Como as dívidas das famílias formatam a democracia, com impactos diretos sobre o apoio ou o abandono dos governos?
Publicamos hoje, no Fios do Tempo, o texto de Ariel Wilkis, autor de “Endividados: como as finanças cotidianas formatam a democracia” (Ateliê de Humanidades Editorial, 2026). Este livro, que pesquisa originalmente a trajetória da democracia argentina, mostra-se de inquestionável relevância para pensar a democracia brasileira de 2026. Basta acompanharmos os noticiários e as pesquisas eleitorais, que informam o nível da correlação entre dívidas/poder de compra e satisfação com o governo.
Desejamos, como sempre, uma excelente leitura.
A. M.
Fios do Tempo, 08 de setembro de 2026
Ps.: Este texto foi publicado anteriormente com o título A dívida como prova da democracia no Le Monde Diplomatique, em 31 de julho de 2026.
Produtos recomendados
-
Endividados: como as finanças cotidianas formatam a democracia
O preço original era: R$89,00.R$76,00O preço atual é: R$76,00.
Como nossas democracias são postas à prova pela dívida das famílias?
Em abril de 2026, pela primeira vez desde que o indicador começou a ser medido, mais de quatro em cada cinco famílias brasileiras declararam ter algum tipo de dívida. O percentual de 80,9% marcou o maior índice de endividamento desde o início da série histórica da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), conduzida pela Confederação Nacional do Comércio. Não foi um pico isolado: foi o quinto mês seguido de recordes, com o índice avançando ainda mais em maio, para 81,6%. Esses números descrevem não um acidente de percurso, mas a consolidação de um regime doméstico de endividamento permanente – uma economia da família brasileira que já não se organiza em torno da poupança, e sim da gestão contínua do que se deve.
O deslocamento é estrutural. Segundo o Banco Central, a fatia da renda familiar comprometida com o pagamento de dívidas saltou de cerca de 22% em 2019 para 29,7% no fim de 2025 – quase um terço do orçamento doméstico já carimbado antes mesmo de chegar à geladeira, ao aluguel ou à conta de luz. O endividamento total das famílias em relação à renda acumulada atingiu o recorde histórico de 49,9%: metade de tudo o que o país produz e recebe em um ano já está, de algum modo, hipotecada ao sistema financeiro.
Diante desse quadro, o governo federal relançou em maio o Novo Desenrola Brasil – Programa Extraordinário de Reequilíbrio Financeiro das Famílias, instituído pela Medida Provisória 1.355/2026 –, um mutirão de renegociação que promete fôlego a famílias, estudantes e pequenos negócios sufocados pelo crédito caro.
Essa tensão não é exclusiva do Brasil, nem nova. A dívida das famílias voltou a se infiltrar na disputa eleitoral brasileira como, seis anos antes, já havia atravessado a eleição que levou Lula ao terceiro mandato – e reaparece agora que ele busca a reeleição. As finanças domésticas ocupam lugar cada vez mais central na política contemporânea, e não apenas no Brasil: dificilmente se compreende a ascensão de Gabriel Boric no Chile sem o mal-estar do endividamento exorbitante das famílias chilenas, herança de um modelo que privatizou educação, saúde e previdência e empurrou o crédito para preencher o vazio deixado pelo Estado. Do mesmo modo, a crise política espanhola que projetou o Podemos ao governo não se explica sem as mobilizações de hipotecados, cuja indignação contra os despejos deu à Plataforma de Afetados pela Hipoteca uma centralidade que nenhum partido tradicional soube antecipar.
O que esses episódios revelam, tomados em conjunto, é uma mutação maior na relação entre sociedade e política: a dívida doméstica deixou de ser apenas um indicador macroeconômico para se tornar um vetor de subjetivação política, um terreno onde se disputam adesões, ressentimentos e expectativas de futuro. A campanha eleitoral brasileira é apenas mais um episódio dessa mutação mais ampla – não seu ponto de origem nem sua exceção.
Endividados: chaves de leitura a partir da experiência argentina
Em Endividados. Como as finanças cotidianas formatam a democracia (Ateliê de Humanidades Editorial, 2026), analiso a experiência argentina dessa mutação global e proponho chaves de leitura que podem ajudar a decifrar o que está em jogo também no caso brasileiro.
Com base na tradição foucaultiana que concebe o neoliberalismo como uma forma de governamentalidade – que reconfigura os indivíduos como unidades de capital responsáveis e autogerenciadas –, um conjunto substancial de estudos tem demonstrado como o crédito, a dívida e a gestão de riscos funcionam como técnicas de conduta. No entanto, essa mirada deixa relativamente inexplorada uma dimensão fundamental: a maneira pela qual os Estados e os governos são eles próprios avaliados politicamente por meio das experiências financeiras de seus cidadãos.
