A emergência das redes sociais digitais transformou significativamente os modos de interação, comunicação e produção de sentido no mundo contemporâneo. No sentido antropológico, as plataformas digitais podem ser entendidas como novos espaços etnográficos, onde se manifestam práticas culturais, construções identitárias e religiosas.
Hoje, no Fios do Tempo, Donizete Rodrigues, professor colaborador na Columbia University (New York) – Seminar Studies in Religion, traz uma reflexão sobre como a análise das redes sociais digitais contribui para repensar conceitos centrais da antropologia (e de outras importantes ciências sociais), ao mesmo tempo que desafia as práticas etnográficas tradicionais, exigindo novas abordagens socio-antropológicas, híbridas e reflexivas.
Fios do Tempo, 15 de novembro de 2025
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial

Questões netnográficas:
como as redes sociais interpelam a antropologia
A “velha” antropologia, nascida em meados do século XIX, enquanto ciência historicamente dedicada ao estudo das práticas culturais, religiosas e simbólicas e das formas de organização social das sociedades primitivas/indígenas/autóctones/originais, localizadas fora do espaço europeu, tem sido constantemente desafiada a repensar, epistemologicamente, o seu campo de observação, análises e a sua metodologia à luz das transformações trazidas pelas mudanças das sociedades humanas, nomeadamente a partir da década de 60 do século XX. Mas o maior desafio para a antropologia é a denominada revolução digital do século XXI. Estará a antropologia, classicamente conhecida como o estudo do “primitivo”, capaz de analisar o impactante mundo digital de hoje?
No ano de 2000, na época da temível passagem do milênio, o sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017) publicou a obra Modernidade líquida, um texto magnífico, mas ao mesmo tempo premonitório, ao afirmar que na sociedade atual tudo é efêmero, passageiro (veja a popular expressão brasileira – “e a fila anda”). Segundo Bauman, estamos numa era de transitoriedade e fluidez nas relações sociais, identidades e instituições. Hoje há uma profunda erosão de laços comunitários estáveis, predominando o individualismo. A sociedade moderna é líquida, ou seja, existe uma evidente falta de estabilidade, durabilidade, e uma constante transformação das instituições, relações sociais e identidades. Vejamos algumas frases marcantes presentes nesta obra: “vivemos em tempos líquidos, nada foi feito para durar”; “as redes sociais são uma armadilha”; “tudo é mais fácil na vida virtual, mas perdemos a arte das relações sociais e da amizade”.
A emergência das redes sociais, enquanto espaços privilegiados de interação social (agora mais virtual do que presencial) e de produção simbólica e de sentidos – na lógica do eminente antropólogo Clifford Geertz (1926-2006) –, abriu novas possibilidades de análise, mas também provocou importantes questões metodológicas e epistemológicas que obrigam a refletir sobre o papel da antropologia hoje, no campo acadêmico e também o seu papel na sociedade.
Tradicionalmente, a etnografia (denominada de “trabalho de campo”) foi concebida como uma prática de imersão prolongada do pesquisador num contexto social-cultural específico, privilegiando o contato direto, a “observação participante” e a produção de “descrições densas”, no sentido proposto primeiramente pelo “pai” do método, o antropólogo Bronislaw Malinowski (1884-1942), e depois pelo já referido Clifford Geertz (1973).
Com a expansão das interações mediadas pelas tecnologias digitais, surgem cenários em que a observação etnográfica já não se limita ao “campo físico”, mas se projeta também para os “campos virtuais”. Nestes espaços, o pesquisador encontra comunidades online, redes de sociabilidade e formas de interação que, embora desmaterializadas, têm expressivos efeitos no mundo social e nas vivências individuais. Esta nova realidade obriga a antropologia a se reinventar epistemologicamente, mas também metodologicamente.
Nos anos de 1990, para atender a necessidade de adaptação do método de pesquisa etnográfico clássico (no/do terreno geográfico) para o estudo do mundo virtual (nos/dos meios digitais) e suas implicações, surgiram vários conceitos e abordagens: “netnografia”, “etnografia virtual”, “etnografia digital”, “etnografia on-line”, “webnografia” e “ciberantropologia”.
