Fios do Tempo. Sou um comparatista? – por Luiz Costa Lima

No texto de hoje no Fios do Tempo, o filósofo e crítico literário Luiz Costa Lima se pergunta: “sou um comparatista?”. Refletindo em voz alta na busca de uma resposta, ele reconstitui sua trajetória acadêmica entre Brasil, EUA e Alemanha, em um relato biográfico que se entremeia à história de sua geração.

Ao chegar ao esclarecimento retrospectivo de seu ofício de comparatista, Costa Lima explicita como esse se articula com as investigações sobre o controle do imaginário, a mímesis e a ficção, defendendo então que, para que seja realizada uma boa literatura comparada e crítica literária, faz-se imprescindível a construção de uma teoria da literatura que demanda um labor ainda mais cuidadoso do que o dispensado na reflexão filosófica. 

A. M.
Fios do Tempo, 11 de novembro de 2021



Sou um comparatista? [1]

Luiz Costa Lima

Nunca fiz meu curriculum vitae e agora dele preciso para que precise minha identificação como comparatista. Sou por isso forçado a fazer seu esboço, ainda que com incertezas sobre certas datas.

É certo que minha pré-história intelectual começa em 1961-2, quando estive em Madri, na condição de bolsista. Como então os diplomas de mestrado e doutorado não eram importantes, contentei-me em retornar com o certificado do curso do Instituto de cultura Hispánica. (Hoje sequer sei onde ele está).

Retornei então ao Recife, onde tinha vivido toda minha vida, desde que fora para aí trazido com meses de idade. Em fins de 1962, era assistente da literatura brasileira, na Universidade Federal de Pernambuco (então chamada do Recife). Não demorei muito por lá porque, depois de transferido para trabalhar com Paulo Freire, no SEC (Serviço de extensão cultural), na condição de secretário da revista Estudos Universitários, o golpe militar de 1964 tornou-me o benjamin dos aposentados. Tinha então 27 anos. Que terei feito de tão grave, eu mesmo não sei, além de que era membro do grupo que trabalhava com Paulo Freire – para os defensores do golpe, considerado um antro de comunistas – e haver me tornado desafeto da figura mais relevante da direita em Pernambuco, Gilberto Freyre.  

Em outubro de 1964, estava no Rio e foi no hotel Novo mundo, em Botafogo, que ouvi meu nome incluído no AI/1. A partir de 1965, serei professor da PUC (RJ). Aqui, começa minha história intelectual propriamente dita. Lembro-me da entrevista que tive com o então diretor do Departamento de sociologia, o padre Ozanam. (Como havia feito o curso secundário com os jesuítas no Recife, no Colégio Nóbrega, suponho que um de meus ex-professores, possivelmente o Pe. Paulo Menezes, futuro tradutor da Fenomenologia do espírito, de Hegel, tenha falado a ele de minha situação difícil). O então diretor me convidava para ser professor na sociologia. Como lhe dizia que minha formação (quase tão só de autodidata) era em letras, ele me respondeu que, se me indicasse para o Departamento de letras, no dia seguinte, teria sido denunciado e expulso. Na sociologia, em troca, teria a vantagem de ninguém me conhecer. O argumento era convincente. Fui aí professor de sociologia da comunicação de massa. Como não havia sequer bibliografia disponível em porutuguês, preparei a seleção de títulos que até hoje se republica, com o título de Teoria da cultura de massa. (Me desculpo em levar tanto tempo para reconhecer meu débito aos dois jesuítas. Sem sua ajuda, não teria continuado a ser professor).

Creio que em 1968, sendo então recrutados docentes para o curso de pós-graduação em letras, na PUC, fui chamado para me transferir, na condição de responsável pela teoria da literatura. Era profissionalmente uma vantagem, embora pequena, em razão do que relato. Ao ser convidado, tinham-me dito que se abriria a possibilidade de fornecer-se o diploma de mestre em literatura brasileira, portuguesa ou em teoria. Quando a autorização saiu, eram contemplados apenas os cursos de literatura brasileira e portuguesa. Nunca tive oportunidade de saber se era verdade o que um dos colegas me relatava. Dizia ele que, quando a proposta do curso de pós foi levada ao Conselho de educação, um de seus membros teria dito que a condição para que fosse ela aprovada era que o requerimento de mestrado em teoria, de que eu era responsável, fosse retirado. Passei a ter por colegas Affonso Romano, Cleonice Berardinelli, Gilberto Mendonça Teles e Silviano Santiago. Ao contrário deles, não podia orientar teses, em minha área específica. Essa situação assim se manteve até que se abrisse a pós, em História, na mesma PUC.

