Fios do Tempo. A necessidade de utopia – Edson Marques Filho

Trazemos hoje mais um excelente texto de Edson Marques Filho. O que é a utopia? Por que necessitamos de utopia para vivermos socialmente? A fim de responder a essas perguntas, nosso autor costura três aportes ao tema: Karl Mannheim, Paul Ricoeur e Reinhart Koselleck.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!

A. M.
Fios do Tempo, 13 de outubro de 2026

Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


A necessidade de utopia

A utopia costuma ser compreendida como a representação de um mundo que não existe, frequentemente associado a um ideal cuja realização parece improvável ou impossível. Essa compreensão, entretanto, deixa escapar aquilo que talvez constitua sua dimensão mais importante: a utopia não diz respeito apenas ao futuro imaginado, mas também à maneira como experimentamos o presente. Imaginar uma realidade diferente daquela em que vivemos significa reconhecer que a ordem existente não esgota as possibilidades da experiência humana. Significa, sobretudo, admitir que aquilo que existe poderia ser diferente.

Essa constatação, aparentemente simples, possui consequências profundas para a compreensão da vida social e da própria historicidade humana. Se o presente passa a ser percebido como necessário, definitivo ou insuperável, o horizonte de expectativa se contrai até praticamente coincidir com o espaço de experiência. O futuro deixa de constituir um campo aberto de possibilidades e passa a ser concebido como simples prolongamento da realidade existente. A história não deixa de acontecer, mas nossa capacidade de imaginá-la como espaço de transformação se enfraquece.

Paradoxalmente, uma sociedade pode experimentar uma aceleração científica e tecnológica sem precedentes e, ao mesmo tempo, ver empobrecida sua capacidade de imaginar um futuro qualitativamente diferente. É precisamente contra esse fechamento que a utopia exerce sua função crítica. Sua importância não reside em antecipar um futuro ideal ou assegurar sua realização, mas em impedir que o existente seja confundido com o único mundo possível.

Em Ideologia e utopia, Karl Mannheim oferece uma contribuição fundamental para essa discussão. Para ele, o pensamento utópico caracteriza-se por sua incongruência com a realidade social existente e, especialmente, por sua capacidade de orientar práticas que tendem a transformar a ordem vigente. A utopia não se reduz, portanto, à fantasia ou ao desejo individual. Sua dimensão propriamente histórica manifesta-se quando uma determinada representação do possível adquire força social e passa a tensionar as condições concretas da existência.

Há, nessa formulação, uma questão temporal decisiva. A utopia projeta possibilidades que ainda não se realizaram, mas que já atuam sobre o presente, orientando expectativas, escolhas e ações. O futuro deixa de ser apenas aquilo que virá e passa a participar da constituição da experiência atual. Nesse sentido, a consciência utópica modifica a relação entre presente e futuro, introduzindo na realidade existente uma possibilidade de sua própria superação.

A reflexão de Reinhart Koselleck sobre as categorias de espaço de experiência e horizonte de expectativa permite aprofundar essa dimensão temporal. A experiência corresponde ao passado incorporado ao presente, enquanto a expectativa se dirige àquilo que ainda não foi experimentado. A tensão entre essas duas categorias constitui uma condição fundamental da temporalidade histórica.

Quando o horizonte de expectativa se reduz à reprodução daquilo que já conhecemos, o futuro perde sua abertura para o historicamente novo. Não se trata de afirmar que experiência e expectativa possam coincidir inteiramente, mas de reconhecer que sua aproximação excessiva pode expressar um empobrecimento da imaginação histórica.

A utopia, nessa perspectiva, reabre a distância entre experiência e expectativa. Não porque possa garantir a realização de um futuro desejado, mas porque permite conceber possibilidades que ultrapassam os limites do presente. O possível passa a atuar sobre o real, introduzindo uma tensão que impede a identificação da realidade existente com a totalidade da experiência histórica.

Paul Ricoeur retoma o problema formulado por Mannheim e o desenvolve no âmbito de sua reflexão sobre o imaginário social. Em sua interpretação, ideologia e utopia não devem ser compreendidas exclusivamente como formas de distorção da realidade. Ambas exercem funções constitutivas na organização simbólica da sociedade. Enquanto a ideologia contribui para a integração de uma comunidade, preservando identidades, tradições e formas de reconhecimento coletivo, a utopia exerce uma função crítica, introduzindo distância em relação à ordem estabelecida.

