Fios do Tempo. O fim de uma era: para uma sociedade maior que o mercado – por André Magnelli & Thiago Panica

Iniciamos nesta semana reflexões e proposições a respeito da dimensão econômico-social da crise que atravessamos. Começamos com as publicações do ensaio “O fim de uma era: para uma sociedade maior que o mercado“, de André Magnelli & Thiago Panica, e em seguida da tradução do artigo “A urgência absoluta é evitar o pior”, de Thomas Piketty.

Acompanhe-nos! Segue abaixo a programação da semana:

04 de maio
Fios do tempo:O fim de uma era: para uma sociedade maior que o mercado“, por André Magnelli & Thiago Panica
Fios do tempo: “A urgência absoluta é evitar o pior”, por Thomas Piketty

05 de maio
Fios do tempo: “A pandemia põe o decrescimento na ordem do dia: raízes teóricas de um debate“, por Elimar P. do Nascimento (UNB)

06 de maio
Divulgação e debate de “Para superar o divórcio entre economia e sociedade: diagnóstico crítico e notas propositivas em um contexto de pandemia“, por Genauto Carvalho de França Filho, André Magnelli, Philippe Eynaud.

07 de maio
Ciclo de Humanidades Virtual: “Metamorfoses da colonialidade: pensar o capitalismo na era das incertezas”, com participação de Paulo Henrique Martins (UFPE) e Ricardo Pagliuso Regatieri (UFBA).





O fim de uma era:
Para uma sociedade
maior que o mercado

Rio de Janeiro & João Pessoa, 04 de maio de 2020

A pandemia da Covid-19 é um choque de realidade para a utopia neoliberal. As leis do mercado, extensivamente propagandeadas e intensivamente massificadas como inabaláveis, ou mesmo imutáveis, revelam-se de uma hora para outra, embora não pela primeira vez, impotentes.1 Não está mais em jogo apenas uma disputa teórica e política sobre a relação entre mercado e Estado, mas também a preservação e a reprodução, em regime de urgência, da vida humana e das próprias sociedades. Com a atual pandemia, cuja experiência se impõe a cada um de nós enquanto indivíduos, ao mundo enquanto história compartilhada e à humanidade enquanto espécie comum, encontramo-nos em face à virulenta implosão do projeto de uma sociedade reduzida ao mercado, ou seja, de uma sociedade-mercado.

Com efeito, a crise sanitária acarretada pela Covid-19 tem no Brasil a encarnação de um encontro de forças que torna o país, para propósitos de diagnóstico, um microcosmo concentrado das contradições mundiais. Isso ocorre porque o Brasil reflete em uma escala ampliada no seu território o grave problema global das desigualdades socioeconômicas, a ponto de ter sido batizado, por alguns economistas, como“Belíndia”, ou seja, como um país em que convivem, de forma espantosa, a extrema riqueza europeia (“Bélgica”) e a extrema pobreza dos países “em desenvolvimento” (“Índia”).

Mas isso ocorre também porque nosso país está se tornando uma espécie de laboratório onde experimentamos uma tempestade perfeita das crises contemporâneas: (a) uma crise ecológico-sanitária, quando assistimos ao forte avanço de visões antiecológicas e mercantilizadoras da vida, que manifestam, para quem tem consciência do estado das coisas, não apenas a gravidade da catástrofe ecológica em curso, como também a urgência (e a fragilidade) na mudança das formas de ser, viver, produzir e habitar; (b) uma crise socioeconômica, quando vemos o esgotamento do modelo econômico-estatal tradicional e, ao mesmo tempo, a inviabilidade absoluta do projeto neoliberal, fato explicitado, com cinismo quase obsceno, pela natureza antidemocrática de seus executores; (c) uma crise epistêmico-cultural, onde vivenciamos uma disjunção entre os fios normativos institucionais e as motivações individuais cujo esvaziamento reverbera na corrosão da própria consistência objetiva da realidade; o que por sua vez se expressa no âmbito (d) de uma crise da institucionalidade democrática, em que se amalgamam a ascensão de um conservadorismo político autoritário, simultaneamente saudosista e niilista, hostil à cultura e à ciência, e paradoxalmente propulsor do próprio estonteamento coletivo de que resulta; e, enfim, (e) uma crise socioexistencial, quando os laços inter-humanos são reduzidos a uma relação agonística e concorrencial, que estreita as vias de autorrealização pessoal, com toda a carga de sofrimento individual, anomia coletiva e riscos disruptivos que daí decorrem.

Diante deste cenário, este pequeno ensaio propõe uma interpretação da crise de pandemia do novo coronavírus a partir do seu aspecto econômico-social, com o objetivo de fomentar e desenvolver um debate sobre este tema crucial de nosso tempo no Fios do tempo do Ateliê de Humanidades. Isso será feito em três movimentos.

Em primeiro lugar, buscaremos descortinar o nexo do encadeamento das atuais crises, a fim de mostrar como elas se retroalimentam em sua relativa autonomia e se entressignificam em sua confluência para uma síndrome, a saber, a do esgotamento do modelo liberal de sociedade-mercado. Em seguida, partiremos para uma análise compreensiva em torno da possibilidade histórica, fundamentada no nosso diagnóstico da crise estrutural ou multissistêmica, da reconstrução de uma “sociedade maior que o mercado”, propondo para tanto duas vias possíveis: de um lado, o Estado como ator central no desenvolvimento social e, de outro, a vida associativa como meio de construção de formas novas e outras de economia e de vida. Após tratar das duas vias, partimos para a apresentação do nosso debate aqui no Fios do Tempo. Em especial, nos deteremos em uma pequena introdução ao pensamento de Thomas Piketty, que inspirou nosso ponto de partida e tem um pequeno texto sobre a pandemia, “A urgência absoluta é evitar o pior”, cuja tradução publicamos hoje; mas sinalizamos também quais são os primeiros textos que publicaremos sobre a outra face da mesma moeda, aquela que reflete criticamente sobre a própria ideia de desenvolvimento e tenta abrir horizontes alternativos de formas de ser, viver e produzir, , com contribuições de autores como Jean-Louis Laville, Alain Caillé, Genauto Carvalho de França Filho, Paulo Henrique Martins, Elimar Nascimento etc.

Importante enfatizar desde já que é, ao mesmo tempo, no tensionamento e na articulação entre as duas vias que buscaremos encaminhar nossa reflexão: longe de excludentes, elas convergem no aprofundamento da solidariedade como solo necessário à sustentação de toda arquitetura democrática. Com isso, na contramão da redução da economia a uma “ciência econômica” apequenada por ortodoxias metodológicas e ideológicas, propomos a perspectiva de uma economia política historicamente orientada, que seja capaz não apenas de compreender os dilemas e problemas econômicos de nossas sociedades, como também de explicitar seus compromissos normativos (como aquele entre modelização matemática e o ideal de um mercado autorregulado, que busca travestir sua concepção de dever ser com a roupagem de uma linguagem pseudocientífica) e propor projetos em torno de uma vida econômica enraizada em princípios de igual-liberdade e solidariedade democrática, de modo a conjugar a eficiência produtiva e a criatividade econômica com a auto-realização pessoal, a justiça social e o equilíbrio ecológico.

