Na sociedade midiatizada, gerar um “fato novo” – com caráter de “informação” –, que seja capaz de se propagar com velocidade, tornou-se uma regra banal do marketing. Atitudes de espetáculo, como aquela realizada no Louvre diante de uma réplica de Mona Lisa protegida por um vidro blindado, é uma estratégia considerada por ativistas. A imagem circula pelo mundo, um coletivo é conhecido (Riposte Alimentaire) e uma mensagem simples é dada – com apelo à urgência baseando-se num dilema “ou isso ou aquilo!”. É assim que escutamos, no caso em questão, a palavra de ordem: “O que é mais importante? A arte ou o direito a alimentos saudáveis e sustentáveis?”. Rodando pelo mundo, aparentemente se conseguiu uma ação eficaz, não?
Será? Bem, penso que não se faz um problema ser levado a sério com um gesto banal que reforça estereótipos desqualificadores difundidos por oponentes da sua causa. Sem programa de ação, articulação política, capacidade de influenciar instituições e elaboração estética, ações assim se esvanecem mais rápido que o tempo que demoram para serem concebidas e realizadas. Mas minha opinião pouco importa. O que interessa é o texto que trazemos hoje de Nelson Lellis, que, com a epígrafe dos Titãs (“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”) e em diálogo com inteligentes passagens de Thomas Sowell, pensa o background deste tipo de ativismo.
O caráter desagradável do tipo de reflexão proposto por Nelson é que ele faz “ungidos” pensarem. Mas se existe uma coisa que aprendi em ciências sociais é que é preciso pensar bem para bem agir. Quem não gosta de ser perturbado pela análise não aprecia os frutos da árvore do conhecimento.
Desejamos, como sempre, uma excelente leitura.
A. M.
Fios do Tempo, 01 de fevereiro de 2024
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Os ungidos da antiarte:
o que é mais importante?
“A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte.”
(Comida, Titãs)
A arte é produto de um processo criativo que demanda estudo, técnica, inovação, espanto. Ela ajuda a escrever a história e a mudá-la e, consequentemente, mudada em suas técnicas. Desde a arte rupestre com o cro-magnon, passando pelas sacras – e tantas outras – até a contemporânea, tivemos diferentes significados e funções. Imagens que reproduziam animais, pessoas, natureza; que traziam elementos críticos e políticos, como a antiarte, conforme o dadaísmo do século XX; todas elas uma forma de manifestação de um tempo, que ajudam a manter viva a história, conhecer diferentes povos e contextos, além de reconhecer a diversidade e a potência do que o ser humano é capaz.
Contudo, há também grupos que, como forma de protesto, fabricam artes das mais radicais a fim de aparentar uma arte contra o “sistema patriarcal” e em favor de um “progressismo inovador”. Para isso, inserem performances com pessoas nuas, contato de imagens sacras com órgãos genitais, iconoclastia das mais diversas. No intuito de “fazerem a diferença” e promoverem algo que seria “desejável” para grande parte da sociedade (o que, na verdade, representa interesse de uns e outros), promovem eventos e produtos que não alteram e nem provocam mudanças substantivas, mas atraem desconforto e maior distanciamento com conservadores impossibilitando o diálogo amistoso. Esse tipo de comportamento indica o quanto grande parte daqueles que se identificam com a nova esquerda encontra-se inclinada a rótulos e voltada para seu, nas palavras de Thomas Sowell, “narcisismo inocente”. Portanto, não está em questão o conjunto de ações e propostas do contingente progressista, mas daqueles que são classificados pelo próprio Sowell de “ungidos”, isto é, uma intelligentsia (em seus estudos: os estadunidenses) progressista cuja visão social se isola de qualquer opinião discordante da realidade. Dito de outra maneira: grupos que não buscam a realidade por si, mas uma visão. E seus seguidores, que reproduzem o que essa intelligentsia cria em seus gabinetes e que, por sua vez, agem de acordo com o que tal visão possa oferecer.
Para além desse grupo, uma outra parcela que se destaca: manifestantes que não criam “artes” como forma de “artivismo”, conforme termo analítico utilizado por Julia Ruiz Di Giovanni, doutora em antropologia social.1 Trata-se de um movimento cujo interesse é potencializar suas manifestações ocupando espaços, como escolas e universidades, destruindo estátuas de personagens indesejáveis, atacando obras de arte em museus e afins.