Essa relação é particularmente importante porque nenhuma sociedade pode existir apenas pela contestação permanente de suas próprias instituições, assim como nenhuma sociedade permanece historicamente aberta quando suas instituições são consideradas definitivas. A ideologia oferece continuidade; a utopia introduz a possibilidade de transformação. Uma sociedade necessita de ambas, embora a relação entre elas seja permanentemente atravessada por conflitos.

O diálogo de 1985 entre Cornelius Castoriadis e Paul Ricoeur, publicado em português como Diálogo sobre a história e o imaginário social, permite aprofundar essa discussão sem apagar uma divergência importante. Castoriadis insiste na criação histórica e na capacidade instituinte do imaginário social: novas significações podem emergir sem estarem previamente contidas na ordem existente. Ricoeur, por sua vez, sublinha a relação entre inovação e sedimentação, considerando o trabalho da imaginação em diálogo com as tradições e instituições herdadas. A convergência entre ambos está no reconhecimento da capacidade transformadora da ação humana; a divergência está na maneira de compreender a emergência do novo.

A utopia, entretanto, também apresenta seus próprios riscos. Quando uma representação ideal do futuro pretende eliminar toda contingência, toda divergência e toda imprevisibilidade da ação humana, pode converter-se em um projeto de fechamento da história. A promessa de emancipação transforma-se, então, na exigência de submissão a um futuro previamente determinado. A crítica ricoeuriana permite reconhecer essa possibilidade sem abandonar a função transformadora da imaginação utópica.

É precisamente aqui que se torna necessário distinguir a utopia entendida como projeto de uma sociedade perfeita daquela concebida como horizonte de possibilidades. Na primeira, o futuro aparece como destino, como realização necessária de uma verdade previamente conhecida. Na segunda, permanece aberto, sujeito à ação humana, ao conflito, à revisão das expectativas e à contingência histórica.

A utopia não precisa oferecer uma descrição completa da sociedade futura para exercer sua função crítica. Sua importância pode residir justamente na capacidade de revelar que as instituições, os valores e as relações sociais existentes não são as únicas formas possíveis de organização da vida coletiva.

Essa distinção adquire especial relevância quando consideramos a experiência contemporânea do tempo.

Vivemos em sociedades que dispõem de extraordinários recursos científicos e tecnológicos, mas que parecem experimentar dificuldades crescentes para formular expectativas coletivas de futuro. Guerras, crises ambientais, desigualdades persistentes, precarização das relações de trabalho e desconfiança nas instituições compõem um cenário no qual o futuro frequentemente aparece menos como promessa do que como ameaça.

Não se trata de afirmar que nossa época seja excepcionalmente catastrófica ou que sociedades anteriores tenham vivido sob expectativas permanentemente otimistas. Trata-se, antes, de investigar de que maneira determinadas condições históricas podem restringir a capacidade coletiva de imaginar alternativas à realidade existente.

Quando o horizonte de expectativas se contrai, a ação política corre o risco de se reduzir à administração das urgências. O presente torna-se o espaço quase exclusivo da experiência, enquanto o futuro aparece como prolongamento das crises atuais ou como catástrofe a ser evitada. A imaginação social passa a operar predominantemente sob os signos do medo, da insegurança e da sobrevivência.

Nesse contexto, a ausência de utopia não significa necessariamente ausência de projetos. Uma sociedade pode produzir inúmeros planos econômicos, estratégias administrativas, programas de desenvolvimento e inovações tecnológicas sem conseguir formular uma representação compartilhada de um futuro qualitativamente diferente.

A distinção é importante. Planejar não é necessariamente imaginar. O planejamento pode limitar-se à reprodução mais eficiente das estruturas existentes, enquanto a imaginação utópica questiona as próprias finalidades que orientam essas estruturas.

***

O campo da saúde oferece um exemplo particularmente expressivo dessa tensão.

As instituições sanitárias contemporâneas desenvolveram instrumentos extraordinários de diagnóstico, tratamento, organização e avaliação de resultados. Entretanto, a expansão da racionalidade técnica e administrativa pode produzir uma situação paradoxal: quanto maior a capacidade institucional de administrar procedimentos, recursos e indicadores, menor pode se tornar o espaço destinado à reflexão sobre os fins sociais e humanos dessas mesmas instituições.

