Fios do Tempo. Um Deus que saiba dançar: retomar a palavra poética – por Lindoberg Campos

Trazemos hoje no Fios do Tempo um pequeno texto de Lindoberg Campos & André Magnelli, sobre a retomada da palavra poética como um modo de relação do humano com a realidade e com o divino. Costuramos aqui uma reflexão entre a filosofia, a literatura, a teologia e a poesia, dialogando com Fernando Pessoa, Montaigne, Nietzsche, João Cabral de Melo Neto e Hans Blumenberg. Trazemos também para o leitor alguns trechos poéticos de João Cabral, Nietzsche e Pessoa.

Com este texto começamos a pôr algumas indagações para o curso que começa no sábado, às 15h, “Entre Deuses e Humanos: diálogos mito-e teopoéticos”: será que o mundo nos aparece pelo sentir? Quem sou eu no mundo? Que mundo é este em que existimos? Como o mundo se articula pela palavra? Como se dá a relação entre filósofos, teólogos, poetas, legisladores e profetas? Qual a importância do mito e da poesia para a formação do nosso mundo?

Aos alunos, recomendamos a leitura para a primeira aula. E a todos desejamos uma ótima leitura. Caso queiram dialogar sobre o texto, só nos contatar.

A. M.
Fios do Tempo, 10 de março de 2021



Um Deus que saiba dançar:
retomar a palavra poética

Um mundo pelo sentir

Existem distintas formas do ser humano se apropriar de uma realidade para que se torne significativa. Indubitavelmente o poeta lusitano Fernando Pessoa possui uma singularidade quando o tema é a apropriação do mundo. Não apenas porque nos brindou com uma heteronímia ampla e complexa, com seus múltiplos nomes e caracteres, mas também porque ela parece condensar de forma plural tudo aquilo o quanto se falou sobre a realidade do mundo.

Quando se coloca diante de uma percepção originária acerca da pergunta elementar sobre o que é o mundo e sua realidade, tal qual a nomeamos, o poeta, através do seu heterônimo Álvaro de Campos, parece concluir que essa percepção está intimamente vinculada a uma possibilidade do sentir como forma de apropriação e construção da realidade. O sentir seria o modo pelo qual a verdade surge? Questão de difícil resolução e de longa história. Se tomamos como conceito de verdade a célebre definição de Tomás de Aquino – a verdade é a adequação do pensamento à coisa real (adequatio rerum et intellectus) – veremos que isso reduziria muito o alcance e a aplicabilidade no mundo real ao modo como o intelecto o constrói. Veja que aqui não estamos entrando no debate acerca de que a construção do conceito de real pelo intelecto seria uma reação a um estímulo externo ou não. Uma breve análise das culturas ao redor do mundo nos mostraria que cada uma, a seu modo, usava de diferentes formas de construir simbolicamente a realidade. 

Se aceitamos que o modo que privilegia a mente como construtora da realidade foi o que prevaleceu no Ocidente, perceberíamos como o posicionamento de Álvaro de Campos é um franco diálogo com essa forma de percepção e construção da realidade. O heterônimo de Fernando Pessoa diz que: 

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidades eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora

Em Álvaro de Campos, é preciso sentir em multiplicidade para entender uma ínfima parcela da realidade do mundo. É preciso construir na experiência única e singular de cada um para saber que a realidade em sua totalidade é uma ampla e complexa teia de interrelações. Deste modo, a percepção dos cinco sentidos seria uma parcela apenas da realidade do mundo; e de alguma forma ele é contrário à percepção que encontra em Descartes seu máximo bastião, a saber, a dúvida metódica nascida no seio do cogito racional.

Os rostos do mundo

O intento cartesiano não deixa de ser ambicioso e sedutor. Construir toda a forma de conhecimento pela máxima invariabilidade do fenômeno, decompondo a realidade ao mais elementar, que é certo, evidente e necessário, para daí desenvolver dedutivamente o conhecimento da coisa, é interessante, tentador, mas não menos falha em seu projeto. Digo falha porque já se demonstrou sua incapacidade de universalidade ao longo do tempo. As próprias vozes contrárias que se levantam ao projeto de ciência crítica (Giambattista Vico e Michel de Montaigne) ou as que propõem contemporaneamente outras vias de conhecimento (o empirismo do Novum Organum de Francis Bacon) são exemplos que sua linguagem filosófica não conseguiu dirimir as dúvidas acerca da realidade. Continuou-se a construir outras formas de acesso ao conhecimento. Essas novas formas se juntam às estabelecidas e ampliam cada vez mais o conhecimento dinâmico, e muitas vezes antagônico, acerca da realidade do mundo. À revelia cartesiana, essa multiplicidade do conhecimento é a própria realidade ampla e dinâmica constitutiva do humano. Ou, como nomeara Montaigne, em uma metáfora retomada por Hans Blumenberg em Naufrágio com Espectador, são os “rostos do mundo”:

