Fios do Tempo. “É difícil defender, só com palavras, a vida” – por Lindoberg Campos

Em sua coluna quinzenal no Fios do Tempo, Lindoberg Campos abre uma nova seara em sua escrita, deslocando a reflexão do registro da história do Brasil e da atual crise política e cultural, para defrontar-se com uma tema existencial: “o que há diante da morte? O que existe diante da morte? O que é a morte?”.

Inspirado no poema “Morte e Vida severina“, de João Cabral de Melo Neto, e estando em interlocução com Sarte, Camus, Guimarães Rosa e outros, Lindoberg expõe sua face filosófico-existencial ao tocar no limiar da vida e da morte, exprimindo-o através de uma concepção de mundo que é tecido pela experiência corporal co-articulada narrativamente.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura.

A. M.
Fios do Tempo, 13 de novembro de 2021

Fonte das imagens:
Desenho Animado “Morte e vida severina”,
pelo cartunista Miguel Falcão, inspirado na poesia de João Cabral de Melo Neto.



“É difícil defender,
só com palavras,
a vida”

Bonito, Pernambuco, 08 de novembro de 2021

O que há diante da morte? O que existe diante da morte? O que é a morte? Três perguntas elementares que coletivamente podemos refletir quando pensamos sobre esse fenômeno comum a todos seres viventes. Sim, a morte seguramente já foi tema de profunda reflexão em determinado momento de nossas vidas, coletiva ou privadamente. Uma reflexão que busca reconstituir mentalmente uma percepção de experiência do instante em que a consciência finda sua participação nesse mundo. É evidente que cada “etapa” da vida que se cumpre, a cada dia que somos suscetíveis ao decorrer do tempo, algo nos é acrescentado sobre a reflexão acerca da morte. Acumulamos “experiência”, isto é, o conhecimento sobre a dinâmica do mundo vai se aperfeiçoando; elaboramos conexões entre fatos, consequências e previsibilidades; sentimos, experimentamos ou intuímos ações e afetos no contínuo experimentar da vida. A cada vez que retomamos seriamente essa reflexão interior sobre a morte torna-se mais evidente que viver é um risco. Mas é um risco se entendemos a morte como interrupção de uma experiência humana que deseja e aspira ao que convencionamos chamar “imortalidade”. É um risco se articulamos linguisticamente a experiência única e singular da morte. Diante e para além da morte há um profundo silêncio porque ela ultrapassa nossa capacidade de articulação linguística.

No livro “A Náusea”, Sartre constrói uma narrativa que evidencia que a realidade tal qual a experimentamos depende de um conjunto de percepções inúmeras, muitas das quais não deixa vestígio para uma futura reflexão. São percepções ínfimas, gravadas no seu tempo presente, portanto finito. É da ordem do pessoal, subjetivo, único, singular; porque depende exclusivamente de uma experiência privada e de um tempo singular. Se podemos concluir d’“A Náusea” que apenas vivemos aquilo que narramos, já que a experiência sempre singular do sujeito estará deslocada no espaço e no tempo, podemos então assentar a ideia de que a relação entre vida e morte é apenas linguística. A morte, aquele ínfimo instante em que o ser biológico já não responde àquilo que o animava; a morte, profundo silêncio no qual o sujeito já não mais articula a linguagem que o insere num determinado espaço e tempo. A morte só é possível como uma experiência de aproximação pela via linguística, já que sua experiência efetiva se dá pela “desarticulação de enunciação da linguagem”. É na linguagem que transmitimos e compartilhamos experiências. É na linguagem que realizamos a própria experiência porque o corpo faz parte de uma performance narrativa.

A vida, enquanto experiência singular de cada sujeito, é atravessada e constituída por diversas narrativas. Diversas articulações da linguagem que dão sustentação à permanência de sua experiência. É um contínuo acúmulo que se inicia com um processo biológico e ao longo do tempo se desenvolve com a capacidade de articulação da linguagem, seja na forma de aprendizagens das convenções simbólicas, seja na forma de tentativa de expressão em distintas e diversas plataformas. É por isso que a arte (enquanto articulação linguística e cultural) amplia a vida enquanto concretização das possibilidades. Daí porque Heidegger, filósofo alemão, interpretou que “viver é um risco” como campo de possibilidades. O risco é ir além da linguagem. A morte expressa o campo de possibilidades porque é evento único e tudo que se fala ou narra sobre ela é apenas uma articulação da linguagem. Ainda que nossa experiência humana esteja permeada por narrativas que dão sustentação à explicação do mundo, o que já afeta nossa própria reflexão sobre a morte, não podemos negar o fato da morte mobilizar um arsenal de recursos explicativos que buscamos cotidianamente reavaliar.

O personagem Severino, do poema cabralino Morte e vida Severina, se aproxima ao extremo da experiência de vida enquanto experiência de articulação da linguagem. A sua experiência é privativa, só a ele pertence. A nós, leitores de uma narrativa, resta-nos a aproximação da sua experiência pela narrativa que a exprime. Sua experiência não pode ir além da sua possibilidade de conhecimento e de experimentação. Se a morte é tema presente em sua jornada ao longo do rio Capibaribe, é porque mesmo que ela se exiba em sua forma metafórica (na “ave-bala” que mata; no corpo defunto carregado na rede; na miséria que a todo tempo exibe as imagens da morte no cemitério, no corpo do lavrador sacudido na cova rasa, a única parte que cabe a nós, humanos, nesse imenso latifúndio que é a vida. Ela só se realiza no nosso contínuo experimentar e narrar. A metáfora desloca o significado do significante. Opera um desajuste entre a realidade e nossa capacidade de expressão, rearranja em outras possibilidades de experimentações.

