Fios do Tempo. Perguntas sinceras a eleitores sinceros – por Felipe Maia

Quando se pergunta a alguém porque está indeciso ou votará em Bolsonaro, muitas razões são levantadas bem rápido. Vamos refletir um pouco sobre cada uma delas com um espírito pleno de diálogo cívico? É o que Felipe Maia propõe hoje em suas perguntas sinceras a eleitores sinceros.

Desejo, como sempre, uma excelente leitura.

A.M.
Fios do Tempo, 26 de outubro de 2022


Perguntas sinceras
a eleitores sinceros

Meu caro leitor, minha cara leitora, talvez você esteja indeciso ou tenha votado em Bolsonaro nas últimas eleições porque não queira ver no próximo domingo uma vitória do candidato do PT. Talvez você tenha visto ou ainda veja no atual presidente a única forma de impedir o retorno daquele partido. Minha pergunta sincera a você é: será que as coisas não saíram muito pior que a encomenda?

Muitos acreditavam que com o PT haveria uma piora da situação econômica do país, mas o que aconteceu sob o mandato de Paulo Guedes e Bolsonaro? A inflação voltou com força, os salários não a acompanharam, não houve investimento capaz de gerar novos empregos. Com a inflação, sobem os juros e o endividamento das famílias. O orçamento público está sendo gasto desordenadamente na véspera das eleições e a conta vai chegar já no final do ano e também no próximo, provavelmente sob a forma de arrocho nas aposentadorias, no salário mínimo e até aumento de impostos. Uma das situações mais difíceis que o país já viveu.

Outros acreditavam que com o PT haveria o maior esquema de corrupção do planeta. Mas será mesmo que se pode falar que Bolsonaro é ou fez um governo honesto? Se assim fosse, por que tanto sigilo com despesas de cartão de crédito do governo? Por que a Procuradoria recusa tantas vezes a apuração de denúncias? Como se explicam as rachadinhas nos gabinetes da família, os cheques de Fabrício Queiroz para Michelle? Por que o ex-ministro da Educação recebia lobistas a pedido do próprio presidente? Quantas denúncias já não vimos e quantas ainda veremos na execução do famigerado “orçamento secreto”?

Pense na pauta dos “costumes”, você talvez ache que a esquerda perturba demais a vida das pessoas com questões sobre racismo e feminismo. Mas será mesmo correto acreditar que não existe racismo no Brasil? Seria aceitável se dirigir a alguma mulher com palavras como “não te estupro porque você é feia”, “pintou um clima”, “você deve dormir pensando em mim”? Que exemplo esse homem passa aos outros? Ele contribui assim para nossa civilidade? Ele promove relações pacíficas entre nós? Que interesse ele demonstra na melhoria da vida de mulheres e negros? Que políticas públicas promove para combater as discriminações raciais, as muitas formas de violência contra as mulheres, as desigualdades no mercado de trabalho?

Há quem tenha medo da legalização do direito ao aborto, questão que é muito controversa tanto na ciência quanto nas religiões, o que tem feito com que nenhum presidente do país até hoje a tenha encampado. Mas seria o atual mandatário um exemplo de defensor do direito à vida? Qual foi mesmo seu empenho para proteger a vida e a saúde da população durante a mais dura pandemia que o mundo enfrentou? O que contribuiu para a saúde o desrespeito do presidente a quase todas as normas recomendadas pela Organização Mundial de Saúde, a prescrição de remédios ineficazes, o descrédito lançado contra a vacina e o atraso em sua aquisição? Em que momento o vimos demonstrar pesar, solidariedade ou preocupação com os mortos e o sofrimento das famílias? É isso defender a vida?

E o que dizer de sua política de segurança pública? Queremos viver em um país em que o número de armas de fogo em circulação seja cada vez maior?  Em que cada um precise aprender a se defender sozinho em vez de confiar na segurança pública? Ou não seria melhor apostar no controle da circulação de armas, em tecnologias para proteger a vida, tais como as câmeras policias, em estratégias de coordenação e inteligência no combate ao crime? O que este governo fez por isso?

Mas, apesar de tudo isso, talvez você pense que o PT é muito autoritário e que se voltasse iria copiar modelos de governantes que não aceitam deixar o poder. Mas nesse aspecto não seria exatamente o contrário que se está preparando? Quem foi que falou em alterar a composição dos tribunais superiores para indicar ministros “seus”? Quem não se compromete com clareza a respeitar o resultado das urnas? Quem fez sua carreira elogiando a ditadura militar e até mesmo o mais conhecido torturador daquele regime? Goste-se ou não deles, os governantes petistas deixaram o poder quando deviam, nada pesa contra eles a esse respeito. Ganharam e perderam como tantos outros, sem colocar em suspeita o processo eleitoral. Por que será que hoje pessoas como Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Armínio Fraga, entre tanto outros que já se opuseram ao PT no passado, apoiam a candidatura de Lula?

Se você chegou até aqui, não posso deixar de lembrar do estado de penúria em que estão as políticas de proteção ambiental, dos assassinatos na Amazônia de agentes públicos e jornalistas, como Bruno Pereira e Dom Phillips. Das dificuldades impostas às universidades e à pesquisa científica, tão estratégicas para a qualificação do trabalho, da economia e do serviço público. Do isolamento internacional que ele impôs ao país. É nesse país que você quer viver nos próximos quatro anos? Será que o preço não ficou caro demais para todos nós? Se pudermos aprender algo com o que vivemos nos últimos quatro anos, não seria melhor renovar a aposta na democracia, no debate livre, sem cercadinhos, e no conhecimento científico como formas lidar com as controvérsias e de encontrar soluções para os problemas difíceis que se colocam para o Brasil?

Sendo sinceras as minhas perguntas, só posso esperar que este diálogo ajude em seu julgamento e seu voto no próximo domingo.

Felipe Maia é Professor e pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora. É doutor em Sociologia pelo IESP – UERJ (2014), com pós-doutorado no CPDOC-FGV (2015). É coordenador do projeto de pesquisa “Crises e críticas: intelectuais, teoria e processos sociais” e do Grupo de Estudos em Teoria Social (UFJF) e integração a coordenação do Grupo de Pesquisa do CNPQ “Metamorfoses da sociologia”. É também co-coordenador do Cartografias da Crítica: entre crítica, crise e reconstrução. Organizador do livro Uma democracia (in)acabada (2019), publicado pelo Ateliê de Humanidades Editorial.


Outras atividades de Felipe Maia


Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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