Fios do Tempo. A ascensão conservadora e a complexa trama de ideias da nova direita – por Marcos Lacerda

Como compreender a ascensão conservadora ocorrida nos últimos anos no Brasil? Como deslindar a complexa trama de ideias que constitui a nova direita tanto mundial quanto nacional? Muitas tentativas estão sendo feitas nos últimos anos, mas larga parte delas é marcada pela caricatura própria da luta político-partidária, que dificulta ainda mais a compreensão da natureza real do processo.

Nesta resenha de Marcos Lacerda, que glosa o livro “Tempestade ideológica: Bolsonarismo: a Alt-Right e o populismo iliberal no Brasil“, de Michele Prado, temos uma cuidadosa análise da formação do ecossistema digital e do complexo de ideias da nova direita mundial e brasileira.

Desejo, como sempre, uma excelente leitura!

A. M.
Fios do Tempo, 23 de dezembro d
e 2021



A ascensão conservadora
e a complexa trama de ideias da nova direita

Resenha de:
Michele Prado, Tempestade ideológica: Bolsonarismo:
a Alt-Right e o populismo iliberal no Brasil (Lux, 2021)

Desde a consolidação da ascensão conservadora no Brasil, com a eleição do atual presidente da república, tem aparecido uma série de tentativas de compreensão do fenômeno que vão muito além da política institucional. Ela envolve vários atores sociais, com sua própria complexidade, atuando paralelamente, a seu modo, com suas idiossincrasias: os movimentos de direita online, com suas feições próprias e diferenças entre si; os movimentos sociais novos como o MBL e o Vem pra Rua, além do Nasruas e Revoltados online; a intensidade e expansão da atuação de lideranças e fiéis das igrejas neopentecostais; a atuação de generais do exército e, mesmo, da elite militar em geral como protagonistas da política e da esfera pública. Além da popularização de um dos personagens centrais dessa ascensão conservadora: o filósofo Olavo de Carvalho, que é considerado, para alguns, apenas um ideólogo. Mas enfim, essas adjetivações são irrelevantes. A presença dele é tão forte que pode se falar inclusive em um “Olavismo”, como se houvesse mesmo um movimento cultural, político, intelectual em torno desta figura. 

Têm aparecido bons livros sobre o tema, às vezes concentrados neste ou naquele ator social; outras vezes tentando abranger o todo. O resultado ora é interessante, estimulante até, ora fica no meio-termo da mera expressividade, alguns no limite repetindo jargões ideológicos que não contribuem muito para o entendimento do fenômeno. Não é o caso deste livro, “Tempestade ideológica: Bolsonarismo: a Alt-Right e o populismo iliberal no Brasil” (2021), da escritora Michele Prado. É, no meu modo de ver, um dos trabalhos mais importantes sobre o tema publicado no Brasil neste ano. 

Eu diria que existem três aspectos centrais ao livro. O primeiro é o que envolve a gênese da movimentação de direita no ambiente online, começando em redes sociais como o orkut, até passar pelo facebook e twitter, além dos hangouts, podcasts, com cada rede tendo uma papel importante no processo; o segundo é que diz respeito à genêse das próprias ideias das novas direitas, começando por movimentos como o da Nouvelle Droite francesa no final da década de 1960 e a Alt-Right dos EUA no final dos anos 1980, tendo como base fundamental o pensamento tradicionalista, conservador e contrarrevolucionário de outros tempos; o terceiro, a maneira como tanto a movimentação no ambiente online, quanto no âmbito das ideias, chegou ao Brasil, tendo como figura intelectual central o Olavo de Carvalho, embora não se reduzindo a ele. 

Mas, além dessas três dimensões, um ponto fundamental da análise é a que pensa a ascensão conservadora no Brasil, com toda a sua complexidade interna, como algo que vai muito além das interpretações que as relacionam exclusivamente com as chamadas “jornadas de junho”, o conjunto heterodoxo de manifestações populares no Brasil de 2013. Também como algo que vai muito além do antipetismo como sentimento difuso. Daí que teses fracas como as que atribuem a essa ascensão uma espécie de revolta das “elites” contra os ganhos sociais dos governos petistas parecem não fazer muito sentido. Ou são, no máximo, o resultado de análises mais laterais, pouco atentas ao processo social real. 

