Fios do Tempo. Ideias, imagens e falas da nova direita e do reacionarismo brasileiro – por Marcos Lacerda

Trazemos hoje, no Fios do Tempo, uma resenha de Marcos Lacerda sobre o documentário “Intervenção: Amor não quer dizer grande coisa” (2017), de Tales Ab’saber, Rubens Rewald e Gustavo Aranda. Esta breve reflexão faz parte de um conjunto de estudos de Lacerda sobre a nova direita brasileira, dos quais já publicamos o artigo “A ascensão conservadora e a complexa trama de ideias da nova direita” (23 de dezembro de 2021), uma resenha do livro de “Tempestade ideológica: Bolsonarismo: a Alt-Right e o populismo iliberal no Brasil“, de Michele Prado.

Desejo, como sempre, uma ótima leitura.

A. M.
Fios do Tempo, 09 de fevereiro de 2022



Ideias, imagens e falas da
nova direita e do reacionarismo brasileiro

Resenha sobre o filme:
Intervenção: Amor não quer dizer grande coisa” (2017), de Takes Ab’saber

Tales Ab’saber é psicanalista, e conhecido crítico e ensaísta. Tem produção recente atenta ao momento tenso da vida do Brasil no atual período, com livros sobre Lula, o estranho período Temer e Dilma, uma tríade sobre o país recente: “Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica” (2011); “Dilma Rousseff e o ódio político” (2015) e “Michel Temer e o fascismo comum” (2018). 

Atualmente prepara um novo livro que certamente vai se situar entre o que melhor se fez no pensamento associado a nomes como Roberto Schwarz, Antonio Candido, Paulo Arantes, Luís Augusto Fischer, entre outros, tudo tendo a gênese da nossa canção popular num lugar, a um tempo, imaginado, ou mesmo sonhado, e imprevisto. O leitor espere para ver e confirmar o que digo.

Tales também tem feito filmes. Uma série deles, com bom uso da linguagem do cinema, e de um cinema por vezes mais experimental, com o intuito de também tentar pensar melhor o país. Um dos mais impressionantes é este aqui “Intervenção: Amor não quer dizer grande coisa” (2017). Excelente, com Rubens Rewald e Gustavo Aranda. Eles optaram acertadamente por apresentar uma sequência de vídeos com falas de anônimos e lideranças políticas da nova direita brasileira.

Em torno das falas circundam muitas das teses destes grupos: globalismo, maçonaria, deep state, Foro de São Paulo como uma nova internacional comunista, uma nova guerra fria, separando “Rússia-China” dos “EUA” e por aí vai. Além disso, pedidos por intervenção militar, como “solução” para o impasse que se criou no país no período do segundo governo Dilma até o impeachment. Há desde os hangouts com Olavo de Carvalho e companhia, até falas de anônimos com informações “preciosas” sobre possíveis invasões “bolivarianas” ao Brasil.

Nós somos como que tomados pelo estado de paranoia em muitas das falas, pelas expressões variadas. Um dos falantes tem algo de canastrão, parece um ator dos filmes de chanchada da década de 1950; outro, olha sempre para baixo quando fala, mostra uma timidez que parece esconder algum conflito psicossomático; mais um outro, fala com voz de trovão, mostra plena convicção no que diz, conclama a todos para o grande embate épico e o diz com assustadora firmeza de propósitos. 

As vozes vão se alternando em diferentes volumes, embora muitas delas sejam como que gritadas, ditas em tom de desespero, com o falante quase que espumando de raiva, soltando fogo pelas ventas, como se dizia antigamente. A mim não causaram riso, nem sensação de comicidade, mas um certo tom de algo insólito, sombrio.

Uma coisa que me chama a atenção é a confirmação, mais uma vez, de que a ascensão da nova direita é um fenômeno social profundamente popular. Um fenômeno que atravessa classes sociais, marcadores sociais, o que for. Pouco ou nada a ver com teses fracas como as de que se fossem “elites brancas” incomodadas com os ganhos sociais dos governos petistas.

Trata-se de um fenômeno social e cultural infinitamente mais complexo e de difícil compreensão, o que exige uma leitura mais cuidadosa e um exercício de reflexão mais delicado, mesmo que feito “no calor da hora”, pela urgência do tema, claro.

Existe uma cena no filme que é sintomática. Numa igreja evangélica, pequena, possivelmente de algum bairro popular, um grupo de mulheres vestidas com roupa militar faz uma coreografia em que misturam passos militares, com dança de canção popular, para delírio dos fiéis, todos das classes populares. Também uma outra cena, ao que parece também numa igreja evangélica de bairro popular, homens vestidos com roupa militar desfilam, para o olhar atento dos fiéis. O ambiente é o mesmo. 

Atravessam todo o filme um misto de delírio religioso com estética kitsch e conspiracionismo. As pessoas que aparecem ora falando, ora gritando, ora em tom pausado com interesse de persuasão, ora em tom de denúncia para gerar pânico moral difuso, tem um cenário, vestimenta, dicção, performance cênica em tudo diferente do universo do “bom-gosto” das elites culturais progressistas.

Ao fim e ao cabo, fica a sensação de que alguma coisa de muito profundo se quebrou no país e de que estamos diante de fantasmagorias que foram, durante muito tempo, recalcadas, ou colocadas em segundo plano, não o sei dizer ao certo. Bons filmes são aqueles que nos deixam com sensação incômoda, e com aquela angústia sem objeto definido. 

Alguma coisa ali diz muito sobre nós, sobre a formação do país e sobre conflitos mais recentes. E isso gera de fato a sensação de que existem muitas pistas falsas, enigmas, e passos claudicantes nas movimentações do país, e que nós estamos ainda tateando, ou mesmo pisando em um campo minado, cujo horizonte apresenta miragens algo ininteligíveis. 

Em suma, como se estivéssemos sempre à beira de um abismo cujo fundo ainda não se pode avistar, ou mesmo prenunciar, se é que tem algum fundo.

Marcos Lacerda

Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia – UFPel e livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades. Doutorado em Sociologia pelo IESP/UERJ (2011-2015). Foi Diretor do Centro da Música da Funarte / Ministério da Cultura, responsável pelas políticas públicas para a música no Brasil, entre maio de 2015 e março de 2017. Atua na coordenação e curadoria da coleção Caderno Ultramares, da OCA Editorial de Portugal, ao lado do crítico e editor Sérgio Cohn. Autor de “A sociedade das tecnociências: Introdução à obra de Hermínio Martins” (Ateliê de Humanidades, 2020) e organizador, com André Magnelli, de “Sociologia das tecnociências contemporâneas” (Ateliê de Humanidades, 2020). 




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