Fios do Tempo. Bento XVI: um professor no trono de São Pedro – por Carlos Eduardo Sell

Hoje, dia da Missa Fúnebre do Papa emérito Bento XVI, o sociólogo Carlos Eduardo Sell (UFSC) faz uma reflexão sobre Joseph Ratzinger/BentoXVI e sua experiência papal: o que quis Ratzinger como Papa? Teria ele fracassado enquanto governante? Qual o pensamento de Bento XVI? Como ele repercute sobre a Igreja Católica de hoje e, talvez, de amanhã?

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura.

André Magnelli,
Fios do Tempo, 05 de janeiro de 2023


Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


Bento XVI:
um professor no trono de São Pedro

Carlos Eduardo Sell

(Professor da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina)

A tese deste artigo é simples e gostaria de apresentá-la logo de início: como papa, Bento XVI foi um grande intelectual, mas não foi um bom governante. Apesar de seu habitus como intelectual ter sido um entrave para seu desempenho político (como pretendo mostrar), seu legado intelectual é muito mais importante do que seu período como chefe máximo da Igreja Católica. Por isso, o fundamental é entender qual é o eixo de seu pensamento.

1. O Papa que ousou ser “mestre”… e fracassou

Por que Bento XVI fracassou como governante?

Antes de responder a esta pergunta, é preciso lembrar que a influência política de Josef Ratzinger nos rumos da Igreja Católica não foi pequena e talvez tenha sido muito mais importante em seu período como assessor de João Paulo II (1979-2005) do que como papa (entre 2005 e 2013). Como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (órgão responsável pela supervisão da doutrina católica), ele foi a cabeça pensante do papa polonês.

Enquanto este viajava pelo mundo, foi Ratzinger, no Vaticano, que ajudou a refrear os elementos marxistas e materialistas da teologia da libertação (especialmente de Leonardo Boff)[1], que esvaziavam a dimensão espiritual do catolicismo e ajudaram na migração dos fiéis para o neo-pentecostalismo e sua pregação dos milagres. Também foi ele que organizou o Catecismo da Igreja Católica (1992), instrumento criado desde o Concílio de Trento para dar unidade à difusão dos dogmas católicos entre o clero e a massa dos fiéis. E, não menos importante, com a Declaração Dominus Iesus (de 2000) ele freou um tipo de ecumenismo e diálogo inter-religioso relativista que seguindo a “teologia das religiões[2]” tornava a Igreja Católica e o próprio cristianismo apenas uma religião entre outras. Em síntese: com a dupla Wojtyla/Ratzinger o vale tudo pós-Concílio Vaticano II chegava ao fim e a Igreja tinha que voltar ao seu eixo.

Quando o papa polonês faleceu, os cardeais se viram diante do imenso desafio de encontrar um substituto à altura. Depois de ouvir o célebre sermão pronunciado por Ratzinger no início do conclave de 2005, que soou como um discurso de campanha[3] e no qual ele criticava a “ditadura do relativismo[4]”, os cardeais imaginaram que ele era a pessoa certa para dar continuidade ao projeto de Karol Wojtyla. Mas a aposta se revelou um engano.

Uma vez no trono de São Pedro, Ratzinger se viu preso na armadilha preparada para os próximos papas pelo extraordinário líder de massas que foi João Paulo II. Não se trata de falta de carisma pessoal, pois o papado é um carisma de cargo e, como tal, seus efeitos simbólicos independem de quem o exerce. Todavia, ao exercer o papado como o Magister que era, ele colidiu com a era do espetáculo e sua ânsia por um “papa-pop”. E embora ele jamais tenha partido para uma cruzada moral de tipo reacionário-conservador, opondo, à la Putin, valores cristãos e decadência moderno-ocidental, ele sempre enfrentou a desconfiança e hostilidade de veículos de comunicação (hoje majoritariamente liberais) que se opõem à orientação moral do catolicismo: o rótulo de “conservador”, “reacionário” e até o xenofóbico título de “alemão” atuou como chave mágica que fechou todos os ouvidos.[5] Apesar da beleza do seu ensinamento difundida em duas encíclicas sobre o tema do amor (Deus Caritas est/Deus é amor e Caritas in Veritate/O amor na verdade), ninguém quis escutar.