Em 1971, recebi o que viria a ser minha primeira bolsa na Alemanha. Não deve ter sido maior do que por um período de três meses. Por certo, eram bem poucos, mas foram suficientes para que, em Köln (Colônia), tomasse conhecimento das estéticas da recepção e do efeito, que davam seus primeiros passos. Ainda na Alemanha, preparei uma seleção de textos sobre as ditas direções – A Literatura e o leitor (1979). Portanto, se a passagem  para Letras permitiu que me dedicasse totalmente à área que mais me interessava, a entrada no Departamento de História foi o fator institucional que possibilitou dar um rumo preciso à minha busca de especialização.

Embora não recorde com clareza a situação que vivia, creio que, entre 1965 e princípio dos anos 70, tenha sido para mim um tempo de muito trabalho disperso e de extrema carência financeira. É sabido que a PUC paga pouco a seus professores. Entre 1965 e 1968, o pouco que ganhava era compensado como revisor da Editora Vozes. Logo depois, como funcionário da empresa que preparava a edição da Enciclopédia Delta. Mas, em vez de amargura, lembro-me deste período pelo contato com a figura formidável que era Otto Maria Carpeaux, além de ter como colega de sobrevivência Sebastião Uchoa Leite. Foi na condição de membro da equipe que preparava a enciclopédia que fui avisado por uma ex-aluna, já então antropóloga, da importância que passavam a assumir os diplomas de mestre e doutor. (Sem que considere isso alguma vantagem, verifico que sempre fui um inapto para o que se chama a “vida real”. No caso, só assim soube do que de mim se exigia). Por sorte, substituindo por um curto período Zuenir Ventura, tinha tido por aluna uma filha de Antônio Candido. Devo a ela, o professor Candido haver-me aceito como seu orientando. A Candido ainda devo não ter precisado fazer o mestrado, porque ele assim o declarava. Como eu tinha então dois livros publicados, a USP me concederia o título de mestre. Assim sucedeu e, em 1972, defendia a tese de doutorado.

(Não entro em detalhes, apenas anoto que não pretendo que tenha sido tão simples. Enquanto, naquele momento, descobria o estruturalismo de Lévi-Strauss e, por conselho mesmo deste – por carta que não consigo reencontrar – não me interessava pela crítica estruturalista, tendo Roland Barthes como seu nome mais celebrado, a USP – em movimento corajoso e muito digno, se opunha à ditadura em que permanecíamos mergulhados – considerava o estruturalismo associado ao pensamento de direita (!). Por isso a defesa de tese que tinha por objeto o estruturalismo na literatura não podia suceder sem algum muito ruído. A banca, em cuja constituição não tive papel algum, era unanimente contrária ao que eu apresentava. Seu único membro que poderia ser-me favorável, a professora Leyla Perrone-Moisés, era (e é) uma barthesiana fervorosa e estranhava que uma tese sobre o tema não se referisse a seu crítico de eleição. (Havia trazido comigo a carta de Lévi-Strauss em que ele definia a crítica literária estruturalista como science fiction. Em um acesso de bom senso, resolvi não a ler). Lembro que, estando Haroldo de Campos na plateia, ante a objeção de um dos primeiros membros da banca que eu escrevera “decolar”, quando deveria ter dito “descolar”, Haroldo, com seu vozeirão, exclamou: devemos então dizer que o avião descolou! A risada da plateia não deve ter-me ajudado (Nem sempre as objeções eram desse nível, mas, com alguma frequência, sim).

