Fios do Tempo. Marco Rubio, vice-rei do Caribe? — Pablo González Velasco

O cenário de acirramento das tensões na região do Caribe, com foco sobretudo na Venezuela, nos demanda um esforço de análise cuidadosa da conjuntura política mundial e latino-americana, norte-americana, venezuelana e brasileira.

Buscamos contribuir para essa compreensão política do que se passa com a publicação de dois artigos. Em “Marco Rubio, vice-rei do Caribe?“, o espanhol Pablo González Velasco realiza não apenas uma interpretação do que está sendo jogado por parte do governo trumpista, como também faz uma excepcional análise da conjuntura política contemporânea. Em seguida, em “Doze apontamentos sobre a situação venezuelana“, o venezuelano Jeudiel Martinez escreve algumas rexflexões em diálogo com o artigo de Velasco, possibilitando uma melhor compreensão do “arquipélago venezuelano”.

E digo mais: rogo que esses dois brilhantes textos, escritos por um espanhol e um venezuelano, estimule a nós, brasileiros, a querer conhecer de fato a realidade do nosso continente, ao invés de nos contentar a ser indiferentes, decretar imperativos ou fantasiar utopias.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!

Fios do Tempo, 01 de setembro de 2025
A.M.

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Marco Rubio, vice-rei do Caribe?

Os filhos do exílio anticastrista de Miami apostaram forte em Donald Trump no seu sonho de voltar a Havana. Por isso, Marco Rubio, secretário de Estado (ministro das Relações Exteriores) e conselheiro de Segurança Nacional, tem essa representatividade proeminente.

O presidente norte-americano passa os fins de semana na sua mansão da Flórida de estilo hispano-mourisco Mar-a-Lago, construída com velhos azulejos espanhóis e materiais de um antigo castelo cubano. Trump, para os anticastristas, é suficientemente outsider e instável para quebrar o status quo da relação Estados Unidos-Cuba-Venezuela. No caso dos magazolanos (venezolanos trumpistas), até agora, eles têm sido vítimas da repressão anti-imigrante, mas agora há novidades diante das quais estão deslumbrados.

Dos embargos e da troca de prisioneiros, o governo norte-americano dá o salto para uma espécie de potencial bloqueio naval contra a Venezuela com 7 navios, um submarino de propulsão nuclear e mais de 5.000 efetivos. Criando assim um clima de terror psicológico e, ressalvando as distâncias, um clima de “bloco de busca” de um narcotraficante fugitivo, como aconteceu com Pablo Escobar.

No passado dia 17 de março, já tinha anunciado que a próxima estação de Trump seria a América Latina. Muitos – da região – não acreditavam. E é que, quando a guerra ocorre no seu próprio continente, a geopolítica deixa de ser um entretenimento. Isto aconteceu-nos a nós, europeus (especialmente aos para além dos Pirineus) e agora é a vez dos latino-americanos.

Embora não conte com o apoio dos governos da Colômbia e do Brasil, Rubio incorporou à sua causa a maioria dos minipaíses e colônias insulares que se encontram muito perto da costa venezuelana, a começar por Trinidad e Tobago. Essa linha forma um semicírculo que fecha o mar do Caribe, desde a República Dominicana/Porto Rico até — se estendermos um pouco — a Guiana, que celebra eleições gerais neste domingo. Existem também outras ilhas não venezuelanas a oeste do país que podem desempenhar um papel.

Que ninguém se engane: o interesse final de Marco Rubio é Cuba. A Venezuela é o meio, uma alavanca que está prestes a ser acionada. Não é uma questão de petróleo, embora este esteja sempre presente para justificar o custo de determinadas operações.

As licenças de produção e exportação de petróleo venezuelano concedidas pelos Estados Unidos, no seu regime de sanções, estabeleceram como monopólio a Chevron, excluindo — por enquanto — a Repsol e outras empresas estrangeiras. Todas estas petrolíferas estiveram na Venezuela nos últimos anos a cobrar uma dívida estatal pendente de pagamento. Neste contexto, a Repsol aumentou as suas compras de gás aos Estados Unidos para se aproximar de Trump.

Também não é novidade que se escolha uma pessoa ligada à comunidade hispânica, como Rubio, para assumir o desafio de liquidar os governos da ALBA e disciplinar o resto do hemisfério. Tal como Rudolph Giuliani fez com a repressão à máfia italiana, hoje Marco Rubio faz o mesmo em nome de «limpar a imagem» dos hispânicos como narcotraficantes e antiamericanos. Se Rubio conseguir resultados, poderá passar à história como patriota estadunidense ou como vingador das oposições ao bolivarianismo. No entanto, Giuliani teve mais mérito porque tinha a ver com dualidades de poder internas, e não com recauchutar a política do Big Stick como um mero Tio Tom hispânico.

