Fios do Tempo. Cem anos da semana de 22 – por Luiz Costa Lima

Na semana de comemoração do centenário da Semana de Arte Moderna de 1922 (10 a 17 de fevereiro), trazemos as reflexões do crítico literário e filósofo Luiz Costa Lima. Com seu fino conhecimento da cultura brasileira, Costa Lima traça algumas distinções sobre as linhas de repercussões do movimento modernista sobre a vida literária brasileira.

Neste relato, ele dá atenção especial à força da escrita de uma intelectual pouco lembrada, Patrícia Galvão (1910 – 1962), mais conhecida por um de seus pseudônimos, Pagu, cujos escritos foram organizados em livro por Augusto de Campos.

Sobre o que Pagu escreveu e por que, afinal, seu ostracismo? Eis questões que saem da repetição de velhos e novos clichês bem ao gosto do público.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!

A. M.
18 de fevereiro de 2022



Cem anos da semana de 22

Rio de Janeiro, fevereiro 16-7, 2022

Parece inexplicável que um brasileiro que tenha dedicado sua vida intelectual ao estudo da literatura e suas ramificações não tenha se manifestado sobre o centenário da Semana de arte, de 1922. No caso presente – e não só apenas por mim – a omissão é passível de de ser explicada pelo isolamento a que temos sido obrigados pela covid. A menos que a pessoa em pauta tenha uma biblioteca dedicada ao modernismo brasileiro, terá ela de recorrer a alguma semelhante à Biblioteca Nacional, do Rio de Janeiro. Como pessoalmente nunca tive essa motivação, abandono o plano de um comentário abrangente da Semana, restringindo-o ao destaque quase exclusivo de um único livro, o Pagu, vida-obra, seleção de textos de Patrícia Galvão, mais conhecida pelo pseudônimo de Pagu, organizada por Augusto de Campos, originalmente em 1982, sucessivamente ampliado até à edição de 2021, em que me baseio. Vale começar pelo esboço de uma visão abrangente do movimento. 

Embora a Semana de 22 tenha um papel marcante na abertura da expressão literária brasileira para o mundo moderno, despregando-a da retórica clássica – contra a qual o exemplo de Machado não fora suficiente – precisa-se acentuar a maneira como ela hoje  repercute. Daí ser imprescindível distinguir dois rumos: o orientado pela concepção proposta por Mário de Andrade e a bem diversa derivada da chamada “segunda dentição” da Revista Antropofagia, proposta por Oswald de Andrade. Inicialmente, amigos e mergulhados na mesma onda, Mário e Oswald divergirão a partir de 1929, quando precisamente em 17 de março daquele ano é publicado o primeiro número da nova fase da Revista Antropofagia. (A reedição completa da revista foi feita em 1975 pela Abril Cultural e está esgotada). A distinção entre as propostas dos dois é com frequência citada, conquanto mereça melhor desenvolvimento. 

De imediato, deve-se-lhe acrescentar que a linhagem poética que mais importa, a formada pelas obras de Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, a que posteriormente se acrescenta João Cabral de Melo Neto, não deriva diretamente de nenhuma das duas, mas sim da inflexão provocada pela adoção do padrão modernista por Manuel Bandeira. O legado de Mário de Andrade se manifesta seja pelo chamado regionalismo, tipificado por José Lins do Rego (excluo Graciliano Ramos porque seria preciso verificar o que particulariza seu realismo), secundariamente por Raquel de Queiroz e Amando Fontes. A relação deles com Mário se justifica pela manutenção da ênfase em uma concepção nacionalista da literatura, bem distinta do nacionalismo idealizado do indianismo, seja, e sobretudo, pelo exercício da crítica, de que o maior nome inconteste é o de Antonio Candido. Sem por ora aprofundá-lo, tal direcionamento crítico, sem que se discuta ter sido um avanço considerável, apresenta um problema, que permanece muito pouco formulado. Concentrar-se em uma concepção nacionalista, baseada na distinção precisa dos traços regionais – daí a ênfase marioandradina no estudo do folclore, então desenvolvido por Câmara Cascudo – supunha ressaltar uma abordagem sociológica da literatura, por certo diversa do estreito determinismo de Sílvio Romero, mas nem por isso em menor detrimento de uma indagação mais amplamente teórica de seu objeto. A evidente sensibilidade literária de Candido serviu de fonte para o avanço da abordagem sociológica e, simultaneamente, para a estagnação, se não mesmo para o antagonismo anteposto à indagação teórica. Se nos indagarmos o porquê dessa simultaneidade a resposta sumária destacará que a indagação sociológica não pretende explicar os fenômenos abordados senão enquanto sociais. Por tal razão ela não explica, nem pretende fazê-lo, a distinção das formas discursivas – no caso, a científica, a filosófica e a ficcional –, dando por implícito que o ficcional literário se caracteriza pelo que nele falta quanto às duas outras. Isso explica que, nos anos de 1970, Candido tenha pronunciado no Rio de Janeiro, no teatro então chamado Casa grande, uma conferência em que acusava a prática recente da leitura de teóricos de cumprir-se em detrimento da própria obra literária. (Lamentavelmente, o texto da conferência não foi publicado). Permanecendo dominante a influência de Candido, pouco estranha que a figura da teoria, apenas formalmente presente nos currículos de letras, continue a ser marginal e esdrúxula.

