. Muito mais do que antes, embora sempre haja vítimas colaterais.

    5. As críticas à violação do Direito Internacional, quando a violência autorizada parte exclusivamente das potências do Conselho de Segurança, fazem sentido, mas são insuficientes. O risco reside no fato de que qualquer regime ditatorial pode se encaixar no direito internacional para, em nome da paz, tornar inviável qualquer esperança de ruptura da oposição. Muitos geopolíticos de esquerda não refletem sobre que esperança e solidariedade são realmente oferecidas à oposição iraniana. Se as ditaduras conseguem estabilidade interna e projetam estabilidade externa, não há esperança para a oposição, pois não há espaço de disputa onde intervir.

    6. Além disso, devemos entender que o Irã não detém o monopólio do islamismo moderado; o xiismo iraniano não é o mais radical, mas também não é o mais moderado — versões que encontramos na Turquia ou em Marrocos. Os islamofóbicos espanhóis sempre gostaram do Irã por seu anti-imperialismo e por desejar um Feliz Natal, mas o defendiam sem graça devido a condenarem de modo geral o islamismo. Não nos esqueçamos de que os aiatolás esmagaram primeiro a esquerda laica e depois a islâmica. Na Espanha, formações como o Podemos pagarão o preço pelo oportunismo do passado e por terem “aproveitado as contradições” com a Venezuela ou o Irã (Pablo Iglesias tinha um programa na Hispan TV).

    7. Surpreende a capacidade de investimento científico do Irã, fruto de um império histórico que age hoje como uma espécie de “quijotismo xiita com recursos naturais”. Eles priorizam o desenvolvimento tecnológico e militar — ao estilo da antiga URSS — à custa do subconsumo de sua população. Ao contrário da incompetência bolivariana, o Irã manteve sua produção de petróleo apesar das sanções, favorecido por um petróleo mais leve e fácil de refinar. Mas enquanto Teerã projeta poder, seus cidadãos manuseiam maços de notas que perdem valor a cada hora. Essa mais-valia estatizada financiou o hoje bastante prejudicado “eixo da resistência” (Hezbollah, Hamas, a Síria de Al-Assad). É o sacrifício econômico de um povo em nome de um ideal.

    8. Essa vulnerabilidade alimenta uma forte oposição que desestabiliza o país. É natural que outras potências ajudem a promover uma mudança de regime, seja por alinhamento, interesses ou solidariedade.

    9. Durante anos, uma inflação de analistas digitais profetizou o fim do Ocidente e o colapso do império norte-americano, celebrando uma ordem multipolar alternativa às “elites pedófilas e sionistas”. Agora anunciam, desesperadamente, a Terceira Guerra Mundial; puro exercício de monetização do apocalipse. Sua narrativa é um queijo suíço. A realidade de 2026 dá o veredicto: essa retórica é uma fraude. Os “youtubers multipolares” da Espanha revelaram-se menos sérios do que o establishment. Pedro Baños e Alfredo Jalife erraram em todas as suas previsões; os “desenganadores” eram os verdadeiros enganadores.

      10. O império norte-americano mantém sua capacidade de intervenção, enquanto os pilares da multipolaridade mostram rachaduras: a Rússia continua presa no desgaste ucraniano e, nos bastidores, é pró-Israel (a comunidade russófona em Israel é uma ponte fundamental entre Putin e Netanyahu). A China, por sua vez, não consegue sustentar seus aliados em crise; basta-lhe que o próximo regime mantenha seus contratos. Os BRICS carecem de unidade ideológica, como se mostra com toda evidência na sintonia entre Modi e Netanyahu.

      11. Ser anti-imperialista sem um império próprio é quixotismo a serviço de terceiros. O Irã — neste caso — demonstrou ser um Império.

      12. Lula e Celso Amorim deveriam rever sua doutrina diante da ousadia de Trump na região e da decadência de seus aliados. O Brasil precisa recuperar a ideia de Império. O que se impõe hoje é assumir a interdependência entre aliados. A doutrina latino-americana de não intervenção mostrou-se ineficaz, deixando a porta aberta para que uma terceira potência assuma o controle. A UE e a América Latina deveriam agir como impérios, com autocontenção, mas com presença. Regozijar-se por não ser parte central de um império é uma derrota pusilânime; defendo a interdependência, não o vassalagem.

      13. Espanha e Portugal devem defender eixos para uma transição no Irã que evite a ruptura territorial ou a guerra civil, buscando um novo regime com neutralidade externa que não seja um mero vassalo de Israel. Uma transição tutelada por várias potências, não apenas pela dupla Israel-EUA.

      14. No mundo árabe, o sentimento em relação ao Irã oscila entre a desconfiança e a fúria. Teerã priorizou bombardear países muçulmanos, razão pela qual muitas monarquias petrolíferas têm sede de vingança. A agenda pró-árabe do governo espanhol deve compreender que nem tudo o que é anti-israelense é pró-árabe. No Irã, existe uma demanda real por abertura e um cansaço ideológico; o lógico seria uma autorreforma pactuada, na qual coexistam tradicionalistas e ocidentalistas.

      15. Por fim, o espelho de Cuba. O grande erro de Fidel Castro foi não dar ouvidos a Lula: a produção de etanol teria lhes dado autonomia, mas ele preferiu a revenda de petróleo (subsidiada primeiro pela URSS e depois pela Venezuela e pelo México) sob o pretexto de não encarecer os alimentos. Hoje, Cuba não produz nem alimentos nem açúcar. Não é um problema apenas de sanções, mas de produtividade e pluralismo. A narrativa obstinada não dá o que comer. Ou seja, a reprodução ampliada da economia socialista cubana baseou-se na revenda de petróleo subsidiado. Essa foi a fórmula econômica, somada à exportação de serviços médicos e militares.

      16. Se você tem um exílio de milhões, tem um problema de reconciliação nacional que deveria ser prioridade absoluta. Venezuela e Cuba são problemas para a esquerda. Se você expropria e é menos produtivo do que “os ricos”, então cometeu uma estupidez. Se você é mais produtivo, isso é discutível. Mas esse, claramente, não é o caso de Cuba nem da Venezuela.

      17. Se o Partido Comunista de Cuba tivesse optado pela via chinesa ou vietnamita, teria negociado com os EUA, mas Fidel temia não conseguir domesticar a nova burguesia. Hoje, Cuba está em um beco sem saída voluntário. Uma situação tão putrefata que não deixa margem de manobra para a esquerda e o iberoamericanismo.

      18. A ciência política está atordoada e perplexa com as recentes experiências venezuelana e cubana. Se Lenin lançou seu famoso lema “todo o poder aos sovietes”, hoje — no soviete caribenho — diante da agonia econômica, da anomia social e do deserto de todo tipo de sociedade civil independente e até mesmo dependente, só cabe o lema: “todo o poder aos bispos”… se é que se quer evitar o “todo o poder a Marco Rubio”.

      Pablo González Velasco é Coordenador Geral da ELTRAPEZIO.EU. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Salamanca.

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