Essa tática da nova esquerda, muito influenciada pela própria dinâmica ideológica radical dos sixties2e pela geração francesa de 19683, formou o que o colunista Tom Wicker chamou de “juventude idealista”. Escrevendo em 1969 sobre uma ocupação em Harvard, destacou que:
Alunos de todas as partes acreditam que um “establishment” – político, social, econômico, militar – manipula a sociedade para seus objetivos próprios, de tal forma que o poder do povo é apenas um mito. A guerra continua, o racismo continua, a pobreza permanece, apesar das pregações familiares de norte-americanos sobre paz, democracia, prosperidade e o governo da razão.4
Com isso, lutas por “igualdade”, “direitos humanos”, “justiça social”, “gênero”, ganham outras tonalidades por meio de grupos em universidades de tal modo que suas expressões, conteúdos, produções acadêmicas, passam a receber as características (a identidade) desses movimentos. Seus critérios são pensados como progresso, mas são morais. Os sentimentos de revolta pela história (escravidão, patriarcado) e a militância por questões ambientais, dentre outras muitas e as já mencionadas, reúnem manifestações que também estão em ambientes como museus, exposições, galerias.
Ataques a obras de arte no mundo têm se tornado algo cada vez mais comum. O objetivo é chamar a atenção para questões que envolvem suas pautas. O cálculo realizado se resume em: a arte não é mais importante do que outras necessidades do ser humano. E quem determina essas “necessidades mais importantes” geralmente estão entre grupos da sua própria tribo. Assim como a solução só poderia vir daqueles que identificam tais necessidades. Entender o problema de forma não complexa empobrece a causa (ou causas) que trouxe o mesmo problema à existência.5
A Europa tem sido palco de manifestações contra obras de arte há alguns anos. A mais recente ocorreu na França, dia 28 de janeiro deste ano. Duas mulheres atacaram a obra “Mona Lisa” no museu do Louvre lançando sopa no quadro (blindado); elas pediam por “alimentação saudável e agricultura sustentável”. Usando camisa com a frase “Riposte Alimentaire” (nome do coletivo, que significa algo como “Contra-ataque alimentar”), gritavam: “O que é mais importante? A arte ou o direito a alimentos saudáveis e sustentáveis?”.
O país ainda passa por um descontentamento por parte dos agricultores que, como forma de protesto, têm bloqueado estradas e exigindo mais proteção, direitos e menos regulamentações ambientais. Rodovias bloqueadas, como as que ligam Paris à Bélgica, a entrada na França por meio da Espanha, sem contar com a queimada em lixões e veículos para chamar atenção da população. Durante a ação no museu do Louvre, as manifestantes declaravam: “Nosso sistema agrícola está doente. Os nossos agricultores estão morrendo no trabalho”.

Há dois anos, o mesmo quadro foi atacado por um manifestante que, ao lançar um bolo na arte, dizia que todos deveriam “pensar no planeta”. Casos como estes já foram divulgados com indignação pela mídia e opiniões de intelectuais em suas redes ou publicações diversas. Lembremos, por exemplo, dos ataques feitos em 2022: o líquido preto lançado em um quadro do pintor austríaco Gustav Klimt; ataques aos quadros de Francisco de Goya, em Madri (Museu do Prado); ataques de ambientalistas com purê de batatas sobre uma obra de Claude Monet, na Alemanha (Galeria em Potsdam); sopa de tomate em uma pintura de Vincent van Gogh, em Londres (National Gallery).
O jornalista irlandês Andrew Doyle escreveu para a Revista Oeste (Edição 137) que os “recentes ataques de militantes esquerdistas contra obras de arte são uma forma de repúdio à civilização humana” e “para aqueles que se identificam com ‘os que estão do lado certo da história’, existe uma ideia de que a civilização ocidental em si é um câncer que precisa ser extirpado”. E destaca a visão desses grupos sobre a civilização em questão: “Ela foi construída com base em estruturas de poder heteronormativas, cis-patriarcais e de supremacia branca que perpetuam injustiças e fortalecem as elites”.6 Importante que se diga em alto e bom som que as pautas sobre lutas ambientais, questões sobre igualdade, classes, são deveras importantes na luta por uma democracia mais justa. A questão que aqui destaco são os métodos e a maneira como regulam o foco de luz sobre determinados temas.
Mediante o reducionismo constante do chamado “ponto de vista” de grupos identitários que se veem como únicos capazes de trazer soluções, proporcionam um cenário de contradições. Acreditam que suas ações e políticas são melhores, mas demonstram, em alguns cenários (como no Louvre), não saber fazê-lo: “O que é mais importante?”. Com esses ataques à arte, ocupações em universidades, estigmatização social, demonstram que o compromisso de parte desse grupo não é conhecer bem para agir bem, e sim, que seus valores subjetivos, em contraste com outros, servem como verdadeiras respostas que o mundo precisa. A mentalidade do “onicompetente” (Sowell), em que as abordagens políticas possuem alternativas que não alteram estruturas, nem reeducam, nem formalizam adequada e institucionalmente suas questões, apenas impõem seus modelos de se destruir algo por possuir “valor inferior” à sua demanda – superior a tudo o que está ao redor.