Quando velhos problemas presentes na estrutura da Igreja católica explodiram no seu colo, seu papado ficou totalmente bloqueado. Escândalos como o Vatileaks (vazamento de documentos), abusos clericais contra menores (que ele, como cardeal, começou a combater) e descontrole das finanças do Vaticano revelaram que, cercado de maus assessores, ele não dispunha do controle da máquina burocrática, com suas intrigas e interesses, que é a Cúria Romana. Percebeu-se, então, que a Igreja precisava de um homem de governo e isso o professor Ratzinger, definitivamente, não era.

Frente a este cenário, sua renúncia não representou uma dessacralização do papado, como querem seus críticos mais ferozes. Além de sutil jogada política, que abriu caminho para as reformas ainda em implementação pelo atual papa Francisco, a renúncia foi lida como um gesto de humildade de alguém que soube reconhecer suas limitações e, sem se apegar ao poder, passou o leme da nau de Pedro adiante. Talvez apenas o filósofo Giorgio Agamben[6] tenha captado com a devida profundidade este gesto, que ele viu como um ato de coragem que questiona a confusão moderna entre legalidade e legitimidade e que colocou a igreja diante de sua missão mais essencial: retardar o mistério do mal.[7]

2. Qual é o pensamento de Bento XVI?

Traduzindo o dito acima em linguagem sociológica, o fracasso do governo papal de Bento XVI se deve ao fato de que o poder e a política seguem leis internas que independem tanto da religião como da esfera científica, como aliás já mostraram Maquiavel e Max Weber. No nível da prática individual, por sua vez, sobreviver no campo do poder, já demonstrava Pierre Bourdieu, requer um habitus político correspondente. Devemos acrescentar a tudo isso a ascensão de uma indústria cultural globalizada, que esvazia qualquer conteúdo imbuído de alguma “aura”[8], para diluí-lo em fórmulas rápidas e vazias; mídia que também é unificada em torno de valores liberais nem sempre congruentes com o cristianismo. Diante destes campos sociais com suas lógicas próprias, Ratzinger não conseguiu reconverter seu riquíssimo capital acadêmico. Além de não jogar o jogo do poder, o “magistério” do professor Ratzinger não se deixou reduzir ao sagrado líquido. É por isso que o projeto do Papa-Teólogo naufragou.

Isso não significa que Bento XVI foi um mau papa e que seu legado não será duradouro, pois suas ideias moldam a estrutura de pensamento dos padres mais jovens de forma muito mais intensa do que se imagina.[9] Mas, para isso, temos que olhar para o campo intelectual e nos perguntar  o que ele queria dizer. Afinal qual é exatamente o eixo do pensamento de Josef Ratzinger?

Teólogo renomado desde o Concílio Vaticano II, no qual ele atuou como consultor, é dono de uma vasta obra em quinze volumes. Seus textos mais conhecidos, contudo, são a sua célebre Introdução ao Cristianismo (1967) e seu best-seller é uma trilogia sobre Jesus de Nazaré, escritaquando ele já era papa. E, embora não seja possível oferecer um resumo de sua teologia, podemos, ao menos, apontar duas chaves hermenêuticas para penetrar no seu âmago.

A primeira – que diz respeito ao plano interno – pode ser encontrada no livro com entrevistas  dadas por ele ao jornalista Vittorio Messori, em 1985, texto que teve efeito bombástico na época.[10] Isso porque a Igreja estava às vésperas de um Sínodo convocado para discutir a herança dos 20 anos do Concílio Vaticano II (que foi realizado de 1962 a 1965). Na entrevista ele deixou claro que os problemas da Igreja estavam ligados a uma interpretação equivocada deste evento, seja por parte dos tradicionalistas (que queriam voltar ao modelo de Igreja anterior), seja por parte dos progressistas que entendiam que a letra não importava e que o Concílio era um “espírito” permanente de refundação para chegar a um modelo totalmente novo de Igreja. No fundo, ambas as posições negam, a seu modo, a intenção de “aggionarmento” proposta  João XXIII.