Os estertores de uma era fatigada por uma síndrome

O diagnóstico é o nascedouro necessário de todo prognóstico. Sua acuidade é a condição do êxito ou do insucesso em todo projetar e agir humanos, seja individual ou coletivo. Esse é exatamente o caso da busca por uma nova economia, que esteja fundada sobre regras, valores e modos de funcionamento que não apenas sejam originados na sociedade – nos indivíduos, instituições, associações etc. –, como também possuam nela sua razão de ser. Assim, tendo em mente a importância de um bom diagnóstico, nos impusemos duas precauções e apontamos algumas ambivalências.

Precauções contra cegueiras

A primeira precaução é o esforço consciente em esboçar um quadro interpretativo que evite submergir na maré acrítica de uma hiper-fragmentação do olhar. Sendo um produto e expressão da experiência vivida nas sociedades contemporâneas, que são intensivamente imediatistas e extensivamente fragmentárias, a hiper-fragmentação impede a sua adequada compreensão, tornando os processos atuais ininteligíveis e os problemas fundamentais inconcebíveis. A segunda precaução consiste em não sucumbir ao canto da sereia que costuma seduzir, pela facilidade do embalo, olhares apressados na associação de eventos políticos, econômicos e sociais que ocorrem em distintas partes do mundo, pressupondo-se que, pela manifestação mais ou menos simultânea, comporiam um mesmo movimento ou tendência unilinear, desconsiderando, com isso, a imensa complexidade histórica e sistêmica que conforma as sociedades contemporâneas. Um tal olhar, no mais das vezes, não faz senão projetar inconscientemente um wishful thinking, como no caso dos que já veem um iminente colapso do neoliberalismo ou, até mesmo, a delirante possibilidade do ressurgimento de um comunismo pós-apocalíptico. Em outras palavras, é preciso ir para além dos extremos, ou seja, além da unificação superficial de fenômenos díspares, de um lado, e da alienante pulverização do olhar sobre a realidade, de outro; pois o que ambos têm em comum é o aplainamento da reflexão sobre o presente e o encurtamento dos horizontes históricos, tanto do passado quanto do futuro.

Evitar as duas cegueiras, sozinhas ou combinadas, a fim de contribuir para a compreensão do que nos acontece e os desdobramentos possíveis do porvir, é a nossa principal missão, tanto neste pequeno ensaio de abertura de reflexão sobre a dimensão econômica da crise da pandemia, quanto também no debate mais amplo que realizamos aqui no Fios do tempo. Desta forma, nossas precauções possuem como contraparte positiva a tentativa de preservar uma lucidez sócio-histórica na compreensão de que a pandemia causada pela Covid-19 expõe e ao mesmo tempo intensifica uma crise estrutural que atravessa as formações sociais contemporâneas.

Ambivalências do processo

A respeito disso, vale notar três características ambivalentes que alimentam esta crise estrutural. Antes de tudo, como disse Daniel Chernilo em artigo publicado em nosso debate2, essa pandemia do novo coronavírus é a primeira inteiramente global da história da humanidade e, enquanto tal, demanda, como as crises social e ecológica, uma consciência expandida de que todos compartilham do mesmo destino e suas respostas devem ser portanto globais. Contudo, ao mesmo tempo, ela reforça o medo da alteridade e o fechamento de fronteiras, e promove o velho egoísmo soberanista dos Estados, que estão presos a soluções parciais e disputando por recursos escassos (como a competição inter- ou mesmo intranacional pela importação de equipamentos e acessórios hospitalares). Além disso, a pandemia parece ser uma espécie de metonímia do neoliberalismo contemporâneo porque, apesar de ter se propagado inicialmente via segmentos mais afluentes e cosmopolitas e portanto ter se mostrado “democrática”, ela tende a gerar maiores danos agora sobre países menos desenvolvidos e indivíduos mais vulneráveis (além dos idosos, as mortes por caso confirmado prevalecerão cada vez mais estatisticamente nas regiões e bairros com maior concentração de negros, imigrantes e pobres). Por fim, a pandemia impõe uma necessidade de que cada um reconstrua coletivamente um sentido para o sofrimento, só que o faz em um contexto histórico caracterizado pela disjunção social entre as existências individuais e os complexos de significação coletiva (que são fontes de força moral e sentido para a vida).

Sintomas de uma síndrome de esgotamento

Com efeito, essas ambivalências devem despertar nosso olhar para os vários sintomas que, precisamente em virtude de sua articulação estrutural ou multissistêmica, nos revelam uma síndrome de esgotamento do modelo neoliberal de sociedade-mercado.

1. No âmbito econômico, o modelo de economia neoliberal – centrado na minimização do Estado, na prioridade religiosa dada ao equilíbrio monetário, na estrita vigilância fiscal, na desregulação dos mercados e na garantia do livre fluxo de capitais – submergiu violentamente com a crise sistêmica da economia mundial em 2008 (sendo a chamada “crise dos subprimes” nada mais que o fio mais visível da malha financeira envolvida), com consequências tanto mais nefastas para sua população quanto mais desregulados eram os mercados financeiros de cada país. Isso não apenas demandou uma retomada da ação dos Estados para evitar um colapso financeiro, econômico e social, como também – em decorrência deste processo perverso de socialização dos custos e prejuízos gerados por riscos assumidos por agentes e interesses privados –, desencadeou o agravamento das crises fiscais, uma intensificação das já montantes desigualdades em escala global e o crescimento do desemprego estrutural (que terá uma escalada ainda maior com a automatização decorrente da atual fase do desenvolvimento das tecnologias de inteligências artificiais).

2. Na esfera pública e no mundo político, assistimos a uma crescente corrosão interna das democracias em várias partes do mundo, decorrente do desencantamento dos cidadãos com uma oligarquização das classes políticas que parece andar de braços dados com a impotência dos Estados no cumprimento de seus papéis de proteção social e promoção de direitos fundamentais. Constata-se que a formação de um senso comum conservador profundamente impolítico acaba assim por reforçar a crescente supressão da margem de ação estatal e pública. A razão é que ele vincula-se, histórica e estruturalmente, à deterioração da imagem do Estado-nação e de seu papel, provocada tanto por insatisfações com disfunções reais de um Estado a ser reformado, quanto por impressões despolitizadas promovidas sistematicamente pelo bombardeio simbólico-midiático carreado por uma agressiva campanha neoliberal.