De volta ao Rio, solicitei de um dos diretores da PUC que cumprisse o que prometera: a passagem para tempo integral dos professores que se tornassem mestres ou doutores. Assim minha situação financeira melhorou e pude abandonar a fragmentação de tempo na enciclopédia. Mas a permanência da ditadura era um pesadelo constante. Contra isso, outro fator me ajudou. Durante minha permanência em Köln, havia feito amizade  com Hans Ulrich Gumbrecht, então assistente de Hans Robert Jauss. Dando mostras de sua incrível capacidade de influência e aglutinação, Sepp Gumbrecht conseguiu verba suficiente para patrocinar um simpósio em Dubrovnik, então Iugoslávia. Mais do que um, os simpósios se sucederam a cada dois anos, por toda a década de 1980, dando lugar a cinco volumes publicados pela Suhrkamp. Em um dos simpósios, conheci um professor polonês, já radicado nos Estados Unidos, Wlad Godzich, ex-aluno de Paul de Man e seu futuro editor. Por ele, soube que a University of Minnesota iria proximamente abrir um concurso no Departamento de espanhol e português. Creio que assim sucedeu em 1982/3. Candidatei-me e ganhei a posição. Ao preparar-me para ir, com aquela que se tornou minha companheira de toda a vida, Rebeca Schwartz, nosso filho pequeno, Daniel, e um dos filhos de meu primeiro casamento, Henrique, estava certo que era uma mudança para sempre. Por isso remeti toda minha biblioteca, que já não era pequena. Perdi muitos livros então. Wlad me prometera que logo conseguiria minha transferência para o Departamento de literatura comparada. Ao chegar em Minneapolis em 1984, no entanto, ele já havia partido para o posto que havia ganho em Montréal. (Meu aprendizado da “vida real” foi sempre feito na base de sustos e choques).

Em Minneapolis, a expectativa que eu tinha quanto à qualidade dos corpos docente e discente de uma universidade norte-americana logo se me mostrou demasiado ingênua. Por isso minha permanência maior não era no departamento a que estava filliado mas sim na biblioteca – essa sim, impecável. À sua qualidade devo os volumes dois e três do que agora está publicado com o título de Trilogia do controle (2007). A permanência na biblioteca geral da Universidade diminuía a sensação de desengano pelo Departamento. Não era só que não me interessava ensinar apenas literatura brasileira, mas sim que os colegas que tinha e o corpo discente de que dispunha não justificavam a expatriação a que me submetera. Junto à minha pouca habilidade para as condições da “vida real” – do ponto de vista financeiro, era por certo vantajoso estar em uma universidade americana – essa foi a razão por que, ao receber a proposta de tenure (permanência), legalmente estabelecida, a ser oferecida depois de dois anos do concurso, e que após a aceitação do candidato, haveria de ser confirmada pelo conjunto do corpo docente, não dei oportunidade a que meus colegas se manifestassem porque a recusei de imediato. (Lembro que isso terá parecido tão inédito que alguns colegas, ao oferecerem um jantar de despedida, me perguntavam que teria sido feito de tão grave para que preferisse retornar ao Brasil). Assim, em 1986, estava de volta aos quadros da PUC. Financeiramente, a situação era bem melhor. Em consequência da anistia concedida pelo ditadura já moribunda, em 1979, havia sido deslocado para a Universidade Federal Fluminense. Além disso, a pós na UERJ fora aberta e a grande amiga Dirce Côrtes Riedel me levara para integrá-la. (se estiver certo, o  concurso para professor titular de Teoria se realizou em 1994). Ao voltar para o Rio, pude pedir minha aposentadoria no serviço federal. Como então se abria o curso de pós-graduação em História, na PUC, aceitei de imediato o convite que me era feito por meu ex-aluno e saudoso amigo Ricardo Benzaquen para que me transferisse.

Algum dia, terei de precisar melhor quando recebi minha segunda bolsa na Alemanha. Estou certo que a tive graças ao amigo Wolf-Dieter Stempel, junto a quem estive, em 1993, em Munique. Estou certo apenas que o conhecia enquanto era membro do departamento de Letras. Também a Stempel devo o melhor prêmio que recebi: o Forschungspreis (prêmio de pesquisa), concedido para o ano de 1992, pela Alexander von Humboldt Stiftung, na área das Literaturwissenschaften (ciências da literatura), nome que a teoria da literatura recebe na Alemanha.