Passemos à influência de Oswald de Andrade. Recorde-se a irregularidade de sua produção. Aquele que virá a ser o autor do Marco zero I (1943) e do Marco zero II (1946) nega o experimentalismo ensaiado e exposto nas Memórias sentimentais de João Miramar (1924) e em Serafim Ponte Grande (1933), ainda presente no Primeiro caderno de poesia do aluno Oswald de Andrade (1927) e em O Rei da vela (1937). O realce do experimental realizar-se-á na poesia concreta dos irmãos Campos, Augusto e Haroldo, e Décio Pignatari. Haver o concretismo se mantido marginal à produção ficcional, tanto em prosa quanto na poesia, significa haver permanecido marginal o experimentalismo de Oswald. Paradoxalmente, tal marginalidade não impede que a manutenção do vanguardismo de Augusto de Campos exponha o mais qualificado de nossa poética contemporânea.

***

As breves considerações acima agora hão de convergir para a seleção de textos de Patrícia Galvão (1910 – 1962), mais conhecida por um de seus pseudônimos, Pagu. O livro, já acima indicado, teve por primeiro mérito retirar a autora do ostracismo a que tem sido submetida. Contra seu desterro, dirá seu organizador ser ela “a luminosa agente subversiva de nossa modernidade”.  A confirmação contundente é realizada pelas 17 seções do Pagu, das quais nos referiremos a apenas algumas, a que se acrescentam os “testemunhos”, que principiam pelo de seu segundo esposo, Geraldo Ferraz, e as “resenhas críticas”, que ainda dão lugar ao “caderno de fotos”, com “Pagu 1929”.

Antes que se destaquem fatos marcantes de sua biografia, assinale-se que foi casada com Oswald (1930 – 1935) e com  Geraldo Ferraz (1941 – 62), que esteve presa na França, no governo de Pierre Laval, na condição de militante comunista estrangeira e, de volta ao Brasil, foi condenada, como comunista, em dois processos quase sucessivos, por quatro anos e meio, de 1935 a 1940. A partir de 1940, desliga-se do P.C. Conforme os dados recolhidos por Augusto de Campos, no panfleto “Verdade e liberdade” (1950), declara que começara a se decepcionar com a opção comunista em 1934, ao constatar, em Moscou, em que a revolução de 1917 se transformara.

Acompanhemos com mais detalhes umas poucas seções. Antes mesmo de fazê-lo, destaque-se a frase com que Antonio Risério terminava seu texto de 1978, recolhido por Augusto: “(…) Pagu foi revolucionária na arte, na política e na prática da vida”; a dela se acrescente sua admiração por Tarsila do Amaral e por Oswald.

Além de colaboradora da revista Antropofagia, em sua segunda fase, publicou em 1933 o romance Parque industrial, que tinha por subtítulo “romance proletário”. Em 1945, em colaboração com Geraldo Ferraz, o também romance A Famosa revista. A grande parte de sua produção, contudo, se realizou de maneira dispersa nos jornais, entre 1929 e 1962.

