Fios do Tempo. Uma iniciação esquemática à imaginação – Luiz Costa Lima

Hoje, no Fios do Tempo, temos a honra de publicar “Uma iniciação esquemática à imaginação“, texto escrito por Luiz Costa Lima para a mesa-redonda realizada no quarto encontro do Ciclo de Humanidades 2021, “Imaginar é preciso!”, que teve a presença de Costa Lima e Renato Lessa.

O autor apresenta aqui a centralidade da imaginação na experiência humana, o que nos propicia não apenas uma definição do que é a imaginação (em sua distinção em relação à percepção e à imagem), como também uma exposição de sua presença nos distintos registros discursivos (filosófico, científico, cotidiano, literário). Em meio a esse percurso, deparamo-nos com a incontornável metaforicidade da linguagem humana e o peculiar estatuto do discurso ficcional (que fez dele um objeto de controle ao longo da nossa história).

Fazemos o convite para que leiam também o ensaio Investir na imaginação como reserva de abstração: qual a relação entre filosofia e democracia?, de Renato Lessa, que foi publicado igualmente no contexto do encontro no Ciclo de Humanidades (o vídeo gravado está disponível em https://youtu.be/_Cw3zA5U6d0).

Desejo uma excelente leitura!

A. M.
Fios do Tempo., 29 de junho de 2021



Uma iniciação esquemática à imaginação

Luiz Costa Lima

Rio de Janeiro, 12-14 de junho, 2021

Quero de início agradecer aos responsáveis pelo Ateliê de Humanidades, menos pelo convite dirigido a mim do que pela própria iniciativa – que sei não esgotar com a presente – de trazer a público uma discussão sobre a imaginação. O agradecimento é justo e provocado porque, ultimamente, entre nós, a tal ponto temos sido forçados a estar obrigados à mediocridade das apresentações mediáticas e à grosseria das iniciativas político-federais, que temas, como o da imaginação, parecem semelhantes a um especialismo remoto, capaz de interessar a muitos poucos, a modo, entre os pré-socráticos, do orfismo, do pitagorismo ou, mais recentemente, do uso do latim pela filosofia escolástica. Ainda mais remoto e sem interesse se considerarmos que as apresentações mediáticas se apresentam em sequência às manifestações prediletas da indústria cultural: telenovelas, seriados, filmes padronizados, musicais gesticulatórios. Paralelamente, pois, enquanto penso como articular uma apresentação útil mas não especializada, preocupado, me pergunto que se espera das próximas décadas de o que serão nossos agentes culturais se nosso público, desde a infância, se acostuma com a mecânica das redundâncias que se lhe mostram diariamente, além de sua sequência de vídeo games.

Saber do horizonte presente deve nos tornar mais cônscios que a escolha da imaginação apresenta riscos que devem ser evitados. Tais riscos derivam de que sua temática é tão ampla e complicada que haveremos de nos acautelar em seu tratamento. Proponho-me evitá-los por me concentrar na presença da imaginação em nosso cotidiano. Mais precisamente, nos textos em que ela nos aparece no dia a dia.

Duas incidências são aí frequentes. A primeira é pobre, paupérrima. Refiro-me à limitada ao jornal, ao rádio, à TV. O uso abundante das imagens na TV não a aproxima da imaginação, pois, no caso, a imagem se restringe a ser uma percepção visualizada. No jornal e no rádio, sequer o engano provocado pela palavra seria possível: em ambos, a percepção apenas se desdobra pela descrição de casos que se tornaram habituais: novas mortes por balas perdidas, acidentes, escândalos ou revelações dos pop stars, atestações de novas fraudes das autoridades do momento. A segunda incidência é rica, potencialmente mais rica do que suposto, dependente da interação com textos não só informativos, mas de cunho científico, filosófico, literário, no último caso, como diria melhor, ficcionais. Por que deles dizemos que são ricos, potencialmente mais ricos? Perguntá-lo implica atestar a intensa relação da imaginação com a ciência, a filosofia, a ficção literária. E, na sequência, por que é ela oposta ao texto informativo e, mais ainda, com os produzidos pela indústria cultural.

