Fios do tempo. O Brasil estranho a si mesmo – por Lindoberg Campos

Publicamos no Fios do Tempo um artigo de Lindoberg Campos sobre a estranheza cíclica de um Brasil preso no falso reflexo de si mesmo, como se fosse um Narciso bem peculiar, diferente do mito grego. Ao invés de contemplar-se na água até morrer de fome, o Brasil que se perde de si mesmo deixa aos seus semelhantes a fome e está sempre disposto a fazer guerra a quem falseia suas auto-mistificações. Para refletir sobre nosso presente, Lindoberg traz a memória do antigo arraial de Canudos, que é não apenas um fato histórico, mas sobretudo um emblema traumático a lembrar fantasmas sempre a se repetir.

A. M.
Fios do Tempo, 30 de junho de 2020



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O Brasil estranho a si mesmo

Bonito, Pernambuco, 20 de junho de 2020

O Brasil é estranho a si mesmo. Esse parece ser um axioma incômodo porque, ao longo do tempo, não se demonstrou refutável. Mas o risco de se tornar clichê também policia essa “verdade” que parece tão desgastada. O Brasil continua estranho a si mesmo porque tornou-se narcísico ao enxergar no espelho que criou apenas a imagem que escolheu ver.

É preciso compreender essa estranheza a partir de uma imagem pretérita e já fartamente usada, mas que continua atualíssima apesar da distância temporal que nos separa; refiro-me à Canudos. Há muito que o episódio do arraial baiano se tornou uma metonímia do que é o Brasil. Distante do poder central que, embalado por um Positivismo tacanho e por um “bando de ideias novas” e sem fundamentação, pensava e organizava o modelo social, Canudos foi acometido pela sanha da indiferença e o desejo de aniquilamento do diferente.

Palmilhado a cada espaço em que fora erguido na marginalidade da nacionalidade, à “tapera miserável dos sertões” não foi dada o direito de cidadania. Nem mesmo aos soldados que tetricamente foram obrigados a dizimarem seus “rudes patrícios” foi oferecido o direito básico de qualquer indivíduo: saúde, educação e moradia. Sacudidos nos morros da então capital federal, construíram à revelia do poder central suas vidas. Sob o signo da baioneta, a República se estabeleceu e perpetuou-se em movimentos intermitentes das armas.

Os rumos atuais do governo federal dão mostras inequívocas de tal fenômeno quando, diante da pandemia que assola o mundo e confronta o poder Executivo a lidar com tais problemas, parece querer reeditar fatos históricos traumáticos ao desafiar a harmonia dos três poderes (conquista do longo e cambaleante processo democrático), imputando ao Judiciário e Legislativo responsabilidades por uma calamidade que só o Executivo é capaz de gerar. Não bastasse isso, ao desafiar os dados sobre a pandemia, o Executivo reafirma seu menosprezo pela ciência, à qual já havia declarado guerra velada substituindo-a pela primazia da religião na gerência dos rumos governamentais, e formula em uma concepção singular e perigosa o conceito de povo, que valida e instrui as ações do governo.

Mas a afirmação de uma estranheza ainda precisa ser aclarada, sobremaneira porque essa assertiva possui em seu âmago uma conotação depreciativa. Não apenas porque se refira a uma questão interna de compreensão de uma identidade coletiva que perfaz, ou molda a seu estilo, um inconsciente coletivo. Essa estranheza possui uma implicação muito mais ontológica, dada as vicissitudes contemporâneas de realidade político-religiosa de um estranhamento por tudo que se refere a “um outro”. A declaração do ex-Ministro da Educação na reunião ministerial de 22 de abril de 2020, conjugadas ao posicionamento do Ministro das Relações Exteriores em seu ato de posse, apenas reforçaram uma visão turva e insuficiente daquilo que se convencionou chamar povo brasileiro. Povo não é uma identidade ou bloco monolítico em que se reflete de forma inequívoca a multiplicidade de ideais.

A estranheza a que me refiro, uma espécie de narcisismo político-antropológico – traduzido musicalmente por Caetano, “é que Narciso acha feio o que não é espelho” – quase catastrófica do panorama humanitário, é fruto de uma dicotomia que se instaura, ou pelo menos acentua-se, na crença de possuir os meios de condução das políticas sociais mais adequadas em contraposição a uma corrente que já fora hegemônica. Nessa disputa do “nós contra eles” o espaço fronteiriço do debate sadio torna-se um campo minado e nasce daí a necessidade de aniquilação daquilo que impede minha perspectiva.