Neste contexto, um termo em destaque é o de Netnografia, sendo Robert Kozinets (2015), o seu maior expoente. Este autor considera a netnografia (“etnografia na internet” ou “etnografia online”) como um tipo específico de pesquisa qualitativa de mídias/redes sociais, que adaptam os procedimentos metodológicos, utilizados na observação participante, ao estudo de subculturas, grupos e comunidades virtuais, criadas por meio das interações sociais mediadas por computador. Essas interações e experiências, que se manifestam por meio de comunicações digitais, constituem a fonte de dados e informações primordiais para a compreensão etnográfica de um determinado fenômeno social, cultural e religioso.
Na verdade, é uma adaptação metodológica da tradição etnográfica às dinâmicas sociais mediadas pelas tecnologias digitais. Inspirada nos princípios da observação participante e da descrição densa, este método procura compreender as práticas culturais, os modos de sociabilidade e as performances identitárias que emergem em ambientes virtuais, como fóruns, redes sociais ou comunidades online.
Ao contrário da etnografia clássica, que pressupunha a presença física prolongada do investigador no terreno, a cyber-etnografia pressupõe uma presença “mediada” e frequentemente fragmentada, onde o campo não é delimitado geograficamente, mas sim constituído por fluxos de comunicação, interações discursivas presentes nas redes sociais. É pertinente sublinhar que o “campo” na etnografia online não é um espaço fixo, mas um processo em constante construção, no qual o etnógrafo deve acompanhar os percursos digitais dos interlocutores. Assim, mais do que um simples deslocamento da etnografia no terreno físico, geográfico, para o espaço virtual, trata-se de uma reformulação das práticas de investigação, que obriga a repensar conceitos fundamentais como presença, interação e comunidade.
É pertinente realçar que os primeiros estudos sobre as interações sociais na internet eram de cariz etnográfico. Christine Hine, através da sua obra Virtual Ethnography (2000), foi uma das pioneiras. Segundo a autora, o ciberespaço pode ser estudado como cultura, no sentido dado pela antropologia; nessa perspetiva, a internet é também um lugar onde a cultura é (re)constituída. Assim, cabe ao etnógrafo, como um insider inserido no ambiente de pesquisa, em contato direto com os sujeitos participantes, estudar os fenômenos e as práticas culturais que acontecem nas comunidades virtuais.
No que se refere especificamente à aplicação da etnografia online nos estudos da religião, após o grande desenvolvimento e massificação do uso da internet numa escala mundial, as igrejas e as religiões históricas e os milhares de novos movimentos religiosos (NMRs) passaram a utilizar este importante meio de comunicação de massas para realizar e partilhar os seus eventos religiosos e divulgar as suas mensagens religiosas como forma de proselitismo. Há mesmo igrejas e NMRs que só existem na internet, sem ocupar um espaço físico, real – são as denominadas “igrejas virtuais” e “religiões online”. No ciberespaço as pessoas podem, de forma desterritorializada e atemporal, ler sobre religião; entrevistar líderes religiosos e seguidores; falar com outras pessoas sobre religião e sobre as suas experiências místicas-religiosas (chat: grupo de conversação); baixar livros sagrados (a Bíblia, por exemplo) e documentos religiosos; ver imagens e vídeos; ouvir músicas religiosas, sermões, pregações, testemunhos; praticar meditação; participar em peregrinação virtual e em rituais religiosos; assistir cerimônias religiosas, missas e cultos, etc. (Hadden, J. K. & Cowan, 2000; Dawson & Cowan, 2004; Hojsgaard & Warburg, 2005; Rodrigues, 2023).
Mas atenção: metodologicamente, a etnografia digital ou virtual não deve ser entendida apenas como uma transposição mecânica da observação participante para o ambiente online, mas como uma adaptação metodológica que implica novas estratégias de presença, participação e análise. O etnógrafo passa a observar dinâmicas de comunicação, performances de identidade mediadas por avatares/clones, perfis (inclusive os falsos), algoritmos, personagens criadas pela inteligência artificial e formas de sociabilidade que se constroem em torno de interesses comuns, “hashtags” ou grupos virtuais. A noção de campo, nesse sentido, torna-se mais fluida, permeada por fronteiras móveis entre o online e o offline.
