Publicamos hoje mais uma reflexão crítica de Edson Marques Fillho em torno de suas leituras. A de hoje versa sobre as “Teses sobre o conceito de história“, de Walter Benjamin, publicadas em Aviso de Incêndio (Boitempo, 2005).
Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!
A.M.
Fios do Tempo, 12 de agosto de 2026
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial

Lembrar, sempre, que o que existe, hoje, não é necessário
Uma leitura das teses sobre o conceito de história de Walter Benjamin
Walter Benjamin escreveu suas Teses sobre o conceito de história em 1940, às vésperas de sua morte, numa Europa que havia escolhido o pior. Não as escreveu para publicar. Escreveu porque havia chegado o momento em que o pensamento precisa se concentrar, como luz num foco, antes que tudo se apague.
Leio essas páginas num mundo diferente, oitenta anos depois, depois de todas as transformações que a sociedade viveu desde então — sem partilhar sua matriz religiosa, sem ter nascido na Europa, sem ter vivido o nazismo como ameaça concreta à minha existência. E, no entanto, há pouca resistência. Não porque a época seja a mesma — não é. Mas porque a lógica é a mesma. O capitalismo deixado solto tem um destino, e Benjamin o nomeou com precisão clínica: o fascismo não é a exceção do progresso, é sua conclusão possível, sempre disponível, esperando a conjuntura certa. Não precisamos de trincheiras e campos de concentração para reconhecer o padrão. Basta olhar: nacionalismos que crescem onde a desigualdade apodrece, autocracias que se legitimam pela linguagem da eficiência, a lógica do mercado invadindo os últimos territórios que resistiam — a escola, o hospital, o cuidado com o moribundo. O capitalismo não respeita fronteiras sagradas. Vai até onde o deixam ir.
O pessimismo que essas páginas inspiram não é o pessimismo dos que desistiram. É o pessimismo dos que enxergam. O otimismo cego — aquele que confia no progresso como força natural, que acredita que amanhã será necessariamente melhor porque ontem foi pior —, esse é o verdadeiro paralisante. Ele adormece a guarda justamente quando o perigo se aproxima. Benjamin já sabia disso em 1940. Custou-lhe a vida não ter sido ouvido.
Leio suas Teses, portanto, não como arqueologia intelectual mas como aviso de incêndio — que é também o nome do livro através do qual as li, na leitura de Michael Löwy. E se não ocorrer agora alguma irrupção do tempo, alguma quebra do contínuo da história, algum freio de emergência puxado a tempo — teremos sérios problemas. Não como metáfora. Como prognóstico.
O que Benjamin chama de força messiânica fraca não é esperança no sentido fácil — não é a expectativa de que as coisas melhorem por si mesmas, como se o tempo trabalhasse a nosso favor. É algo mais preciso e mais exigente: é a consciência de que só se deseja o que já foi imaginado antes, que toda utopia é memória de uma promessa não cumprida. O futuro não se conjuga no futuro. Conjuga-se no passado. Queremos o que alguém antes de nós já quis e não conseguiu. E é isso que nos obriga — não a gratidão abstrata, mas a dívida concreta com os que tentaram e foram derrotados.
Há uma diferença moral fundamental entre quem tentou e não conseguiu e quem nunca tentou. Benjamin a conhecia bem — o inimigo, diz ele, não cessou de vencer. As classes dominantes são as mesmas há séculos, o cortejo triunfal continua, os escombros se acumulam. Mas cada interrupção, por menor que tenha sido, modificou algo. Cada revolta derrotada deixou uma fratura no muro. Não é pouco. É como o fumante que tenta largar e recai — e tenta de novo, e recai — e tenta outra vez. Estatisticamente, ele tem chance menor de morrer do câncer que o aguarda do que aquele que nunca tentou, que nunca sequer reconheceu o perigo. A tentativa fracassada não é equivalente à omissão. Tem peso diferente. Produz efeitos diferentes. Abre possibilidades que a resignação fecha.
Há uma alegria específica em tentar que não tem equivalente na mesmice de continuar. Continuar é deixar o trem seguir nos trilhos já traçados, na direção que sempre seguiu, em velocidade crescente para o abismo. Tentar é puxar o freio de emergência — mesmo sem certeza de que funcionará, mesmo sabendo que o trem é pesado e a inércia é enorme. Benjamin não prometia vitória. Prometia que a tentativa importa, que o instante em que alguém age contra o contínuo da dominação não é perdido — fica gravado no tecido do tempo como uma promessa que as gerações seguintes herdam e são obrigadas a continuar.
O inimigo sempre ganha — mas não sempre da mesma forma. E essa diferença, por menor que pareça, é onde a história respira.
Benjamin não era um pensador religioso no sentido convencional. Mas sabia — e Schmitt antes dele havia formulado com clareza incômoda — que a política moderna nunca se libertou completamente da teologia. Apenas a secularizou, trocando os nomes sem mudar a estrutura. O soberano ocupa o lugar que o deus ocupava. Para Schmitt, o Estado de exceção corresponde ao milagre — ambos são irrupções da vontade absoluta que suspende a ordem regular. Benjamin aceita o diagnóstico mas o vira pelo avesso: o Estado de exceção não é o milagre, é a regra. É a normalidade da dominação, a catástrofe que os oprimidos vivem como cotidiano desde sempre. O milagre — se existe — é a saída. É o instante em que o contínuo se rompe, em que o freio de emergência é puxado, em que a força messiânica fraca produz uma interrupção real na marcha do cortejo triunfal.
