Na continuidade de nosso debate em meio à pandemia, publicamos no Fios do tempo um artigo de Frédéric Vandenberghe sobre as tentativas de “populicídio” empreendidas por Jair Bolsonaro. Tendo sido escrito para sair nas páginas do Libération (em 06/04), o artigo expõe a situação brasileira para o público estrangeiro sob a perspectiva de um intelectual belga estabelecido no Brasil há muitos anos. Desta forma, ele nos possibilita uma visão sintética e clara de nossa grave situação social e política, contribuindo também para a análise contemporânea a partir de duas categorias provocativas, as de populicídio e de democratura.
A. M.
Fios do tempo, 08 de abril de 2020
Bolsonaro comete
um “populicídio” no Brasil
Rio de Janeiro, 04 de abril de 2020
Desde a vitória de Jair Messias Bolsonaro nas eleições presidenciais de outubro de 2019, tudo mudou. Uma coisa é testemunhar a ascensão de um movimento populista; viver sob um regime populista que tomou o poder é algo completamente diferente. Não é tanto um populismo de extrema direita, como encontramos em outros lugares, mas uma extrema direita populista. As referências aos fascismos europeus da década de 1930 e à ditadura militar dos anos de chumbo (1964-1985), com uma apologia da tortura, são constantes. Em pouco tempo, o Brasil se tornou um Estado pária – mais próximo da Rússia ou da Índia do que da Hungria ou da Polônia – com os Estados Unidos no meio do continuum populista. Enquanto que outros países precisaram de uma década ou mais para chegar onde estão, o Brasil, com seu regime presidencial de modo americano, avançou sem nenhum custo. Passamos rapidamente da ameaça populista ao autoritarismo. Oficialmente, ainda somos uma democracia. O desmantelamento insidioso do Estado de Direito e os ataques incessantes às intermediações institucionais (a Suprema Corte, o Congresso, a mídia), no entanto, nos aproximam de uma “democratura”.
Nostálgico pela ditadura, Bolsonaro pratica o negacionismo histórico. Ao atiçar fogo na Amazônia, ele também pratica o negacionismo climático. Ao tratar do Covid-19 como uma “gripezinha” ou “resfriadinho”, ele também pratica o negacionismo científico. Em plena pandemia de coronavírus, ele convoca seus seguidores mais radicais para uma manifestação abertamente golpista contra o Congresso e a Suprema Corte. Como se um crime não fosse suficiente, ele tocou em um monte de gente sem máscara e sem precauções, mesmo sabendo que várias pessoas de seu ambiente imediato, que o acompanharam durante sua visita oficial aos Estados Unidos, estavam já infectadas. Ele minimiza os riscos da pandemia, vituperando-se contra as grandes mídias e acusando-se de fomentar uma “verdadeira histeria”.
Com três semanas de atraso, quase em todo o país, o isolamento social está ocorrendo. Escolas e universidades estão fechando, empresas estão acompanhando isso, e tememos o pior. Desde a emenda da Constituição pelo governo de Michel Temer em 2016, os gastos com saúde foram limitados… até 2036! No estado do Rio de Janeiro, o sistema de saúde entrou em colapso em outubro passado. O tráfico de drogas e as milícias paramilitares impõem um toque de recolher nas favelas. Nas farmácias, não existem máscaras ou álcool em gel. Além disso, como você lava as mãos quando não tem água corrente em casa? Como praticar o isolamento social quando uma família inteira vive em um quarto? E como você sobrevive quando não tem mais trabalho e renda, e tampouco poupança?
Como sempre, o governo está mais preocupado com a austeridade do que com a saúde. Bolsonaro chegou a autorizar a suspensão dos contratos de trabalho por 3 meses sem remuneração (mas recuou sob pressão popular), enquanto que Guedes sugeriu que o governo pudesse abrir seus cofres e doar 200 reais por mês para trabalhadores informais desempregados (aumentada para “generosos” 600 reais pelo Congresso). Para protestar contra a irresponsabilidade do presidente, os panelaços começaram a animar as noites de confinamento em todo o Brasil.
Em 24 de março, Bolsonaro fez um discurso fatídico, o “discurso da morte”, completamente irresponsável e criminoso. Contrariando todas as instruções oficiais da Organização Mundial da Saúde e de seu próprio Ministro da Saúde, ele pediu o levantamento imediato do isolamento social. Ao alegar que a crise econômica é muito mais mortal do que a crise da saúde, que o país não pode e não deve parar, que o Covid-19 não é mais perigoso do que uma “gripezinha” e que afeta apenas os idosos, que pessoas como ele, com sua “história de atleta”, não correm o menor risco, ele quis afirmar que somente Deus, a cloroquina e, obviamente, ele mesmo salvarão o país. Com isso, exigiu a reabertura imediata de escolas e lojas e anunciou a interrupção do “confinamento em massa”.
Ao criticar a mídia, atacar os governadores que praticariam a política da “terra arrasada” e pedir um retorno imediato à normalidade, ele politiza a crise da saúde até o limite. Baseado em um cálculo eleitoral enlouquecido, esperando que os efeitos da crise econômica sejam atribuídos a seus oponentes, Bolsonaro intencionalmente causa caos e semeia a morte. Comete ele um suicídio político?
A resposta de altos funcionários da República, governadores de estados da federação, prefeitos e sociedade civil, foi imediata: a política de isolamento social deve ser mantida e as diretrizes da OMS seguidas. É necessário, é claro, desenvolver uma política inteligente que atue tanto sobre o vírus quanto sobre a economia, mas a proposta de Bolsonaro de interromper imediatamente o confinamento para todos, exceto para as categorias em risco (“isolamento vertical”), a fim de recolocar a economia em marcha a qualquer custo, não é razoável. Como ele é incorrigível, não aprende e não fecha a boca, ele deve ser isolado e posto em quarentena. Assim como o coronavírus, o bolsonavírus é virulento e mortífero. Diante de um crime de irresponsabilidade, seria preciso instituir um processo de impeachment, mas o procedimento é longo e há urgência. Sem dúvida, seria muito melhor se Bolsonaro renunciasse, mas sabemos que ele não fará isso. Ele passa por cima de tudo que puder. Ele é capaz de declarar um estado de emergência e realizar um golpe contra si mesmo para estabelecer uma ditadura contra o caos que ele próprio criou. De qualquer forma, aconteça o que acontecer, será necessário que um dia um tribunal criminal julgue e condene ele e seu clã por “populicídio”, ou seja, por um homicídio em massa voluntário e premeditado.
Artigo escrito originalmente para o público estrangeiro
e publicado em Libération em 06 de abril de 2020.

Frédéric Vandenberghe é professor de sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IFCS-UFRJ)
Como citar este artigo:
VANDENBERGHE, Frédéric (2020), Bolsonaro comete um “populicídio no Brasil” (Ateliê de Humanidades), 07 de abril. Disponível em: https://ateliedehumanidades.com/2020/04/08/fios-do-tempo-bolsonaro-comete-um-populicidio-no-brasil-por-frederic-vandenberghe/
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