Publicamos hoje, no Pontos de Leitura, o prefácio ao livro Sinfonia barroca: o Brasil que o povo inventou (Ateliê de Humanidades Editorial, 2025), de Rubem Barboza Filho, escrito por Felipe Maia.
“[…] Creio que não poderia haver imagem mais feliz para o título desse livro que a de uma sinfonia barroca! Não é preciso avançar muito na teoria musical para imaginar a importância que a ideia de uma multiplicidade de vozes soando em conjunto ganhava na composição barroca, com todo o desenvolvimento que possibilitaram a técnica do contraponto e a variação dos naipes de instrumentos de orquestra. Alejo Carpentier, em uma breve novela intitulada Concerto Barroco, imaginou um animado encontro entre os músicos barrocos Antonio Vivaldi, Domenico Scarlatti, Georg F. Haendel e um percussionista negro e cubano, que em um mosteiro veneziano produzem uma autêntica “jam session” de improvisos que acaba levando os leitores ao mundo do jazz. E tudo isso a propósito de uma enigmática ópera na qual o imperador azteca Montezuma ganhava ares de César romano! É o barroco, com seus símbolos em trânsito, entre dois ou três continentes, produzindo mediações entre seres e culturas que se defrontaram com situações inauditas e até inimagináveis. […]”
Desejamos, como sempre, um excelente achado!
A. M.
Pontos de Leitura, 03 de julho de 2025