Temos, assim, a importância dos suportes digitais, como dado central das novas formas de realização da política; a disseminação de um conjunto de ideias que vão gerar o fenômeno da alt-right nos EUA; e a centralidade da figura pública e intelectual de Olavo de Carvalho – tudo isso valendo por uma análise, feita por Michele Prado, que não ecoa interpretações ideológicas e político-partidárias, embora nunca deixe de ter um tom bastante crítico ao que considera ser riscos reais de tais movimentações para a democracia liberal e os valores da modernidade. 

É que a autora defende a tese de que, mesmo nos casos aparentemente mais moderados, temos a presença de ideias com base em alguma forma de extremismo de direita, ou ao menos alguma proximidade de sentido. Sem desconsiderar a crítica da autora, vamos optar nesta resenha por uma abordagem que se permita tentar compreender propriamente o conjunto de ideias e o fenômeno em si, colocando provisoriamente em suspenso, como estratégia de análise, este tipo de perspectiva mais normativa.

I. A formação do ecossistema digital da nova direita no Brasil

Para começo de conversa, temos que ver o modo como os grupos de direita, com toda a diversidade e heterogeneidade, importante dizer, começaram a se organizar no Brasil, no ambiente digital. Um suporte fundamental foi o Orkut, inicialmente. Uma rede que foi muito popular entre nós. Em 2005,  já havia grupos que liam autores críticos ao governo federal de então, o primeiro governo petista. Assim, textos de jornalistas como Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Lucia Hipólito, entre outros, eram divulgados na rede. Tínhamos grupos de debate a respeito destes textos. Todos concentrados, naquele momento, na crítica aos arroubos autoritários do governo petista, seguidos depois pelos casos de corrupção. Paralelo a isso, já era possível ver canais voltados ao pensamento de Olavo de Carvalho, com teses que viriam a ser muito difundidas uma década depois e se tornariam bastante populares. 

Temos aqui, assim, dois caminhos paralelos. O primeiro, o de desenvolvimento de um processo de renovação da direita brasileira, com a constituição autônoma de grupos de debate numa rede social nova, ancorada na crítica ao então governo federal, especialmente ao aparelhamento da máquina pública, aos casos de corrupção e, também, como passaria a acontecer com mais frequência, aos casos de assédio online.  Outro, o do começo da difusão de um conjunto de ideias muito específico, associado à direita radical e à extrema direita, com a sua plataforma de pautas e valores já bem explicitadas. 

Estes dois caminhos vão se entrecruzar em algum momento, como veremos mais adiante. Por enquanto, sigamos com a importância dos suportes digitais. Alguns anos depois do Orkut, surge o Twitter. Há uma migração de ambos os grupos para essa nova rede, que começa a se transformar numa febre no meio do ciberespaço. No twitter os textos são mais curtos, têm uma limitação de caracteres, mas ao mesmo tempo tem um nível de alcance maior. Pouco depois vem o Facebook, numa situação em que os diversos grupos de direita estão já mais ou menos consolidados e com cada vez mais força de atuação e aglutinação, tanto que ao mesmo tempo em que estes grupos vão se fortalecendo, ações de assédio online por parte dos grupos petistas inseridos nas próprias redes começam também a  ganhar mais força. Posteriormente estas ações vão se institucionalizar, com a política dos MAVs, os Militantes em Ambiente Virtuais, além é claro dos blogs “alternativos”, também chamados de “blogs sujos”. 

A vantagem do Facebook em relação ao Twitter é bastante significativa. Trata-se de uma rede que permite o alongamento da escrita; um controle maior sobre os comentários; a possibilidade permanente da edição; o compartilhamento de artigos, vídeos, fotos e indicação de livros. Houve assim uma nova migração, o que vai dando cada vez mais corpo para os diversos, heterogêneos e nem sempre convergentes entre si, grupos de direita.  Entre eles aquele que vai ser hegemônico e contribuir decisivamente para a eleição do atual governo federal. 