Procurarei cercar-me de cuidados para não extrapolar uma explicação que recaia em labirintos especializados. Partamos por isso do elementar: enquanto faculdade, a imaginação se opõe à percepção. A percepção concerne ao objeto que está presente, ao passo que a imaginação tematiza a ausência. Enquanto tal, ela tem como instrumento a imagem. A imagem torna presente o que, por si, seja uma coisa ou um estado de espírito, está ausente. Nessa condição, a imagem assume uma propriedade distinta da percepção. A percepção não pode deixar de ser pontual – percebe-se algo que está ali, neste agora; a ausência a que a imagem remete é potencialmente plural. Se recordo uma cena do passado, dificilmente conseguirei dela não a combinar a outras cenas, temporalmente próximas ou distantes.

O encaminhamento que busco seria facilitado se, a partir das propriedades mencionadas – univocidade da percepção, plurivocidade da imagem – fosse possível estabelecer a correspondência com dois tipos de instrumentação discursiva – aceite-se provisoriamente que a instrumentação discursiva concerne a tipos ainda não diferenciados de textos. Mas a correspondência que então se estabelecesse seria bastante arbitrária: a percepção é de natureza biológica. Ainda que só um especialista no conhecimento dos animais nos diria com acerto em que a percepção do cão se diferencia da de outros animais, inclusive da humana, não é duvidoso dizer que a percepção é uma propriedade de todo o reino animal ou mesmo de tudo que vive, ao passo que a imaginação, a razão, a consciência – para não falar com Freud no id – são exclusivas ao homem. Enquanto tratarmos das diferenças da percepção entre os animais, permaneceremos na biologia. Já a univocidade ou a tendência à univocidade, em termos discursivos, não pertence ao biológico, mas sim ao cultural, i. e., depende de fatores mantidos e transmitidos educacionalmente, conformando os traços de uma sociedade e diferenciando-a de outras.

Poder-se-ia então caracterizar a cultura como o transitório que permanece no interior de uma sociedade, e, daí, como a capacidade de expandir-se a outras sociedades ou, ao contrário, de receber a influência maior ou menor de outras mais. Assim, por exemplo, a concepção de ordem, necessariamente acompanhada pela prática da hierarquia, não é idêntica para um ocidental, um árabe ou um chinês. Suas percepções são as mesmas, mas dessas não será extraída a conduta que essa ou aquela sociedade considerará apropriada. A univocidade de uma prática cultural é dela diretamente dependente; seu desvio é uma falha de maior ou menor gravidade. Portanto a formulação dos princípios reguladores de uma sociedade já é bastante clara em sua distinção quanto à percepção, conquanto ainda não se confunda com a univocidade propriamente discursiva. Essa se realiza não por um princípio que fosse geral, conhecido e geralmente acatado por todos os membros de uma sociedade, com indiferença para sua posição de classe, mas sim por meio de uma específica ferramenta discursiva, só conhecida e, portanto, só utilizável por aqueles que a aprenderam, não importa se pelo estudo ou, com menos frequência, por respeito a uma prática generalizada.

Economizaremos tempo na exposição se aproximarmos a univocidade do conceito nas ciências – sem aqui distinguirmos as naturais das sociais. A aproximação não é a priori legítima porque conceito e ciência não são termos intercambiáveis. Por enquanto apenas ressaltemos a imprecisão, que será corrigida pela continuação. Cabe então de imediato indagar: que faz o conceito, para quem o tenha compreendido, senão expor uma formulação que torna presente as propriedades de um objeto, objeto que, por sua mera presença, não permitiria que suas propriedades transparecessem? Isso equivale a dizer que o conceito rompe com a oposição entre percepção e imaginação, presença e ausência, por estabelecer uma mediação entre elas; mediação passível de se estender a outras culturas, desde que elas não tenham uma ordenação contrária à sua aplicação ou que, caso a tenham, sejam submissas a modificá-la. Por exemplo, para que a prática da cirurgia tivesse se incorporado a nosso cotidiano foi necessário que o interdito religioso medieval referente à inviolabilidade do corpo humano perdesse sua invalidade religiosa. 

Deixemos os detalhes e nos aproximemos melhor da realidade do conceito. Dele já se disse que provoca a univocidade ou dela nos aproxima porquanto, agora acrescentemos, próprio do conceito é delimitar a área de incidência do objeto ou situação a que se refere; ou seja, próprio dele é distinguir um certo objeto ou situação dos demais, além do que o diria sua mera presença. Mas por que estabelecemos a alternativa: o conceito provoca a univocidade ou dela se aproxima? Unívocos são os conceitos das chamadas ciências duras (mais impropriamente chamadas de exatas). Tendencialmente unívocos, os das ciências sociais. A diferença entre elas depende da incidência na formulação conceitual de uma certa margem de metaforicidade. O que equivale a dizer, a metáfora é o recurso discursivo que se apropria da imagem; noutras palavras, é o meio verbal que procura propiciar o que, visualmente, a imagem oferece. Deste modo, assim como a imagem potencializa uma pluralidade de leituras, com mais êxito assim sucede com a metáfora. (Não será preciso acrescentar que tal pluralidade não ocorre automaticamente, porque imagem e metáfora costumam ser usadas de maneira ociosa ou rala). 