Os símbolos, valores e práticas neoliberais foram promovidos (patronal e, em especial, pela elite das instituições financeiras enquanto vanguarda do novo fluxo global de capitais), produzidos (via intelligentsia acadêmica, ou think tanks, responsáveis pela sua consagração “científica”), distribuídos (via meios de comunicação de massa e a “opinião especializada” dos agentes de mercado) e enfim consolidados como sendo o cume da racionalidade moderna e o fim último das sociedades contemporâneas. O resultado foi duplo. De um lado, houve um empobrecimento tecnocrático não somente da ciência econômica em sua pluralidade interna, como também da própria esfera pública: toda oposição foi persistentemente desqualificada como irracional e acusada de “populismo” (“populismo fiscal”, “populismo desenvolvimentista” etc.) e de “ideologia”. Além disso, a própria existência da política institucional e da participação democrática dos cidadãos, que são ambas expressões da coletividade organizada e da salvaguarda da convivência democrática, passou a ser vendida em um “livre mercado de opiniões planificadas” como sendo disfuncional por princípio, corrupta por intenção e “totalitária” por consequência.3

Não é de estranhar que, nesse processo de autodestruição das democracias implicado na execução do projeto tecnocrático de uma sociedade-mercado, temos visto emergir expectativas autoritárias por parte expressiva da população, com a ascensão de um populismo de extrema direita como força política em nível institucional. Esse movimento é impulsionado pelo ressurgimento de um nacionalismo “soberanista” que enfraquece as uniões e os blocos regionais, fragiliza a atuação das organizações internacionais e esvazia os pactos multilaterais que são responsáveis por salvaguardar o convívio mundial em bases civilizatórias e por zelar pela proteção social, sanitária e ambiental das nações e do planeta Terra. A perversão da ciência em tecnocracia, deflagrada pelo predomínio (universitário, midiático, nos “mercados” e nas políticas econômicas) da orthodox economics, tem como efeito necessário a resignação dos cidadãos e cidadãs do mundo à impotência, restando à esfera pública o inglório papel de justificação da deterioração das seguranças, das garantias e dos direitos coletivos diante da inexorabilidade das “leis” do mercado. Trata-se, precisamente, do contrário daquilo que toda ciência verdadeiramente digna desse nome deveria promover, e essa é a razão pela qual não deveria nos causar espanto a fisionomia anti-intelectualista e obscurantista assumido pelos movimentos neoconservadores e seus representantes máximos.

3. Em terceiro lugar, a grave e multidimensional crise ecológica que vivenciamos, cuja faceta mais dramática é a chamada “mudança climática”, deixa cada vez mais claro que qualquer tentativa de resolução das catástrofes ecológicas em curso ultrapassa as puras e simples leis de mercado, pois depende de uma forte atuação dos Estados e das organizações intergovernamentais, além da ação de movimentos sociais, em favor da contenção de setores altamente lucrativos, tão danosos ecologicamente quanto poderosos politicamente, da reorientação socioeconômica rumo a outra matriz energética e do estabelecimento de acordos internacionais com novos marcos regulatórios. A sociedade de consumo em massa gera a degradação ambiental, a perda de biodiversidade e o esgotamento dos recursos naturais em escala planetária, e suas tendências de flexibilização produtiva, como o niche marketing e a mass customization, em nada alteram esses efeitos. Desta forma, a crise atual demanda uma transformação necessária das formas de vida coletivas e individuais (que encarnam e reproduzem em escala ampliada o modelo consumista). A proposição recente, no Senado americano, assim como na União Europeia, de um Green New Deal – denominado assim em alusão ao New Deal na esteira da crise de 1929 – mostra-nos mais um passo no reconhecimento da gravidade do que está em jogo, o que demanda uma resposta política ativa, multidimensional em seus objetivos e meios de atuação e com capacidade de mobilização em concerto global pelos distintos atores e instituições no emprego e conjugação de suas forças.4

4. Por último, o sintoma do esgotamento do projeto de uma sociedade-mercado se faz presente no modelo de subjetividade e no tipo de individualidade que, ao mesmo tempo, supõe e promove. O ideal de uma sociedade de concorrência generalizada, em que os indivíduos devem ser empreendedores de si mesmos e responsáveis pelo seu próprio sucesso ou fracasso, produz ao menos três efeitos perversos.

Em primeiro lugar, estamos diante de uma sociogênese em massa de transtornos psiquiátricos tais como os de ansiedade, síndromes do pânico e quadros depressivos, que incidem na explosão da produção e consumo de psicofármacos e de livros de autoajuda (que não fazem senão reforçar o próprio ethos hiper-individualista que os impulsiona), no aumento das demandas de atendimento psicológico e psiquiátrico e de toda sorte de “especialistas do self” (coaches, youtubers, consultores diversos, conselheiros espirituais etc.), na radicalização de uma concorrência religiosa ávida pelo provimento de serviços e bens de salvação e, por último, mas ainda mais importante, no aumento das próprias taxas de suicídio.5

Em segundo lugar, o projeto neoliberal modela as subjetividades à sua imagem e semelhança6, fazendo ascender traços (ou estruturas) de personalidade de cunho narcisista ou, mesmo, perverso, que são gerados por problemas no interior de instituições como a família e a escola (e também retroalimentam esses problemas), minando-se a realização de uma “individualização pela socialização” em processos comunicativos emancipados (para falarmos como Jürgen Habermas); fato que mina a viabilidade da comunidade política mais ampla e, mais profundamente, de toda e qualquer forma de convívio humano orientado para o bem comum. Isso se deve à existência de uma contradição entre, de um lado, as estruturas de personalidade fomentadas pela sociedade de consumo e, de outro, as demandas cidadãs por uma democracia que depende de um interesse efetivo pela coisa pública,7 de competências de participação deliberativa na formação da vontade coletiva, e da formação de um ser humano que, apto a participar e contribuir com a economia social, não se reduza a um homo oeconomicus incapaz de desenvolver sua humanidade em suas mais diversas possibilidades.

Assim, em terceiro lugar, com a cultura neoliberal e sua redução da pluripotencialidade humana a um hiperindividualismo customizado pelo, e para o, mercado, somos levados a uma democracia que se volta contra si mesma, destruindo a possibilidade de um ser-em-conjunto, com e para o outro, não por acaso fazendo nascer novas formas de “personalidades autoritárias”, vivificando aquelas estruturalmente afinadas a tendências fascistas.8 Quando percebemos a conjunção, de um lado, do esvaziamento subjetivo da experiência democrática que resulta desse individualismo de tipo historicamente novo com, por outro, a ascensão das desigualdades e dos sentimentos de injustiça social, compreendemos como surge uma economia dos afetos negativos, de ressentimento, impotência e ódio, que são os pavios prontos a serem acesos por movimentos populistas ansiosos por alastrar seus anseios incendiários regressivos, sobretudo ao identificarem habitualmente a encarnação do mal a uma minoria da vez (imigrantes, ciganas, gays, índios, nordestinas, negros, pobres, sem-tetos ou sem-terra, mendigos e “vagabundos” de forma geral).