Mas, além destas redes [orkut, twitter e facebook], há uma outra forma digital de disseminação de informações e ideias muito importante para estes grupos: os hangouts. Eles são algo como o google meet, no sentido de permitir a divulgação e compartilhamento de vídeos com debates, chamadas, entre outras possibilidades. Os hangouts foram criados em 2013 e tiveram importância significativa em todo esse processo. A autora menciona, como referência importante, o uso do hangout pelo cantor e compositor Lobão que, naquela época, se transformou numa espécie de ícone da nova direita brasileira. 

Além do suporte das redes e plataformas do ciberespaço, existe também uma linguagem própria destas redes sociotécnicas, formada pela linguagem memética, o trolling, as fake-news e o clickbait. Também entram aqui grupos que se utilizam de uma estética visual própria: o vaporwave e os fashwaves. Em todos os casos com o propósito de engajar mais militantes, descartar e, como é mais costumeiro, banir através de ataques constantes grupos opositores, ou mesmo dissidências internas.  Diga-se de passagem, linguagem memética, trolling, fake-news e clickbait são usadas também pelos grupos “progressistas” como estratégia de ação tanto para engajamento da militância, quanto para as diversas formas de assédio online, como o linchamento virtual e o cancelamento.

Nos concentraremos, nesta resenha, no caso do Brasil, ou da forma como foi se construindo no país um ecossistema digital relacionado aos movimentos de direita. No entanto, é preciso dizer que ele é devedor, até um certo momento, do mesmo movimento nos EUA, que depois se propagou para o mundo todo, formando uma movimentação internacional da nova direita, como mostra muito bem a autora do livro.

Temos assim os suportes digitais, as formas de linguagem, mas faltam o conjunto de ideias, os valores, as perspectivas téoricas. O livro faz uma gênese excelente do desenvolvimento das ideias que vão fazer parte do âmbito das variações da nova direita

II. As ideias, conceitos e pressupostos morais da nova direita

Diferentemente da forma que costuma aparecer na superfície, ou em críticas mais apressadas, a ascensão conservadora tem base num conjunto de ideias que se organizam em escalas variadas. Pode-se dizer, inclusive, que há uma filosofia da história própria aos seus intelectuais e ideólogos, que se baseia especialmente no pressuposto da decadência do Ocidente. Momentos considerados inaugurais para perspectivas de emancipação da humanidade, como o Iluminismo, a Revolução Francesa, a Declaração de direitos do homem, a constituição de agências supranacionais de governança no pós-guerra, o advento do multiculturalismo como cultura comum às corporações transnacionais no nosso tempo, são encarados como momentos de declínio e queda. 

Neste sentido, a análise e a valoração do processo histórico é outro. A visão é mais pessimista quanto aos que podemos considerar como ganhos da modernidade. E há também uma tentativa de construção de uma espécie de recomeço, como se fosse mesmo a necessidade de renovação do repertório dos Universais, digamos assim. Este recomeço teria que se dar, em parte significativa dessas análises, não a partir do Iluminismo ou das revoluções burguesas, mas a partir das Cruzadas, a guerra de retomada da Cristandade em relação aos territórios ocupados pelo Império do Islã. As cruzadas e as figuras dos cavaleiros templários teriam que ser retomados como expressões da maioridade do Ocidente, como marcos divisores decisivos do sentido da identidade da Europa Ocidental. Por isso que é tão comum ver todo o imaginário associado aos cavaleiros templários, ao futuro espiritual da Cristandade e às guerras de civilização com o Islã, como presença crucial na movimentação da direita alternativa. 

Em suma, há uma filosofia da história subjacente a estes grupos, com base em trabalhos de teóricos expressivos, do ponto de vista da conceituação e sistematização das suas ideias, casos de Eric Voegelin, Leo Strauss ou, para ficar mais próximo dos exemplos do livro, Julius Evola e René Guénon. Teses que depois serão desenvolvidas em outros conceitos no movimento cultural e intelectual conhecido pelo nome de Nouvelle Droite, ao lado do paleoconservadorismo americano, com destaque para três deles: metapolítica, etnopluralismo e guerra cultural.

São conceitos que dependem um do outro para poder fazer sentido lógico. A metapolítica pressupõe que os principais móveis de uma luta política devem ser pensados no âmbito da cultura, da vida social, da disputa por valores últimos, incluso os religiosos, a tal ponto de propor um novo enlace entre política e religião. Não se trata de adotar uma postura moderada e conciliadora em relação aos valores culturais e morais, valorando a sua “pluralidade” e “diversidade”, e disputar o campo da política institucional, em eleições majoritárias ou proporcionais. Mas de colocar em suspenso ideias de moderação ou valoração amena da “pluralidade”, e afirmar valores próprios, específicos, até mesmo inconciliáveis. 