Endividados é um livro sobre como as democracias contemporâneas passaram a ser avaliadas por seus cidadãos – e sobre por que a vida financeira íntima das famílias se tornou o instrumento mais sensível dessa avaliação.
Este livro propõe uma sociologia política do dinheiro. Ele argumenta que a dívida das famílias não se limita a organizar o consumo ou o orçamento doméstico; ela também organiza a percepção e o julgamento políticos. A capacidade – ou a incapacidade – de honrar os pagamentos torna-se uma prova cotidiana da credibilidade do Estado, da competência do governo e do valor das promessas coletivas. Nesse sentido, as famílias endividadas não reproduzem simplesmente lógicas financeiras; elas interpretam e avaliam o desempenho político dos governos democráticos por meio de suas obrigações financeiras. Chamo a essa configuração de economia moral do acompanhamento democrático. Os governos conduzem a melodia principal – definem a política econômica, formulam promessas públicas e estabelecem os termos da vida coletiva –, mas dependem do acompanhamento social para sustentá-la. Esse acompanhamento não é um único instrumento. É composto por múltiplas vozes e registros: petições dirigidas a presidentes; ações judiciais movidas por devedores; mobilizações de bairro; escolhas eleitorais; negociações informais com credores; e a gestão silenciosa dos orçamentos familiares em condições de escassez. Cada uma delas constitui um modo distinto de acompanhamento – ou de sua retirada. O que as torna analiticamente equivalentes não é sua forma, mas sua função: todas são maneiras de conceder crédito a um governo, ou de atribuir culpa a ele, pelas condições financeiras da vida cotidiana.
A democracia não se manifesta apenas nas instituições, nos partidos ou nas eleições, mas também na vida monetária íntima das famílias. É ali, na fronteira onde os significados morais e políticos do endividamento se encontram com as expectativas dirigidas ao Estado, que a confiança – ou a desconfiança – na promessa democrática se decide dia após dia.
Uma sequência histórica: da democracia indexada à democracia sob Milei
Meu argumento, no Endividados, é que a dívida das famílias tem sido uma arena fundamental pela qual os cidadãos atribuíram crédito ou culpa aos governos democráticos da Argentina desde 1983, mediando a relação entre cidadãos e Estado e formatando tanto as condições materiais quanto as expectativas morais e políticas com que os argentinos avaliaram seus sucessivos governos.
Ao longo dessas quatro décadas, pode-se reconstruir como o endividamento das famílias na Argentina se converteu num ponto de vista privilegiado a partir do qual compreender a interação entre aspirações sociais, promessas democráticas e uma economia cada vez mais presa às suas próprias contradições estruturais.
Cada ciclo político desde o retorno da democracia na Argentina pode ser lido nessa chave – inclusive aquele que levou ao governo o atual presidente de extrema direita, Javier Milei.
Democracia Indexada (1983-1989). A crise da dívida externa e a alta inflação marcaram o início dos anos 1980 na América Latina. Na Argentina, a redemocratização ocorreu nesse contexto, após a ditadura de 1976-1983. O governo de Raúl Alfonsín foi posto à prova por uma onda crescente de endividamento hipotecário: famílias não conseguiam manter os pagamentos em dia por causa da inflação, e as classes médias entravam numa espiral sem precedentes de declínio social.
Democracia neoliberal: dívida e promessa de estabilidade (1991-2001). O plano de convertibilidade do governo peronista de Carlos Menem uniu dívida familiar e dívida soberana: enquanto a primeira crescia, a segunda garantia a estabilização e as reformas neoliberais que ampliaram o consumo – imóveis, eletrodomésticos, carros, viagens –, financiado externamente pelo Estado. A crise de 2001 encerrou o ciclo: ambos os tipos de dívida se tornaram impagáveis e as ruas se encheram de protestos.
Democracia pós-neoliberal: dívida e promessa de inclusão (2003-2015). Lula no Brasil, Evo Morales na Bolívia e os Kirchner na Argentina prometeram corrigir os efeitos do neoliberalismo, apoiados no boom das commodities. O cartão de crédito tornou-se passaporte de consumo para setores historicamente excluídos: enquanto o Estado argentino pagava sua dívida soberana, novas dívidas familiares sustentavam a promessa de inclusão – um ciclo dependente de condições voláteis.