Desta forma, ao considerarmos todos esses sintomas de esgotamento do projeto neoliberal em seu conjunto, o diagnóstico que se nos apresenta é a síndrome de uma crise estrutural ou multissistêmica, no sentido de que ele atravessa, enreda e erode múltiplos sistemas sociais como numa espiral que se retroalimenta. Se, como nos lembravam Pierre Rosanvallon em Capitalismo utópico (1979) e Michel Foucault em suas lições sobre a biopolítica (1977-1978)9, o neoliberalismo apresenta-se como a utopia do mercado em face ao esgotamento daquelas conduzidas ou administradas pelo Estado, as atuais tendências populistas (Brexit e crise migratória na Europa, Trump nos EUA, bolsonarismo no Brasil, etc.) parecem entoar o desencanto de um mundo da vida marcado por um ressentimento a um só tempo agressivo e regressivo em relação às promessas fracassadas do que se pretendia como sendo uma conjunção entre prosperidade capitalista, domínio técnico-científico da natureza e da vida, democracia liberal e autorrealização individual.10

E é justamente nesse contexto conformado pela combinação entre a ideologia de uma sociedade-mercado, anomia social, hiperindividualismo e desamparo como sua necessária contraface, além da perda de sentido das vidas individual e coletiva então reduzidas a se autoconsumirem instrumentalmente, enfim, dizíamos que é justamente nesse contexto que se encontra o território propício ao alastramento de tendências anti-intelectualistas. Ao conjugar negacionismos anticientíficos – “não há mudança climática”, “a Terra é plana” –, antipolíticos – tanto aqueles direcionados às instituições democráticas nacionais e internacionais, quanto os que se orientam contra “oposições” que reivindicam outra coisa do que uma racionalidade meramente instrumental – e mesmo “anti-pandêmicos” e “populicidas” – “gripezinha”, “comunavírus”, “o Brasil não pode parar” –, poderíamos afirmar, numa provocação infelizmente bastante verossímil, que estamos em meio a uma pandemia negacionista.11

Por essas razões, nada nos permite antecipar que o mundo pós-pandemia se tornará um lugar menos hostil.12 E na medida em que se mostra inviável econômica, ecológica e democraticamente, assim como esvaziado enquanto crença e suporte ideológico, o projeto neoliberal apenas poderá persistir por intermédio de uma via niilista pavimentada por uma perigosa coalizão entre mercantilização de todas as coisas, desintegração social, catástrofe ecológica, desamparo individual, neo-obscurantismo cultural e autoritarismo político.

Por isso, é uma tarefa de todos aqueles comprometidos com um mundo mais humano o engajamento no projeto de uma nova intersubjetividade, marcada pela solidariedade (e não somente pelo agonismo mercantil), de uma nova interobjetividade, orientada por uma racionalidade não somente técnica mas também ecológica e socialmente informada, e de uma autoconsciência individual que esteja pronta a reconciliar projetos pessoais com o bem-estar coletivo.

Um consenso trans-ideológico?

A falência do projeto de uma sociedade-mercado preocupa até a elite do capital mundial – preocupação que, ressalte-se, não é de agora –, posto que está ciente e ciosa da necessidade de salvar o capitalismo de sua autofagocitose sistêmica. A respeito disso, temos exemplos tanto no mundo como no Brasil.

No contexto das instituições internacionais, vemos que o Fórum Econômico Mundial, cúpula patronal global por excelência, publicou um artigo de Guy Standing, referência internacional entre os estudiosos da precarização do mundo do trabalho, em defesa da urgência de uma renda básica universal.13 Além disso, instituições financeiras internacionais e publicações liberais mundialmente renomadas patrocinam e divulgam cada vez mais pesquisas voltadas a temas como o aumento da concentração de renda e do patrimonial global e as estimativas do montante da riqueza mundial desviado a paraísos fiscais, dentre outras “heresias” para o credo neoliberal.

No contexto brasileiro, economistas e intelectuais dos mais distintos matizes políticos estão confluindo também para uma crítica do atual modelo, que não obstante continua a ser defendido em dimensão quase religiosa pelo atual governo. Partilhando da mesma inflexão diagnóstica da elite patronal mundial, mesmo liberais como André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, elevam críticas contra o “liberalismo primitivo” do atual ministro da economia e apóstolo da Escola de Chicago Paulo Guedes.14 Em um artigo de 15 de março na Folha de São Paulo, diz ele: “o tema do coronavírus ressalta a imperiosa necessidade de aprovar verbas emergenciais para a saúde. Cortar num momento como esse, ‘para compensar as perdas de receitas do petróleo’ [como foi aventado], beira o surto psicótico”. Além disso, na contramão de todo consenso ortodoxo em torno do equilíbrio fiscal e macroeconômico, ele defende a teoria de que a emissão de moeda por parte do Estado é não apenas uma forma de financiar-se sem se endividar, mas também não impacta (como se acreditava, na maior intensidade que possa ser atribuída ao vocábulo crença) no aumento de inflação, desde que exista uma capacidade de produção ociosa. É no mesmo sentido que, no dia 30 de abril, vários economistas de perfis diferentes assinaram um artigo em defesa da emissão de moeda como forma de retomada do poder de compra das famílias, portanto de geração de demanda, em meio a uma crise de liquidez e renda.15 Em outro registro de problema, o da capacidade de munir o sistema de saúde de insumos básicos, em 05 de abril, ex-ministros da Saúde dos distintos governos anteriores uniram-se em carta conjunta na Folha de São Paulo, defendendo uma reorientação da cadeia produtiva nacional para fortalecer a indústria da saúde na “guerra pela vida” contra o coronavírus.16

De seu lado, com uma orientação econômica mais desenvolvimentista, Luiz Carlos Bresser-Pereira, em artigo no Valor Econômico, de 23 de março, afirmou que “agora, o que o governo brasileiro, como, aliás, os governos de todos os países, deve fazer é usar seu Estado para salvar as pessoas da morte, para salvar as empresas da quebra, e para salvar os empregos. O Estado em cada nação tem esse tríplice salvamento como capacidade e como missão. Seu governo não pode ficar calculando qual será o impacto de cada medida que tome na dívida pública. Ela aumentará agora como aumentou em todo o mundo em 2008”.17 Isso implica também, lembra ele, em medidas para além da liberação de crédito para as empresas e de recursos para os trabalhadores, pois, para fazer frente à crise atual, “o governo precisa também pensar de maneira nova”.

Enfim, sem haver espaço aqui para adentrar em cada uma das propostas trazidas como exemplo, o fato é que existe uma convergência entre intelectuais e atores privados e públicos no Brasil, com distintos matizes ideológicos, em favor de uma ação coordenadora e ativa do Estado para lidar com as consequências da pandemia. Desta forma, a Covid-19 demonstrou a necessidade de “retirar as crianças do playground” para que uma debate mais qualificado e substantivo possa ser avançado. Assim como em 2008, agora a vida mesma, ou infelizmente a morte em massa, obriga que os versados em uma economia caduca dos anos 1970 e 1980 guardem seus tabuleiros e manuais de instruções, embora, claro, eles permaneçam dispostos a recolocá-los em jogo assim que a ocasião, e a opinião pública, permitirem.

Vias combinadas para uma nova economia

Pelo dito até aqui, diante de um mundo ainda perplexo e infelizmente com a força “argumentativa” da morte em massa, desnuda-se a irredutibilidade do Estado, do social e da própria economia (como aquela que envolve a produção, a distribuição e o acesso aos serviços e bens de saúde) ao “mercado auto-regulado”. A atual crise da Covid-19 nos impele assim à inadiável reflexão sobre como reconstruir outra forma institucional e conferir outro conteúdo ético à nossa economia.

