Fios do Tempo. A vitória de Pirro de Hans Küng? – por Carlos Eduardo Sell

Na última semana nos despedimos de três gigantes do pensamento: o antropólogo americano Marshall Sahlins, o crítico literário brasileiro Alfredo Bosi e o teólogo suíço Hans Küng.

No contexto da morte de Küng, um dos principais representantes da teologia crítica e progressista, Carlos Eduardo Sell faz uma reflexão sobre as possíveis consequências de sua obra para a Igreja Católica, analisando a disputa entre os dois representantes da “fina flor da densa tradição teológica alemã”: Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI) e Hans Küng. Para tanto, propõe a seguinte questão: “o que restou do confronto entre estes grandes mestres do pensamento católico do século XX e, principalmente, o que o debate entre eles pode nos dizer sobre os cenários de futuro da igreja católica?”.

Quaisquer outras contribuições qualificadas sobre o sentido da obra de Küng e de suas consequências teológicas, éticas, políticas e sociais serão bem vindas aqui no Fios do Tempo.

A. M.
Fios do Tempo, 08 de abril de 2021



A vitória de Pirro de Hans Küng?

Carlos Eduardo Sell

Hans Küng e Josef Ratzinger foram, na mesma época, professores de teologia na célebre Universidade de Tübingen. Ambos representam, pois, a mais fina flor da densa tradição teológica alemã. Mas, enquanto o primeiro tornou-se o guardião da fé católica (como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cargo para o qual foi indicado em 1981), o segundo, repercutindo aquele sentimento que Hans Urs von Balthasar (1905-1988) chamava de “complexo anti-romano” (BALTHASAR, 1988), tornou-se um severo crítico dos dogmas católicos, colocando em xeque tanto a infalibilidade papal quanto o dogma da imaculada conceição, entre tantos outros temas.

O que restou do confronto entre estes grandes mestres do pensamento católico do século XX e, principalmente, o que o debate entre eles pode nos dizer sobre os cenários de futuro da igreja católica?

Embora não possamos menosprezar a influência da alta qualidade da produção escrita de Ratzinger na esfera acadêmica intra-católica (ASSUNÇÃO, 2018), o fato é que, mesmo sendo eleito em 2005 como papa Bento XVI, foi ele que perdeu, pelos menos em termos políticos, aquele confronto. Ratzinger leu a herança do Concílio Vaticano II com base no que chamou de hermenêutica da reforma “na continuidade”1. Eleito prometendo contrapor-se à “ditadura do relativismo”2, seu governo à frente da igreja, por razões que não temos como analisar aqui, inviabilizou-se completamente. Bloqueado, ele protagonizou um dos gestos mais dramáticos do século 21: a renuncia ao trono de Pedro (AGAMBEN, 2015).

Conta-se que, em 1969, quando sua postura otimista pró-concílio cedeu lugar a uma apreciação mais crítica de seus efeitos, Ratzinger teria profetizado a retração do catolicismo a um pequeno núcleo envolto por uma cultura secular completamente alheia à fé: “o cristianismo voltará a estar sob o signo do grão de mostarda, em pequenos grupos, aparentemente sem importância, mas que vivem intensamente contra o Mal e trazem o Bem para o mundo; que deixam Deus entrar”3. É esta ideia que Dreher sintetizou magistralmente em seu livro com a expressão “A opção beneditina” (neste caso, em alusão ao pai do monasticismo ocidental – São Bento de Núrsia). Para a tendência que parte desta premissa, o futuro da igreja reside em um pequeno grupo de fiéis separados do mundo.

Hans Küng, ao contrário de Ratzinger, que ascendeu na hierarquia da Igreja, teve suas teses condenadas pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1975 e sua licença como teólogo católico retirada em 1979. Prejuízo? Ora o que há de mais mainstream do que ser crítico da igreja católica? Longe de derrotado, em termos práticos, podemos dizer que foi Küng o grande vencedor da disputatio teológica com seu antigo colega de Tübingen.

Por quê?

Atualmente, enfraquecida por conta dos abusos cometidos por membros do clero, a Igreja Católica da Alemanha promove um sínodo nacional [Caminho sinodal]4 que questiona radicalmente o modo de organização do catolicismo e sua moral sexual. Respirando o mesmo espírito de Küng, a teo-bio-política dos prelados alemães propõe, entre outras medidas, a dissolução da diferença de poder entre clero/leigos, a ordenação de mulheres e a ampla incorporação das pautas identitárias de gênero. Para seus defensores, o único modo de salvar uma igreja completamente desacreditada, já para seus poucos adversários um verdadeiro cisma, o que já nos aponta para a radicalidade da proposta. Não podemos, é claro, ler o Caminho Sinodal alemão como se fosse reflexo causal direto da teologia de Küng, mas não é a mesma letra, e sim o mesmo espírito [Zeitgeist] que os entrelaça: é neste ponto que reside a vitória de Küng.