No fundo, o conceito de metapolítica desconfia de que a valoração da “pluralidade” é um disfarce para a valoração de perspectivas morais também específicas, particulares e assim por diante. Um particular que se traveste de Universal, digamos assim. Por trás de palavras como “diversidade” ou “pluralidade” se esconderiam projetos de uniformização identitária das sociedades e de destruição dos valores do conservadorismo moral e da cristandade. Em suma, é parte do grande movimento de declínio do Ocidente. Deve ser evidenciadas as suas verdadeiras intenções para que se possa estabelecer uma luta, uma guerra. Daí o sentido de termos como o de “guerras culturais” que podem ser também traduzidas como “guerras espirituais”.   

A importância das guerras culturais é fundamental. Elas têm o papel de reativar o momento inaugural das cruzadas e de fundação do Império da Cristandade na “verdadeira” identidade do Ocidente. Por conta disso, a luta por valores últimos, pela cultura, pelos valores morais e espirituais deve ser colocada em primeiro plano se comparados às disputas na política institucional. O etnopluralismo é um deles. Conceito apresentado por Alaim de Benoist, intelectual vinculado a Nouvelle Droite. O conceito pressupõe que a humanidade não pode ser pensada como um ente uno, igual, comum, mas como formada por grupos étnicos, culturais e até mesmo biológicos distintos. Por conta disso, seu propósito é de criar comunidades raciais, culturais e étnicas homogêneas e autogovernáveis. Para isso é necessário criar barreiras concretas contra a miscigenação, considerada uma das principais culpadas pela derrocada do Ocidente europeu, e cada vez mais aguda com a entrada em massa de imigrantes africanos e árabes. Ernesto Araújo, diplomata e ex-ministro do governo federal, em texto escrito quando da eleição de Donald Trump, esclarece bem o sentido do conceito. Trata-se menos de um novo expansionismo ocidental, do que de um pan-nacionalismo. A proposta não é expandir e impor valores étnicos, culturais e raciais do Ocidente europeu ao mundo, mas propor uma preservação dos valores étnicos, culturais e raciais de cada um dos povos do mundo, incluso o Ocidental europeu. 

Ou seja, grupos políticos ligados ao etnopluralismo dizem não ver hierarquia entre as raças, não consideram, a princípio, a raça branca como superior a outras raças. Muito menos que deva se expandir pelo mundo em políticas imperialistas de dominação e eliminação de outros grupos sociais. Na perspectiva do etnopluralismo, deve ser possível que sejam construídas comunidades autogovernáveis “puras” em geral, não só a europeia ou a branca. 

O movimento acaba sendo muito mais de reação, ou se quisermos, de contrarrevolução, do que de ação normativa. Um dos pressupostos principais é o de que foi se construindo no século XX uma espécie de estrutura de dominação difusa que tem como agente principal as elites culturais progressistas que controlam os meios culturais (academia, editoras, campo artístico, moda etc.) e se utilizam destes meios para impor seus valores ao povo em geral. Neste sentido, quem teria começado as guerras culturais seriam os grupos das esquerdas e dos liberais, que teriam visto na disputa por valores o locus central da afirmação política e do controle social. Toda a movimentação associada à ascensão conservadora seria uma resposta ao expansionismo tido como progressista, e não um novo expansionismo. O conjunto de ações associado a esta estrutura de dominação difusa é o que pode ser chamado de  “a Catedral”, o  “Sistema”, ou o “Complexo”. 

Pois bem. Temos assim três conceitos fundamentais que demarcam a lógica da direita alternativa, vinculados a uma filosofia da história de base conservadora e tradicionalista. Aos poucos vão aparecendo os alvos para que a metapolítica, as guerras culturais e o etnopluralismo possam se realizar plenamente. Um deles, parece claro, é a imigração. Especialmente a imigração árabe no continente europeu. É a partir daí que se desenvolvem outras teses, como as da “Grande substituição”, que pressupõe que a imigração árabe é uma estratégia política intencional que une lideranças políticas islâmicas, a União Europeia, além de ideólogos do multiculturalismo, com o intuito de islamizar a Europa e eliminar pessoas brancas de etnia europeia, realizando o que chamam de “genocídio branco”.  

