O Ateliê de Humanidades está nos últimos tempos bastante engajado na questão do barroco como visão de mundo, forma de vida e operação política.
Além de publicar os dois livros de Rubem Barboza Filho – Tradição e artifício e Sinfonia Barroca (Ateliê de Humanidades Editorial, 2025) –, já trouxemos em nossa tribuna textos de Pablo González Velasco, Felipe Maia e André Magnelli. Além disso, Gabriel Restrepo publicou um importante ensaio em um dossiê sobre o barroco na Imago crítica. Por sua vez, vamos lançar em breve o romance barroco experimental de Restrepo, Marrano Congo. Anima scripta (já disponível para compra no Brasil). Agora continuamos a explorar tal tema, publicando no Fios do Tempo mais um texto do filósofo Aldo Tavares.
Este ensaio está na continuidade das explorações filosóficas anteriores do autor, que co-elabora certas filosofias consideradas comumente como díspares: Platão, Nietzsche, Foucault e Deleuze. Aldo analisa aqui como a “escolástica pré-barroca” recebeu criticamente o “terceiro excluído” de Aristóteles. Neste sentido, ele oferece uma atenção especial à forma como Nicolau de Cusa recuperou o pensamento platônico do “entre-dois” contra o “sim-ou-não” da escolástica medieval. Além disso, ele propõe uma releitura “filosófico-metafísica” da nossa história, argumentando que o “terceiro incluído” foi operado pelos jesuítas portugueses (em contraste com a colonização hispo-americana). Trata-se, para ele, de “uma liturgia profana que se movimenta entre amigo-e-inimigo, qual seja, a do traidor, cujo rosto-palavra expressa o terceiro elemento incluído“.
Quem conhece os trabalhos de Rubem Barboza Filho sabe o quanto seria possível apontar confluências e, também e sobretudo, contrastes, com sua obra. Mas isso é deixado pelo autor, de forma consciente, para um texto porvir.
Desejo, como sempre, um excelente leitura.
A. M.
Fios do Tempo, 15 de novembro de 2025
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Escolástica pré-barroca
ou o terceiro incluído na colonização de Frei Henrique
O historiador, porquanto não pode se furtar à classificação de seu estudo em “época”, suspende o fluxo do tempo, separa períodos históricos distintos e compara-os. Uma dessas épocas, o Barroco, cujo conceito, o primeiro, é o de movimento. Com isso, ao nos dar a mentira epistêmica de cortar o fluxo temporal, a história o interrompe a fim de fixar 1580 como início do Barroco europeu e 1601, o brasileiro. O movimento, porém, é atemporal, é anistórico. Compreendo: a mentira de fixar o tempo não passa de historiográfico didatismo.
Assim, em virtude de sua conceituação primeira, este artigo alinha o barroco ao movimento conforme pensado em O sofista, onde, não havendo oposição entre signos desiguais, Platão nos oferta “o não-ser é ser”, ou seja, por não haver oposição, lemos em A república que a representação é “mentira nobre”. Ora, se o barroco é participação ou relação [méthexis] entre opostos, o conceito de representação lho antecede, não podendo ser visto o dualismo verdade-falsidade no rosto-palavra do homem barroco. Destaco dois nomes segundo a política da contrarreforma do Estado-Igreja católico: o cardeal Richelieu [1585-1642] e o papa Urbano 8º [1623-1644].
Não obstante – já escrevi –, o movimento e a representação são anteriores ao barroco e, tendo como referência Platão, digo movimento e representação no sentido paradoxal de “ser-e-não-ser” ao mesmo tempo, diga-se, terceiro [elemento] incluído, potência essa que chega à luz da história, à sua superfície; força abstrata, inteligível, que chega ao relevo de uma época com o nome Barroco, cuja data no Brasil a história fixa em 1601.
Posto isso, sabemos: porque movimento e representação são a própria vida, tais conceitos antecedem ao barroco histórico e, assim sendo, sem excluir a didática da historiografia, suspendo o tempo para fixar o século 12 enquanto Escolástica, que, 410 anos antes do barroco, consolidou-se sob o sinal do dualismo de Sentenças, de Pedro Lombardo [1100-1160], e de Sim e Não, de Pedro Abelardo [1079-1142]. Assim, entre signos desiguais, o pensamento escolástico, para solucionar a contradição herdada da patrística, recorre a Aristóteles desde o século 11, chegando ao século 13 afirmando a identidade conforme o terceiro excluído.