A metáfora fixa aquilo que não aparece, no aspecto objectivo, entre as propriedades de um prado, e [fixa] também o que não é acrescento subjectivo e fantástico de um observador que, apenas para si, consegue descortinar na superfície de um prado os contornos de um rosto humano (um jogo típico das visitas a grutas de estalactites). Ela gera isto ao atribuir o prado a um inventário de um mundo da vida humano, no qual tem “significados” não só as palavras e os sinais, mas também as próprias coisas, cujo arquétipo antropogênico poderia ser o rosto humano com o seu incomparável significado de situação. A metáfora por este conteúdo semântico já foi encontrada por Montaigne: le visage du monde [o rosto do mundo].
(Hans Blumenberg, Naufrágio com espectador, p. 106)

Essa definição de Montaigne é muito ampla e metafórica, o que faz um antagonismo em relação ao cartesianismo, que requer uma exatidão na linguagem e uma invariabilidade do fenômeno. “Os rostos do mundo” dizem muito sobre nossa realidade, no entanto, pouco a definem. Essa definição é o que requer as tradições racionalista, empirista e positivista, e sua impossibilidade é o que encanta aqueles que aceitam a imprevisibilidade da linguagem e sua insuficiência e inacabamento.

Quem sou eu no mundo? Que mundo é este em que existimos?

Sim, a insuficiência da capacidade da linguagem dizer alguma coisa pode parecer belo para alguns e desesperador para outros. Se eu não posso dizer definitivamente o que é o mundo, se não posso enumerar e explicar suas mínimas unidades e como tudo funciona, como posso viver neste mundo?

Essa pergunta é semelhante àquela do personagem de João Cabral de Melo Neto, Severino, em Morte e vida Severina. Após uma experimentação acerca da vida quando decide migrar junto ao rio Capibaribe, o personagem chega a uma conclusão acerca da invariabilidade entre o estar-no-mundo e o não-estar. Ao se deparar com o término de sua odisseia experiencial, o personagem pergunta a seu interlocutor: qual diferença faria entre saltar, uma noite, para fora da ponte e da vida? Essa pergunta é singular, e nos remonta a Albert Camus, quando punha em O mito de Sísifo (1941) que a única questão humana que verdadeiramente importava era a questão do suicídio.

Ora, evidentemente o personagem de João Cabral coloca-se diante de uma aporia experiencial em que não opera mais uma diferenciação entre ter a consciência do mundo ou não, ainda que ele não saiba se a finitude da matéria significaria o termo da consciência. No entanto, o que alimenta a experiência do personagem e sua permanência em estado de consciência é a articulação da palavra. Quando solicita uma explicação a seu interlocutor está evidente que a vida se sustenta na articulação da palavra na relação com outrem, naquela que articula a adequação da percepção à coisa real. 

A pergunta é muito filosófica, mas antes de tudo ela se refere ao próprio eu, ao próprio experimentar o mundo. Quando experimentamos o mundo e o percebemos, então fazemos as perguntas fundadoras da existência. Mas, ao experimentar o mundo, quem me fornece a informação e faz eu ter consciência da minha própria consciência? É a mente ou são meus sentidos sensoriais? A depreensão dessa reflexão a encontramos em Descartes. Ainda que, ao seguirmos sua proposta de reflexão, nos deparemos com conclusões distintas da sua e passemos a questioná-lo.