Dois mil anos de cristianismo não deixaram apenas igrejas e catedrais — deixaram uma forma de pensar, uma maneira de narrar o tempo, uma gramática do sofrimento e da esperança que persiste muito além da crença individual. Mesmo quem nunca entrou numa igreja pensa o tempo como direcionado, a história como dotada de sentido, a injustiça como algo que clama por reparação. Isso não é filosofia grega. É herança bíblica secularizada. A teologia da libertação que marcou gerações na América Latina apenas tornou explícito o que sempre esteve latente — que o Reino de Deus e a transformação histórica nunca foram, para os pobres, coisas separadas.
As categorias que ele mobiliza — obrigação com os mortos, promessa não cumprida, redenção como tarefa coletiva, inimigo como força que não cessa de vencer — não são exclusivamente judaicas. São a gramática profunda com que nossa herança cultural narra sua própria história quando essa história inclui derrota, esperança e recusa de esquecer.
Essa gramática opera nas religiões, mas opera igualmente na política — e não por acaso. As duas estruturam comunidades em torno de um horizonte que não se vê mas se acredita, de uma autoridade que exige obediência, de um inimigo que encarna o mal, de uma promessa que justifica o sacrifício presente. Quem já viveu a militância política sabe que ela tem liturgia, tem mártires, tem textos sagrados, tem heresias. Quem já viveu a fé religiosa sabe que ela tem facções, tem poder, tem traições. A fronteira entre as duas nunca foi tão nítida quanto os modernos gostariam de crer. Schmitt viu isso pela direita — e usou para legitimar o soberano. Benjamin viu pela esquerda — e usou para tentar avisar os eternos vencidos. Não com a promessa de vitória. Com a urgência de quem vê o fogo se aproximando e sabe que o sino precisa tocar antes que seja tarde demais.
Se não ouvirmos o aviso — se deixarmos o mundo operar na base do tempo contínuo, de um dia após o outro, de um progresso que se acumula sem se transformar — os dominantes seguirão dominando, os oprimidos seguirão sendo oprimidos, e o cortejo triunfal continuará sua marcha sobre os que jazem por terra. Não por fatalidade. Por omissão. Por aquela resignação ativa que se disfarça de realismo e que Benjamin chamava, com desprezo preciso, de conformismo.
E há uma agravante que Benjamin vislumbrou mas que hoje se impõe com uma clareza que ele não poderia ter antecipado em toda sua extensão: a humanidade desenvolveu sua capacidade técnica numa velocidade que não tem paralelo em nenhum outro momento da história, e não desenvolveu em nenhuma medida equivalente sua capacidade moral coletiva. Desde a primeira ferramenta até a bomba atômica, até os algoritmos que decidem quem vive e quem morre, até a inteligência artificial que ninguém sabe ainda como controlar — o arco da técnica sobe vertical enquanto o arco da ética rasteja. Temos hoje poder suficiente para destruir o planeta várias vezes. Não temos sabedoria coletiva suficiente para garantir que não o faremos.
Benjamin via nos progressos técnicos de seu tempo — a Luftwaffe, os gases, a racionalização industrial da morte — não anomalias do progresso mas seus produtos legítimos. A barbárie não vem apesar da civilização. Vem com ela, dentro dela, usando suas ferramentas. O que ele não viveu para ver é que essa contradição se aprofundou além de qualquer medida. E que o capitalismo, ao colonizar os últimos territórios de resistência — a medicina, a educação, o cuidado, a própria ideia de bem comum —, não deixa mais nenhum espaço fora de sua lógica onde a humanidade possa ensaiar ser outra coisa.
O sino toca. A questão continua sendo se alguém ouve.
O que fazer com tudo isso? Benjamin não oferece programa. Não há roteiro, não há garantia, não há promessa de vitória. O que há é uma ética — e é uma ética dura, porque nasce do pessimismo, não apesar dele.
Não o pessimismo que paralisa. O pessimismo que enxerga. Que recusa a anestesia do otimismo fácil, do progresso automático, da crença de que o arco do universo moral se curva naturalmente para a justiça. Esse otimismo é o maior aliado do cortejo triunfal — porque adormece exatamente quem deveria estar acordado.
A ética que Benjamin propõe — e que reconheço como minha — é a ética de quem sabe que o inimigo é forte, que as estruturas da dominação têm séculos de inércia acumulada, que as chances de vitória definitiva são pequenas. E age assim mesmo. Não porque acredita no sucesso. Porque não pode não agir. Porque há uma dívida com os que tentaram antes, porque há uma obrigação com os que virão depois, porque a tentativa fracassada não é equivalente à omissão e nunca será.
No meu caso, isso se traduz em escala menor do que as revoluções que Benjamin sonhava. Não tenho ilusões sobre isso. Mas sei que é possível — e necessário — gerar núcleos de atrito. Pequenas resistências que corroem as estruturas da máquina por dentro. Um resíduo de humanidade numa UTI administrada por planilha. Uma pergunta incômoda numa reunião onde todos concordam. Uma geração de médicos formada para entender que o paciente não é um centro de custo. Núcleos pequenos, dispersos, sem coordenação central — mas que existem, que persistem, que modificam algo ao redor de si mesmo ainda que não mudem o todo.
Benjamin dizia que cada geração recebe uma fraca força messiânica. Fraca — não inexistente. E é com essa força fraca, sem grandiosidade, sem certeza, sem a promessa do paraíso ao final, que se faz o único trabalho que vale a pena fazer: o de não deixar que a máquina opere sem atrito. O de lembrar, sempre, que o que existe, hoje, não é necessário. Que o cortejo pode ser interrompido. Que o sino pode tocar — e que tocar o sino, mesmo que ninguém ouça, é diferente de ficar em silêncio.

Edson Marques Filho é médico Intensivista
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