Ora, por mais que o conceito procure estabelecer uma formulação unívoca, é extremamente difícil, para não dizer impossível, que o discurso, desprovido de uma formulação matemática, deixe de conter uma margem metafórica. A isso estão ainda mais expostas as ciências humanas do que as ciências naturais. Tendo o agente das ciências humanas a mesma natureza que seu objeto é praticamente improvável que seu esforço conceitual deixe de conter certa margem metafórica. (Não entremos aqui por outro meandro que não desenvolveremos. Digamos sim de maneira sumária: se, do ponto de vista da cientificidade, isso é uma desvantagem, por outro lado, contudo, tal inevitabilidade aproxima as ciências sociais de uma modalidade discursiva de que ainda trataremos, a ficção literária).

E o que dizer da filosofia? Não apresenta ela a mesma dificuldade que as ciências humanas? A resposta será afirmativa, desde que se tenha o cuidado de acrescentar: de maneira, no entanto, bem mais ampla. Enquanto as ciências, humanas ou naturais, têm um objeto delimitado, excluindo de si o que será indagado por outra ciência, desde os gregos, a filosofia se caracterizou por um escopo amplíssimo: ela pensa a natureza, lhe acrescenta o homem, e se estende até o cosmos, quando nele não inclua a dimensão que julgue originador de tudo mais, a dimensão do divino. Não cabe aqui atentar para a problematização aberta pelo pensamento do século XX quanto à validade da chamada metafísica. Apenas nos importa destacar que, do ponto de vista de teoria dos discursos, o filosófico, por sua amplitude, tem uma margem metafórica bastante mais elevada do que as diversas ciências humanas. Por isso a filosofia não poderia pretender o cunho de objetividade perseguido pelas ciências – mais próximo de ser alcançado pelas naturais.

Resta-nos dedicar uma parte de nossa concentração ao discurso ficcional. Em vez de confundi-lo com o literário, é mais adequado distingui-lo entre o estritamente ficcional e o ficcional literário. Primeiro nos concentremos neste. O ficcional literário não constitui uma forma discursiva própria e distinta das demais. Ao contrário, seu exemplar pode pertencer à filosofia, como sucede com Pascal ou Bergson, ou constituir uma nova ciência, como o Freud da análise dos casos, ou antes apresentar-se como integrado ao que se costumou chamar de história da literatura, como Montaigne. Com independência de sua inscrição discursiva, os autores em causa apresentam uma linguagem tão refinada que, excedam-se ou não na formulação de conceitos ou quase-conceitos, estão próximos de provocar a experiência que, própria das artes, se concentra na ficcionalidade, a experiência estética. (Infelizmente, nesta não nos deteremos). Quando o leitor intitulou certas páginas que destacara de ‘literatura’ não estava de todo certo ou errado, mas não cometia um absurdo. Sucede tão-só que a designação aproximativa veio a ser tomada sem maiores cuidados, constituindo-se em uma incômoda generalidade. Contra ela, propomos diferençar o discurso ficcional de área próxima, mas distinta da ficção literária.(Dos exemplos acima citados, ainda separaríamos Montaigne, como iniciador que foi do gênero misto por excelência, entre a ficção e a ficção literária: o ensaio).

O parágrafo anterior escapou da estrita observância que nos impusemos, entrando por um tipo de viés que havíamos procurado evitar. Hesito porém em cortá-lo, porque, embora fora do passo seguido antes e continuado a seguir, pode ser esclarecedor. De todo modo, voltemos à toada das páginas anteriores.

