Fios do Tempo. Números, mentiras e marketing – por Nelson Lellis

Hoje o Fios do Tempo tem postagem dupla. Depois do texto de Luiz Werneck Vianna que lembrou o esplêndido discurso de Ulysses Guimarães em 1973 para apelar à mobilização política e moral pelo “basta, fora já!”, publicamos agora à tarde mais um artigo de Nelson Lellis sobre o entrecruzamento entre religião e política. Tomando emprestado o conceitual de Bernard Manin para pensar nossa forma de representação midiático-política avessa à lógica dos fatos, Lellis analisa as tendências recentes de enfraquecimento do Governo Bolsonaro. Ele o faz assumindo o risco de ficar bem próximo ao calor dos fatos, como aquele que ocorreu hoje (dia 26 de janeiro) em que foi noticiado o pedido de abertura de impeachment por parte de distintas lideranças católicas e evangélicas.

Desejamos uma ótima leitura. Ou escuta!

A. M.
Fios do Tempo, 26 de janeiro de 2021




Números, mentiras e marketing: 
a realidade não explica o atual governo

Porciúncula-RJ, 26 de janeiro de 2021

No dia 15 de janeiro, a Carta Capital divulgou que os pedidos de impeachment cresceram 432% nas redes. Isso ocorreu após o Brasil ter ultrapassado 205 mil vítimas da pandemia causada pela COVID-19 e o caos gerado em Manaus pela falta de oxigênio em hospitais, causando a morte por asfixia de infectados pelo vírus. A Venezuela não apenas em um gesto de compaixão, mas de civilidade, enviou, no dia 18 de janeiro, 107 mil m³ de oxigênio para Manaus. Após o ato político (no sentido mais honrado do termo), notícias falsas nas redes sociais começaram a ser divulgadas. As postagens defendiam que a Venezuela não era a responsável pelo envio do insumo, e sim, a empresa White Martins. Uma dessas mensagens, postada um dia antes do envio do oxigênio, trazia a seguinte desinformação:

Esclarecer é preciso…
“A empresa BRASILEIRA White Martins, está importando de sua FILIAL na Venezuela, o estoque de oxigênio para Manaus.
Não é a Venezuela que está doando.”
#Fato

Na segunda-feira (18), dia em que os caminhões atravessaram a fronteira para o Brasil, a empresa em destaque informou que “o oxigênio que seria transportado da operação do grupo na Venezuela para Manaus foi solicitado pelo governo venezuelano para fazer uma doação diretamente ao governo do Amazonas em território brasileiro”. 

As notícias falsas que acompanham a trajetória do atual presidente ajudam a entender, mesmo com o crescente número de impeachment nas redes sociais, o aumento de sua popularidade nas pesquisas de 35 (dez/2020) para 37% (jan/2021). Há um elemento que não pode ser esquecido: o jogo político de hoje é realizado pela construção midiática do ator político, não pela realidade. Não importa se [alguns] veículos midiáticos têm mostrado a realidade, discutido heuristicamente a sociedade, porque as redes da mentira continuam sendo propagadas e os bolsonaristas (que são maiores que Bolsonaro e que continuarão após ele) ajudam a alastrar inverdades. A construção da imagem e do discurso enganosos por essa gente é que faz Bolsonaro, mesmo sendo classificado como genocida, ser ainda candidato viável para as próximas eleições.

É o filósofo francês Bernard Manin quem observou essa metamorfose no setor de representação na política. Para este autor, estamos na terceira fase da democracia. A primeira fase foi a democracia dos notáveis, em que o eleitor conhecia o político e mantinha, em certo nível, vínculo com o mesmo. A segunda é denominada democracia dos partidos; aqui, eleitores e políticos (candidatos ou já eleitos) possuem certa distância, uma vez que os partidos e sindicatos tornam-se seus mediadores. Por último, a democracia de auditório (ou audiência; ou midiática), em que os meios de comunicação ajudam a criar a imagem do político. Nesta fase, o político é um produto, um marketing que o ajuda na promoção diante da sociedade. 

É isso que Bolsonaro representa: um produto de marketing empresarial, eclesial, estadunidense (era Trump), com ares de autoritarismo. Ora… quem são os empresários que bancaram o disparo em massa de mensagens inverídicas no aplicativo do Whatsapp em época de eleição? Quais são as denominações religiosas que utilizaram de seus púlpitos para, repetidamente, alertarem contra o “comunismo” e em favor de um “homem de Deus” à frente do país; que agendavam constantemente campanhas de oração em favor de Bolsonaro; que divulgavam notas oficiais de apoio à candidatura do atual presidente? Quais as redes estadunidenses envolvidas com a campanha, com o governo de Bolsonaro, bem como com os ministros e as pessoas mais próximas? Quantos militares ocupam o quadro de ministros?  Aliás, vale lembrar que o atual ministro da saúde é militar, enquanto que os ministros que o antecederam, que eram favoráveis aos protocolos referentes à pandemia, foram exonerados de seus cargos. Diga-se de passagem, Bolsonaro declarou que são as Forças Armadas (FA) que decidem o regime: se democracia ou ditadura. Todavia, como de costume, se é altamente criticado, volta e tenta se ajustar no argumento; por isso, afirmou que as FA jamais aceitariam “convite” contra a democracia. 