Para que possamos estar à altura de lidar com os desafios sociais, sanitários e ecológicos à nossa frente, precisamos de uma vigorosa contraposição à concepção dominante de ciência econômica com seu formalismo redutor da economia e com sua psicologia empobrecedora dos agentes econômicos. Para falar com Karl Polanyi, é demandada uma “abordagem substantiva”, ou seja, uma concepção de economia que esteja relativamente incrustada na sociedade e que obedeça a princípios distributivistas, reciprocitários e de compartilhamento doméstico.18

Se, com seu custo humano e seu sofrimento coletivo irreparáveis, a atual crise mostra a necessidade de tornar de novo a economia e a sociedade maiores que o mercado, surgem duas grandes vias propositivas que possuem articulações necessárias entre si. A respeito disso, em um artigo publicado aqui no Fios do Tempo (06 de abril)19, Paulo Henrique Martins já havia apontado para os cenários possíveis no pós-coronavírus decorrentes da perda de legitimidade do mercado como regulador absoluto, do retorno da legitimidade do Estado como agente central e da revalorização de ações solidárias espontâneas na sociedade civil. Muito embora ele apresente um cenário realista, segundo o qual é possível que, nos Estados latino-americanos, estejamos reduzidos a uma pobre saída por um Estado assistencialista oligárquico um pouco mais esclarecido, Martins aposta, e nós também, na proposição de caminhos que conjuguem as vias possíveis.

Na primeira via, coloca-se a retomada de propostas de um “Estado social”, baseadas na premissa e na legitimidade do Estado como agente promotor do bem-estar, segurança e garantia de direitos fundamentais. É o que podemos chamar grosso modo de proposição “(neo)desenvolvimentista”, embora vá muito além do desenvolvimentismo econômico-industrial stricto sensu e do próprio mito do crescimento econômico. Na segunda via, que podemos chamar de “associativista”, situam-se propostas e iniciativas no campo das “outras economias” (economia solidária, economia plural, cooperativismo etc.), onde se promovem antigas e novas formas de solidariedade social.

A distinção entre as duas linhas é puramente analítica: do ponto de vista empírico elas já coexistem e, mais ainda, o próprio êxito e viabilidade de cada uma depende dessa articulação.20 De um lado, é necessária a retomada de um Estado social, enquanto legítimo agente promotor de uma sociedade mais justa e ecologicamente sustentável, atuando no investimento científico (pesquisas preventivas antivirais, por exemplo), numa política educacional que não se reduza à formação para o mercado (sendo capaz de promover uma autoconsciência racional e humanística pressuposta para o bom funcionamento de toda e qualquer sociedade democrática), e num sistema de saúde público que seja capaz de encarnar sua razão de ser, garantindo a vida, a saúde e o bem-estar de sua população, sem ser colonizado pelos interesses das corporações privadas (planos privados, redes de hospitais particulares, indústria farmacêutica, corporativismo de classe), e tampouco tenha seu orçamento comprometido por legislações draconianas (como foi gravemente pela PEC 95/2016).

De outro lado, é igualmente fundamental fortalecer o associativismo, repensando o que é o econômico e como ele deve estar articulado à vida associativa, à solidariedade democrática e aos territórios. Se a regulação do mercado e a ação pública na proteção e promoção de direitos é uma condição fundamental da solidariedade social, ela não é suficiente em si mesma, pois deve ser completada por um esforço em termos de uma solidariedade democrática mais horizontal e participativa. Esta segunda via foi refletida e desenvolvida amplamente em um ensaio recente publicado por um de nós na Nau Social (co-escrito com Genauto Carvalho de França Filho e Philippe Eynaud); e está presente também nas reflexões de Paulo Henrique Martins aqui no Fios do tempo sobre as potencialidades de uma sociedade convivial.21 Esta forma de entender os desafios das sociedades democráticas para além do modelo de Estado herdado do mundo moderno acaba alimentando, também, uma visão crítica do “desenvolvimento”, de modo a abrir proposições a favor do “decrescimento” ou pós-crescentismo. Nesta semana, publicaremos um texto de Elimar Nascimento (UFPE) que apresenta as raízes teóricas deste debate: “A pandemia coloca o decrescimento na ordem do dia”. Por ora, dediquemo-nos à primeira via, mais especialmente às propostas de um dos seus principais representantes na atualidade, o economista francês Thomas Piketty.

Retomar o Estado, repensando o desenvolvimento

A legitimidade e a importância da atuação do Estado não devem ser condicionadas à conjuntura, como se fossem uma mera garantia de liquidez e de demandas anticíclicas em momentos de calamidade como o atual. É isso que querem fazer crer os desacreditados, mas ainda uníssonos, porta-vozes de economia dos meios de comunicação de massa do país.

Em seu clássico Os sofrimentos do jovem Werther,22 já nos alertava Goethe a respeito da alma humana: “a primeira impressão nos encontra abertos, e o ser humano é feito de tal sorte que podemos convencê-lo das coisas mais estranhas: mas elas, também, logo se gravam de maneira profunda, e pobre daquele que quiser suprimi-las ou apagá-las”. Sem dúvida será essa a principal barreira (que não é apenas inércia simbólica, na medida em que se ancora, como vimos, numa ampla coalizão de forças sociais distintas, mas funcionalmente confluentes) com que irá se deparar o projeto de refundação, sob novos alicerces, de uma outra economia em particular e de uma nova sociedade em geral. Se trata, com efeito, do resgate do Estado enquanto estruturalmente necessário não somenteà preservação do tecido societário, como também para o fortalecimento da solidariedade pública da qual é, ele mesmo, expressão institucionalizada.

As propostas de retomada assumem diversas formas, desde os novos keynesianos, como no caso do norte-americano Paul Krugman23, perpassando o neodesenvolvimentismo do brasileiro Luiz Carlos Bresser-Pereira, até a refiliação à tradição da economia política com implicações social-redistributivistas do francês Thomas Piketty, para ficarmos apenas em alguns exemplos significativos. No entanto, a despeito das especificidades de cada uma dessas perspectivas, importa destacar que todas se situam no seio de uma mudança de paradigma em direção a uma nova economia política, que redimensiona não apenas o maior ou menor escopo de atuação do Estado como, na verdade, seu próprio sentido institucional.

