Fios do Tempo. Ir além da terapia: como o ato antidemocrático desafia a “nova esquerda” – por Nelson Lellis

Trazemos no Fios do Tempo mais uma contribuição para pensar o ato antidemocrático de 08 de janeiro. Neste texto, Nelson Lellis (UENF) analisa como a “nova esquerda” é desafiada pela mudança das exigências atuais. Saberá esta nova esquerda superar seus esquemas herdados a fim de formular uma política mais próxima às demandas concretas da população?

Desejo, como sempre, uma ótima leitura.

A.M.
Fios do Tempo, 10 de janeiro de 2023


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Ir além da terapia:
como o ato antidemocrático desafia a nova esquerda

No dia 08 de janeiro de 2023, uma semana após a posse do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), eleito no segundo turno das eleições com 50,90% (60.345.999) dos votos válidos contra Jair M. Bolsonaro (PL), que obteve 49,10% (58.206.354), as mídias nacionais e internacionais acompanharam, estarrecidas, a invasão da extrema-direita (seguidores de Bolsonaro) nas sedes dos três poderes, em Brasília. Cenas de vandalismo e destruição do patrimônio público, profanação de símbolos públicos e artísticos, ameaças a autoridades; tudo isso gravado por celulares dos próprios participantes da barbárie e postados em redes sociais sem corar o rosto.

Uma ação anunciada desde antes das eleições e sublinhada após o resultado das urnas (eletrônicas!) através de manifestações nas frentes de quartéis, estradas interditadas por caminhoneiros, que foram financiadas, sobretudo, por empresários cujos interesses confrontam com o passado e com as pautas defendidas pelo presidente eleito democraticamente. Além disso, a viagem de Bolsonaro e do secretário de segurança (já exonerado do cargo) Anderson Torres para os EUA chamaram a atenção. Não obstante, o pedido de desculpas do bolsonarista Ibaneis Rocha, governador do DF, e que, mesmo “assumindo” sua falha, fora afastado do cargo por 90 dias pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. Até que pela segunda vez na história do país, um presidente da república decretou a intervenção federal. Desta vez, no DF, com o objetivo de “pôr termo ao grave comprometimento da ordem pública no Estado no Distrito Federal, marcada por atos de violência e invasão de prédios públicos”.

Há que se reconhecer que o ato antidemocrático do dia 8 de janeiro não foi isolado. Ele também não aconteceu apenas entre brancos, como muitos identitários preferiram observar. Por ali, estavam pretos, pardos, amarelos. Não apenas militares, mas também comerciantes, desempregados, autônomos, professores – alguns deles com pós-graduação. Classe média misturada com outros que, aparentemente, foram levados por terem se vendido em troca de alguma promessa do empresário fulano. Não é possível descrever uma ação totalmente uniforme das polícias (que receberam críticas legítimas), pois muitos foram perseguidos e feridos na tentativa de defender o patrimônio público. Nem mesmo os cristãos que ergueram bíblias, que oraram, que cantaram hinos clássicos de “guerra espiritual” e que “profetizaram”, porque havia gente ali de outras matrizes religiosas e não-religiosas, que intercederam aos seus guias e demais influências. (O que se pode e se deve afirmar é que todos os envolvidos precisam ser punidos exemplarmente.)

Obviamente que é possível realizar enquadramentos. Analisar parte por parte, grupo a grupo, organização por organização, instituição por instituição. Mas… infelizmente, parece-nos que encarar uma parte e sentenciar como um todo tornou-se mais confortável para muitos. O Brasil é um país complexo e exige de nós uma hermenêutica rigorosa, com uso de instrumentos e conceitos adequados. Os memes têm tomado conta disso e muitos professores universitários buscam disfarçá-los em linguagem acadêmica a fim de mobilizar suas redes no intuito de defender “uma parte” de sua interpretação (que, claro, pode não estar equivocada!, reconheço).

Não tenho a pretensão de elaborar um plano ou análise de conjuntura, mas dedico algumas linhas a fim de considerar não os atos em si, mas os desafios que a esquerda enfrenta(rá) estando à frente do Governo.

Nosso país padece nas mãos de militantes da extrema-direita (que muitos classificam hoje como uma religião bolsonarista) que não surgiram ontem, sabemos disso. O governo Lula, que agora tem a possibilidade de sair de uma política (em grande medida) simbólica para uma política que age na realidade social, e grande parte de sua militância que lê pouco e manifesta-se em blocos nas ruas e nas cátedras, precisam articular uma nova equação política.

Primeiro, observar que a sociedade possui uma geração deliquescente, assim como pensaram Alain Besançon e Raymond Aron sobre a geração francesa de 1968. Ambos diziam do desmoronamento da autoridade como crise civilizacional. A hierarquia em uma sociedade é necessária. Não se pode pensar em instituições e hierarquia apenas na Praça dos Três Poderes. Ela deve permear a vida cotidiana. Os foucaultianos que me desculpem. Não digo com isso que sou favorável à alienação, à corrupção, à dominação pelo progressismo ou que se deve baixar a guarda para violências e atrocidades. Contudo, a civilização depende de autoridades e hierarquias. As escolas e universidades, por exemplo, não podem apadrinhar valores anticientíficos e/ou tratar ideologias de movimentos como axiomas pensando estar contribuindo para um país antirracista, não homofóbico, não misógino, enfim. Para Besançon, a queda da autoridade de pessoa para pessoa deve ser vista como fator determinante. E na escola, o professor é autoridade sobre o aluno, e não o contrário. Na família, filhos precisam entender quem coordena. Uma educação sem restrição e autoridade é desamor. No trabalho, as relações são mediadas. Esse é o mundo do adulto. A esquerda brasileira ainda tem fortalecido as fábricas de reorientação da identidade nacional que contrariam seus bons valores históricos e sua miscigenação – prova disso são os novos ministérios, como dos Povos Originários, e nomes que compõem os da Cultura e dos Direitos Humanos.

