Fios do Tempo. Três observações sobre as eleições presidenciais de 2026 – Elimar Pinheiro do Nascimento

Publicamos hoje a primeira análise após as eleições presidenciais de 2026.

Começamos com Elimar Pinheiro do Nascimento, que reflete sobre o resultado e os desafios do próximo governo.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!

A. M.
Fios do Tempo, 27 de outubro de 2026

Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


Três observações sobre as eleições presidenciais de 2026

A primeira observação é sobre o fato inédito e extraordinário da vitória de Lula. Tinha tudo para perder, pois o candidato adversário tinha chegado em primeiro lugar com uma diferença de 2.224.965 votos no primeiro turno. Além disso, teve o apoio de outros três candidatos à presidência: Caiado, Zema e Cury; e, da Meta, que foi acusada de restringir o acesso a eleitores de Lula, particularmente do Exército de Lula, comandado por André Janones. Finalmente, foi desfavorecido por decisões esdrúxulas da presidência do TSE.

Uma vitória sem precedentes. No segundo turno, Lula ganhou com uma diferença de 4.430.191 votos. Ele angariou mais 10.550.653 votos, enquanto Bolsonaro, apenas 3.721.538.

Reduziram-se as abstenções, os votos nulos e brancos. E, o mais surpreendente: alguns eleitores de Bolsonaro mudaram de voto. Em vários municípios, ele teve menos votos do que no primeiro turno.

As razões, múltiplas, desta vitória, residem na mobilização de uma militância que se imaginava inexistente nas redes sociais e nas ruas; no empenho das pessoas em conquistar novos votos; nas medidas adotadas pelo governo e no apoio, nas redes, de personalidades as mais distintas do campo das artes, da religião, da academia e da política. Inclusive e, sobretudo, não petistas ou antigos adversários. A sensação era de que toda a intelligentsia do País estava do lado de Lula. Assim, se o PT imaginar que é o principal responsável pela vitória, estará cometendo um gravíssimo erro. A vitória foi o resultado de uma mobilização inédita da sociedade civil.

Contudo, foi uma votação mais do “contra” e menos do “a favor”. As redes sociais se encheram de denúncias contra Bolsonaro: as homenagens aos milicianos, das rachadinhas; a Casa do Lago em Brasília; o voto contra a ampliação da licença-maternidade; o encontro com empresários e garotas de programa no Lago Paranoá em plena pandemia; as relações com Vorcaro, preso, de quem teria recebido dinheiro para o financiar o filme sobre o pai; a lavagem de dinheiro com o advogado Willer Tomaz, cujos bens acabam de serem bloqueados pelo STF; e a postura anticiência. Claro que pesaram as ameaças aos direitos sociais no seio dos trabalhadores (garantir reajuste salarial acima da inflação no caso dos que ganham salário mínimo, garantia de reajustes dos aposentados e funcionários públicos e manutenção dos programas sociais), mas também à democracia e à soberania nacional.

As razões de vitória ou derrota em eleições estão sempre articuladas a erros e acertos múltiplos. O candidato do PL após o 1º turno adotou a postura de salto alto, como se diz no popular, e passou a fazer sondagens e declarações sobre o próximo governo. Seus assessores contribuíram para sua derrota com declarações antipopulares como “transição de dois anos no (programa) Bolsa Família”, privatização da Petrobras e do Banco do Brasil, e o corte de 250 bilhões no orçamento para ajustar as contas públicas, sem dizer onde seriam feitos os cortes. Os memes foram imediatos: “corte o Flávio antes que ele te corte”.

A postura do candidato derrotado após as eleições é a segunda observação que quero fazer. Flávio Bolsonaro declarou que não aceitava as eleições e iria pedir a sua anulação pela interferência do STF ao prorrogar o prazo do término das eleições das 17 às 19 h. E disse que a intervenção foi feita pelo ministro do STF que foi advogado de Lula para beneficiá-lo, e não sabe como seriam os resultados das urnas se isso não tivesse acontecido. Diga-se, de passagem, que os votos depois das 17h não passaram de 35 mil.