A dívida na democracia pró-mercado (2015-2019). Mauricio Macri sucedeu esse ciclo com créditos hipotecários e inclusão financeira como bandeiras pró-mercado. Após forte desvalorização do peso – não evitada por novo empréstimo do FMI –, as rendas evaporaram e as dívidas aumentaram; pedir emprestado a parentes e usar o cartão para comida, remédios e aluguel tornou-se cada vez mais comum. O estrangulamento da dívida soberana e familiar catalisou a mudança de governo.
Democracia sob a pandemia e a alta inflação (2019-2023). A dívida da pandemia e o retorno da inflação acima de 100% ao ano explicam o descontentamento social e o apoio crescente à extrema direita. Ao contrário de outros países, que ampliaram a dívida pública para financiar a emergência sanitária, o governo argentino teve de negociar a dívida soberana herdada, limitando sua política assistencial – o que empurrou o crescimento da dívida familiar, voltada apenas a preservar a vida cotidiana. Nesse cenário de fadiga econômica e cansaço moral emergiu Javier Milei, canalizando o ressentimento contra a classe política e prometendo libertação da inflação e da dívida.
A dívida de sacrifício e a ascensão de Milei
Em dezembro de 2023, Javier Milei chegou ao poder montado sobre um estado de espírito coletivo que tinha nome próprio nas pesquisas: exaustão moral. Não era simplesmente a pobreza, nem a inflação isolada, nem a desvalorização; era a sensação de ter feito tudo certo (trabalhar, poupar, sacrificar-se) e, ainda assim, não alcançar o que almejava; tratava-se da percepção de correr no mesmo lugar, de se esforçar sem que o esforço rendesse frutos.
Em 2023, oito em cada dez argentinos concordavam com uma afirmação contundente: “Diante dos problemas da inflação, dependemos do nosso esforço e sacrifício”. Quase a mesma proporção dizia se matar de tanto trabalhar sem que a inflação lhes permitisse chegar ao fim do mês – números mais altos entre quem já havia votado em Milei nas primárias.
Minhas pesquisas de 2023 mostravam esse estado de espírito difundido transversalmente: quem pedira emprestado para comer e a classe média que não chegava ao fim do mês compartilhavam a sensação de que o esforço próprio não encontrava retorno institucional – de que as dívidas não eram o preço de algo, nem o degrau para lugar nenhum, mas simplesmente o preço de permanecer no lugar. Para não cair.
Leonardo, professor, descreve isso com precisão: havia passado de endividar-se para comprar eletrodomésticos – a velha dívida da inclusão que o kirchnerismo promovia como símbolo de pertencimento – a endividar-se para comprar comida. O mesmo cartão, o mesmo crédito, mudara de sentido: já não era degrau para algo melhor, era remendo para não cair. Ricardo, comerciante, chamava suas dívidas de “dívidas de empobrecimento”, o oposto de tudo pelo que havia trabalhado. Com inflação acima de 90% em 2022 e 200% em 2023, as dívidas acumuladas não se dissolveram – se compuseram.
Essa é a dívida de sacrifício: dívida sem aspiração, que não leva a lugar nenhum – o preço de sobreviver.
O que define esse regime não é só sua magnitude, mas seu sentido acumulado: a dívida aspiracional cria um vínculo entre esforço presente e promessa de futuro; a dívida de sacrifício é seu oposto, o preço de permanecer no mesmo lugar. Quando essa experiência se repete governo após governo, algo se rompe na relação entre os lares e a política. O devedor de sacrifício sente que fez sua parte e que o Estado não cumpriu a dele – assimetria que gera uma superioridade moral sobre a classe política: “nós nos viramos sozinhos, eles não fizeram nada”. Foi exatamente essa superioridade moral que Milei soube ler, nomear e capitalizar.
O candidato
A campanha de Milei foi, no sentido mais preciso da palavra, uma campanha sobre o sacrifício: traduziu em linguagem política a sensação de que o sacrifício individual não encontrava contrapartida no Estado, e de que esse Estado era em si o obstáculo. A proposta da motosserra era uma promessa de reciprocidade invertida – se as famílias haviam sacrificado enquanto os políticos esbanjavam, agora os políticos também sacrificariam. A “casta” pagaria; o ajuste seria para cima.
O sacrifício vivido sem retorno nem reconhecimento converte-se, em política, numa demanda: que outros também sacrifiquem, a começar pelo Estado. A dívida de sacrifício não determina o voto, mas molda uma paisagem moral em que a ruptura radical deixa de parecer loucura e passa a parecer a única opção razoável. Foi o trampolim: instalou o estado de espírito a partir do qual essa ruptura pôde tornar-se moralmente plausível antes de politicamente viável. A experiência financeira acumulada de milhões de lares preparou o terreno; Milei a leu – não como irracionalidade, mas como resposta coerente a anos de promessas não cumpridas.