Pensador de sínteses sutis, Ratzinger entendeu que o caminho era a “reforma na continuidade[11]”, ou seja, um um caminho que rejeita o imobilismo, mas que também recusa o abandono da tradição. Na verdade, tal síntese já tinha proposta por ele em termos mais elaborados, pois ele buscou unificar a definição de Igreja como “Povo de Deus” (central no documento conciliar Lumen Gentium e que acentua a dimensão histórico-imanente dessa instituição) com a antiga definição da mesma como “Corpo místico de Cristo” (que foi  retomada por Pio XII [1939-1958]), apontava para a dimensão divino-transcendente da igreja.

A segunda chave hermenêutica tem a ver com o plano externo da relação igreja-modernidade e pode ser encontrada em um de seus primeiros escritos, quando ele era professor em Bonn (1959-1963): O Deus da fé e o Deus dos filósofos. Aqui ele defende o vínculo indissolúvel entre fé e razão. Dessa forma, Ratzinger não pode ser considerado um pensador cujo propósito consiste simplesmente em se opor ao mundo moderno defendendo uma igreja fechada em si mesma. Na verdade, ele acompanhou a abertura proposta pelo Vaticano II que no documento Gaudium et Spes apontava para uma abertura e um diálogo com a modernidade técnica.[12] 

Mas, diferentemente de teólogos defensores de um tomismo transcendental que mescla Tomás de Aquino com Kant e Heidegger, como Karl Rahner (1904-1984), e que por isso viam a esfera histórico-secular de forma otimista e acreditavam na orientação natural do homem ao sagrado (“existencial sobrenatural”), Ratzinger herdou a tradição teológica de Santo Agostinho (375 – 430) que tem mais sensibilidade para o mal (pecado) humano presente no mundo. Radicado, junto com Karol Wojtyla, no parágrafo 22 da Gaudium et Spes[13], ele acreditava no diálogo, mas entendia que só Cristo tem a chave do mistério do ser humano e que, portanto, nesse diálogo, a igreja tem sempre que ouvir e aprender, mas isso não significa que ela não tenha também algo irrenunciável para ensinar.[14] Foi exatamente essa convicção que o fez dialogar em termos francos e convergentes com pensadores do quilate de Jürgen Habermas[15] ou mesmo com pensadores ateus como o matemático Piergiorgio Odifreddi.[16]

Josef Ratzinger foi, portanto, um pensador que reflete as ideias do evento mais importante da Igreja Católica nos tempos recentes: o Concílio Vaticano II. E, da mesma forma que o Concílio, ele gravita em torno da relação entre duas variáveis fundamentais: Igreja e Mundo. Formado na  teologia de Santo Agostinho, ele defendeu que a essência da vida cristã reside no amor entendido como Ágape[17], ou seja, concepção que inclui o amor entendido como Éros (Erótica)e Philia (Fraternidade), mas desemboca na síntese superior (uma verdadeira Aufhebung de tipo hegeliano) do altruísmo cristão.[18] Não obstante, esse amor nunca perde seu vínculo com uma base ontológica e, portanto, com a ideia de verdade, pois até em Habermas, como mostrou Dieter Henrich, por mais pós-metafísico que ele se queira, ainda existe um resquício de metafísica, pelo menos se ele não desistiu de um vínculo mínimo com a verdade.[19]

Nestes tempos, dominados pelo “looping hiperbólico do construtivismo radical”[20] que, em sua busca insaciável de desconstrução arrasta tudo na direção de algum “pós-algo” sem fim e, dessa forma, corrói as bases do pensamento racional, a advertência de Ratzinger sobre a ditadura do relativismo e sua defesa da racionalidade humana é como uma semente ainda à espera de uma “virada” que há de vir.  Essa, entre outras, é uma das grandes lições do professor Ratzinger, o papa Bento XVI.

Notas

[1] Ele teve seu livro “Igreja Carisma e Poder” (1984) examinado pelo Vaticano e acabou deixando a ordem dos franciscanos alguns anos depois. A posição oficial do Vaticano sobre a Teologia da Libertação foi enunciada em dois documentos. O primeiro, mais crítico (Instrução sobre alguns aspectos da teologia da libertação, de 1984) e o outro mais positivo (Libertatis Conscientiae, de 1986).

[2] Os principais representantes desta teologia são John Hick,Jacques Dupuis e, sob certo modo, também Hans Küng.

[3] Nem por isso o cardeal ambicioso e articulador, apresentado no início do filme de Fernando Meirelles (Os dois papas), tem qualquer compromisso com a verdade. Na época, Ratzinger deseja se aposentar e se dedicar à pesquisa.