Paradoxalmente, o prêmio foi a razão para que não aceitasse a função de professor na Freie Universität Berlin, a que tinha direito por haver ganho o concurso respectivo. Explico a recusa de modo sumário. Como o prêmio supunha que devesse estar em Munique, local em que ensinava o promotor do prêmio, o professor Wolf Stempel, no mesmo início de ano em que deveria principiar minha condição de docente na Freie Universität, recordo a indignação do funcionário da Universidade, a que eu solicitava, pelo telefonema que dele recebia, o adiamento para o começo da docência. Ele me dizia que não considerava a espera dos alunos, que, suponho, já haveriam se inscrito no curso. Isso provocou que, em um acesso de raiva, eu renunciasse ao posto a que tinha direito. (Até hoje me pergunto se minha decisão foi correta ou se não fui traído por minha reconhecida incompetência em lidar com os intrincados enredos da vida cotidiana).

O resumo de minha vida acadêmica pode ser encerrado com a referência à minha aposentadoria na PUC, em 2007. Com a concessão da emerência em julho de 2012, tenho podido oferecer cursos semestrais na pós de História e não me recolher simplesmente na vida de um aposentado.


É de crer que essa travessia por escrito, feita de modo precário, me permita agora enfrentar a questão proposta por seu título: em que sentido posso me tomar como um comparatista?

Se adoto um ponto de vista bibliográfico, o resultado não é animador. Conquanto não me proponha consultar os índices remissivos de meus livros, acredito que a palavra ‘comparatismo’ e derivados não é frequente neles. De fato, o termo só é inequívoco em  uma palestra realizada na Johns Hopkins University, no ano 2000, “On comparative literature”. Dela, só tenho o texto original e o nome do colega que a pediu para que declarasse o que pensava a respeito. Não recordo sequer se foi publicada. De modo que a adoção de um critério nominal  não oferece resultado. Tentemos um exame mais detalhado.

Se lembrarmos a crítica severa a que o comparatismo foi submetido, em 1959, pelo então famoso René Wellek, em “The Crisis of comparative literature”, reeditado na coletânea de ensaios seus, Concepts of criticism (1963), deveremos acrescentar que seu critério, o questionamento da base historiográfica em que o comparatismo se sustentava, não era suficiente, sobretudo porque o que Wellek considerava positivo, a literaturnost (literariedade), afinal não vingou. Precisamos de base diversa. Para tanto, seja relembrado que a própria noção de comparatismo tinha por ponto de partida o confronto de duas ou mais literaturas nacionais. Neste rumo, ainda se recorde que a afirmação da literatura enquanto vinculada a uma nacionalidade se verifica ao longo do século XIX, sendo correlata à ênfase nos Estados-nação e ao papel do sujeito individual. As nações que não tivessem se afirmado autonomamente ou não estabelecessem uma sólida política de aliança com nações vizinhas estavam fadadas a ser engolidas por uma potência maior, a exemplo do que sucedera com os estados bálticos, ou a se manter em condição precária, como se concretizaria, no século XX, com a Iugoslávia e a Tchecoslováquia, que voltariam a perder sua unidade. Seria pois um despropósito arguir a suficiência do critério de Estado-nação. Na mesma pisada, acrescente-se: é o próprio critério político que não basta para legitimar suas literaturas. Aqui, o questionamento proposto por Wellek era plenamente correto. Ao longo do século XIX, fosse com o romantismo ou com o positivismo, a literatura era definida por sua plena dependência do critério político. As ciências, que então alcançaram um desenvolvimento até então inaudito, contavam com um critério interno suficiente para que estivessem libertos do político. Eventualmente, podia-se e pode-se falar na química francesa ou na física alemã, mas os conceitos de química, de física, das ciências ditas exatas ou, mais adiante, das ciências humanas, independem de sua condição nacional. Todo o contrário do que sucedia com a literatura. Dela ou se tratava de maneira genérica e vaga ou, para alcançar-se concretude, era preciso que se acrescentasse sua nacionalidade.

Era contra essa dependência que a literaridade era proposta, com certo êxito, pela abordagem de Jakobson, a propósito da lírica. Se essa base crítica prosseguisse, tendo por eixo a organização interna da palavra, mesmo que não a partir da base fonológica, a ideia do comparatismo perderia seu esteio. Como isso não sucedeu, conquanto o critério histórico-político perdera sua força, o comparatismo agora se assemelhava a um fantasma que, havendo perdido seu corpo, ainda não se desvaneceu.