O presidente é um produto neste período de metamorfose no setor representativo, que passa por larga crise. O fato de não estar vinculado a um partido a maior parte de seu mandato não permite interpretar suas ações e discursos à luz de um estatuto. Trata-se de uma espécie de personalismo do poder em que a imagem construída com tinta guache, que sai com água, está para além de um controle estatístico. É uma onda que não depende mais dele, mas de seus seguidores e do marketing produzido.

Poderíamos até, por exemplo, desdizer tudo até aqui e acreditarmos numa reviravolta com a pesquisa que fora divulgada no dia 22 de janeiro, em que Bolsonaro teve uma queda na avaliação de seu governo de 37 para 26%. Em relação ao impeachment, não apenas nas redes, conforme apresentei acima, mas já existe um movimento no Congresso, em que, até o dia 21 de janeiro, 111 deputados mostraram-se favoráveis ao impeachment contra 58. Ainda não se manifestaram 344 parlamentares. E no dia 24, a o Atlas Político (análise política baseada em ciência de dados (Big Data e High-frequency polling) divulgou os seguintes números:

É possível notar que nos meses de março a junho de 2020 – período de início dos protocolos em relação ao vírus no Brasil – havia uma maior tensão quanto ao impeachment. O número atual de favoráveis ao impedimento do presidente é expressivo não por ser o maior da série temporal, e sim, por voltar a crescer desde o mês de maio de 2020. Neste ambiente de mudanças, temos também a queda na avaliação do governo do segmento evangélico, tão acentuado desde sua campanha. Abaixo é possível notar a aprovação do referido grupo que, em dezembro/2020, era de 53 e passou para 40% em janeiro de 2021:

Líderes evangélicos que anteriormente sinalizaram positivamente para Bolsonaro, após contraírem o vírus, se pronunciaram favoráveis ao distanciamento social, uso de máscaras e a importância da vacina. Assim ocorreu com o presidente da Igreja Presbiteriana do Brasil, o reverendo Roberto Brasileiro, que ficou internado no hospital Sírio-Libanês durante 23 dias. 

Ainda assim, não é possível considerar a experiência dorida com o vírus de líderes e membros de igrejas evangélicas como sendo responsável pela aprovação em queda. Outros elementos podem ser citados, como: a tônica dada pelo Jornal Nacional, em horário nobre, sobre as decisões e mazelas do governo; o discurso e o percurso de Dória em favor da vacina e o bate-boca com o presidente (uma novela!); o distanciamento dos cultos presenciais que impede maior influência de determinados líderes sobre as massas (ovelhas totalmente perdidas); dentre outros aspectos.  

Por outro lado, temos já grupos cristãos reconhecidos como “progressistas” que se manifestam contrários ao governo mesmo antes dele iniciar, tendo como base as declarações do atual presidente sobre tortura, questões de gênero, cor, religião. E no dia 26 de janeiro, vários líderes cristãos, dentre eles católicos e evangélicos (de diferentes denominações), apresentaram ao Congresso um pedido de impeachment. Fazem parte da lista nomes como do bispo da Igreja Anglicana Naudal Alves Gomes, da presidente da Aliança de Batistas do Brasil Nívia Souza Dias, dos teólogos Leonardo Boff, Frei Betto e Lusmarina Campos Garcia. Segundo informações divulgadas, um dos principais argumentos é a “negligência na condução da pandemia de COVID-19”, que agrava a crise no país.

Mesmo diante de todas as manifestações nas redes sociais e de todo o esforço que temos visto (e que considero legítimos e necessários em uma democracia), dos números das pesquisas apresentados, lembramos da frase atribuída a Benjamin Disraeli, um político britânico do séc. XIX, que teria dito: “Existem três tipos de mentira: mentiras, mentiras sujas e estatísticas”. Com isso, reafirmamos que ainda é cedo para quaisquer prognósticos em relação às eleições de 2022. Muitas dissonâncias já foram discutidas e largamente denunciadas no atual governo e na família do presidente. Nada ocorreu. Aliás, Bolsonaro disse, após o assunto de seu impedimento ser sublinhado nas redes, que “se Deus quiser” terminará o seu mandato. Isso, se Deus quiser. Um Deus cujo partido é o Brasil, que está acima de todos, de mortos e de vivos, de favoráveis ou não.

Por enquanto, seguimos afirmando a metamorfose nesse campo democrático, bem como a produção marqueteira baseada em criações (a)políticas com intenção de manter o poder das instituições acima apresentadas. Da mesma forma, permanecemos observando o silêncio das ruas, cuja pandemia impede a aglomeração, e também a coragem de uma esquerda que gosta de se pronunciar nas redes mas que precisa relembrar também outra frase de Disraeli: “O momento exige que os homens de bem tenham a audácia dos canalhas”.

Nelson Lellis

É bolsista CAPES no Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política pela UENF (doutorado em andamento); mestre em Ciências das Religiões, especialista em Ensino Religioso e Teólogo pela FUV. Membro do Grupo de Pesquisas CRELIG (Dinâmicas Territoriais, Cultura e Religião).


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