Estado como agente indutor de um desenvolvimento socialmente inclusivo

A reorientação da atuação do Estado implica, primeiramente, o fortalecimento de seu papel de agente indutor de um desenvolvimento econômico socialmente inclusivo, reenraizando assim o oikos no socius. No caso brasileiro, ela pode ocorrer de diversas formas:

(a) a realização de financiamentos estratégicos (via BNDES, por exemplo), como aqueles que permitem uma maior geração de empregos ou uma maior integração regional;

(b) a articulação das políticas monetária e cambial na geração de um ambiente propício ao desenvolvimento produtivo;

(c) a mobilização de empresas públicas para redirecionamento da cadeia produtiva em prol de uma maior diversificação e, portanto, uma maior autonomia em relação à dependência externa e às oscilações da conjuntura internacional;24

(d) o estímulo à intensividade tecnológica na estrutura produtiva que tende a se irradiar para uma agregação de valor aos outros setores da economia (como comércio e serviços), o que permite um melhor posicionamento na divisão do trabalho internacional, assim como uma maior qualificação e valorização de seu “ativo humano”;

(e) e, já implicado e pressuposto em tudo isso, a promoção de fins socialmente úteis, como no exemplo-síntese do “Complexo Econômico-Industrial da Saúde” que, articulando estímulo à tecnologia (como a biotecnologia) e o desenvolvimento industrial (equipamentos e suprimentos médicos) com a consequente geração de empregos, gera uma ampliação do acesso à saúde e uma melhoria da infraestrutura hospitalar, além de uma autossuficiência em casos de crise como a atual.25

Ainda nesse papel se inscrevem a adoção de um regime tributário progressivo, a implementação de políticas redistributivas, e da valorização dos rendimentos oriundos do trabalho na renda nacional, elementos que apontam para um combate às desigualdades cuja ampliação mundial têm sido alvo de preocupações inclusive do alto patronato. Elas não fazem senão atualizar a busca de um desenvolvimento econômico socialmente inclusivo. Mas não se trata apenas de reconectar a economia às mulheres e homens, cidadãs e cidadãos do mundo que a fazem – embora “apenas” isso, em si mesmo, já aponte decisivamente na contracorrente da tendência sistemática, em escala global, de intensificação das desigualdades, de concentração da renda no 1% da elite econômica mundial e de financeirização da economia (fechando-se em espiral sobre si mesma).

Estado como garantidor de direitos fundamentais

Para além do aspecto econômico, um Estado assim reorientado se coloca como garantidor de direitos fundamentais, direitos que consistem em conquistas históricas sobre as quais se assentam os alicerces civilizatórios que garantem ao mundo social se sustentar sobre, mas ser maior que, o mundo econômico; e o mundo econômico não ser subsumido ao mercado; caso contrário, o mercado é deixado a se autofagocitar pela própria irracionalidade de suas contradições sistêmicas, levando, com ele, todo o mundo social sobre o qual se assenta. Trata-se, nesse caso, de nada menos do que garantir à sua população, da qual é expressão organizada, o direito de acesso universal à saúde, à educação e à assistência em caso de necessidade (acidentes, doenças, desamparo), de segurança e dignidade no envelhecimento, e a uma renda básica em casos de necessidade, desemprego ou de calamidades como a atual, para não dizer uma renda básica universal (como veremos abaixo), cujo sentido é menos econômico do que imaterial, posto que é uma questão de cidadania no, e para o, século XXI.

Estado como salvaguarda ecológica e ambiental

Ademais, seja interpretado da perspectiva do desenvolvimento social, ou da garantia de direitos fundamentais, essa reconexão do Estado com sua sociedade se coloca como salvaguarda ecológica e proteção ambiental, envolvendo desde o controle de emissões de poluentes até políticas de combate ao desmatamento, degradação e extinção dos bens e entidades naturais do planeta, além da garantia de seus recursos para a sobrevivência das próximas gerações e do próprio mundo em que vivemos. Este, assim como o conjunto de seres vivos e entidades naturais que o habitam, quando sob a proteção de um Estado voltado ao bem comum, não estão submetidos a uma racionalidade estritamente mercantil que calcula seu valor em termos de rentabilidade e ativo econômico, mas sob a égide de uma razão autoconsciente mais ampla que condiciona e submete a técnica e a produção à autopreservação humana e da vida no planeta, e não o contrário.

Estado como expressão e exercício de solidariedade pública e democrática

Se, sob o neoliberalismo, a luta de todos contra cada um pelas melhores posições e recursos escassos no mercado apenas pode supor um Estado que não conhece outro fundamento além do medo coletivo e do interesse individual, por sua vez é o princípio da solidariedade que cimenta o novo pacto civilizatório, e outro é o sentido do Estado que o representa.

Nos aspectos que perpassamos brevemente acima e que dizem respeito, respectivamente, à relação dos homens e mulheres entre si, sua manifestação sob a forma do Direito, e sua relação com a natureza, há um reforço da democracia, dos valores, das práticas e dos sentimentos que a sustentam, que estão fortemente ameaçados como vimos na primeira parte de nosso ensaio. Dito de outra forma, há um aprendizado institucional em relação aos erros do passado, razão pela qual não se trata do regresso a um desenvolvimentismo concentrador de renda, ambientalmente infesto, politicamente repressivo e travestido de necessidade tecnocrática. Pelo contrário, o resgate e o reforço da própria democracia fundada em um princípio de solidariedade pública são as premissas maiores inscritas nessas propostas.

Para romper com a reprodução do hiper-desigualitarismo (Thomas Piketty)

Publicamos hoje um pequeno texto de Thomas Piketty, “A urgência absoluta é evitar o pior” (originalmente saído no Le Monde em 10 de abril), que nos permite avançar, de forma rigorosa e sistemática, em torno das propostas de uma retomada do Estado e das políticas públicas para a promoção de um desenvolvimento inclusivo e democrático. Sendo atualmente professor da École d’Économie de Paris e diretor da École des Hautes Études en Sciences Sociales, Piketty tornou-se nos últimos anos, especialmente a partir de seu “best seller” acadêmico O capital no séc. XXI, um dos economistas mais reconhecidos no mundo, e uma das poucas vozes que conseguem ter algum impacto sobre o pensamento econômico ortodoxo.

Suas pesquisas ilustram o esforço de uma crítica cientificamente rigorosa no questionamento do pensamento ortodoxo nas universidades, nos meios de comunicação de massa e nos quadros de um Estado relativamente colonizado, que viu seus ministérios das finanças e bancos centrais tornarem-se playgrounds privativos de representantes corporativos e do mercado financeiro. Em Capital no século XXI, Piketty recoloca o tema da desigualdade no cerne das preocupações da economia.26 Ele não apenas refuta o que a própria economia ortodoxa tinha a dizer sobre as séries estatísticas relativas às contas nacionais, na esteira da celebrada hipótese Kuznets-Solow sobre a relação necessária entre crescimento econômico e diminuição das desigualdades – promessa com a qual a intelligentsia norte-americana tentava conquistar os corações e mentes dos países emergentes durante a Guerra Fria –, como também vai mais longe do ponto de vista da abrangência histórica e estatística da análise, assim como em sua constatação: o crescimento econômico, ou as forças do mercado, deixadas por si mesmas, demonstram, historicamente, não somente que não possuem nenhum efeito necessário de redistribuição como, pelo contrário, apresentam forte tendência ao aumento das desigualdades de renda e, ainda mais importante do ponto de vista da reprodução sistêmica do capitalismo, a um aumento dos rendimentos do capital em relação ao crescimento da economia em geral e aos rendimentos do trabalho em particular. Ou seja, as forças do mercado tendem, quando não têm efeito de contrapeso, como em especial o caso do investimento educacional e de qualificação da força de trabalho, a colocar em risco o próprio capitalismo. Isso, não como reflexo de um “mercado imperfeito”, mas como resultado de sua própria dinâmica interna, como ilustra o processo histórico, ocorrido a partir sobretudo da década de 1980, de fortalecimento da participação do capital financeiro nas rendas nacionais e, concomitantemente, de intensificação das desigualdades.27