Rubio representa um setor dos republicanos e do exílio de Miami que luta com outros setores petrolíferos do seu partido mais inclinados a negociar com homens fortes do petróleo como Maduro. Atualmente, parece que o horizonte está a se abrir para converter Rubio em vice-rei do Caribe. Para isso, é necessário disciplinar de forma preventiva o líder nato da América do Sul, que é o Brasil. Trump/Rubio impuseram uma tarifa de 50% (com inúmeras exceções) aos produtos brasileiros, bem como sanções financeiras ao juiz brasileiro Alexandre de Moraes, seguindo a esteira de sua campanha contra juízes do Tribunal Penal Internacional que investigaram o genocídio em Gaza. Moraes também tem como inimigos o lobby das Big Techs e o universo fascista de Bannon.

No entanto, para compensar, The Economist afirmou — numa capa memorável — que o Brasil ensina aos Estados Unidos como lidar com o autoritarismo. Nessa terça-feira, começa o julgamento de Bolsonaro, um momento crucial, enquanto o governo Lula avisa que inicia o processo para aplicar a reciprocidade das tarifas políticas de Trump. Ou seja, aproxima-se uma tempestade. Vale ressaltar que a China fez declarações em solidariedade ao governo brasileiro.

O Brasil, embora tenha poder de persuasão diplomática e um poder brando de cordialidade, carece não apenas de capacidade, mas também do desdobramento do seu poder econômico, militar e comunicacional para e na América hispânica, dado que até a Rússia tem mais influência competitiva que o Brasil sobre a Venezuela, a Nicarágua e Cuba (com bases de inteligência), bem como atua mediaticamente (RT em espanhol; Telesur; 247 no Brasil) sobre a esquerda mais tradicional (e um pouco da extrema direita). A relação entre a Venezuela e o Brasil, devido à fraude nas últimas eleições, ficou congelada sob a fórmula: relação diplomática entre Estados, não reconhecimento do governo de Maduro e veto à entrada no BRICS.

A origem da acusação de que o regime venezuelano é o cartel dos Soles vem de Popeye, matador de Pablo Escobar. A mim parece-me forçado, mas é muito possível que tenham sido financiados por todos os meios possíveis. A fórmula do “narcoterrorismo” é a solução encontrada por Rubio para evitar declarações de guerra, o apoio do Congresso e o trabalho prévio de moldar a opinião pública norte-americana. Eles argumentariam que se trata simplesmente de uma operação militar-policial, e não de uma “guerra”. Isso nos soa familiar. Outra intervenção no quintal dos fundos.

A roteiro de Rubio/Trump para a Venezuela passou para uma fase de intimidação, bloqueio do comércio ilegal e do fornecimento de armas de países amigos, vigilância da triangulação naval e aérea entre Cuba-Nicarágua-Venezuela, guerra eletrônica, bombardeamentos a partir de navios com mísseis ou drones de abrandamento e extração/execução de altos responsáveis até provocar um golpe militar ou uma transição negociada com novas eleições ou forçada por mobilizações populares anti-Maduro. Como diz Andrés Izarra, Henrique Capriles poderia ser o candidato reformista de dentro do regime, algo como um Tancredo Neves ou, acrescento, como um Adolfo Suárez.

No caso de ocorrer um ataque militar, será muito difícil diferenciar a Venezuela do regime de Maduro na hora de ver o grau de solidariedade e o tom que merece diante de uma eventual invasão de comandos ou, mais difícil ainda, diante de um bombardeio seletivo. A transição política deveria ter sido acordada com a Colômbia e o Brasil quando era possível, ou seja, há um ano. Agora é tarde. Muitos geopolíticos latino-americanos, entretidos na Ucrânia, marcaram um golo contra si próprios com os supostos anti-imperialistas Trump e Putin.

Na Bolívia, o Movimento ao Socialismo sai do poder com uma derrota retumbante. A política é ingrata, mas é preciso salientar que o ainda presidente da Bolívia, Luis Arce, tem sido um democrata e um político responsável. Neste último mandato, ele sofreu muito desgaste, uma conjuntura econômica desfavorável e um boicote do caudilho Evo Morales. O importante é que Arce conseguiu uma certa pacificação de amplos setores e deixou como legado a entrada no Mercosul. Um dado interessante: não há nenhum candidato trumpista/bolsonarista no segundo turno das eleições na Bolívia. No entanto, será necessário estar atento à política externa do vencedor, no sentido de saber se ele irá dificultar a integração no Mercosul e se dará prioridade a Washington em detrimento de Brasília.

Como informou recentemente EL TRAPEZIO, a Fundação Universitária Iberoamericana (FUNIBER) recebeu recentemente, em Santander, a secretária de Estado do Brasil para a América Latina e o Caribe, Gisela Padovan. Durante o encontro, foi apresentado o trabalho da Fundação em prol da integração do espaço pan-ibérico, que abrange os países de língua espanhola e portuguesa de todos os continentes. A embaixadora Gisela Padovan manifestou grande interesse pela proposta da Iberofonia. Esperamos que seja debatida internamente no Governo brasileiro.