Não existe, evidentemente, uma oposição necessária entre eficiência administrativa e compromisso ético. O problema surge quando os instrumentos de gestão deixam de ser meios e passam a determinar as próprias finalidades institucionais. Nesse momento, aquilo que deveria constituir uma decisão política e moral sobre as prioridades coletivas tende a apresentar-se como simples necessidade técnica.

A função utópica consiste, nesse caso, em recuperar a possibilidade de interrogar as instituições a partir de finalidades que não estejam inteiramente subordinadas à sua lógica de funcionamento. Que formas de cuidado desejamos construir? Quais necessidades humanas devem orientar a distribuição dos recursos? Que significado atribuímos à justiça, à dignidade e à responsabilidade coletiva diante do sofrimento?

Essas perguntas não podem ser respondidas exclusivamente por indicadores de desempenho, embora dependam também de conhecimentos científicos e de avaliações empíricas rigorosas. Elas exigem imaginação moral e política, isto é, a capacidade de conceber formas de convivência e organização institucional que ainda não se encontram plenamente realizadas.

Nesse sentido, podemos propor a hipótese de que a preservação de uma temporalidade utópica constitui uma dimensão importante da saúde simbólica e política de uma sociedade. Não se trata de empregar a palavra saúde como categoria clínica, mas como uma metáfora para a capacidade coletiva de reconhecer conflitos, revisar instituições e produzir novas possibilidades de existência.

Uma sociedade que perde essa capacidade não deixa necessariamente de funcionar. Suas instituições podem continuar operando, suas atividades econômicas podem expandir-se e suas tecnologias podem tornar-se progressivamente sofisticadas. O que se encontra ameaçado é algo distinto: a possibilidade de submeter a realidade existente a uma crítica orientada por finalidades coletivamente imaginadas.

É nesse ponto que a reflexão de Mannheim, Ricoeur e Koselleck permite formular uma questão que ultrapassa a discussão tradicional sobre a viabilidade das utopias. Talvez o problema central não seja saber se uma sociedade ideal pode efetivamente realizar-se, mas compreender o que acontece com uma sociedade quando seus integrantes deixam de acreditar que podem construir algo diferente daquilo que já existe.

A utopia não elimina a contingência da história. Pelo contrário, quando compreendida como abertura do possível, pressupõe que o futuro não esteja inteiramente determinado. Seu papel não é antecipar o resultado necessário da ação humana, mas preservar a possibilidade de que essa ação introduza algo novo no mundo.

Há, finalmente, uma dimensão dessa reflexão que merece ser destacada. O possível não começa a existir apenas quando se transforma em realidade material. Antes de qualquer realização, uma possibilidade pode ser pensada, comunicada, discutida e compartilhada. Ao ingressar na experiência humana, passa a participar do mundo histórico, ainda que jamais venha a realizar-se.

Isso não significa que toda possibilidade imaginada produza necessariamente consequências sociais identificáveis. Significa reconhecer que a experiência histórica não se limita ao conjunto dos acontecimentos efetivamente realizados. Ela também compreende expectativas frustradas, projetos abandonados, alternativas derrotadas e futuros que chegaram a ser imaginados, mas nunca se concretizaram.

A história, portanto, não é constituída apenas pelo que aconteceu, mas também pela relação que os seres humanos estabeleceram com aquilo que poderia acontecer.

A necessidade da utopia talvez resida precisamente aí. Não na promessa de uma reconciliação definitiva entre humanidade e história, nem na garantia de um futuro melhor, mas na preservação da capacidade humana de imaginar possibilidades que ultrapassem as determinações do presente.

Em tempos nos quais o futuro parece cada vez mais ameaçador e a administração do existente frequentemente se apresenta como a única forma legítima de racionalidade, a utopia recupera sua importância como exercício de liberdade histórica.

Uma sociedade não necessita acreditar que o futuro será necessariamente melhor. Necessita, porém, preservar a possibilidade de que ele possa ser diferente e de que seus integrantes participem de sua construção.

Referências

CASTORIADIS, Cornelius; RICOEUR, Paul (2016) Diálogo sobre a história e o imaginário social. Tradução de Gonçalo Marcelo e Hugo Barros. Lisboa: Edições 70.

KOSELLECK, Reinhart (2006) Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC-Rio.

MANNHEIM, Karl (1972) Ideologia e utopia. Rio de Janeiro: Zahar.

RICOEUR, Paul (2015) A ideologia e a utopia. Belo Horizonte: Autêntica.

EDSON MARQUES FILHO é médico intensivista


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