Assim, no sentido de trazer signos contraditórios, o barroco é herdeiro do pensamento escolástico, com a diferença de que o barroco acolhe o terceiro elemento ou o terceiro incluído, representado por um colonizador-sacerdote que, por não se situar no barroco histórico de 1601, é o rosto pré-barroco a realizar a primeira missa do Brasil: frei franciscano Henrique Soares de Coimbra [1465-1532], da matilha Estado-Igreja.
O nome não se reduz ao nome, posto que, segundo Gilles Deleuze, é agenciamento. Então, ao imprimir neste artigo o nome do indivíduo ou de sua obra, imprimem-se agenciamentos. “Como cada um de nós era vários, já era muita gente. (…). Por que preservamos nossos nomes? Por hábito, exclusivamente por hábito. (…). E, finalmente, porque é agradável falar como todo mundo e dizer o sol nasce, quando todo mundo sabe que essa é apenas uma maneira de falar”, escrevem Deleuze-e-Guattari em Mil platôs, volume 1, p. 17.
1. A Escola Franciscana de Paris
Da Ordem Menor, o franciscano Henrique Soares de Coimbra é a escolástica pré-barroca que pisa o Novo Mundo com seus passos entre signos contrários, exemplo, curva-e-reta, aliás, signos esses que deixaram a marca do terceiro elemento incluído nas belíssimas páginas de A douta ignorância, de Nicolau de Cusa [1401-1464], seja dito de passagem, signos contrários pensados por Gilles Deleuze em A dobra: Leibniz e o barroco.
Antes de Nicolau, porém, a escolástica, herdeira do “ser e não-ser ao mesmo tempo” da patrística, superou a crise textual dos padres por meio do terceiro excluído aristotélico cristianizado por Tomás de Aquino, mantendo-se excluído até o franciscano Guilherme de Ockham [1285-1347], quando, 97 anos após a morte do doutor invencível, o pensamento cusiano imprime o terceiro elemento incluído na escolástica por meio de A douta ignorância.
O barroco movimenta-se entre razão-e-sensação ou entre rígido-e-flexível, e a crise patrística passa pelos signos dessemelhantes razão e sensação, os quais estão em Tratado sobre os princípios, onde Orígenes os afasta; e em Contra as heresias, de Irineu de Lião, cujo pensamento os aproxima. A escolástica herda o dualismo patrístico. No agenciamento-livro Arte e beleza na estética medieval, quando Umberto Eco pergunta “e Deus poderia fazer com que uma coisa seja e não seja ao mesmo tempo?” (2010, p. 257), constata como resposta que a escolástica se detém diante do limite intransponível de o princípio de não contradição, ou seja, ainda que a escolástica tenha o entre signos contrários, o terceiro excluído é assegurado em razão de fixar o conceito de identidade.
Em Metafísica – escrevi em detalhe no artigo anterior –, Aristóteles afirma que “é o princípio que afirma não ser possível que a mesma coisa ao mesmo tempo seja e não seja (…)” (2013, p. 499, 1061b 35). Posto isso, como não se torna possível manter a contradição patrística ou a oposição de autoridades cristãs, mesmo porque a escolástica cristianiza Aristóteles, Pedro Lombardo, um dos sacerdotes centrais na consolidação da escolástica, sistematiza a teologia e redige Sentenças entre 1155 e 1157, onde expõe uma crise dos textos patrísticos. Pedro Abelardo [1079-1142] lê Sentenças para escrever o dualismo Sim e Não.
É o franciscano Alexandre de Hales [1185-1245] quem pela primeira vez impôs as Sentenças como texto nas aulas de Sagrada Teologia. A escolástica, portanto, surge entre signos contraditórios; o entre-dois, porém, ainda tende à medida [méson] aristotélica, ou seja, à identidade, ao estável, ao ser, e o limite do terceiro excluído na escolástica chama-se Guilherme de Ockham, visto que, depois desse franciscano, a teologia não se detém mais diante de o limite intransponível do princípio da não contradição, quer dizer, após Ockham, a teologia não precisa acreditar no princípio da identidade e não sustentar que “o terceiro não é dado” [tertium non datur].
O Estado-Igreja acolhe dessemelhantes pensamentos com a finalidade de entre-eles asseverar o princípio da não contradição, até que o terceiro elemento acontece entre as Idades Média e Moderna por meio de Nicolau de Cusa, quem pensa a “conciliação dos opostos” em A douta ignorância: “(…) hoje é a seita aristotélica que prevalece, e ela considera uma heresia a coincidência dos opostos, cuja admissão é o único caminho para a teologia mística” (2018, p. 38). Nesse belíssimo agenciamento-livro, curva-e-reta misturam-se e, quando digo mistura, digo passagem, cada elemento impregna o outro, cujo acontecimento permite que curva e reta deixem de ser excludentes, pois o entre está além da medida pensada por Aristóteles em Metafísica.