De que então depende ele para não desaparecer? A resposta parece evidente: o comparatismo depende da formulação teórica a que se incorpore, por sua vez dependente de seu estreito relacionamento com um embasamento filosófico. Mas como explicar sua inter-relação com a história, se já não se cogita da suficiência da base historicista? Chegamos ao ápice do problema. Para não tratarmos da teoria da história, cabe ressaltar um ponto ainda não levantado: ao extremo realce do critério político para o crítico do século XIX correspondera a ausência de teorização da literatura. Essa, quando havia, era propiciada pela estética, exemplarmente pela hegeliana, ou, mais duradouramente, por extensão da crítica da pintura, desde um Winckelmann e um Lessing, até Worringer, Wöllflin e Panofsky.

É contra esse tremendo vazio que se levantara, nos anos de 1920, o conjunto do que depreciativamente o marxismo positivista veio a chamar de os formalistas russos. Contra a teorização proposta pelos críticos eslavos da estatura de Chklovski e Tynianov, perseguidos pelo stalinismo como inimigos da revolução, a ponto de serem impedidos de escrever, propõe-se a crítica de orientação sociológica, que, sob inspiração do marxismo lukáscsiano, daria lugar à História social da arte, de Arnold Hauser e à Estética, do prórpio Lukács.

Desde que, a partir de minha estada em Colônia, tomei conhecimento da estética do efeito (Wirkungsästhetik) de Wolfgang Iser, delineou-se para mim o caminho a desenvolver, muito embora não estivéssemos, o grande amigo Iser e eu, de acordo a propósito da maneira de atuação da mímesis. Sintetizando o que exigiria um número considerável de páginas, o comparatismo assume um outro corpo quando é entendido como o plano de operacionalização de um conjunto de conceitos teóricos. Neste sentido, os volumes que virão a compor a Trilogia do controle constituem minha primeira obra explícita de comparatista. Assum sucede porque a Trilogia tem por meta assinalar que a obra por excelência do imaginário, a obra literária – em termos mais precisos, a obra ficcional – está sujeita aos mecanismos de controle exercidos a partir da organização sócio-política de Estados e nações, para que os usos e valores se mantivessem de acordo com os interesses dominantes. O que vale dizer, ou por seguir tais critérios ou por se lhes insurgir, o comparatismo releva a presença de conceitos cuja aproximação ajuda a literatura a assumir uma fisionomia discursiva que o século XIX desconhecia.

Não pretendo haver levantado exaustivamente estes conceitos. Tal suposição seria pretensiosa até mesmo porque, mais recentemente, ao estudar a obra de Hans Blumenberg, dei-me conta da unilateralidade que o Ocidente vem cometendo há séculos em prestigiar o conceito e, em troca, tomar a metáfora como algo decorativo. Ora, se, ao contrário, conceito e metáfora são os eixos norteadores de toda expressão, no caso da ficção, o seu princípio orientador, a mímesis, não cabe em um conceito, porque ela tem a maleabilidade do que se modifica em cada obra que a transfigura. Por isso tenho dito que a mímesis supõe a sombra de um conceito, provocadora do que Blumenberg chama de metáfora absoluta, i. e., aquela que, presente, por exemplo, em ‘mundo’ ou ‘vida’, não admite caber em um conceito.

Em suma, sinto-me como comparatista tão só no sentido de alguém que emprega as literaturas cujas línguas seja capaz de entender para nelas encontrar os meios pelos quais posso trabalhar a caracterização diferencial da ficção literária. Tenho procurado essa caracterização ao desenvolver, centralmente, os princípios de mímesis e ficção, nesta distinguindo a ficção interna, propriedade do que costumamos chamar literatura, e a ficção externa.

 Ao formular pela primeira vez a caracterização da ficção externa, em Frestas. A Teorização em um país periférico (2013), pensava em cenas triviais, em rituais de nosso cotidiano, a exemplo dos modos corriqueiros de cumprimento. Protótipo é o cumprimento do “olá, como vai?” e sua resposta usual, “bem, obrigado”. A saudação e sua resposta são ficcionais no estrito sentido de que nenhuma das duas partes está efetivamente interessada em como anda a vida do outro, i. e., nenhuma de suas manifestações guarda qualquer compromisso com a verdade. Mas a ficção é externa porque, se, como toda ficção, põe o critério de verdade entre parênteses, em troca, se distingue da interna porque só nesta a verdade é a priori e obrigatoriamente, posta entre parênteses. (Se duvidarmos, tentemos, na próxima vez que encontrarmos um conhecido, não o cumprimentar e vejamos as consequências desagradáveis).