Com efeito, as análises de Piketty se fortaleceram com o inapelável apoio da própria força das coisas: primeiro, por causa dos resultados da crise do mundo das finanças (espraiando-se para a economia real) em 2008 sobre os EUA, a União Europeia e o mundo como um todo, e agora com o choque de realidade imposto pela Covid-19. Todavia, Piketty reconhece, no recente livro Capital e ideologia, publicado em 201928, que são necessárias duas coisas. É preciso que nos defendamos em relação ao regime ideológico de justificação das atuais “sociedades hiper-desigualitárias”, que ocorre, segundo ele, por meio do retorno dos particularismos identitários nacionalistas e conservadores e suas estratégias de responsabilização dos mais prejudicados por seu próprio “fracasso”. Mas é preciso também que sejam mostradas propostas alternativas, que envolvam um “novo horizonte universalista e igualitário”, mais otimista quanto à natureza humana e quanto ao futuro, que abra a possibilidade e paute a viabilidade de uma sociedade mais igualitária, democrática e participativa, que seja consciente das “lições da história” e vá para além das dicotomias do século XX entre “sovietismo” e “capitalismo”.

A proposta de Piketty que trazemos para debate contribui justamente com a busca daquela “maneira nova” de pensar mencionada acima por Bresser-Pereira. Trata-se de uma busca ao mesmo tempo politicamente ousada e fiscalmente viável enquanto suporte estrutural para a implementação desse “novo Estado social”. Sua urgente e inadiável reconfiguração deverá se alicerçar não apenas sobre um regime fiscal mais justo (podemos pensar, por exemplo, no caso brasileiro, na taxação das grandes fortunas e no aumento da progressividade do imposto de renda sobre as altas e altíssimas faixas), como também sobre um registro financeiro internacional que impeça a evasão fiscal mundialmente generalizada das grandes corporações e de agentes multimilionários e bilionários. Para se ter um vislumbre do quanto isso corresponde, Ladislau Dowbor, em seu livro A era do capital improdutivo, estima, na ocasião da crise de 2008 (com base no Tax Justice Network e em dados da publicação The Economist), que o montante de recursos mundiais transferidos para paraísos fiscais como forma de burlar sua tributação estava entre 20 e 30 trilhões de dólares.29

Outro importante ponto de apoio para a necessidade de retomada de um Estado social capaz de vivificar os pilares civilizatórios deteriorados pela ideologia de Chicago é o que Piketty caracteriza como “uma dotação sanitária e educativa mínima para todos os habitantes do planeta, financiada por um direito universal de todos os países a uma parte das receitas fiscais acolhidas aos atores econômicos mais prósperos” – por exemplo, o segmento de corporações, bancos, fundos e agentes que compõem o 1% da população mundial e que, segundo o mesmo Ladislau Dowbor (apoiando-se no databook de 2016 do Crédit Suisse), se apropria de mais de 100 trilhões de dólares, quantia assustadoramente próxima dos restantes 99%.

Ora, a realidade brasileira expressa com clareza a disfuncionalidade sistêmica inerente à prevalência que o capital financeiro assume na economia mundial para a própria sustentabilidade do capitalismo. No caso brasileiro, segundo os cálculos dos auditores fiscais da Auditoria Cidadã, com base nos dados disponibilizados pela Câmara, do orçamento federal executado de 2019, cerca de 38% (ou 1 trilhão de reais) foram destinados à amortização ou juros da dívida pública, quantia esmagadoramente superior a todos os outros gastos, como, por exemplo, os 4,21% destinados à saúde. Como argumentamos acima, a reorientação para um Estado social proposta por nós e pelo próprio Piketty deverá ter sua legitimidade fundada não somente na busca de uma sociedade mais justa e solidária, mas também, e sobretudo, sobre o fato de que ela é uma pré-condição para se evitar, em razão da patologia sistêmica, a completa desintegração do social e a erosão de garantias civilizatórias mínimas – risco que se apresenta com força cada vez maior em resultados eleitorais no Brasil e no mundo, com a ascensão dos chamados movimentos populistas.

O último ponto apontado por Piketty, que aliás já tem sido objeto de manifestos (o chamado “Green Deal”) de organizações, movimentos, políticos e mesmo CEO’s europeus, é precisamente uma regulação igualmente mundial que contenha dispositivos garantindo a sustentabilidade social e ecológica. Afinal, seria preciso lembrar que a Covid-19 replica a mesma forma de relação destrutiva que o capitalismo estabelece com o planeta? É por isso que não vimos com qualquer surpresa o fato de que, antes mesmo que se aprofundem institucionalmente as discussões sobre a implementação desse “novo pacto verde”, e mesmo com o impacto das mortes em massa causadas pela pandemia, o patronato europeu já esteja em ação para minar seu alcance.

De toda forma, Piketty nos afirma no artigo agora publicado que “as grandes reviravoltas político-ideológicas estão apenas começando”. Mesmo com considerável atraso, a utopia liberal da qual falava Polanyi (ou “capitalismo utópico”, segundo as palavras de Pierre Rosanvallon) já ruiu mesmo entre seus aderentes. As atuais crises sistêmicas do neoliberalismo nos revelam que, no horizonte pós-pandemia, não há retorno possível, a não ser para o caminho rumo à barbárie mundializada, da qual a Covid-19 é o prenúncio real.

Notas e referências

1 É isso que constatam, dentre outros: FRANÇA FILHO, Genauto Carvalho de; LAVILLE, Jean-Louis. Repensar a relação entre economia e sociedade. Le Monde Diplomatique, 16 de abril de 2020.

2 CHERNILO, Daniel (2020), A crise do coronavírus: breve história do desencaixe entre globalização, sistema internacional e Estados-Nação. Fios do Tempo (Ateliê de Humanidades), 26 de março.

3 Para os efeitos dessa ideologia na crise atual, ver KRUGMAN, Paul. Starve the beast, feed the depression. The New York Times, 16 de Abril de 2020. No caso do Brasil, como em diversos outros países pelo mundo, ela assume crescentemente a forma do marketing político de autonegação da própria identidade política, pelo que alguns novos governantes se definem publicamente como “gestores”, portanto “técnicos”, e não como “ideológicos”.

4 Na verdade, o Global Green New Deal foi proposto por Edward Barbier, em 2009, em relatório da Iniciativa para uma Economia Verde do UN Environment Programme (UNEP), como uma resposta em três frentes para a tripla crise (financeira, de fome e ecológica) dos subprimes: BARBIER, Edward. A Global Green New Deal, Report prepared for the Green Economy Initiative of UNEP, 2009. O autor do Relatório conta a história de queda e ascensão de sua proposta em: BARBIER, Edward B. The Fall and Rise of the Green New Deal, PAR, July 16, 2019.