Um outro alvo fundamental é o que estes autores chamam de “globalismo”, o pressuposto de que a partir do século XX em especial, para alguns especialmente no pós-guerra, passou a se constituir uma elite gerencial transnacional, com valores ligados ao multiculturalismo dos EUA e movimentos sociais como o feminismo, o movimento negro e LGBTQI+, que comandaria as esferas da política institucional, das universidades, do campo cultural, intelectual e artístico, da moda e assim por diante, e que se utilizam destes meios para impor suas perspectivas morais, seus valores culturais a todas as sociedades. A este conjunto de ações dá-se o nome de marxismo cultural. 

O marxismo cultural seria um movimento, organizado ou não, feito por empresários, intelectuais, artistas, escritores, professores acadêmicos, militantes, bilionários, com o intuito de impor a agenda do multiculturalismo e dos movimentos identitários através de uma série de ações de guerra cultural. Controlando o que pode ou não ser publicado em editoras; o que pode ou não ser apresentado em conferências, congressos, simpósios acadêmicos; o que pode ou não ser objeto de filme, desenho animado, história em quadrinho; o que pode ou não ser objeto de contemplação artística; o que pode ou não ser objeto da vestimenta na moda; o que pode ou não ser considerado legítimo na cultura pop; o que pode ou não ser dito, pensado, escrito, amado, valorado e assim por diante. Com isso se pretende fazer uma remodelação social profunda, uma engenharia social em todas as esferas, em suma, um revolução cultural de feição “gramsciana”. 

Temos aqui já três desdobramentos dos conceitos iniciais. A grande substituição; o genocídio branco; o globalismo e o marxismo cultural. Embora eu esteja apresentando aqui como se fossem conceitos dependentes uns dos outros, a coisa também não é assim. Não necessariamente adeptos da tese do marxismo cultural adotam a tese do genocídio branco; não necessariamente adeptos da tese do globalismo adotam a tese da grande substituição. Mas claro que há muitos pontos em comum entre elas, que podem ser realçados de modos diferentes pelos diferentes grupos que fazem parte da direita alternativa. 

Por exemplo, autores podem substituir a hipótese do “genocídio branco” ou da “grande substituição” por uma bem diferente: o fim da família e do conservadorismo popular. Aqui a situação se modifica. As elites gerenciais globalistas estariam tentando impor seus valores morais, culturais, estéticos, políticos, tidos como “progressistas”, às classes populares, através do monopólio que as elites culturais progressistas têm no campo acadêmico, cultural, intelectual, na grande mídia e assim por diante, sempre contando com o apoio financeiro decisivo de corporações transnacionais. A crítica perde a dimensão racial e étnica, cara ao ambiente do conservadorismo e reacionarismo europeu, e ganha uma dimensão mais propriamente social. Tratar-se-ia de uma luta de classes que se dá no âmbito das guerras culturais. E, vejam só o quiprocó, que situa os “progressistas” ao lado das elites do mercado, e os conservadores, ao lado do povo, das classes trabalhadores, tendo como mediador principal a cultura, os valores morais, também a religião. 

Em outras palavras, dependendo do contexto nacional, pode haver uma série de variações na forma de apreensão dos conceitos. Um bom exemplo são os vídeos a respeito da história do Brasil, feitos por um canal do youtube associado à nova direita: o Brasil Paralelo. Eles fazem um esforço de revisionismo parecido com o que fazem os blogs petistas, ou mesmo as teses do multiculturalismo dos EUA transplantadas para o Brasil, só que de sinal trocado, como forma de defender o legado conservador. O momento inaugural se daria com as cruzadas, novamente, a guerra pela retomada do território invadido pelos mouros. E, para nós, para o caso da história do Brasil, este acontecimento teria até mesmo um sabor especial, segundo a perspectiva deste documentário. É que a expulsão dos árabes foi o ponto inicial para a fundação de Portugal como Nação. Depois, o segundo passo para a derrocada do predomínio do Império do Islã se dá com as grandes descobertas, que ampliam a possibilidade dos mercados, para além do mar mediterrâneo, àquela altura controlada pelos árabes. O Brasil, assim, estaria no centro nervoso de todo o movimento de afirmação da Cristandade como identidade central ao Ocidente, de acordo com o que pensam os intelectuais e ideólogos da nova direita. 