Há no pensamento cusiano a presença de Platão em virtude do conceito de participação [méthexis] entre signos desiguais, tornando isso às claras em 1458, quando escreve In Parmenidem, na qual comenta e reelabora o diálogo platônico Parmênides, agenciamento-livro em que o terceiro elemento é lido desta forma: “Mas esta natureza, a do instante, uma estranha <natureza>, situa-se entre o movimento e o repouso, estando em tempo nenhum” (2008, p. 105, 156d-e). A escolástica pré-barroca, portanto, afasta-se de Aristóteles a fim de afirmar o entre-dois platônico, espaço de exceção do qual emerge o terceiro elemento. Os opostos, enfim, conciliados na teologia escolástica.
No início do século 13, o conjunto da obra de Aristóteles é conhecido e, embora a alta escolástica o misture com Platão, diga-se, este pouco traduzido e pouco propagado, o aristotelismo neoplatotizante mantém o terceiro excluído, quer dizer, tende-se à filosofia aristotélica, até que, após o pensamento de Ockham, acontece o terceiro incluído na escolástica pré-barroca, é quando a difusão de Platão ocorre no século 15, e de Cusa, diante do neoplatonismo ampliado, recupera a tradição platônico-agostiniana, misturando-a com geometria [que mistura curva-e-reta] e teologia, pondo o terceiro elemento na teologia cristã.
Ainda que Nicolau de Cusa seja não franciscano, banha-se nas águas da Ordem dos Frades Menores, as mesmas de Boaventura de Bagnoregio [1217-1274], de João Duns Escoto [1266-1308], mas também nas dos dominicanos Ulrich de Strasbourg [1225-1277] e Mestre Eckhart [1260-1328]. Há outros nomes. Quanto a ser neoplatônico, Nicolau retoma o conceito de “entre” e amplia-o em A douta ignorância, onde a metafísica amodal manifesta um pensamento em que “todas as coisas contraídas existem, pois, entre o máximo e o mínimo (…)” (2018, p. 130), não havendo, com isso, o dualismo máximo-mínimo por acontecer no meio dos opostos o terceiro elemento ou o terceiro incluído.
2. Um rosto missionário
Então, pelo exposto, o missionário frei Henrique Soares de Coimbra, do período histórico pré-barroco, está comprometido com um poder que assevera o terceiro elemento, estando afastado, portanto, do aristotelismo cristianizado de Tomás de Aquino [o terceiro excluído] e próximo à escolástica pré-barroca de Nicolau de Cusa [o terceiro incluído]. Agora, se o frei leu ou não leu Nicolau, ignoramos, mas sabemos que o franciscano experimentou a “conciliação dos opostos”, já que, sob o olhar de Pero Vaz de Caminha, leio Henrique Soares de Coimbra como amigo-e-inimigo ao mesmo tempo dos nativos, visto que está escrito em 30 de abril de 1500 que “são muito mais nossos amigos que nós seus”.
Na Carta, relações pessoais são expostas ao rei dom Manuel sem classificações pedantes de princípios, sem critérios de um método de ação, e sim traços característicos e necessidades de pessoas concretas. Ainda que seu nome seja só lido nas datas de duas missas, o padre frei Henrique não se reduz à liturgia, na medida em que toda relação com o Novo Mundo representa um domínio em nome de Deus, domínio marcado pela mistura, não pela força da oposição. De mais a mais, caso admitamos o poder como representação do rosto, podemos nos servir de Gilles Deleuze e de Félix Guattari, no sentido de que “os rostos não são primeiramente individuais, eles definem zonas de frequência ou de probabilidade (…)” (2012, p. 36).