O que nos interessa nesse primeiro momento é tentarmos refletir sobre essa pergunta: quem sou eu no mundo? Essa pergunta traz duas outras questões implícitas em seu bojo, mas que só se realizam quando há uma interação recíproca. “Quem sou eu?” só nasce quando percebemos que não somos únicos no mundo. A percepção de mundo (outros, tudo aquilo externo à minha percepção) não é anterior nem posterior ao “quem sou eu?” porque ambas nascem no mesmo instante, são co-originárias. Quando assim concluo já estou a nomear (id est) o mundo ao meu redor e construir minha capacidade de acesso à realidade, de apropriar-me de um mundo, que pode ser comungado ou não por outros, mas que só existe com outros.

O poeta, a palavra e o mito

O ato de nomear faz a vir a ser aquilo que existia em potência. Na Grécia, aquele que fazia vir a “ser aquilo que ainda não era”, esse era o poeta. Em Íon, Platão já elogiara o poeta por assim o fazer. Veja que o que se apresenta aqui é a figura daquele que dá ordem às coisas. A palavra do poeta era uma palavra mágica porque organizava a pólis de acordo com aquilo que dizia (ou escrevia). Eis nossa herança ocidental. A palavra tornou-se o canal, ou mesmo o modo, pelo qual a realidade se fazia.

A palavra é originária, dela se depreende todo o restante, o que domina a palavra domina a pólis na Grécia, o poder em Roma (legis) e o respeito e lugar de direção em muitas comunidades “arcaicas” (como mostra, por exemplo, Pierre Clastres em Sociedade contra o Estado). Se a palavra articulada em textos ou declamações era a palavra ordenadora, então seria preciso combater aquele que a domina, o poeta que, em um passo, pode se tornar o profeta. Mas como combater aquele que goza de escuta e confiança? Talvez subvertendo-o por meio de seu próprio recurso: a palavra poética. 

Assim o fez Platão, por meio não só da palavra articulada (quando Sócrates ensinava seus discípulos) mas sobretudo pela palavra condensada (texto escrito). O mito dos deuses só se combate por outro mito, tido como melhor. Nasce o Sócrates personagem platônico que se era real ou não passa a sê-lo quando ganha a força da escrita. Eis a força da palavra. Platão nos apresenta um novo modelo, o filósofo: ele goza do mesmo privilégio do poeta (em Íon ambos são inebriados pelos deuses, mas só o filósofo tem consciência de seu inebriamento).

Um Deus que sabe dançar?

Veja que, em nossa história Ocidental e moderna, deu-se bastante privilégio à mente, ao racional, àquilo que desfragmenta a realidade em potências mentais que transformam múltiplo em um. O poeta era inebriamento, embevecido não sabia o que dizia, fazia ou dançava. No privilégio do racional, é preciso ser sóbrio e ter consciência do julgamento acerca da realidade que nos circula. Um Deus puramente racional, este Deus, não pode dançar. Este certo Deus, presente na tradição judaico-cristã, não pode dançar porque é sobriedade, é seriedade. Mas, como mostra o teólogo-poeta português José Tolentino Mendonça, atual Arquivista do Arquivo Apostólico do Vaticano e Bibliotecário da Biblioteca Apostólica Vaticana, na Cúria Romana, há um Deus que dança.

A desvinculação da ideia de Deus de uma materialidade ocorrida pelo monoteísmo vai se operando aos poucos no judaísmo com a proibição da construção de ídolos. Deus não é material. Isto até certo ponto, ou até o momento que, no cristianismo, ele se faz matéria, ou melhor, carne.

E a palavra se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). A palavra originária do “faça-se” (Gn 1,3) converte-se em carne. O mundo, tal qual o conhecemos, nasceu da articulação da boca de Deus, ele articulou a palavra, e ao articulá-la a realidade se realiza. Ora, mas como sabemos que a realidade veio da articulação da palavra? Porque Deus, sendo Deus, princípio e origem de tudo assim o quis.

Quem nos diz isso é o teólogo, que se torna o intérprete da realidade que faz sucumbir ou se submeter, ao longo dos séculos, o filósofo e o poeta. Estes já não podem dizer nada de último, nada de fundamental; com o teólogo tornado sacerdote, o poeta se silencia, ou então é silenciado; mas com o dogma a repetir, o teólogo é também silenciado no seu possível dizer significativo. Sendo repetição, varia apesar disso, mas é uma repetição sem querer criar. Mas, lembremos, antes mesmo do teólogo, que busca a invariabilidade do conceito tal como o filósofo, havia o profeta, que falava pela sua intuição ou percepção de mundo que supunha só a ele pertencer, que professava para seu povo e cidade e, quiçá, para todo o mundo e universo. Cabia pela sua boca a manifestação histórica de Deus no tempo e no espaço.