Por fim, um terceiro fator decisivo. A construção, no país, de uma cultura popular altamente miscigenada, a despeito dos horrores da escravidão transatlântica. Teria sido a junção entre o destemor dos soldados das cruzadas, ao lado da fundação de Portugal, das grandes navegações, e da criação, neste país, de uma cultura popular mestiça, que formou a nossa identidade nacional. Cristã, Ocidental e mestiça. Vejam como os móveis que atuam aqui são outros, ao menos em relação ao tema étnico e racial. A valoração da mestiçagem vem em contraponto às teses progressistas, em especial de certos segmentos do movimento negro, que pensam a mestiçagem como um “genocídio” contra o “povo negro”. 

É este conjunto de ideias, com toda sua complexidade, e nas diferentes escalas do tempo histórico e, mesmo, mítico, em que se expressa, que vem sendo disseminado pelo amplo movimento da nova direita online, seja como direita conservadora, radical ou extrema direita. 

III. A centralidade de Olavo de Carvalho

Vimos no início deste texto o processo de construção de um ecossistema digital voltado às variações da nova direita, se formando desde o orkut, passando pelo twitter, pelo facebook e pelo uso de plataformas como o hangouts, depois por canais de youtube, com o uso da linguagem própria à alt-right dos EUA, e assim por diante. Se formou, no país, uma ambiência própria no meio digital, fundamental para a consolidação da ascensão conservadora como um fato social, cultural e que, com as eleições de 2018, se transformou também em fato político institucional. Mas, o que dizer a respeito do conjunto de ideias apresentados aqui, desde a visão decadentista da modernidade, passando pelas variações da metapolítica, da guerra cultural, do etnopluralismo e assim por diante? Quais foram os intelectuais, ideólogos, chamem como quiser, responsáveis diretos pelo processo e até mesmo precursores? 

Bom, o nome principal é realmente o de Olavo de Carvalho. Ele é o disseminador e precursor ao mesmo tempo de todo este debate de ideias no país, muito antes da consolidação da rede online da nova direita. Na primeira década dos anos 2000, já divulgava ideólogos do paleoconservadorismo americano, como Paul Gotfried. Muito antes, ainda nos anos 1980, escrevia textos sobre René Guénon, por exemplo. O seu seminário de filosofia teve um papel crucial na formação intelectual de alguns dos principais ideólogos do movimento no Brasil. Olavo de Carvalho formou algo como uma escola em torno dos ideais do conservadorismo moral e da filosofia da história que atravessa este novo conjunto de ideias. É em relação, sempre complexa e autônoma, com a obra dele que se desenvolvem ideias de intelectuais, jornalistas, políticos, ideólogos, artistas como Flávio Gordon, Flávio Morgenstern, Alexandre Borges, Ana Campagnolo, André Porciúncula, Francisco Razzo, Felipe Moura Brasil, Rodrigo Constantino, Lobão, entre muitos outros. Ao lado destes autores, livros como “A corrupção da inteligência brasileira” (Flávio Gordon, 2017); “A imaginação totalitária” (Francisco Razzo, 2016); “Feminismo, subversão e perversão” (Ana Campagnolo, 2019), “Por trás da máscara” (Flavio Morgenstern, 2015), para ficar apenas em alguns poucos, vão formando uma massa crítica e influenciando o debate de ideias. É fundamental dizer que tais livros têm as suas próprias tramas de ideias e complexidades, e mereceriam ser lidos de forma cuidadosa. Ou seja, não são meras derivações das ideias de Olavo de Carvalho, embora sejam parte do fenômeno e mantenham com ele uma série de relações. 