Indo além do cenário alemão, está perfeitamente claro atualmente que, com o esgotamento do projeto eclesial da era Wojtyla/Ratzinger (de 1979 até 2013), o papa Francisco, com sua calculada estratégia de avanços e recuos (“um passo a frente e dois para trás”) colocou novamente a Igreja Católica na trilha progressista da “hermenêutica da ruptura” que estaria por detrás, pelos menos para seus defensores mais enfáticos, do “espírito” do Concílio Vaticano II. Longe de ponto chegada, as decisões conciliares representariam o ponto de partida de uma irrupção carismática cujo impulsos não caberia jamais burocratizar, mas desdobrar continuamente (PASSOS, 2014): uma igreja em revolução permanente!

O projeto de uma “igreja em saída”, um verdadeiro “hospital de campanha” que vai em busca das “periferias sociais e existenciais”, tal como foi desenhado naquele que pode ser considerado o programa de governo de Francisco [A encíclica Evangelium Gaudium5], contempla, com base neste espírito carismático-reformador, desde medidas como a reforma da cúria romana [como é chamada a burocracia vaticana], a democratização das instâncias de poder eclesiásticas via participação das bases [no léxico católico: sinonalidade], passando pela comunhão dos re-casados, até chegar a promoção da fraternidade humana universal e do cuidado da casa comum [ecologia]. Mais uma vitória de Küng? Na verdade, não sabemos ainda, pois tudo depende da proximidade ou da distância de Francisco em relação a este projeto de refundação revolucionária da Igreja. Em que direção ele irá sinalizar? Eis a pergunta que definirá o destino do catolicismo.

Mas, se até aqui pode se alegar sempre que a influência de Küng nos rumos atuais da Igreja Católica pode ser considerada apenas indireta, não é difícil enxergar as evidentes afinidades entre a proposta de uma fraternidade humana universal de Francisco [Encíclica Fratelli Tutti)6 e o projeto de um Ethos mundial7do rebelde teólogo alemão.

É neste ponto, por sinal, que reside a maior contribuição intelectual de Hans Küng, desenvolvida na sua última fase de vida. Em extensas monografias (KÜNG, 2007), nas quais examina, em empreitada que lembra aquela de Max Weber, a natureza das grandes religiões mundiais (o hinduísmo, o budismo, o islamismo, o judaísmo e o cristianismo), ele se coloca em busca de um mínimo de denominador ético comum presente no patrimônio moral de cada uma destas tradições. O valor das religiões mede-se, portanto, pela sua contribuição para a construção de valores mundiais que promovam a paz em escala global.

Portanto, em direção oposta ao exclusivismo da opção beneditina, Küng nos oferece uma proposta inclusivista, mas ela tem um preço. De acordo com esta visão, a Igreja Católica, que sempre se entendeu como aquela na qual subiste verdadeira a igreja de Cristo, fica reduzida a uma das grandes versões histórico-concretas do cristianismo (como também defende Leonardo Boff , em seu célebre Igreja: carisma e poder, 1984). Esta religião, por sua vez, passa a ser vista como um dos muitos caminhos pelos quais os seres humanos buscam o transcendente, mas ela perde seu estatuto privilegiado como religião depositária do ensinamento do Deus encarnado (Cristo).

De novo, não haveria como sustentar que o projeto relativista de Küng [mais centrado no plano ético-religioso] e a fraternidade universal de Francisco [mais centrado no plano político-social] sejam idênticos. Mas, como advertiu Max Weber, nunca se pode menosprezar a força intrínseca das ideias, verdadeiros trilhos cujas consequências não previstas vão sempre muito além do desejo de quem as enuncia. De fato, levada até as suas últimas consequências, o projeto de Küng tem como consequência inevitável a dissolução da identidade da Igreja Católica que, atravessando milênios, sempre se definiu, como bem entendeu Carl Schmitt (2008), como representante de Cristo. É o que expressa a Lumen Gentium [documento do concílio que trata da identidade da Igreja] quando definiu a Igreja como “o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o género humano”8.

