Estamos publicando alguns textos em torno das eleições neste segundo turno.
Temos agora a interrogação basilar de Nelson Lellis: “a esquerda entende o desejo do povo?”.
Pergunta que pressupõe outra, ainda mais fundamental: por que é importante saber interpretar o desejo do povo que se busca representar?
Este artigo dá início a uma série de publicações do Fios do Tempo em parceria com o projeto Pontos e contrapontos, de Nelson Lellis.
Desejamos, como sempre, uma excelente leitura.
A. M.
Fios do Tempo, 24 de outubro de 2026
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial

A esquerda entende o desejo do povo?
Por que culpar o eleitor por suas escolhas e por que classificá-lo como um fascista, ignorante ou traidor quando ele não assume as pautas que “se esperava dele”? Setores hegemônicos da esquerda entendem o desejo do povo? Isso pode atestar a ineficácia política e o mau uso de conceitos (inclusive por acadêmicos).
Boa parte do discurso progressista insiste que o voto deve ser determinado por marcadores de identidade (gênero, raça, classe), ignorando correntes históricas do próprio campo que sempre priorizaram a materialidade. O desejo humano não obedece a cartilhas teóricas. Uma mulher negra e moradora da periferia, por exemplo, pode priorizar a ordem pública e o empreendedorismo em vez da tutela estatal. Seu voto conservador não representa uma falha de consciência, mas a expressão legítima de demandas materiais e imediatas. Por isso, pretos, gays, mulheres, pobres não deixam de votar na esquerda por uma dissonância cognitiva. Vimos isso no primeiro turno dessas eleições. Existem outras formas de trabalhar a política que não seja a classificação e o julgamento moral.
Nesse contexto, classificar o eleitorado conservador como fascista esvazia o conceito e impede a capacidade de diagnóstico da realidade social. Embora o uso do “neofascismo” seja utilizado (e validado por muitos acadêmicos) para descrever o flerte autoritário de certas lideranças, a base do conservadorismo popular brasileiro é movida por valores religiosos, postura antissistema e desejos de liberdade econômica. O avanço dessas forças conservadoras (exemplificado pelo PL como a maior força na Câmara e no Senado) ocorre porque esse campo soube, em certa medida, dialogar com paixões reais (ora sim, ora não) e urgentes do povo: a segurança, a ascensão social, o desejo de consumo e a defesa da família. Em contraste, um campo político que se limita a apontar o dedo e tratar o eleitor como ignorante gera apenas ressentimento.
A eficácia do poder político nasce da mobilização de esperanças e medos, não de lições de moralidade ideológica. Como alertava Maquiavel, governar (e fazer campanha) exige lidar com os indivíduos como eles realmente são, e não como “deveriam ser”. Alguns acreditam que as urnas recompensam a superioridade moral, mas o que temos testemunhado é que ela recompensa mesmo a capacidade de quem lê o espírito do seu tempo e desce ao terreno da realidade para representar o que a sociedade efetivamente deseja.
Para conhecer o povo, portanto, é importante reconhecer seus humores e dialogar a partir deles. Isso não significa abandonar convicções ou aceitar tudo passivamente, mas entender que a arte de governar passa por canalizar as forças da sociedade, e não por oferecer aulas de moral. Quando o eleitorado escolhe candidatos que desafiam as expectativas das análises/pesquisas, não é porque a população se tornou irracional, mas porque as massas não votam a partir de teorias que determinam de fora quais deveriam ser os seus interesses. O que ocorre, por fim, é que certos discursos conseguem capturar anseios materiais e emocionais muito mais urgentes do que as cartilhas propostas por outros campos.
O cenário político brasileiro esbarra na confusão entre a prática política e a moralidade (seja ela religiosa ou ideológica); ainda que a moralidade seja uma ferramenta de mobilização, ela não sustenta, sozinha, a eficácia do poder. Às vésperas do segundo turno, a grande cartada não deveria residir em duelos de virtude (como a quebra de sigilos), mas na performance de quem se mostra mais apto a garantir estabilidade e governabilidade.
Como poesia concreta:


NELSON LELLIS é doutor em Sociologia Política e bolsista pós-doc pelo mesmo programa na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).
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