Escutar o homem louco e retomar a palavra poética

Estamos diante de pretendentes a falar sobre em que consiste o fundamento último da realidade, o mundo em si com seus valores. Nesta pretensão, o teólogo e o poeta se mostram em conflito e tensão, onde a ideia de Deus pode ser ocupada por pretendente ideal monopolizador, aquele que diz aquilo que é e o que não é, e ninguém mais, em absoluto. Com suas ferramentas, este teólogo sacerdotal busca estabelecer a forma adequada e última da realidade, pois tem o conhecimento de Deus, impondo Sua vontade aos crentes e descrentes.

Mas quem nos fez conhecer a Deus também foram outros, os poeta e profetas, orais ou escribas, que põem em caracteres escritos a história e a dinâmica do divino. Neste sentido, não poderíamos conhecer a Deus se não fosse através de sua história, ainda que não se possa fazer uma história de Deus.

É Nietzsche quem nos apresenta a história de Deus quando coloca na boca do homem louco a sua busca e consequentemente seu crepúsculo. A busca do homem louco que, no mercado, levanta uma lanterna à frente e pergunta por Deus, não reduz sua pretensão de efetividade a um mero adorno literário. Ela se potencializa quando coloca em xeque um fator estabilizador de uma concepção de verdade e realidade. Se Deus está morto está aberta uma lacuna a ser preenchida, uma nova possibilidade se faz presente (ver aforismo 125 de Gaia Ciência no apêndice abaixo).

Podemos concordar com o poeta Fernando Pessoa, na sua forma heteronímica de Alberto Caeiro, nos rastros do homem louco nietzschiano, dizendo que “Pensar em Deus é já desobedecer a Deus, porque Deus quis que o não conhecêssemos”; ou afirmando que “há metafísica bastante em não pensar em nada”. Em qualquer lugar que repouse nossa conclusão, o que se faz evidente é que a construção da realidade sempre se alimenta do resto que ainda fermenta e usa de sua força para criar uma nova possibilidade.

Mas se palavra se fez carne ou apenas se articula na escrita (que também é um corpo) pouco importa. Importa-nos apenas saber da sua força simbólica e material efetiva. Toda vez que é articulada, a palavra faz vir a ser aquilo que apenas existia em potência.

Não nos enganemos sobre essa força. Abramos nossa Constituição da República Federativa do Brasil e vejamos o que escreve nosso legislador, outro pretendente ideal a dizer qual a realidade adequada. Ele pretende ser o novo poeta, o filósofo transformado, o profeta contemporâneo e teólogo inconteste. Foi sua palavra escrita que fez o Estado; construir essa complexa máquina estrutural que faz ser o cidadão, faz movimentar a roda da economia (essa grande ciência do intelecto), faz surgir estruturas que organiza, ensina e pune aqueles que não aceitam a realidade por ele construída. O fato de esta palavra legisladora e instituinte ter sido mediada ou não pelo divino faz parte de uma disputa entre pretendentes, fato que diz muito sobre as relações entre religião e política, Igreja e Estado, no Brasil contemporâneo.

Propomos, assim, nesta primeira aula, a ousadia de retomar a pretensão do poeta, a atividade do que definiremos como mitopoética (ou teopoética). Sem querer fazer tábula rasa do que é e está aí, podemos experimentar a (re)criação dos conhecimentos do real elaborados pelo teólogo, pelo filósofo e pelo legislador, ativando a imaginação para criar outra realidade ou não aceitar passivamente aquela que se fez vir a ser como é.

Experimentos isso e veremos o poder que a palavra possui. Talvez concordemos que, ainda assim, a palavra articulada pelos pretendentes ideais não possua uma efetividade (basta abrir a Constituição na parte dos direitos sociais ou os evangelhos quando trazem o mandamento do amor). E se assim concluirmos, aceitemos o fato que a palavra é provisória e insuficiente. E, por isso, deve ser retomada, sob pena de corrupção, no sentido original do termo corruptione (como um pôr em pedaços, uma fragmentação, uma perda de existência e degradação). Sem retomar o poético da palavra, a realidade perde seu sentido e se desintegra.