Quando, em diálogo com seu interlocutor, Mestre Carpina, Severino questiona “qual diferença faria saltar numa noite para fora da ponte e da vida?”, ele assim o faz porque já percebeu uma identificação da experimentação entre o possuir ou não consciência. A metáfora atualiza a experiência de vida que é por muitos compartilhada. Os cenários e personagens que ali se exibem naquela trama narrativa se reproduzem de diversas e inúmeras maneiras por outros cenários, tramas, enredos e personagens. Desde o momento em que se apresenta ao leitor e tentar articular sua identificação no mundo, percebe que as narrativas se repetem num ciclo de diferentes possibilidades. A morte, enquanto grande mistério linguístico, torna-se sedutora porque toca o limite da consciência. toda consciência se expressa na linguagem.

O que alimenta a experiência de Severino é a expectativa, a espera de que algo “novo” surja e amplie a experiência de sua singularidade. Quando indaga qual diferença há entre o ato de estar vivo ou saltar, metaforicamente, para fora da vida, é porque espera que a morte possa ser experimentada por meio da articulação da linguagem. Para Albert Camus, a única coisa que importava verdadeiramente ao humano era a questão do suicídio. E isto não apenas porque Vargas, quando afirmava que seu ato de suicídio era a liberdade para vida eterna e que representava uma saída da vida para entrar na História, seja o ponto balizador da avaliação. Mas a reflexão repousa na compreensão de qual narrativa nos conduz nessa jornada da vida. Talvez a humanidade esteja no caminho da compreensão das narrativas enquanto possibilitadoras de experiências de vida. Sabemos há tempos que muitas dessas narrativas podem ser conflitantes e operar “desajuste” entre a percepção de realidade necessárias à existência humana. A vida pode parecer da ordem do absurdo. E talvez o seja. Para Camus restava abraçar esse absurdo como parte constituinte da realidade. Cabendo ao humano apenas a experimentação.

Ao personagem Severino importava saber que outra vida haveria além daquela que ele já experimentou. É preciso fazer a linguagem plástica, é preciso que ela vá além da sua própria referencialidade. A linguagem se refere à própria experiência humana. Só narramos (e aqui entendamos narrativa como toda e qualquer forma de expressão do mundo) aquilo que vivemos, particularmente e coletivamente. Nossa experiência de mundo está condicionada aos limites dos termos da expressão linguística. Nossos corpos são condicionados por narrativas. Estas cumprem apenas uma pequena porção do manancial de possibilidades que existe. 

Algumas narrativas direcionam nossas experiências para tentativas de determinadas experenciações. Localizar-se histórica, geográfica, social, cultural e politicamente é compreender as dinâmicas externas que afetam nossa possibilidade de experiência. Um outro universo de narrativas nos atravessa naquilo que chamamos de psiquê humana. Um conjunto infinito de experiências sensoriais, conhecimentos múltiplos de mundo por meio de leituras, debates, conversas, observações, reflexões traumas, enfim, um conjunto ad infinitum de construções e compreensões de mundo que se tramam, dialogam e perfazem uma determinada experimentação.

A vida é, em tese, um conjunto infinito de possibilidades. Narrativas e experimentações. Possibilidades que se apresentam e que a linguagem se nutre, amplia, questiona, oferece, rebela-se, esgota e chega à sua aporia. A aporia é a impossibilidade, dificuldade extrema, ou mesmo desajuste linguístico entre a experiência de mundo e a percepção de possibilidades infinitas. Ou podemos compreender aporia como identificação. A morte como aporia da vida.

A linguagem é o mundo dos possíveis. É possível aproximar-se de uma compreensão de estruturação de vida a partir da teoria da narrativa. Há possibilidades de ajustar diversos personagens movidos por enredos e tramas inúmeros, narrativas que se operam em infinitos modelos de espaços e tempos que perfazem diversas narrativas possíveis. Todas elas possíveis de existir, dado que tomam a vida como referencialidade. No fim há a tentativa da explicação. A mesma pergunta do Severino se faz presente e permanente: que diferença faria saltar para fora da ponte e da vida? A resposta é o silêncio porque a morte é o fim da articulação da linguagem. Para além da morte há a possibilidade. O possível é ir além da linguagem e da referencialidade. Talvez exista o nada, e o nada pode ser tudo. O ciclo se fecha. Morte e vida severinas. Voltam ao início, ao ponto de tentativa de articulação do Severino. “Meu nome é Severino, não tenho outro de pia”. Era Severino, e nada mais. Um fenômeno, cuja narrativa última, independentemente de qual seja ou tenha sido, é a possibilidade. 

A morte é um fenômeno único, possível, singular. A ele só se participa uma única vez. O único problema que importa ao humano é operar a articulação da linguagem. Assumir retirar-se desse mundo por ato próprio que põe termo a uma determinada experiência é assumir a radicalidade da expressão linguística. Ao mestre Carpina, interlocutor do personagem Severino, diante da indagação peculiar, resta o mirar o horizonte e ainda articular a linguagem: “é difícil defender,/ só com palavras, a vida”. Cabe o experimentar, o perfazer, o prolongar até quando se pode ou se queira as narrativas a serem preenchidas nesse universo de possibilidades.

Talvez concordemos com Guimarães Rosa, talvez a morte seja uma volta à poesia. À plasticidade da linguagem, ao narrar, rememorar, fazer história. Experimentar a vida, singular, severina ou opulenta, idêntica a todos. Diante da morte há o silêncio articulado. 

Lindoberg Campos é professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), fundador-proprietário da instituição e marca Rodeador Cultural e livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades.



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por Anders Noren

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