No que diz respeito às identidades, as redes sociais oferecem um terreno fértil para observar os processos de construção e negociação do self, de uma autorrepresentação. Através dos algoritmos das plataformas digitais, criam-se perfis, imagens, comentários e interações, que funcionam como performances identitárias, em que os sujeitos projetam versões (às vezes falsas) de si mesmos, ao mesmo tempo em que são constantemente interpelados pelo olhar do outro, pela admiração/idolatria (positivo) ou pelo julgamento social (negativo).
No sentido sociológico, as sociabilidades virtuais evidenciam que as redes sociais não substituem o contato presencial, mas configuram novas formas de relação e de pertença. No entanto, as identidades digitais não são atributos meramente superficiais, mas dimensões constitutivas das experiências “reais”, atravessadas por questões de gênero, classe, etnicidade e pertença cultural e religiosa. Neste contexto, comunidades online articulam-se em torno de afinidades várias, como causas políticas e ideológicas, filiações religiosas, orientações sexuais, práticas de consumo ou partilhas de experiência, criando vínculos que muitas vezes transcendem (quase sempre) as fronteiras geográficas. As redes sociais tornam-se, assim, arenas de socialização, mas também de conflito, de circulação de discursos e de disputa por visibilidade – veja o caso dos “influencers”, em busca de ter cada vez mais seguidores, que são, para eles, meras fontes de receita e enriquecimento.
Neste contexto, a antropologia tem a preocupação de estudar não apenas as práticas de interação social nas redes, mas também problematizar os megapoderes econômicos e políticos-ideológicos que as sustentam. Estou a me referir à lógica algorítmica das plataformas (o papel das grandes corporações tecnológicas – Google, Meta, com Facebook, Instagram e o popular WhatsApp, e a chinesa Tik-Tok) com poder para decidir eleições na internet (exemplos: Brexit, no Reino Unido; Trump nos Estados Unidos; e Bolsonaro no Brasil). O estudo das redes sociais exige, portanto, uma abordagem crítica, capaz de articular a microanálise das interações sociais quotidianas com a compreensão das estruturas mais amplas que moldam o mundo digital e o seu impacto econômico e político na sociedade contemporânea.
Para concluir essa reflexão, é importante lembrar que a antropologia, ao longo da sua história, tem conseguido adaptar-se, epistemo-metodologicamente, às mudanças históricas e culturais. Num contexto de um mundo cada vez mais digital, a etnografia teve que se adaptar, de forma eficaz, flexível e criativa, a esta nova realidade social e religiosa. E a bibliografia especializada prova que esta necessária viragem metodológica está a ser muito bem-sucedida.
A análise antropológica das redes sociais não apenas amplia os horizontes desta disciplina, como também nos convida a revisitar, à luz das transformações digitais, categorias fundamentais, como as de identidade, comunidade e sociabilidade, assim como a própria metodologia etnográfica. Ao fazê-lo, a antropologia reafirma a sua pertinência para compreender os modos pós-modernos de ser e estar no mundo, mostrando que os contextos virtuais não são realidades paralelas, mas extensões interdependentes da experiência social humana que eram, antes do aparecimento da internet, exclusivamente físicas.
Bibliografia
Bauman, Zygmunt (2000). Liquid Modernity. Cambridge: Polity Press.
Dawson, Lorne & Cowan, Douglas E. (eds.) (2004) Religion Online. New York: Routledge.
Geertz, Clifford (1973) The Interpretation of Cultures. New York: Basic Books.
Hadden, Jeffrey K. & Cowan, Douglas E. (eds.) (2000) Religion on the Internet: research prospects and promises. New York: JAI Press.
Hine, Christine (2000) Virtual Ethnography. Londres: Sage.
Hojsgaard, Morten & Warburg, Margit (2005) Religion and Cyberspace. London: Routledge.
Kozinets, Robert (2015) Netnography: redefined. London: Sage Rodrigues, Donizete (2023) How to Study Religion? Notes on research methodology in the context of Latin American Religions, International Journal of Latin American Religions, vol. 7, nº1, p. 1-19.

DONIZETE RODRIGUES é doutor em Antropologia social pela Universidade de Coimbra, com Livre-Docência em Sociologia. É Collaborating-Professor na Columbia University Seminars Studies in Religion.
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