5 Ver a esse respeito o trabalho de EHRENBERG, Alain. O culto da performance: da aventura empreendedora à depressão nervosa. São Paulo: Idéias & Letras, 2010.

6 ROSE, Niklas. Inventing ourselves: psychology, power and personhood. Nova York: CUP, 1996.

7 Sobre essa disjunção, cf. por exemplo RENAUT, Alain. The era of the individual: contribution to a history of subjectivity. Princeton, Nova Jersey: Princeton University Press, 1997.

8 O clássico ponto de partida a esse respeito é a pesquisa monumental, coordenada por Theodor Adorno e seus colaboradores, The authoritarian personality. New York: The Norton Library, 1950.

9 FOUCAULT, Michel. O nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008; ROSANVALLON, Pierre. Capitalisme utopique: histoire de l’idée de marché. Paris: Seuil, 1979.

10 Em artigo publicado aqui no Fios do tempo, Paulo Henrique Martins faz uma excelente reconstrução do avanço do neoliberalismo desde o final do século XX até os possíveis cenários de sua persistência: MARTINS, Paulo Henrique (2020b), Cenários do pós-coronavírus: das possibilidades existentes à luminosidade da dádiva, Fios do Tempo (Ateliê de Humanidades), 06 de abril.

11 KAKUTANI, Michiko. A morte da verdade: notas sobre a mentira na Era Trump. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2018.

12 Cf. por exemplo o sentido dessa inflexão para Nancy Fraser em: A eleição de Trump e o fim do neoliberalismo progressista. Dissent magazine. New York, 12 de janeiro de 2017.

13 STANDING, Georges. Le coronavirus nous a montré pourquoi nous devons de toute urgence mettre en place un revenu de base. World Economic Forum, 17 de abril de 2020.

14 RESENDE, André Lara. Liberalismo‌ ‌primitivo‌ ‌de‌ ‌Guedes‌ ‌não‌ ‌leva‌ ‌a‌ ‌crescimento,‌ ‌diz‌ ‌Lara‌ ‌Resende, Folha‌ ‌de‌ ‌São‌ ‌Paulo, 15 de março de 2020‌.

15 DE BOLLE, Monica; CARVALHO, André Roncaglia de; TERRA, Fabio; GALÍPOLO, Gabriel; ROCHA, Igor; BRAGA, Julia; BELLUZZO, Luiz Gonzaga de Mello; GALA, Paulo. Emitindo moeda, o Estado cria poder de compra que antes não existia. Folha de São Paulo, 30 de abril de 2020. Até mesmo Henrique Meirelles havia afirmado a mesma ideia no dia 08 de abril em entrevista à BBC News. Ver: O que os economistas pensam da ideia de ‘imprimir dinheiro’ de Henrique Meirelles. E-Investidor. O Estadão, 08 de abril de 2020. Nesta matéria muitos outros economistas e agentes de mercado são consultados, e a esmagadora maioria concorda com a proposta.

16 SERRA, José; NEGRI, Barjas, COSTA, Humberto; TEMPORÃO, José Gomes; FELIPE, Saraiva; PADILHA, Alexandre; CHIORO, Arthur; CASTRO, Marcelo; ÁLVARES, Agenor. Indústria de guerra pela vida: setor precisa garantir que não falte ‘munição’, 05 de abril de 2020, Folha de São Paulo.

17 BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Salvar as pessoas, as empresas e o emprego, Valor Econômico, 23 de março de 2020.

18 Ver FRANÇA FILHO, Genauto Carvalho de; LAVILLE, Jean-Louis (2020), ibid.

19 MARTINS, Paulo Henrique (2020b), ibid.

20 Em um ensaio publicado em 30 de abril, um de nós, juntamente com Genauto Carvalho de França Filho e Philippe Eynaud, também propõe uma reformulação do econômico e o um desenho de políticas públicas respaldado pela combinação entre o princípio redistributivista do Estado e os princípios reciprocitários e de compartilhamento doméstico próprios da vida associativa: FRANÇA FILHO, Genauto Carvalho de; MAGNELLI, André; EYNAUD, Philippe (2020) Para superar o divórcio entre economia e sociedade: diagnóstico crítico e notas propositivas em um contexto de pandemia, Fórum Especial: Democracia, Políticas públicas e COVID-19. Nau Social. v. 11, n. 20, p. 167-184. Ver também: FRANÇA FILHO, Genauto Carvalho de. Economia e Desenvolvimento. Salvador. Escola de Administração, Gestão do Desenvolvimento Territorial, UFBA, 2019.

21 MARTINS, Paulo Henrique (2020), Coronavírus: da crise do capitalismo neoliberal às vias de uma democracia convivial, Fios do Tempo (Ateliê de Humanidades), 18 de março.

22 GOETHE, J. W., Os sofrimentos do jovem Werther. Edição da Ed. Abril, 2010, p. 67.

23 KRUGMAN, Paul. Why am I a keynesian? The New York Times, 6 de Junho de 2015.

24 Como a atual calamidade em que, apenas para ficar em um exemplo bastante ilustrativo, a dificuldade em importar insumos da Índia criou obstáculos à fabricação nacional de medicamentos importantes no combate à Covid-19.

25 O “Complexo Econômico-Industrial da Saúde” teve seu Grupo Executivo extinto em 2017. TEMPORÃO, José Gomes; GADELHA, Carlos A. G. Tecnologia em saúde: Brasil não pode ficar de joelhos: vulnerabilidade industrial escancara deficiências. Folha de São Paulo, 19 de Abril de 2020.

26 PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014.

27 Não por acaso, Bresser-Pereira destaca que no Brasil, na década de 1990, essa mesma dinâmica de intensificação do fluxo financeiro não resultou em investimento e ampliação da produção, tampouco em crescimento significativo da renda per capita, mas sim no aumento da colonização do PIB pelo processo de financeirização do capital e na compressão dos salários na renda nacional. BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. Desenvolvimento e crise no Brasil : história, economia e política de Getúlio Vargas a Lula. São Paulo : Editora 34, 2003.

28 PIKETTY, Thomas. Capital et idéologie. Paris: Éditions du Seuil, 2019.

29 DOWBOR, Ladislaw. A era do capital improdutivo. São Paulo: Outras Palavras & Autonomia Literária, 2017. Ver também: Além do Coronavírus, Le Monde Diplomatique Brasil, 23 de março de 2020.


Thiago Panica é professor adjunto do departamento de Ciências sociais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB)


André Magnelli é fundador, livre-pesquisador e diretor do Ateliê de Humanidades. É doutor e pós-doutor em sociologia pelo IESP-UERJ.


Como citar

MAGNELLI, André & PANICA, Thiago. O fim de uma era: para uma sociedade maior que o mercado, Fios do Tempo (Ateliê de Humanidades, 04 de maio de 2020. Disponível em: https://ateliedehumanidades.com/2020/05/04/fios-do-tempo-o-fim-de-uma-era-para-uma-sociedade-maior-que-o-mercado-por-andre-magnelli-thiago-panica


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