Lula e Macron estão a finalizar os últimos detalhes do acordo Mercosul-União Europeia. São boas notícias para eliminar qualquer possibilidade de boicote na UE. Por outro lado, a Guiné-Bissau, em plena presidência da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), abriu uma crise com Portugal e os seus meios de comunicação social. Isto pode levar a uma tentativa de retirar o controlo da organização a Lisboa, por parte dos africanos, algo difícil se não colocarem mais dinheiro no orçamento e não mudarem a sede.

Lula acaba de receber os presidentes do Equador e do Panamá, o que reafirma o seu pragmatismo nas relações latino-americanas, com exclusão de trumpistas como Milei, com quem já coincidiu de forma civilizada em uma ocasião. A integração latino-americana está paralisada, com a única esperança de avanços em acordos bilaterais, destacando-se a boa sintonia entre Brasil, Colômbia, Chile e México. Alckmin, vice-presidente do Brasil, acaba de estar no México e assinou acordos para um aumento gradual e complementar das trocas comerciais.

O site Defesanet, que divulgou a fake news de que o Brasil tinha um plano de evacuação de Maduro, faz parte do bolsonarismo. A história é sem pé nem cabeça. Os tempos e as formas de obtenção de informação não batem certo. A única possibilidade de Maduro utilizar solo brasileiro — intuo — será para apanhar um avião para Moscou, Pequim, Istambul ou outra cidade segura. O Brasil poderia fazer um pequeno favor ao madurismo, dado o intervencionismo norte-americano, mas não um grande favor, devido à desconfiança que existe entre Caracas e Brasília após repetidas mentiras. Ninguém espera mais ajuda da China ou da Rússia para a Venezuela do que informações de satélite, retórica de comunicados ou eventuais (e não desprezíveis) vetos no Conselho de Segurança da ONU. A Venezuela pode seguir o paradigma da Síria e do Irã, onde não existem salvadores de última instância.

A ruptura de Trump também afeta a União Europeia. O presidente norte-americano transformou a UE num mercado cativo (por meio da OTAN e das tarifas unilaterais). A Europa talvez tenha salvado a pele nas negociações tarifárias, em comparação com outros blocos comerciais em sua relação com os Estados Unidos, mas para isso sacrificou seu projeto autônomo de um império heterodoxo democrático (como propus chamá-la em outro artigo aqui no Fios do Tempo). O que deve levar-nos a continuar a apostar noutras alianças complementares, como uma hipotética iberófona, sem negar que a europeia é a mais realista e real. Nesse sentido, há um mal-estar antitrumpiano que se manifestará politicamente em algum momento.

Como afirmou recentemente, na Alternatives Economiques, Josep Borrell: “É necessária uma nova União Europeia para escapar ao protetorado norte-americano”. “Trump está mais próximo de Putin do que da Europa”, concluiu Borrell num curso de verão em Santander. O presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, foi mais longe e definiu Trump como um “ativo russo”.

Nos últimos meses, o panorama político ibérico complicou-se e deteriorou-se rapidamente devido à ofensiva do trumpismo e das suas filiais ibéricas. Infelizmente, o Governo português seguiu os passos do Chega. Em relação a Israel e à Palestina, a solução dos dois Estados, que era a mais viável, parece agora tão difícil quanto a de um Estado multinacional e multirreligioso, desmilitarizado e administrado pelo Conselho de Segurança da ONU. Em ambos os casos, será necessária a ocupação de Israel e da Palestina por uma força multinacional de todas as potências nucleares.

A China mostrará o seu poderio militar no desfile do próximo dia 3 de setembro pelo 80º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial no Pacífico, um ato que está a ser preparado com fortes medidas de segurança e que contará com a presença do presidente russo, Vladimir Putin, e, pelo Brasil, estarão presentes: o assessor de Lula, Celso Amorim, e a ex-presidente Dilma Rousseff. A 23 de setembro haverá a Assembleia Geral das Nações Unidas, um excelente local para trabalhar os contactos, as reuniões paralelas e as alianças entre países ibero-americanos e iberófonos.

Em conclusão, a aposta caribenha de Marco Rubio, que esta semana visitará o México e o Equador, antecipou-se ao que eu previa para o final da legislatura. Parece que não querem perder tempo. Marco Rubio está arriscando alto. Se não conseguir passear pelas ruas de Caracas ou obter a cabeça de Maduro, a desmoralização será imensa. Se a jogada der certo, ele se tornará um virtual vice-rei do Caribe, pronto para ser o candidato de Trump para sucedê-lo contra JD Vance.Para Espanha, Brasil e até Portugal (que tem uma comunidade importante na Venezuela), uma transição venezuelana dominada por Marco Rubio significa que terão pouco protagonismo na sua reconstrução, a menos que Edmundo González consiga ter algum grau de influência, o que parece difícil. Chega-se tarde, mal e, inclusive, pode ser necessário apoiar a posteriori algum tipo de resistência (plural, ampla e não exclusivamente madurista) ou de nova oposição a um hipotético novo regime autoritário na Venezuela que se torne um apêndice de Trump.

Pablo González Velasco é Coordenador Geral da ELTRAPEZIO.EU. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Salamanca.

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