Já casada com Oswald, é sua participação no efêmero Jornal do povo. O “assumido pasquim político” – palavras de Augusto – teve a mínima duração de oito números, não passando de abril de 1931. Em vez de lido pela classe obreira, caiu nas mãos dos estudantes da Faculdade de Direito de São Paulo, que, ofendidos por Oswald, que chamava sua instituição de “cancro” contaminador do Estado, provocaram um motim contra o qual Oswald e Pagu tiveram de ser protegidos pela polícia, face aos amotinados que os ameaçavam fisicamente e pretendiam empastelar o pasquim. 

No mesmo ritmo de radicalização política – na verdade, antes anarquista que propriamente comunista – se realiza a filiação de Oswald e Pagu ao P.C., em 1931. Os testemunhos recolhidos no Pagu assinalam a resistência que, enquanto intelectuais, encontram no Partido, por sua orientação já obreirista, em obediência à linha traçada em Moscou. Não estranha que ambos se desliguem – Pagu em 1940, Oswald em 1945 – e mantenham sua flama revolucionária agora insuflada por uma orientação extremamente crítica.

A década de 1940 já encontra Pagu afastada tanto do Partido como de seu tumultuado matrimônio com Oswald. Data de 1942, com as “Crônicas de Ariel”, a participação constante de Pagu nos jornais, sobretudo paulistas. Ainda que o organizador do volume referido não o diga, suponho que essa permanência tenha tido uma básica motivação financeira.

Sua colaboração com os jornais a leva ao contato com  Geraldo Ferraz, seu futuro segundo marido. Das mencionadas “Crônicas de Ariel”, destaco uma pequena passagem: “Algures é um lugarzinho lúgubre onde ardem céus e terra, onde existem cheiros e destroços, onde moram, em casas soterradas e ruínas, a palidez, a fadiga, o entusiasmo, a vingança”. Transcrevo-a para destacar que, desterrando a ornamentação florida que ainda se costumava confundir com a linguagem literária, a exemplo do que há pouco ainda fazia Coelho Neto, Pagu procurava introduzir algo de ritmo literário na linguagem plana do jornalismo.

Sem se desligar da literatura tenta, em 1945, com Ferraz seu segundo romance. É oportuno acentuar a passagem da entrevista que este dava: “Nós combinamos escrever o livro porque queríamos produzir uma sátira contra o Partido, de uma forma romanceada (…)”. Sua permanência no jornalismo se cumpria em combinação com sua chama política. A junção disso com aquilo se evidencia no semanário carioca Vanguarda socialista, de duração não menos efêmera (1945 – 6). Dele, Pagu participa, na companhia de Geraldo Ferraz, Mário Pedrosa, Hilcar Leite e Edmundo Muniz. De sua participação, destaco o ataque à biografia de Prestes por Jorge Amado, assim como à própria obra do romancista baiano: “A literatura de Jorge Amado é igual à má literatura acadêmica. Não toma pé no tempo, não conhece uma técnica, uma renovação, um processo de expressão adequada ou pessoal, em que transpareça uma ressonância da literatura moderna”. A contundência da cronista hoje continua válida contra o endosso mercantilista que se mantém a prestigiar a obra de Amado. Não se tratava apenas de privilegiar a expressão literária moderna mas de separá-la da escrita subordinada ao programa político de um partido. Nisso, Pagu se antecipava a Oswald, que só passaria a condenar essa subordinação a partir de 1945.

O pouco tempo de vida da Vanguarda socialista demonstra a durabilidade entre nós de uma literatura submissa a padrões de superfície e adequada ao gosto de um público mediano. Poucas formulações são mais atuais do que a então assinada por Pagu: “(…:) Estamos longe ainda do dia em que a consciência da própria inferioridade econômica, a escravização exploradora do capitalismo, coloque na mão de cada homem do povo uma flama de rebelião”.

A leitura das passagens selecionadas por Augusto de Campos assinala que a propriedade da luta contra a literatura partidária implicava a busca de uma literatura ciosa de sua própria liberdade; historicamente, ela encontrava seu maior representante na ensaística de Antonio Candido. O exercício desta autonomia era o pressuposto para a abertura teorizante. Mas esta estava além dos limites da Semana.