O governo de Milei herdou um regime de dívida de sacrifício – e o aprofundou. O ajuste fiscal traduziu-se em corte de subsídios, aumento de tarifas e retração do salário real; as famílias que já se endividavam para sobreviver viram os números piorarem, com inadimplência em alta, cartões que deixaram de alcançar e planos de pagamento se multiplicando.
A promessa implícita do sacrifício coletivo – de que a “casta” pagaria – chocou-se com uma realidade mais dura: nos ajustes estruturais, quem mais paga são sempre os que menos têm. As famílias que votaram esperando que outros sacrificassem descobriram que o sacrifício continuava sendo, como sempre, o delas.
O que os números não dizem
Os dados de inadimplência que circulam na mídia se apresentam como indicadores econômicos. E o são. Mas são também outra coisa: o registro de uma ruptura moral que leva décadas se construindo e que Milei, longe de resolver, estendeu sob uma nova promessa. Sua aparição na agenda pública não é casual: quando a dívida dos lares sobe até se tornar visível para a mídia, é porque já faz tempo que é insuportável para as famílias. O debate público chega tarde; a experiência financeira cotidiana chegou antes.
Segundo dados do Banco Central da República Argentina, a inadimplência no financiamento passou de 2,5% em dezembro de 2024 para 9,3% em dezembro de 2025. Em março de 2026 – o registro mais recente – saltou para 11,5%: um patamar não observado há mais de vinte anos. Em doze meses, a irregularidade dos créditos às famílias triplicou, com um aumento de 8,3 pontos percentuais. Os empréstimos pessoais concentram o maior nível de inadimplência em quinze anos. E a deterioração não se limita ao sistema bancário: nas carteiras digitais e entidades financeiras não bancárias – às quais recorrem os que já não conseguem crédito nos bancos – a inadimplência ultrapassa 30%.
A sociologia da dívida ensina algo que a economia costuma esquecer: o momento em que uma família não consegue pagar não é apenas um evento financeiro, mas o momento em que se ativa a pergunta sobre a responsabilidade. Quem tem a culpa: o devedor que não soube se administrar, o governo que não controlou a inflação, ou o sistema que prometeu o que não podia cumprir?
Na Argentina de hoje, essa pergunta volta a estar disponível: os lares que se endividaram para sobreviver, que esperaram que o ajuste de Milei trouxesse estabilidade e veem a inadimplência se acumular sem que o horizonte se abra, estão nesse limiar moral em que o sofrimento privado busca uma explicação pública e um responsável político.
Dívida, democracia e o futuro
Argentina e Brasil podem, mais uma vez, se olhar em espelho, como tantas outras vezes na história. Os alarmes soam dos dois lados da fronteira em torno do aumento das dívidas das famílias.
Endividados mostra que, quando a democracia não consegue garantir estabilidade monetária, previsibilidade temporal ou proteção econômica, a dívida das famílias deixa de integrar e passa a excluir. O que funcionava, em outros contextos, como mecanismo de inclusão por meio do crédito tornou-se, aqui, um mecanismo de erosão moral e política – resultando numa crescente perda de confiança na capacidade do Estado de proporcionar um senso de ordem para o futuro, e abrindo caminho para soluções extremas e a promessa radical de “recomeçar do zero”.
O endividamento cotidiano, a inflação persistente e a fragilidade econômica alimentaram um clima de frustração que abriu espaço para opções políticas radicais e antissistema. A ascensão de uma figura que se apresenta como ruptura e punição em relação ao sistema político não é um desvio inesperado, mas a culminação de um longo processo: a tradução política de décadas de instabilidade na reprodução material da vida.
Compreender como as famílias vivem, administram e sentem as dívidas – e como essas experiências moldam sua relação com a política – é, portanto, essencial para pensar o futuro da democracia. Uma sociedade sobrecarregada por dívidas corrói as expectativas sobre o futuro que as democracias prometem; a dívida devora essas expectativas por dentro e mina a ilusão de um amanhã melhor – sua ficção mais necessária e insubstituível.
A política progressista chegou muito tarde a essa compreensão na Argentina. Esperemos que sua contraparte brasileira esteja mais bem preparada para enfrentar essa mutação da democracia.

Ariel Wilkis (Buenos Aires, 1976) é doutor em Sociologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales e pela Universidade de Buenos Aires. É pesquisador do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (CONICET) da Argentina e professor titular da Universidade Nacional de San Martín. Autor de Endividados: como as finanças cotidianas formatam a democracia (Ateliê de Humanidades Editorial, 2026).
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


Deixe uma resposta