Segundo, acabar com esse sentimento de culpa histórica e exercer a Lei tal como deve ser exercida: para todos. E por que isso? Para deixarmos a iconoclastia de todas as coisas. As piores imagens da história, infelizmente, precisam estar presentes para que a história não se repita. Recontar a história através de um apagamento geral da realidade passada acaba descontando a ira em gente viva. Tocqueville dizia que a democracia é um processo histórico, portanto, a luta e seus registros no tempo não podem ser apagados, por mais que sejam doridos. A diversidade, enquanto conceito político, estabelece reinvindicações identitárias posicionando grupos para julgar mortos e vivos no interesse de refundar a sociedade a partir de um alto nível de arrependimento pelo passado e a eleição de um povo sagrado vindo das minorias oprimidas contra as maiorias, sempre opressoras. Não é surpresa quando enxergamos a identidade nacional sendo profundamente afetada, uma vez que se pretende emancipar as identidades minoritárias das maioritárias, como critica Mathieu Bock-Côté. O mesmo ressalta que a “soberania nacional é esvaziada de seu sentido a partir do momento em que a própria nação se vê desqualificada”[1]. É nessa senda que se fortalece o estigma social, a epistemologia da exclusão, onde o grupo minoritário e que protagonizaria a grande revolução seria aquele que se porta radicalmente contra a ordem social. Na década de 1970, quem já havia chamado atenção para isso foi Alain Touraine. Na sociedade pós-industrial, as reinvindicações dos movimentos sociais se modificam e um novo imaginário surge em seu meio (imigrantes, homossexuais, mulheres etc.). No início da mesma década, Jean-François Revel elencou uma nova lista de contestações, dentre os pontos: metamorfose dos costumes, revolta negra, o feminino contra o masculino, métodos não coercitivos na educação de crianças, culpa diante da pobreza etc. Portanto, a “nova esquerda” desenha aos poucos uma outra faceta para o proletariado, que são os “novos dominados” a partir das minorias onde o operário agora é o membro das margens culturais.

Terceiro, entender que revolução conduzida por intelectuais ideológicos, assim como as que ocorreram no século XX, pode fazer com que a realidade social se torne apenas uma realidade societal que, conforme defendia Frédéric Worms, trata-se de novos valores e costumes, enquanto que o necessário são as questões sociais (as questões materiais de que depende a existência humana: trabalho, renda etc.). Essa visão marxista ideológica, infantilizada, sonhadora, utópica precisa se converter à realidade. Como pensava Rubem Alves, em debate sobre Utopia com Darcy Ribeiro no Programa Diálogos Impertinentes, da Tv PUC-SP (1995), a utopia verdadeira e absoluta é perigosa. Vindo de tradição calvinista, alertou: “Calvino era um homem terrível porque tinha utopia. Por causa de sua utopia, queimou Miguel Serveto”. Destacou ainda que aquele que prega uma utopia dessas (absolutas) cria mecanismos cruéis contra os que são contrários. E manifesta sua inquietação: “Deus não é democrático. A trindade não é democrática. Só existe democracia numa sociedade onde Deus morreu”. Enquanto a ciência tem sido desclassificada pela utopia, os cristãos que se interpretam progressistas e que se veem contrariados em suas instituições por seus posicionamentos políticos, se voluntariam dia após dia na militância trazendo suas vocações e influências messiânicas para o proletariado.

Concluo. A “nova esquerda”, como pensava Jacques Ellul, parece não estar inclinada em emancipar o sujeito, pois seu esforço está em oferecer constantemente uma nova linguagem, uma outra revisão da história e uma atualização de valores e costumes na sociedade. Enfim, a esquerda tornou-se terapia.

Nota

[1] Bock-Côté, Mathieu (2019) O multiculturalismo como religião política. São Paulo: É Realizações, p. 20.


Nelson Lellis

Doutor em Sociologia Política (UENF). Bolsista pós-doc pelo PPGSP-UENF. Membro do Grupo de Pesquisa Dinâmicas Territoriais, Cultura e Religião (CRELIG) e do Núcleo de Estudos em Representação e Democracia (NERD). Tem experiência nas áreas de Ciência e Sociedade, Análise do Discurso, Sociologia da Religião, Filosofia da Religião, Primeiro Testamento (Bíblia Hebraica), Metodologia da Pesquisa. Desenvolve pesquisas sobre a interface Política e Religião no Brasil. Organizador das coletâneas: “Política e Religião à brasileira” (editoras Terceira Via / Recriar); “Religião e Violência” (ed. Recriar); “Israel no período Persa” (Editoras Loyola / Recriar). Colaborador no Fios do Tempo do Ateliê de Humanidades (Instituição de livre estudo, pesquisa, escrita e formação). Colunista e membro do Comitê Editorial da Revista Senso. Membro do Grupo de Pesquisa Dinâmicas Territoriais, Cultura e Religião (CRELIG).


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