Ótimo, acabamos de concluir uma parte da reflexão acerca da realidade do mundo. Em breve, outro escrito virá, outra realidade se fará e entraremos em mais uma concepção de realidade: talvez a do eterno retorno do mesmo, talvez o renascimento sempre porvir. Mas ainda assim não responderemos à pergunta do personagem Severino: é preciso buscar mais uma resposta, e quem poderá articular, neste momento, a palavra criadora

Sugestões de leitura

CAMPOS, Álvaro de (PESSOA, Fernando) Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir (http://arquivopessoa.net/textos/2854)

CAEIRO, Alberto (PESSOA, Fernando) Eu nunca guardei rebanhos (http://arquivopessoa.net/textos/1456)

_______. Pensar em Deus é desobedecer a Deus, Alberto Caeiro (http://arquivopessoa.net/textos/1482)

_______. Há metafísica bastante em não pensar em nada, Alberto Caeiro (http://arquivopessoa.net/textos/1482)

BRASIL. Constituição Federal (http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm)

Apêndice

Trecho de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto

— Seu José, mestre carpina,
que habita este lamaçal,
sabe me dizer se o rio
a esta altura dá vau?
sabe me dizer se é funda
esta água grossa e carnal?
— Severino, retirante,
jamais o cruzei a nado;
quando a maré está cheia
vejo passar muitos barcos,
barcaças, alvarengas,
muitas de grande calado.
— Seu José, mestre carpina,
para cobrir corpo de homem
não é preciso muita água:
basta que chegue ao abdome,
basta que tenha fundura
igual à de sua fome.
— Severino, retirante,
pois não sei o que lhe conte;
sempre que cruzo este rio
costumo tomar a ponte;
quanto ao vazio do estômago,
se cruza quando se come.
— Seu José, mestre carpina,
e quando ponte não há?
quando os vazios da fome
não se tem com que cruzar?
quando esses rios sem água
são grandes braços de mar?
— Severino, retirante,
o meu amigo é bem moço;
sei que a miséria é mar largo,
não é como qualquer poço:
mas sei que para cruzá-la
vale bem qualquer esforço.
— Seu José, mestre carpina,
e quando é fundo o perau?
quando a força que morreu
nem tem onde se enterrar,
por que ao puxão das águas
não é melhor se entregar?
— Severino, retirante,
o mar de nossa conversa
precisa ser combatido,
sempre, de qualquer maneira,
porque senão ele alaga
e devasta a terra inteira.
— Seu José, mestre carpina,
e em que nos faz diferença
que como frieira se alastre,
ou como rio na cheia,
se acabamos naufragados
num braço do mar miséria?
— Severino, retirante,
muita diferença faz
entre lutar com as mão
se abandoná-las para trás,
porque ao menos esse mar
não pode adiantar-se mais.
— Seu José, mestre carpina,
e que diferença faz
que esse oceano vazio
cresça ou não seus cabedais,
se nenhuma ponte mesmo
é de vencê-lo capaz?
Seu José, mestre carpina,
que lhe pergunte permita:
há muito no lamaçal
apodrece a sua vida?
e a vida que tem vivido
foi sempre comprada à vista?
— Severino, retirante,
sou de Nazaré da Mata,
mas tanto lá como aqui
jamais me fiaram nada:
a vida de cada dia
cada dia hei de comprá-la.
— Seu José, mestre carpina,
e que interesse, me diga,
há nessa vida a retalho
que é cada dia adquirida?
espera poder um dia
comprá-la em grandes partidas?
— Severino, retirante,
não sei bem o que lhe diga:
não é que espere comprarem grosso de tais partidas,
mas o que compro a retalho
é, de qualquer forma, vida.
— Seu José, mestre carpina,
que diferença faria
se em vez de continuar
tomasse a melhor saída:
a de saltar, numa noite,
fora da ponte e da vida?

Nietzsche, Gaia Ciência, Aforismo 125

125. O homem louco. — Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? — E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? — gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós o matamos — vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós, ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? — também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e mais sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais — quem nos limpará este sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve um ato maior — e quem vier depois de nós pertencerá, por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!” Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele. “Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação — e no entanto eles o cometeram!” — Conta-se também que no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas, e em cada uma entoou o seu Requiem aeternam deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”.

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