Uma série de páginas nas redes sociais, canais de conteúdo relacionados à direita, como o Brasil Paralelo, mencionado anteriormente, são desdobramentos da filosofia e dos ideais de Olavo de Carvalho. Hoje o país já tem um ecossistema digital próprio, associado às diversas ondas da nova direita, que vai de institutos de ensino, palestras, conferências e cursos, passando por editoras e chegando a uma miríade de canais, contas pessoais e coletivas, nas mais diversas plataformas digitais, incluindo o telegram, os grupos de whatsapp e também os chans na deep web

Por isso a autora dedica muitos momentos do livro para tentar compreender o seu papel na ascensão conservadora brasileira. Um momento, a meu ver, crucial, é o que corresponde ao final do ano de 2014, que resultou em uma mudança na feição das manifestações populares da nova direita no Brasil. Temas que antes eram comuns, como os que se associam às críticas ao governo federal, na época comandado pelo PT, e ao próprio Partido em geral, o que podemos chamar de um “antipetismo difuso”, passam a ser substituídos por novas pautas, como o Foro de São Paulo; a “ideologia de gênero”; o “globalismo”; os pedidos de intervenção militar, e assim por diante. Também o nome do atual presidente da república começa a aparecer com mais frequência, como possível liderança política no país. 

Esta mudança na feição das manifestações de massa é um dado muito mais importante, a princípio, do que foram as jornadas de junho de 2013. Ela é o que parece ser decisivo para a virada que vai se consolidar anos depois, com as grandes manifestações pelo impeachment da presidente Dilma, em 2015 e 2016; com o próprio impeachment e entrada em cena de Temer; e, posteriormente, com o início já da campanha nacional do então deputado Jair Bolsonaro, nas viagens em aeroportos, por exemplo, e na ampliação do ecossistema digital no ciberespaço, com o surgimento de novos canais, contas, grupos, nas mais diversas plataformas digitais. Além do mais, o ano de 2016 foi também o ano da vitória de Donald Trump, nos EUA. De repente, a ainda maior potência do planeta passava a ter como representante máximo uma liderança política diretamente associada à nova direita, em sua feição mais popular e consolidada: a alt-right dos EUA.

Entre 2016 e 2017, há também um racha significativo na movimentação da nova direita, influenciada diretamente por Olavo de Carvalho e os grupos Olavistas: a guinada pela ruptura institucional revolucionária, ou contrarrevolucionária profunda, em contraponto ao caminho reformista dos outros grupos. Momento que coincide, um pouco depois, com o apoio à greve dos caminhoneiros do ínicio de 2018, como possibilidade real de se criar um caos no país que pudesse levar ao momento revolucionário preconizado pelo extremismo de direita. 

Bom, 2018, como todos sabemos, conduziu não só à vitória de Jair Bolsonaro no governo federal, mas a uma série de vitórias eleitorais de lideranças políticas direta, ou oportunamente, associadas ao movimento da nova direita, em todas as esferas, nos maiores colégios eleitorais do país, entre governadores, senadores, deputados (federais e estaduais), além de vereadores. Foi um tsunami, ou uma tempestade, como escreve a autora, de grandes proporções. Houve, decididamente, uma mudança no quadro político-institucional do país, até então dominado pela polarização PT-PSDB. 

Se engana, a meu ver, quem acha que trata-se de uma onda passageira, de feição meramente político-institucional. Definitivamente não é o caso. Este livro mostra, concretamente, em tom sempre crítico, que se trata de um fenômeno social e cultural consolidado, com diversos matizes, associado, como falamos no início, a uma filosofia da história própria; a um conjunto de instituições, cursos, editoras, também próprias; além, por fim, de um ecossistema digital vigoroso e que está longe de entrar em declínio, ainda que o resultado eleitoral em 2022 não venha a repetir 2018. 

Marcos Lacerda

Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia – UFPel e livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades. Doutorado em Sociologia pelo IESP/UERJ (2011-2015). Foi Diretor do Centro da Música da Funarte / Ministério da Cultura, responsável pelas políticas públicas para a música no Brasil, entre maio de 2015 e março de 2017. Atua na coordenação e curadoria da coleção Caderno Ultramares, da OCA Editorial de Portugal, ao lado do crítico e editor Sérgio Cohn. Autor de “A sociedade das tecnociências: Introdução à obra de Hermínio Martins” (Ateliê de Humanidades, 2020) e organizador, com André Magnelli, de “Sociologia das tecnociências contemporâneas” (Ateliê de Humanidades, 2020). 


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