Fios do Tempo. Para superar o divórcio entre economia e sociedade – por Genauto França Filho, André Magnelli e Philippe Eynaud

Aproveitando o contexto do Ciclo de Humanidades Virtual desta quinta-feira (25 de junho), “Construir a transição social e ecológica: da outra economia à outra gestão“, divulgamos o ensaio “Para superar o divórcio entre economia e sociedade: diagnóstico crítico e notas propositivas em um contexto de pandemia“, escrito por Genauto Carvalho de França Filho, André Magnelli e Philippe Eynaud, que foi publicado na Revista Nau Social no Fórum Especial: Democracia, Políticas Públicas e Covid-19.

Em nosso site publicamos a introdução do ensaio. Mais tarde disponibilizaremos também o áudio-leitura integral do texto no República de Ideias e no canal do Ateliê de Humanidades no Youtube. E convidamos que os leitores visitem o site da Revista para ler nosso texto e também os demais do Fórum Especial. A Nau Social é uma revista da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia, dedicada à formação em Gestão Social e Políticas Públicas.

Se você quiser saber mais sobre a discussão proposta em nosso texto, assista ao Ciclo de Humanidades “Construir a transição social e ecológica” (dia 25 de junho, quinta-feira) e conheça o livro Solidariedade e organizações: pensar uma outra gestão, de autoria de dois dos autores deste ensaio, Genauto França Filho e Philippe Eynaud (publicado por EdUFBA / Ateliê de Humanidades Editorial)


Para superar o divórcio
entre economia e sociedade:
diagnóstico crítico e notas propositivas
em um contexto de pandemia

Genauto Carvalho de França Filho
André Magnelli
Philippe Eynaud



Abstract

This article proposes to think about the relationship between economy and society in times of pandemic. The article begins with (I) a critical-analytical diagnosis of the causes and reasons for the divorce between economics and society, identifying its historical origins and, at the same time, seeking to clarify how its logic operates in the form of contemporary neoliberalism and how it is in contradiction with democracy and even with liberal values ​​themselves. Then (II), we reflect on the consequences of the divorce between economy and society, whose unsustainability generated will be analyzed both at the macro-structuring level – environmental, socio-economic and political – as well as at the meso- and microsocial level – territorial and subjective. Finally (III), we move on to the “propositional notes” in favor of a resumption of the relationship between economics and society, where we propose conceptual and analytical reformulations capable of opening a horizon of post-welfare social society and also to formulate, operationally , a design of public policies aimed at the solidarity development of territories.

Keywords: economy and society; development; democratic solidarity; territories.


Introdução

A pandemia do Covid-19 explicitou um divórcio que já existia de modo implícito, mas que era ocultado com insistência: aquele entre economia e sociedade. Em alguns países do mundo, como o Brasil e os Estados Unidos, ele se manifestou no discurso público pelo suposto conflito entre duas urgências: a de manter a atividade econômica e a de proteger a saúde da população. Este conflito corresponde àquele outro, muito comum, que consiste em separar a esfera política da esfera econômica, fazendo com que o debate social seja mantido entre uma concepção de mundo orientada para ideais democráticos e outra que reivindica a prioridade absoluta das questões econômicas. Essas polaridades são profundamente prejudiciais, pois sugerem que a democracia e mesmo o direito à vida, à saúde e a um ambiente saudável seriam obstáculos para um bom desenvolvimento econômico, de tal forma que poderia parecer indispensável – até mesmo inevitável – a dissociação entre tais esferas (HILLENKAMP, LAVILLE, 2013). Todavia, quando observamos mais atentamente, percebemos que mais importante do que uma suposta contradição entre, de um lado, a necessidade econômica de lucro, emprego e renda e, de outro, o imperativo de proteger e promover a saúde da população – ou entre, de um lado, a lógica estritamente econômica do mercado e, de outro, os anseios por uma organização democrática dos processos de reprodução da vida e da sociedade – está a emergência da questão (e prática) da solidariedade, que ao nosso ver é a chave capaz de reatar o nó górdio entre economia e vida, democracia e economia.

Se as sociedades humanas foram capazes de produzir na modernidade muito mais opulência e riqueza material do que as anteriores, seu nível de empobrecimento continua recrudescente e, mais ainda, elas estão hoje colocando em risco a própria possibilidade de vida humana e não-humana diante dos efeitos ambientais gerados pela lógica de seu desenvolvimento. Ou seja, há um profundo paradoxo que caracteriza a dinâmica do desenvolvimento econômico que, apesar de dar sinais mais visíveis em tempos de crise como os atuais, é contudo um elemento constitutivo da sua própria formação. E, talvez, em um contexto catastrófico de pandemia, não apenas as suas insustentabilidades se tornam mais evidentes e insuportáveis, como também as soluções a serem propostas se tornam mais plausíveis, aceitáveis e, até mesmo, como efetivamente necessárias diante do estado de coisas.

Nosso argumento consiste em pensar que o paradoxo atual do desenvolvimento moderno está intimamente relacionado à forma, inédita historicamente, pela qual a economia se relaciona com a sociedade. Neste sentido, o artigo inicia com (I) um diagnóstico crítico-analítico das causas e razões do divórcio entre economia e sociedade, identificando suas origens históricas e, ao mesmo tempo, buscando esclarecer como opera sua lógica na forma do neoliberalismo contemporâneo e como ela está em contradição com a democracia e, mesmo, com os próprios valores liberais. Em seguida (II), refletimos sobre as consequências desse divórcio, cujas insustentabilidades geradas serão analisadas tanto no nível macro-estruturante – ambientais, sócio-econômicas e políticas –, como nos níveis meso e microssocial – afetando a territorialidade e a produção de subjetividades. Por fim (III), passamos para as “notas propositivas” a favor de uma retomada da relação entre economia e sociedade, onde sugerimos reformulações conceituais e analíticas aptas para abrir um horizonte de sociedade do pós-bem estar social e também para formular, operacionalmente, um desenho de políticas públicas voltadas para o desenvolvimento solidário de territórios. E deste modo cremos ter realizado uma itinerário completo em que a teoria se articula com a prática. Tendo começado com um diagnóstico das crises que vivemos e com uma análise crítica dos mecanismos que as geram e radicalizam, chegamos em uma reformulação de qual quadro de entendimento da realidade deve nos guiar a fim de terminarmos com um desenho de agenda renovada de visão e prática da ação pública.


Escute o artigo completo em nosso podcast República de Ideias ou no nosso canal do youtube


Veja o Dossiê no site da Revista Nau Social (só clicar abaixo)



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Solidariedade e organizações: pensar uma outra gestão – por Genauto Carvalho de França Filho & Philipe Eynaud Apresentação Este livro parte de um diagnóstico crítico sobre a dupla insustentabilidade que tem caracterizado a dinâmica do desenvolvimento das sociedades contemporâneas: a crise ambiental e o aumento das desigualdades. Tais condições têm revelado um déficit de solidariedade… Continuar Lendo →

Pontos de leitura. Recomendação de “Solidariedade e organização: pensar uma outra gestão”, livro de Philippe Eynaud e Genauto Carvalho de França Filho

No jornal francês Le Monde, no último dia 28 de fevereiro, saiu o  artigo de Margherita Nasi sobre o excelente livro Solidarité et organisation: penser une autre gestion, escrito por Genauto Carvalho de França Filho (Escola de Administração da UFBA) e Philippe Eynaud (IAE Paris-Sorbonne Business School), publicado recentemente na França pela Éditions erès (2019)…. Continuar Lendo →

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