Conquanto a ficção já tivesse o destaque que alcançara entre os gregos, desde o epos homérico, passando pelo teatro e pela lírica, a recorrência ao pensamento grego nos oferece um resultado paradoxal: por um lado, deriva de Platão o começo da indagação do fenômeno originário do ficcional, a mímesis, por outro lado, parte do mesmo Platão a sua condenação – cf. Livro X, da República. A mímesis seria um fenômeno espúrio porque não passaria de imitação de uma imitação, imitação secundária porque subordinada à imagem dos objetos, por sua vez já derivados das ideias supercelestes. Esse jogo de derivações – ideia, objetos constituintes da natureza, obra de arte – tinha por raiz a necessidade de precisar a coordenação das áreas formantes do mundo a partir de algo que seria inimitável, inalcançável, mas por isso mesmo identificado com a verdade. Quero dizer: para o pensamento ocidental, a funcionalidade das ideias platônicas esteve em permitir que se fixasse um lugar que confundiria o que aí se apresentasse como critério de verdade. A filosofia literalmente se definiria como o conhecimento da verdade. Não parece ocasional que os produtos da mímesis se confundissem com o falso, o fingido, o que supõe ser o que não é. Por isso sua posição haveria de ser subalterna.

Quem tem alguma informação sobre o que eu tenho escrito não precisará se preocupar: não entrarei pelos caminhos que tenho percorrido nos livros que tenho dedicado à questão da mímesis. Apenas em encerramento direi, o amplo domínio da pluralidade de sentidos da metáfora tem provocado o tom de recusa e repúdio que a filosofia e, a partir dos tempos modernos, as ciências, têm reservado ao ficcional. O ficcional contaria com esse desprezo porque seria a própria sede do que contraria a verdade. (Assim parecem se explicar, antes de presente, as narrativas regionalistas, hoje, a chamada literatura documentalista e/ou testemunhal). 

Em vez de acatarmos a vontade de desenvolver o tópico, limito-me a lembrar que o primeiro grande tratado dedicado ao ficcional surgiu apenas em 1913, A Filosofia do como se, do neokantiano Hans Vaihinger. Que tenha sido então formulado não significa que seu autor o tomasse senão como um recurso para o desenvolvimento científico, sendo então passível de ser abandonado, tão logo sua função estivesse cumprida. Ou seja, Vaihinger se integrava como no domínio do chamado positivismo, com seu fascínio pela ciência. Da retificação de Die Philosophie des als ob se encarregaria meu querido Wolfgang Iser, professor da Universität Konstanz, em livros publicados entre 1970 e 1980. Sem que sempre concordemos – e a divergência com frequência é fecunda para as duas partes – a essa cadeia de retificações pertence os livros que venho publicando.

Em suma, a imaginação está em toda a cadeia discursiva, exceto na estritamente formulada em linguagem matemática. Entre os crassos erros cometidos pelo pensamento do Ocidente tem estado a hierarquia entre os discursos. Entre os gregos, a domínio da filosofia era menos nocivo porque as escolas filosóficas eram pequenas. Em Roma, ao contrário, a desvantagem esteve na dominância do pensamento pragmático. Com a ascensão do cristianismo, ela provocou o império da teologia. Suas consequências são conhecidas. O divulgado episódio de Galileu não gera dúvidas. Mas que dizer dos Brunos queimados nas fogueiras purificadoras? Em comum, todas as hierarquias discursivas viram o ficcional com desprezo. No máximo, sem se permitirem usar seu nome – quase uma blasfêmia – a admitiam com condescendência, quando das artes, sobretudo visuais, pudessem resultar vantagens – como durante o Renascimento italiano, quando palácios, igrejas, capelas e basílicas podiam contar com a genialidade de seus grandes plásticos. Nada disso contudo impede que se diga que seu núcleo decisivo permanece no discurso ficcional, pois que ele, não sendo útil como as ciências, não precisa de um sistema, como a filosofia, para assinalar a capacidade de elaboração do ser humano. Muito ao contrário, apesar de submetido, a ficção não deixa de ter a função de mostrar o que se estende além do que essa ou aquela sociedade considera a realidade. A ficção expõe o real reprimido pela realidade adotada.  É, portanto, pelas dificuldades há pouco apontadas, que o ficcional é a modalidade discursiva que, lançando fortemente mão da imaginação, se mostra teoricamente mais carente, menos provida de entendimento, sendo, por isso, a mais necessitada de uma sustentação teórica adequada.

Luiz Costa Lima é professor emérito da PUC-RJ. Atua principalmente em teoria da literatura, história e crítica literária, literatura brasileira, teoria e filosofia da história, história dos discursos. Autor de mais de vinte livros, entre eles A trilogia do imaginário (2007), Frestas. A teorização em um país periférico (Contraponto / PUC-RJ, 2013), Mímesis e arredores (CRV, 2020). Está lançando agora O chão da mente: a pergunta pela ficção (EdUNESP, 2021)

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