Democracia é algo estranho e muito caro à nossa história. Não bastasse a imposição de um modelo político lusitano baseado na exploração desenfreada e no abuso da governança, o sistema republicano, em que pese seu ideal liberal, nasceu sob o signo do golpe de Estado e na concentração de poder. Aliás, o ideal de centralização é o que marcou a história de estabelecimento de qualquer poder constituído para um país de dimensões continentais com uma imensa diversidade política entre as suas regiões. A centralização do poder traz em sua esteira uma falsa carga de ordenamento civilizador geral. Historicamente, o processo de concentração da administração no Brasil conjugou uma face ditatorial.

Tanto no episódio do massacre de Canudos como contemporaneamente, o poder público se fechou numa sala onde se exibem apenas os dados que satisfazem sua perspectiva e ego inflamado. Rodeado de asseclas, e firme no propósito de levar adiante um projeto civilizador do qual se faz paladino, avança com sua agenda catastrófica e insana. Marcha com passada firme em direção ao precipício que se avizinha. A história se repete em espirais. A campanha de Canudos não submergiu apenas um ponto no mapa afogado por uma represa. Atualiza-se e renova-se em seu prenúncio trágico de incapacidade de alteridade.

A frase do ministro do STF em sua posse como presidente do TSE (“Precisamos armar o povo com educação, cultura e ciência”) é sintomática e exibe um problema crônico. Em clara resposta e oposição ao já constante desejo do presidente Bolsonaro de armar a população com o álibi de que armados seriam defensores incontestes da democracia, Luís Roberto Barroso parece ser a voz que clama por um refluxo ao passado, tal como Euclides escrevera, com a evidente intenção de não reescrevermos as páginas da história com tinta rubra. Se hoje é preciso afirmar que educação, cultura e ciência são pontos basilares na constituição de uma sociedade sadia e democrática, seu apelo e alerta são pretéritos. Canudos desponta, mais uma vez, como exemplo. Ao invés de estruturar um Estado capaz de agregar em seu bojo o dinamismo social e as nuances do pensamento, buscou-se o caminho mais curto e direto. Escrevia Euclides ao se deparar com aquela face do Brasil que não se quer enxergar: “requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta. Entretanto enviamos-lhes o legislador Comblain; e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador – a bala”.

Se Canudos, “foi na significação integral da palavra, um crime”, como asseverava Euclides, seu espectro assentou-se no Brasil contemporâneo como uma ferida narcísica da qual não sabemos ou não queremos aceitá-la como imprescindível a nos compreendermos como povo. Não há como fugir de nossa herança marcada pela escravidão, subserviência e favorecimento particulares. Uma nação não se faz grande ao rejeitar suas marcas e feridas como pretendem um Weintraub ou Ernesto Araújo, que em suas falas reproduzem preconceitos e inverdades, além de uma interpretação superficial sobre os povos que constituem o Brasil. Suas interpretações reverberam posicionamentos crônicos, como aquilo que foi publicado em 19 de julho de 1892 no Correio Paulistano, em que atacam chineses e escravos como povos lascivos, “cheios de vícios e perniciosos” a qualquer sociedade. É preciso mirar no espelho que reflete nossa imagem e enxergar a multiplicidade que ali se exibe.

Ou aceitamos que a democracia é tão múltipla quantos sujeitos nela se encontrem, ou repetiremos a história. O Positivismo que embalou nossa caserna ao moldar o sistema republicano deve ser parte de nossa herança, mas não pode ser ainda hoje o berço que embala as ações de transformação e de organização de modelo político-social.

Espera-se que a Comblain não seja mais o argumento incisivo; que Narciso veja no espelho o outro que não o seu falso, e que possamos dizer que Canudos é apenas um retrato na parede da memória, ainda que confessemos: mas como dói!


Lindoberg Campos é livre-pesquisador pleno do Ateliê de Humanidades, doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde defendeu a tese “Para quê (teo)poetas?” Ensaios para uma metaforologia teoliterária”. É membro da Associação Latino-Americana de Literatura e Teologia (ALALITE). Ex-diretor do Instituto Serra do Rodeador. É fundador-proprietário da instituição e marca Rodeador Cultural.


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