Combo “Tradição e artifício” e “Sinfonia Barroca”
Combo dos dois livros clássicos de Rubem Barboza Filho: “Tradição e artifício: iberismo e barroco na formação americana” e “Sinfonia barroca: o Brasil que o povo inventou”.
Prefácio a “Sinfonia Barroca”
Contam os dicionários que a palavra “sinfonia”, tal como a usamos hoje, tem suas raízes em um vocábulo grego que significava “sons em conjunto” ou o resultado da união dos sons. Como tantas outras, a palavra transitou pelo latim até as línguas europeias, quando foi incorporada pela moderna teoria musical e passou a designar um certo tipo de composição e também a qualificar uma formação musical, as orquestras sinfônicas, caracterizadas pela reunião de instrumentos distintos compondo múltiplas vozes. Em uma breve pesquisa na internet, qual não foi minha surpresa, ao saber que a consolidação de “sinfonia” neste universo semântico se deu exatamente no Barroco europeu! Foi então que passou a designar o tipo de composição que mais tarde assumiria uma forma estendida, dividida normalmente em quatro movimentos, celebrizada por gigantes como Mozart ou Beethoven.
Creio que não poderia haver imagem mais feliz para o título desse livro que a de uma sinfonia barroca! Não é preciso avançar muito na teoria musical para imaginar a importância que a ideia de uma multiplicidade de vozes soando em conjunto ganhava na composição barroca, com todo o desenvolvimento que possibilitaram a técnica do contraponto e a variação dos naipes de instrumentos de orquestra. Alejo Carpentier, em uma breve novela intitulada Concerto Barroco, imaginou um animado encontro entre os músicos barrocos Antonio Vivaldi, Domenico Scarlatti, Georg F. Haendel e um percussionista negro e cubano, que em um mosteiro veneziano produzem uma autêntica jam session de improvisos que acaba levando os leitores ao mundo do jazz. E tudo isso a propósito de uma enigmática ópera na qual o imperador azteca Montezuma ganhava ares de César romano! É o barroco, com seus símbolos em trânsito, entre dois ou três continentes, produzindo mediações entre seres e culturas que se defrontaram com situações inauditas e até inimagináveis.
O barroco, Rubem Barboza procurará nos persuadir, constituiu um espaço em que essas múltiplas vozes, razões e sentimentos puderam se encontrar. Mais do que uma forma em particular, teria sido uma forma de lidar com as diferenças, sem a pretensão de resolvê-las ou reduzi-las a uma unidade. “Pérola imperfeita”, o barroco se enriquece da abertura e da continuidade de jogos de linguagem que se multiplicam no tempo e no espaço. Nascido em um momento de crise, que Paul Hazard qualificaria como uma “crise da consciência” europeia, o Barroco não oferece uma resposta racional e totalizante, mas se constitui em uma operação de persuasão e comunicação que perscruta a “alma” e os sentimentos de um público, que ativa uma imaginação e quer produzir o “maravilhamento”. Não se reduz à imagem tradicional da Contra-Reforma, não tem uma metafísica única, nem supõe uma única perspectiva, mas acolhe todas.
É aqui que Rubem propõe uma aposta ousada: aproximar dois universos filosóficos distintos, o barroco e o moderno pragmatismo americano. E há, de fato, elementos em comum. Tal como expõe Louis Menand, em The metaphysical club, o pragmatismo é também uma corrente nascida na crise, aqui a guerra civil norte-americana, e uma reflexão sobre a heterogeneidade dos valores e a sobrecarga que as metafísicas filosóficas e teológicas impõem à política e à cultura. Ambos são críticos do cartesianismo em sua busca por uma razão abstrata, na separação entre corpo e alma, princípios aos quais contrapõem razões que emergem nas práticas, na linguagem, nos sentimentos e na comunidade. Podem com isso oferecer uma antropologia filosófica mais generosa que aposta em uma humanidade ativa e criativa, artífice de sua própria história. No caso do Barroco, uma recusa da indignidade humana diante de Deus e da ordem política como uma derivação do pecado e da imperfeição humanas, argumentos de um barroco ibérico, de influências neotomistas, que comporta uma “politicidade” própria, na qual a retórica, a persuasão e a linguagem são elementos chave.
Seguindo algumas da mais contemporâneas leituras do pragmatismo filosófico e da “virada linguística”, Rubem Barboza aproxima esta politicidade barroca do entendimento da formação do moderno espaço público como um “espaço de razões”, no qual a linguagem é decisiva para o movimento de dar e oferecer razões para a vida em comum. Ela ganha aqui o status de verdadeira “forma de vida”, em que se articulam, praticamente, implicitamente, as normas e os valores da vida em comum.
Nesta toada, podemos então nos aproximar do que considero o argumento central deste livro. A sinfonia barroca de que nos fala Rubem advém de uma mudança de perspectiva sobre a história brasileira, que conjuga o movimento filosófico com a percepção histórica do esgotamento das leituras convencionais, em especial, das teorias da modernização, que fazem do passado, nas palavras do autor, uma “herança pesada”, uma “fonte de perversidades” diante do qual só restaria um mandamento, o da ruptura. Esta seria uma espécie de lesão auto-infligida, que concorre permanentemente para o desentendimento do país consigo mesmo. Em um mundo global em que o próprio sentido da modernidade está em disputa, pelas grandes tradições civilizacionais e axiológicas, não se pode mais apenas “imitar” o Ocidente. O imperativo então é outro, o de perscrutar na história os movimentos que permitem imaginar o futuro e aqui Rubem encontra a dinâmica de um povo que se fez ao fazer uma sociedade original, dinâmica e barroca.
Para tanto, ele lança mão de um outro naipe de instrumentos sinfônicos, composto por alguns dos mais recentes trabalhos da historiografia e da antropologia brasileiras que podem oferecer uma visão nova da vida no período colonial, que põe em questão muitas das pressuposições consagradas pelo conhecimento comum de nossa história. O diálogo com os historiadores permite revisar as hipóteses de precariedade ou até inexistência de uma economia interna no território brasileiro colonial, bem como incorporar conhecimentos novos sobre as condições de vida da população escravizada, não reduzida à mera força de trabalho. Já a antropologia é mobilizada para compreender a cosmologia indígena, valorizando a força de sua imaginação política e sobre a natureza.
Este movimento o afasta do terreno tradicional das filosofias da história marcadas por concepções teleológicas do tempo e dos sujeitos históricos que presidiram as leituras organizadas em torno dos temas da “modernização” ou da “revolução”. Muito daquilo que, na visão teleológica da modernização, é visto como ausência, como falta ou incompletude, pode então ser percebido de outro modo. A distância da coroa portuguesa e a descentralização política, a multiplicidade de línguas e culturas, não impedem o entendimento da constituição de formas de vida históricas que, num movimento que se origina do terreno da própria sociabilidade, dos conflitos e dos problemas com que lida, produzem convenções e instituições de alcance mais amplo e mais geral.
Em minha leitura, esse processo só encontra um “sujeito” se o entendermos de modo muito barrocamente figurado, quase alegórico, na formação da língua, vista aqui como uma verdadeira forma de vida e não como mera representação dela. É na língua que coalescem as experiências e as interações das populações que tiveram que criativamente lidar com as situações novas do encontro e de conflito nas distintas levas de imigração ou de deslocamento territorial. São nos jogos de linguagem que emergem as normas, os valores, as expressões e as instituições que constituem essas formas de vida. O advento, se quisermos assim, de um registro linguístico tão expressivo e potente como o de João Guimarães Rosa, que tanto inspira Rubem Barboza, seria talvez a prova da originalidade desta forma de vida e de uma potência que ainda está por se realizar.
Concluo então com uma última proposição, a de que essa reinterpretação do passado ganha aqui um sentido crítico e emancipatório, na medida em que libera a imaginação das armadilhas presentes numa espécie de lei do eterno retorno de um mal de origem do qual não se pode escapar. Este imaginário, que Rubem provocativamente associa às assombrações “góticas”, nos prenderia a um eterno passado como obstáculo insuperável que limita e contém a capacidade de criação e de transformação. Não se trata, por certo, de “esquecer” ou de ignorar os condicionantes que a história impõe à capacidade de ação no presente, bem ao contrário, o que ele nos propõe, fiel ao espírito barroco e pragmático que o conduziram – e se o entendo bem – é que um conhecimento menos determinista da história favorece um ganho de autodeterminação para o futuro, dito de outra forma, o entendimento das contingências do passado tem um efeito de abertura do futuro, que se mostra mais indeterminado, aberto e por isso mesmo dependente das formas de ação e de concertação humanas.
Madrid, Barcelona, abril de 2025

Felipe Maia é Professor e pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora. É doutor em Sociologia pelo IESP – UERJ (2014), com pós-doutorado no CPDOC-FGV (2015). É coordenador do projeto de pesquisa “Crises e críticas: intelectuais, teoria e processos sociais” e do Grupo de Estudos em Teoria Social (UFJF) e integração a coordenação do Grupo de Pesquisa do CNPQ “Crise e Metamorfoses da sociologia”. Organizador do livro Uma democracia (in)acabada (2019), publicado pelo Ateliê de Humanidades Editorial.
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Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial

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