Me estendi um pouco sobre a ficção externa seja porque ela foi pensada antes que se difundisse a agora muito divulgada fake news, seja porque o que disse sobre ela ainda é muito pouco. (Recentemente, a professora e amiga Ana Lúcia Machado levantou-me a questão da alegoria presente nos sermões de Vieira. Não seria ela a demonstração mesma da seriedade da ficção externa pelo jogo que estabelece entre uma afirmação bíblica e a extrema metaforização literária com que a desenvolve? Essa é a primeira repercussão que faço da questão proposta). Aqui, no entanto, desenvolvo apenas a questão da fake news. Ao contrário do que escrevia na primeira versão deste texto, nego a procedência da aproximação. A fake news é uma manifestação da sempiterna mentira, agora revestida de uma periculosidade maior – como hoje sentimos com veemência no Brasil – porque eletronicamente propagada e desenvolvida.

Gostaria ainda de desenvolver a questão do comparatismo em relação à maneira como entre nós se desenvolve o estudo da literatura. Reitero o que foi dito atrás: superado o historicismo de que derivava o entendimento tradicional do comparatismo, penso-o como plano de operacionalização de uma modalidade de discurso, a ficção literária, que tem por principío algo que não cabe em um conceito, a mímesis. Ora, esse encaminhamento se choca com a maneira como nossos cursos de letras reagem à introdução, relativamente recente, em seus currículos de uma disciplina chamada teoria da literatura. Reagem como? Creio que não preciso me estender para que se saiba: se a teoria supõe a aproximação com a reflexão filosófica, a prática da teoria, nos nossos cursos de letras, implica o seu contrário. É certo que aquela reflexão há de considerar que a própria mímesis reage contra o que se costuma identificar com andamento filosófico. Esse aspecto parece-me mostrar que a andamento reflexivo, na teoria da literatura, exigiria de seu docente um refinamento ainda maior do que o requerido de um professor de uma disciplina filosófica, quando nada porque nesta há um modus operandi já estabelecido, enquanto, no caso da teoria da literatura, ele haveria ainda de ser firmado.

Por respeito à paciência do leitor paro aqui. Apenas me permito acrescentar: pelo caráter delicado do problema exposto verifico a maior gravidade que assume minha dúvida se fiz bem em recusar o posto que havia ganho na Freie Universität Berlin. Ao recusá-lo, foi-me dado a oportunidade de estimular jovens carreiras, e nisso foi por certo positivo. De troca, na velhice tenho de encarar o risco de volta aos tempos calamitosos da ditadura. Como escrevi no começo do atual governo, nos encontrámos ante a ameaça de um tsunami social. Depois de mais de dois anos de exercício do mandato já vivemos sob um tsunami cuja grravidade aumenta a cada semana. Recordo apenas um dado: com a moeda nacional semanalmente corroída, quem ainda pode comprar livros e assinar revistas estrangeiras? Como então sequer propor perguntas como a que procurei aqui responder?

                                   Primeira versão: Rio de Janeiro, novembro, 2020

                                   Segunda versão: Rio de Janeiro, novembro, 2021

Nota

[1] A primeira versão foi apresentada em “A Construção do comparatismo e a circulação literário do Grande Rio” (Luiz Costa Lima). Entrevista com LCL, tendo por debatedores André Jobim (UFF), Nabil Araújo e Thiagol Castañon (UFRJ). Debate online, gravado em 4.12. 2020.


Luiz Costa Lima é professor emérito da PUC-RJ. Atua principalmente em teoria da literatura, história e crítica literária, literatura brasileira, teoria e filosofia da história, história dos discursos. Autor de mais de vinte livros, entre eles A trilogia do imaginário (2007), Frestas. A teorização em um país periférico (Contraponto / PUC-RJ, 2013), Mímesis e arredores (CRV, 2020). Está lançando agora O chão da mente: a pergunta pela ficção (EdUNESP, 2021)



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por Anders Noren

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