[4] O trecho mais célebre, diz o seguinte: “Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decénios, quantas correntes ideológicas, quantas modas do pensamento… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi muitas vezes agitada por estas ondas lançada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem, ao colectivismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante. Cada dia surgem novas seitas e realiza-se quanto diz São Paulo acerca do engano dos homens, da astúcia que tende a levar ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar “aqui e além por qualquer vento de doutrina”, aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades” (negrito meu). Disponível em: https://www.vatican.va/gpII/documents/homily-pro-eligendo-pontifice_20050418_po.html.

[5] Por isso não concorda com a biografia de André Englisch (O homem que não queria ser papa. Universo dos Livros Editora, 2013) que sustenta a tese de que Ratzinger, pessoalmente, não queria ser papa. Na sua narrativa, todo o governo de Bento XVI foi um martírio pessoal de alguém que não se sentia pessoalmente adequado ao cargo. Essa interpretação peca pelo seu reducionismo psicológico.

[6]  AGAMBEN, Giorgio. O mistério do mal: Bento XVI e o fim dos tempos. Boitempo Editorial, 2015.

[7] Alusão que ele faz à Segunda Carta de Paulo aos Tessalonicenses na qual ele disserta sobre o “mistério da impiedade” (2Ts 2,7).

[8] Conceito forjado por Walter Benjamin para expressar a singularidade da arte diante do caráter massificado dos produtos da indústria cultural.

[9] É o que mostra claramente o conjunto de dados analisados no livro de Agenor Brighenti (O novo rosto do clero. Petrópolis: Vozes, 2021.

[10] MESSORI, Vittorio. Relatório sobre a fé. Tubarão: Escola Ratzinger, 2021.

[11] Ele usou essa expressão em uma alocação na qual ele falava de sua experiência do Concílio em 2005. Disponível em : https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2005/december/documents/hf_ben_xvi_spe_20051222_roman-curia.html#:~:text=A%20hermen%C3%AAutica%20da%20descontinuidade%20corre,express%C3%A3o%20do%20esp%C3%ADrito%20do%20Conc%C3%ADlio.

[12] A concepção de modernidade em Ratzinger é aprofundada em: ASSUNÇÃO, Rudy Albino. Bento XVI, igreja católica e modernidade. São Paulo: Paulus, 2018.

[13] Este parágrafo famoso, que teve a ajuda de Karol Wojtyla para ser redigido, diz o seguinte: “Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente”. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html.

[14] O conflito teológico entre “tomistas” e “agostinianos” pelos rumos e interpretação do Concílio é bem é bem apresentada em: FAGGIOLI, Massimo; BEOZZO, José Oscar. Vaticano II: a luta pelo sentido. São Paulo: Paulinas, 2013.

[15] HABERMAS, Jürgen e RATZINGER, Josef.  Dialética da secularização: sobre razão e religião. São Paulo: Ideias & Letras, 2007.

[16] Sem tradução ainda em português: ODIFREDDI, Piergiorgio; BENEDETTO, X. V. I. Caro papa teologo, caro matematico ateo. Edizioni Mondadori, 2013.

[17] Tema que, em chave sociológica, é tratado de forma brilhante no livro de Gennaro Iorio (Sociologia do Amor. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades, 2021).

[18] Nestes termos, aliás, valeria dizer, em consonância com Marcel Mauss, que ele foi um teórico da dádiva, pensador retomado em MARTINS, Paulo Henrique. Itinerários do dom: teoria e sentimento. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades, 2019.

[19] HENRICH, Dieter; MATTOS, Fernando Costa. O que é metafísica?–o que é modernidade? Doze teses contra Jürgen Habermas, de Dieter Henrich. Cadernos de Filosofia Alemã: Crítica e Modernidade, n. 14, p. 83-117, 2009 e HABERMAS, Jürgen. Pensamento pós-metafísico: estudios filosóficos. Tempo brasileiro, 1990.

[20] Palestra de BRÜSEKE, Franz Josef. em: https://www.youtube.com/watch?v=2B7UOUI0Q5g.

Carlos Eduardo Sell é doutor em Sociologia Política e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor de Max Weber e a racionalização da Vida (Vozes, 2013) e Sociologia clássica: Marx, Durkheim e Weber (Vozes, 2015)


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