Parte de tais movimentos é reducionista, conforme mencionei, porque entende que há apenas um caminho: o seu próprio. Acredita sempre que o outro é o problema e que este não tem nada a desenvolver política e socialmente. Um dos caminhos para isso encontra-se no diálogo e na troca. Diálogo e troca indicam que não existe solução para a infelicidade no mundo, mas que o mais importante é a integridade no processo, pois em uma sociedade livre, como dizia Jean-François Revel, não há uma única causa, apenas métodos justos. A questão, portanto, não estaria em localizar males em “opressores”, “dominação masculina”, “exploração capitalista” (por mais que sejam questões reais), mas, com diálogo e troca, buscar adequar melhor a sociedade.
A “massa progressista” (mas sempre importante destacar o cuidado para não generalizar) tornou-se cobaia desses manifestantes, porque calculam entre a fome e a arte. Diante de pessoas que meramente reproduzem o discurso militante e que se alimentam de retóricas radicais, fica fácil compreender o processo de sua alienação e da manutenção constante dessa imagem mobilizadora entre uma coisa ou outra. Na sociedade, mensurar entre uma coisa e outra e destruir a que se julga inferior para chamar atenção do mundo para o bem mais necessário, é desconsiderar a própria limitação no jogo social, julgar-se como detentor da solução, ignorar o conhecimento e a complexidade, esquecer-se de que “a gente não quer só comida; a gente quer comida, diversão e arte”. Talvez a questão que possa ajudar nessa construção, guardadas as devidas proporções, seja: “Vale a pena correr o risco de melhorar a sociedade em um lado e piorando o outro?”.
Termino transcrevendo trecho de uma obra de Sowell ao criticar os “ungidos” (categoria criada para analisar grupos progressistas que se veem como protagonistas de toda “boa solução” política):
Apesar da importância de trocas incrementais, a linguagem da política é cheia de retóricas categóricas sobre “determinar prioridades”, “fornecer necessidades básicas”, ou “garantir a segurança” com relação a comidas, remédio e energia nuclear. No entanto, decisões incrementais diferem tanto de decisões categóricas quanto as trocas diferem das soluções. Se apresentada com a escolha categórica entre comida e música, qualquer pessoa sã escolheria comida, já que é possível viver sem música e não sem comida. Entretanto, se apresentada como uma escolha incremental, a decisão poderia facilmente ser o oposto. Se a comida fosse categoricamente mais importante do que a música, logo, nunca chegaríamos a um ponto onde estaríamos preparados para sacrificar recursos que poderiam ser utilizados para produzir comida com a intenção de produzir música. Dada esta premissa, Beethoven (1770-1827), Brahms (1833-1897) e Bach (1685-1750) deveriam ter trabalhado plantando batatas em vez de escrever música se a comida fosse categoricamente mais importante.
Um mundo onde a comida tivesse uma prioridade categórica maior do que a música seria um mundo de pessoas de 150kg, cujas breves vidas nunca seriam alegradas por uma canção ou melodia. O fato de que ninguém apoiaria esse resultado absurdo e desastroso em um caso tão óbvio, não significa que as pessoas não apoiarão resultados igualmente absurdos e desastrosos em casos mais complicados, nos quais as conexões são mais difíceis de se entender e a linguagem categórica de “prioridades”, “necessidades” ou “segurança” está firmada concretamente na lei ou nas políticas públicas – e cujas consequências não são monitoradas, ou são monitoradas por agências com um interesse investido na continuação dessas leis e políticas, porque estas justificam sua própria existência, dinheiro e poder.7
Notas
1 Disponível em: https://journals.openedition.org/cadernosaa/911.
2 Cf. LELLIS, Nelson; DUTRA, Roberto. Dois argumentos lacônicos para se pensar a cidadania nacional como outra vítima do identitarismo, Instituto Humanitas Unisinos, em 23 jun. 2023.
3 Cf. LELLIS, Nelson. Ir além da terapia: como o ato antidemocrático desafia a “nova esquerda”, Ateliê de Humanidades, 10 jan.2023.
4 WICKER apud SOWELL, Thomas. Os Ungidos… São Paulo: Ed. LVM, 2022,p. 140. (Publicado originalmente em Tom WICKER, “What Are the Real Issues?”, Current, jun/1969, p. 5)
5 Ora, a própria tradição religiosa cristã, por meio dos evangelhos, coloca na boca de Jesus que não só de pão viverá o homem. É de pão, isto é, de materialidade que sacia o físico, mas de outros elementos, símbolos e signos que formam um conjunto que vai de uma espiritualidade religiosa contemplativa, ritualística, a produtos – também espirituais – culturais, artísticos, visuais, sonoros, táteis, sensoriais.
6 Disponível em: https://revistaoeste.com/revista/edicao-137/o-vandalismo-desumano-do-just-stop-oil/.
7 SOWELL, Thomas. Os Ungidos: a fantasia das políticas sociais progressistas.São Paulo: Ed. LVM, 2022,p. 188-189.

NELSON LELLIS é doutor em Sociologia Política e bolsista pós-doc pelo mesmo programa na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF).

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