Apenas um pouco maior é a duração da coluna “Cor local” (1946-8), primeiro localizada no Diário de São Paulo, depois no Suplemento literário do Jornal de São Paulo e na Tribuna de Santos. Acompanhar um pouco dos textos selecionados implica verificar a mudança na relação do autor com o público. Neste sentido, é indispensável destacar a formulação de Pagu, em novembro de 1946: “(…) Nos anos do Estado Novo, era comum a justificativa: ‘não posso escrever sem liberdade’. Hoje o ‘slogan’ é outro: ‘preciso ganhar para viver’. Mas, na realidade, só excepcionalmente vive um escritor aqui, de literatura. Uns têm negócios, outros um emprego”.

Já sem acompanhar a sequência das seções, destaco a intitulada “Antologia da literatura estrangeira” (1946 – 50). Em 2 de fevereiro de 1947, era publicada a primeira tradução de um trecho do Ulysses joyceano e, em 5 de setembro de 1948, dois estudos de Valéry sobre Mallarmé. É simplesmente incrível a capacidade de Pagu em pontuar o novo que pipocava em sua proximidade temporal.

***

Passemos a uma mais rápida síntese. Gloso para tanto uma frase bastante conhecida, cujo sentido será mudado: para que o outro não se confunda com o diabo será preciso que aquele que com ele se defronta saiba conceder-lhe uma certa proporção. Ou seja, que saiba reconhecer sua diferença, sem a confundir com a estranheza absoluta. A ausência dessa proporcionalidade suporia não se entender a antecipação humana e intelectual de Pagu? Ou seja ainda, explicar o ostracismo que sobre ela tem recaído? Sim, é provável que sim. Mais largamente, pensá-lo significa que, entre nós, o tempo tem passado sem que as expectativas habituais e seus clichês se modifiquem em profundidade.

 A afirmação se tornará mais clara com o acréscimo da seguinte: a partir de seus 19 anos até a metade dos anos de 1930 – quando a demorada prisão de quatro anos e meio a retira da vida ativa – Patrícia Galvão age como se a tríade sexo-paixão-amor fosse passível de se fundir em uma forma una de viver a vida, englobando suas várias faces artísticas – ela é então poeta, pintora, desenhista e gravurista – e a política. Supor a possibilidade de fusão entre sexo-paixão-amor incorporados na trivilidade do cotidiano supunha a presença unânime, inteira e sem quebras da libido; a utopia que nenhum paganismo pregou. Não discordo que a tríade aludida fosse a solução mais prazenteira para a existência humana. Mas não duvido que seu cumprimento é inviável. Desde que não se pretenda algo semelhante à mesma aglutinação de atributos – beleza, sensualidade, extrema agilidade mental – talvez outros exemplos sejam conhecidos. Sem recorrer ao arbitrário ou desconhecido, é preferível recorrer a algo reconhecível. Refiro-me a Oswald de Andrade. Lembro a propósito o que ouvi de Haroldo de Campos. (Lamento que não lhe tenha pedido que escrevesse o que me relatava). Haroldo me dizia que, falando com Oswald, quando já doente e próximo da morte, dele ouvira o conselho de não estragar, como ele, seu talento; que o teria feito pela intensa frequentação com o outro sexo. Recorde-se apenas que só em 1943 Oswald conhece a relação estável que manteria até o fim de seus dias com Maria Antonieta d’Alkmin. Deste modo, sem entrar no seu Diário confessional, recentemente editado,  como havia sido minha intenção primeira, reaproximo as duas figuras memoráveis. 


Luiz Costa Lima é professor emérito da PUC-RJ. Atua principalmente em teoria da literatura, história e crítica literária, literatura brasileira, teoria e filosofia da história, história dos discursos. Autor de mais de vinte livros, entre eles A trilogia do imaginário (2007), Frestas. A teorização em um país periférico (Contraponto / PUC-RJ, 2013), Mímesis e arredores (CRV, 2020). Seu último livro é O chão da mente: a pergunta pela ficção (EdUNESP, 2021).


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