Estaria Francisco disposto a trilhar um caminho cujo ponto de chegada é a auto-dissolução da identidade católica? Esta me parece uma hipótese improvável, mas a questão decisiva é que a Igreja Católica da atualidade mostra-se dilacerada por dois grandes projetos ou modelos (tipos ideais) de seu futuro: de um lado um exclusivismo católico que nega o mundo em nome do transcendente (opção beneditina) e de outro a proposta de inclusivismo relativista que dissolve o catolicismo no mundo (Küng) em nome de valores imanentes (Ethos mundial).

Como escapar deste dilema? Em sua célebre aula inaugural como professor de teologia fundamental em Bonn – O Deus da fé e o Deus dos filósofos (1959) – Ratzinger (1970) nos lembrava que longe de refugiar-se em si mesma, a visão cristã apresentou-se como a plena realização das promessas da filosofia em sua busca pelo logos. Este processo de inculturação não significou a helenização do cristianismo, mas justamente o contrário, quer dizer, a cristianização da cultura. Se a Igreja Católica encontrará novamente este caminho que a tornou uma das mais vigorosas organizações religiosas globais da história, não sabemos.

De toda forma, este é um caminho que, uma vez consumada a vitória de Pirro de Hans Küng, restará definitivamente fechado. A não ser que, daquele Igreja que diminuiu de tamanho, o mundo perceba algo completamente novo, uma resposta para aquilo que sempre procuraram, como sugeriu aquela “profecia” de 1969.

Notas

1 Discurso de 22/12/2005: http://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2005/december/documents/hf_ben_xvi_spe_20051222_roman-curia.html

2 Na homilia de 18 de Abril de 2005, véspera da abertura do conclave, ele dirá: “Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decénios, quantas correntes ideológicas, quantas modas do pensamento… A pequena barca do pensamento de muitos cristãos foi muitas vezes agitada por estas ondas lançada de um extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até à libertinagem, ao colectivismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante. Cada dia surgem novas seitas e realiza-se quanto diz São Paulo acerca do engano dos homens, da astúcia que tende a levar ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé clara, segundo o Credo da Igreja, muitas vezes é classificado como fundamentalismo. Enquanto o relativismo, isto é, deixar-se levar “aqui e além por qualquer vento de doutrina”, aparece como a única atitude à altura dos tempos hodiernos. Vai-se constituindo uma ditadura do relativismo que nada reconhece como definitivo e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”. In: http://www.vatican.va/gpII/documents/homily-pro-eligendo-pontifice_20050418_po.html.

3 http://www.ihu.unisinos.br/noticias/517696-a-esquecida-profecia-de-ratzinger-sobre-o-futuro-da-igreja.

4 Informações em: https://www.synodalerweg.de/english.

5 Texto em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html.

6Texto em: http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html

7 Informações em: https://www.weltethos.org/

8 Texto em: http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html

Referências bibliográficas

AGAMBEN, Giorgio. O mistério do mal: Bento XVI e o fim dos tempos. Florianópolis: Ed. da UFSC, São Paulo: Boitempo, 2015.

ASSUNÇÃO, Rudy Albino de. Bento XVI, a igreja católica e o “espírito da modernidade”. São Paulo: Paulus, 2018.

BALTHASAR, Hans Urs Von. Le Complexe Antiromain. Trad. de Soeur Willibrorda osb. Paris: Médiaspaul, 1998.

BOFF, Leonardo. Igreja: carisma e poder. Petrópolis: Vozes, 1984.

DREHER, Rod. A opção beneditina: uma estratégia para cristãos no mundo pós-cristão. São Paulo: Ecclesiae, 2018.

KÜNG, Hans. Christentum und Weltreligionen.Freiburg; Basel ; Wien: Herder, 2017.

PASSOS, João Décio. Concílio Vaticano II: reflexões sobre um carisma em curso. São Paulo: Paulus, 2014.

RATZINGER, Joseph. O Deus da fé e o Deus dos filósofos. Introdução ao cristianismo: preleções sobre o símbolo apostólico. Rio de Janeiro: Loyola, p.103-111.

SCHMITT, C. Römischer Katholizismus und politische Form. Stuttgart: Klein-Cotta, 2008.


Carlos Eduardo Sell é doutor em Sociologia Política e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor de Max Weber e a racionalização da Vida (Vozes, 2013) e Sociologia clássica: Marx, Durkheim e Weber (Vozes, 2015)

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