Leiamos, então, essa mistura, compreendendo-a como posterior às aproximações não por meio da troca de objetos, mas quando uma identidade ocupa o lugar de outra identidade. Nesse sentido, em 24 de abril, dois nativos são recebidos no lugar da nau “com muito prazer e festa”, isto é, embora sejam estranhos, neutraliza-se o estranhamento entre eles. Logo após escrever “com muito prazer e festa”, Caminha observa que a nudez é tão inocente quanto mostrar o rosto. Identifica-se a representação do rosto, não havendo, pois, nenhum traço de segunda intenção. O rosto nativo não esconde algo. Ainda na nau, um nativo toma para si as contas brancas do rosário – que fazem parte do terço católico –, lançando-as ao pescoço para depois enrolá-las no braço. Eis a primeira mistura: sagrado-e-nu. Em 25 de abril, os dois nativos deixam a nau e, a cada um, é dado um rosário de contas brancas de osso. Como houve aproximação entre estranhos na nau, o jovem exilado Afonso Ribeiro, criado de D. João Telo, é enviado com os dois nativos “para lá andar com eles e saber de seu viver e maneiras”; mas, passado algum tempo, não ficam com o degredado. Em 26 de abril, após a missa, o padre frei Henrique sobe a uma cadeira alta a fim de pregar uma solene pregação da história do Evangelho. Muitos nativos, porém, depois da missa, levantam-se, tocam instrumentos, saltam e dançam. Caminha registra a negação da força para “amansar e pacificar”, pois, caso houvesse a força, não poderiam deixar dois degredados com os nativos após partirem do Novo Mundo. Pela primeira vez, Caminha escreve “misturados” e, na mesma data, linhas depois, quando “andavam muitos deles dançando e folgando”, Diogo Dias, “homem gracioso e de prazer”, levando consigo um gaiteiro, dança com os nativos, os quais, tomando-os com as mãos, folgam, riem e andam com Diogo muito bem ao som da gaita. Observa Caminha: “e tudo se passa como eles querem, para os bem amansar”. Em 27 de abril, já muito poucos traziam arcos e, pouco a pouco, os nativos abraçam e se alegram. Misturam-se. Uns ainda se esquivam. Em 28 de abril: uns 200 não se esquivam e, sem arcos e sem nada, misturam-se. Alguns ajudam a levar a lenha. Em 30 de abril: já são 400 ou 500, alguns usam arcos e setas, mas tudo trocado por carapuças e por qualquer coisa. Comem, alguns bebem vinho e outros levam lenha com muita boa vontade. Um dia antes da considerada Primeira Missa, Caminha escreve que “andavam já mais mansos e seguros entre nós do que nós andávamos entre eles”, em outros termos, os súditos do rei dom Manuel não andavam mais dóceis, nem mais confiantes. Ainda nesse dia, uns 10 ou 12 beijam a cruz, data em que dançam ao som do tamboril, é quando Caminha sentencia: “em maneira são muito mais nossos amigos que nós seus”.
Neste momento da Carta, por ser a linha marcante de nossa colonização pré-barroca, qual seja, linha em que se escreve o jogo da representação [o-que-é-não-é ao mesmo tempo], finalizo a escrita perovaziana porque ela registra nossa matriz colonizadora, a mistura. Só após estar “entre eles”, nativos beijam a cruz ou o sofrimento, dançam ao som do tamboril com o estranho e, uma vez consagrada a mistura, o frei franciscano Henrique, por meio de Caminha, admite uma liturgia profana que se movimenta entre amigo-e-inimigo, qual seja, a do traidor, cujo rosto-palavra expressa o terceiro elemento incluído. Ainda que em finuras maneiras, em graus, o entre signos dessemelhantes se faz presente enquanto miscibilidade em Casa grande e senzala e como cordial em Raízes do Brasil, estando ausente, porém, nas cartas de Cristóvão Colombo.
3. Um rosto chamado Frei Ramón Pane
Assim como Henrique Soares de Coimbra está para Pero Vaz de Caminha, Ramón Pane está para Cristóvão Colombo, com a diferença de que este registra em suas cartas uma percepção dualista dos nativos: em 26.12.1492, “não cobiçam os bens de outrem” e, em 09.04.1494, Colombo escreve que “ocorreu que algum índio roubou, se fosse descoberto que alguns deles roubam, castigai-os cortando-lhes o nariz e as orelhas, pois são partes do corpo que não se pode esconder”.
No final de sua primeira viagem, em que Colombo não levou sequer um padre, parte de seus homens fica em Hispaniola [atual Haiti e República Dominicana] e, após um ano, quando retorna, os homens estão mortos. Nessa sua segunda viagem, é deixado o frei Ramón Peres, da Ordem dos Jerônimos, com a finalidade de descrever, detalhadamente, os costumes e as crenças dos nativos, sendo, portanto, o primeiro etnógrafo das Américas. Em um dos registros, o frei afirma que, “depois de terem deixado a capela, esses homens jogaram as imagens ao solo, cobriram-nas com um punhado de terra e urinaram sobre elas”, fixando, pois, na América espanhola, a matriz da oposição entre identidades diferentes. Bartolomeu, irmão de Colombo, queimou-os em público.