Os jornalistas da Central das Eleições da GloboNews foram implacáveis na análise. O candidato do PL sonegou a informação de que o PL também pediu a prorrogação do horário de término das eleições. Por volta das 15h30, protocolou um pedido junto ao TSE, quase ao mesmo tempo que o PT. Este, percebendo que o TSE, sob direção de ministro indicado por Jair Bolsonaro, não tomava qualquer atitude, recorreu ao STF, o tribunal superior ao TSE. Por inabilidade política e desconhecimento do funcionamento das urnas, o ministro Zanin declarou à imprensa, logo após as 17h, que decidira prorrogar as eleições até as 19h conforme pedido dos dois partidos. E mais de vinte minutos depois enviou por escrito sua decisão ao TSE, que decidiu implementá-la declarando que as urnas que não estivessem fechadas continuassem abertas até 19h. A ordem de prorrogação chegou de forma oficial às seções eleitorais depois das 17h30, quando a quase totalidade das urnas já estava fechada. Quando fechadas, as urnas não podem ser reabertas, justamente para impedir fraudes. Portanto, uma medida inócua, que serviu apenas para os bolsonaristas declararem mudanças nas regras do jogo na última hora.

Em seus pedidos de prorrogação, os motivos e os locais eram distintos. O PL pedia prorrogação porque em algumas regiões de São Paulo e do Paraná as chuvas, sobretudo matinais, prejudicavam o acesso às urnas por parte dos eleitores. O PT, por sua vez, pedia para que prorrogassem as eleições em São Paulo capital e Salvador porque os empresários, com complacência de autoridades públicas locais, reduziram a oferta de ônibus, prejudicando o acesso às urnas dos cidadãos e cidadãs menos aquinhoados monetariamente. Ou seja, cerceando o livre exercício do voto. Fato que parece ter ocorrido em outros estados, num total, segundo a imprensa, de oito.

Em sua declaração, além de se mostrar mau perdedor, Flávio Bolsonaro revelou-se cínico ao omitir que seu partido também havia pedido a prorrogação do horário de término das eleições. É evidente, por outro lado, que a medida desastrosa do ministro Zanin não afetou em nada os resultados. Elas fecham, em geral, entre 17h e 17h30. A ordem legal chegou depois.

Claro que os bolsonaristas, com apoio do governo norte-americano e talvez de outros, vão continuar criando a narrativa de “roubo nas eleições”. Epíteto que utilizam para todas as eleições em que perdem. Nunca em relação àquelas em que eles ganham, como no primeiro turno ou em 2018.

A última observação refere-se ao day after. O governo reeleito terá grandes dificuldades e desafios pela frente.

Um Congresso Nacional de maioria de direita, como no governo anterior, mas agora com um peso considerável da extrema-direita bolsonarista. E com uma boa capacidade de criar narrativas que se tornam hegemônicas nas redes sociais, além do apoio de canais de TV e da imprensa escrita. Sem contar o apoio externo dos EUA.

Uma dívida pública monumental que aumenta a cada dia, e que vai necessitar de cortes no orçamento. Grave, sobretudo, em face das expectativas criadas. As finanças públicas necessitam de ajustes para que as taxas de juros baixem, a inflação fique sob controle e a confiança no governo se faça presente entre os investidores. E, com isso, voltar a economia a crescer de forma mais pujante do que atualmente.

Finalmente, o governo Lula necessitará se reinventar. Ele o reconheceu em seu discurso após a vitória. Por diversas vezes insistiu que aprendeu muito e precisa mudar – dar mais atenção às mulheres, aos jovens, aos empreendedores e aos idosos. Não o disse, mas é o corolário necessário: desligar-se do identitarismo retrógrado. Assim como se aproximar das comunidades evangélicas e do povo mais conservador, sobretudo em relação aos costumes. Precisa fazer um governo bem mais aberto, menos petista, do que o anterior. E enfrentar o maior desafio: criar as condições favoráveis para ter um sucessor, de preferência de fora de seu partido.

Elimar Pinheiro do Nascimento é sociólogo, com doutorado pela Université de Paris V (Rene Descartes, 1982), e pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Professor associado dos Programas de Pós-Graduação do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UNB) e do Programa Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Autor do livro: Um mundo de riscos e desafios: conquistar a sustentabilidade, reinventar a democracia e eliminar a nova exclusão social (FAP, 2020). E-mail: elimarcds@gmail.com


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