No caso da matriz espanhola, embora estivesse no período pré-barroco, o que somente predomina é o corte afiado da espada, estando tamanha força marcada nas anotações de Colombo, antes da destruição das imagens cristãs, em 1492. Assim, se nativos da América de Espanha quebram imagens sagradas em um pequeno templo e expelem urina sobre elas, nativos da América de Portugal beijam a cruz e dançam com amigos, que são, ao mesmo tempo e no mesmo rosto, inimigos.
A colonização de frei Henrique é bem mais elaborada do que a de frei Ramón, visto que esta, ao refutar o terceiro elemento, afirma o terceiro excluído, isto é, nega o poder estético-político do pré-Barroco; e aquela, que não refuta o terceiro elemento, acolhe o terceiro incluído, isto é, afirma o poder estético-político do pré-Barroco. Em 13 de julho de 1553, quando o padre José de Anchieta chega ao Brasil com 19 anos, é a gênese de a mistura ainda mais amplia com suas dobras, tornando o poder colonizador, com efeito, bem fino em sua (e)laboração, poder colonizador não pensado nas linhas de Sobre a colonialidade do ser, de Nelson Maldonado-Torres, e muito menos nas linhas de Crítica da razão negra, de Achille Mbembe.
4. Movimento vital
Antes do barroco, a pintura medieval, com seus santos, negou o movimento vital; com a presença da cultura gótica, porém, tal movimento se fez presente na arte plástica por meio de Giotto. O primeiro conceito do barroco, portanto, o movimento, mas uma concepção de movimento em que o não-ser não se opõe ao ser, e tamanha concepção na escolástica é pensada pelo neoplatônico Nicolau de Cusa nas belíssimas páginas de A douta ignorância, onde o movimento, que acontece entre signos dessemelhantes, origina-se não de Heráclito, e sim de Platão e, com efeito, assevera a presença de o terceiro elemento ou de o terceiro incluído.
Na página 27 dessa obra, Nicolau, por meio da matemática, mostra que “(…) a curvatura na própria linha máxima é rectitude”, ou seja, a curva é reta, visto que signos contraídos acontecem entre signos opostos, é quando o mínimo coincide com o máximo porque as coisas contraídas existem entre máximo-e-mínimo, o que nos lança às páginas de A dobra, onde Deleuze, ao pensar o ponto de inflexão, encontra curva-e-reta ao mesmo tempo, o que implica dizer que a “relação” dos opostos está além de seus termos.
A história limita datas; o movimento vital, entretanto, atravessa séculos, é atemporal. Em 1966, o barroco abre as primeiras páginas de As palavras e as coisas, onde Foucault pensa o quadro Las meninas, de Diego Velázquez, no sentido de que, estando a representação entre ser-e-não-ser ao mesmo tempo, o pensador francês escreve na página 19: a) “centro neutro dessa oscilação”, b) “entre o visível e o invisível”; na página 20: a) “ele reina no limiar dessas duas visibilidades incompatíveis”, b) “nesse ponto cego, nesse esconderijo essencial onde nosso olhar se furta a nós mesmos no momento em que olhamos”, c) “essa linha de visibilidade envolve, em troca, toda uma rede complexa de incertezas, de trocas, de evasivas”; na página 21: a) “nenhum olhar é estável, ou antes, no sulco neutro do olhar que traspassa a tela perpendicularmente, o sujeito e o objeto, o espectador e o modelo invertem seu papel ao infinito”, b) “dois espaços vizinhos, entrecruzados”; enfim, poderia me estender à página 31, mas Foucault imprime a evidência de que a representação barroca é um jogo entre signos assimétricos, ou seja, em virtude desse entre signos opostos, o filósofo diz na página 26 que “é a terceira função do espelho”, terceiro elemento incluído que parece emergir no interstício barroco ou no entre, visto que, nesse quadro de Velázquez, página 31, “por todas as partes um vazio essencial é imperiosamente indicado”, um vazio, uma falha ou um entre.
Isso escrito, o barroco nos mostra que a representação é vista em sua invisibilidade profunda, estando tamanha representação na colonização do Brasil, onde o rosto [visível] do amigo frei Henrique Soares de Coimbra mostra, à luz do dia, sua invisibilidade profunda de inimigo, sendo, pois, a imagem do traidor – nossa matriz colonizadora.
Aldo Tavares é livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades, professor de filosofia e mestre em filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde defendeu a dissertação “A inocência infantil como potência do falso: platôs entre as fábulas de Platão e a criança de Nietzsche-Deleuze”.

Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial




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