Como parte do nosso Ateliê de Filosofia Política, trazemos, no Pontos de Leitura do Ateliê de Humanidades, o fascículo “Pierre Rosanvallon: historiador e teórico da democracia“, que contém dois textos: “Nas mutações da democracia: a teoria crítica de Pierre Rosanvallon“, de André Magnelli (disponível, também, em um post do Fios do Tempo de 22 de agosto de 2022), e “Pierre Rosanvallon, a representação política e as linguagens da contrademocracia“, de Alessandra Maia (disponível em html no post abaixo).
Como material paralelo, sugerimos a entrevista de Pierre Rosanvallon com André Magnelli, publicada no nosso canal do Ateliê de Humanidades, assim como os prefácios/introduções do tradutor Diogo Cunha em O século do populismo, A contrademocracia e A legitimidade democrática (todos publicados pelo Ateliê de Humanidades Editorial).
Ao longo das atividades do Ateliê de Filosofia Política, trazemos outros textos sobre autores como Hobbes, Locke, Montesquieu, Rousseau, Sieyès, Manin etc. O objetivo é apresentá-los de forma sinóptica, fornecendo um pequeno mapa mental que sirva de ferramenta para pensar filosófica e politicamente. Todos os textos estão disponíveis em formato .pdf. É só baixar no site.
Mais informações sobre a proposta: https://ateliedehumanidades.com/2024/03/10/academia-de-livre-formacao-atelie-de-filosofia-politica/.
Alessandra Maia & André Magnelli
Pontos de Leitura, 10 de maio de 2024
Pierre Rosanvallon,
a representação política e as linguagens da contrademocracia
Alessandra Maia
História e intelectuais
O objetivo deste verbete é apresentar a teoria da “contrademocracia” de Pierre Rosanvallon, identificando as suas consequências para a representação política no século XXI. Foi ao estudar a história da democracia francesa e do Estado, durante anos, que os estudos comparativos de Rosanvallon sobre a democracia em sentido estrito abriram novos caminhos. Tentando responder às novas exigências políticas do mundo democrático constitucional contemporâneo, Rosanvallon publicou “A contrademocracia: a política à prova da desconfiança” em 2006.1 Não é suficiente descrever apenas o livro e as suas contribuições; também é importante considerar a história da obra. O professor Rosanvallon começou a desenvolver uma perspectiva comparativa ao longo de anos de pesquisa, começando pela história francesa, e posteriormente ampliando a análise especialmente no que diz respeito à história americana e inglesa. Foi assim que o autor considerou ter-se preparado para regressar às suas primeiras investigações.2 Para uma melhor compreensão da história e apreensão da abordagem inovadora proposta pelo autor, é valoroso atentar primeiro para os caminhos de sua trajetória. Hoje, além da obra original francesa, é possível encontrar alguns dos seus principais textos em português, espanhol, italiano, inglês, norueguês, japonês, chinês, húngaro, esloveno, grego, alemão, russo, polaco e romeno, entre outras línguas. Chaire statutaire e professor honorário do Collège de France, Pierre Rosanvallon é titular da cátedra Histoire moderne et contemporaine du politique. O seu trabalho abriu as portas da Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais (EHESS), onde foi eleito docente em 1983, depois diretor da École des Hautes Études en Sciences Sociales (1989) e presidente do laboratório intelectual internacional La République des Idées. Também dirigiu o centro de pesquisa política Raymond Aron de 1992 a 2005. O professor Rosanvallon iniciou sua trajetória acadêmica de modo singular na década de 1970, quando atuava como secretário de um sindicato francês, a Confédération française démocratique du travail (CFDT), onde foi responsável pelos estudos econômicos e editor-chefe do periódico acadêmico do sindicato. Nesse período publicou seu primeiro livro, L’Âge de l’autogestion (1976).
Este momento da sua obra caracteriza-se pela constatação de que o ponto de partida para a reflexão deve partir das dificuldades e dos problemas materiais da vida democrática. Foi também neste período que manteve contato com Claude Lefort, com quem desenvolveu uma relação intelectual após a publicação do livro Le travail de l’oeuvre de Machiavel (1972), de Lefort(recentemente traduzido para o português), que desempenharia um papel importante no seu futuro.3 Rosanvallon também redigiu Le Capitalisme Utopique, após o qual François Furet o convidou para a École. O segundo período de seus estudos a partir de 1980 centrou-se na exploração da teoria do Estado, e, simultaneamente ao momento em que publicou seu trabalho sobre Guizot, François Furet e Michel Foucault também estavam no Collège de France, quando Rosanvallon ministrou cursos sobre a história do liberalismo, entre 1978 e 1980. Seu estudo da experiência francesa com a democracia gerou três livros, cada um enfocando um tema: cidadania, representação e soberania. Estas foram as três principais vertentes desenvolvidas na trilogia: Le Sacre du citoyen (1992), Le Peuple introuvable (1998), La Démocratie inachevée (2000). Foi ao estudar a história da democracia francesa e do Estado durante anos que Rosanvallon inovou com suas análises comparativas da democracia em sentido ampliado e adensado. Para tentar responder às novas exigências políticas num mundo democrático constitucional contemporâneo, Rosanvallon publicou A contrademocracia (2006).
Esta revisão pretende discutir alguns dos problemas colocados pela experiência histórica democrática, segundo Rosanvallon. A sua análise da história da democracia segue uma forma característica de organizar o pensamento, ou seja, reavaliar os seus temas em confluência com a teoria política, a filosofia política e a sociologia. Ao discutir a vigilância e o controle do poder, Pierre Rosanvallon reflete sobre a democracia sem se afastar das formas materiais vigentes do “contrato social”. Em outras palavras, ele baseia suas ideias na observação de que nas sociedades contemporâneas os acordos constantes – a serem feitos – estão sob jurisdição legal. As suas preocupações fundamentais: se e como a forma de organizar politicamente as sociedades envolve escolhas sobre a promoção da redistribuição de recursos e os seus graus de compromisso com a solidariedade social. O autor examina a história da democracia a partir de tensões e contestações que considera permanentes, como o fato de a legitimidade e a confiança, enquanto qualidades políticas, não serem necessariamente garantidas pelo mecanismo eleitoral. Se a legitimidade for entendida como uma qualidade jurídica (estritamente processual), é possível considerá-la como produzida pelas eleições. A confiança, no entanto, seria uma característica política mais complexa, permitindo, portanto, possivelmente a expansão e o afastamento das eleições. A compreensão da confiança como um conceito complexo pode ser adensada se lembrarmos do debate sobre o conceito de soberania complexa.4 A característica da complexidade refere-se quer à pluralidade de formas que o conceito pode adquirir, quer ao fato de a sociedade, o coletivo, poder fazer uso dos seus mecanismos para participar na vida pública. O autor destaca que ela tem um papel temporal: “ela nos permite pressupor a natureza contínua desta legitimidade ampliada ao longo do tempo”.5 A questão da observação da temporalidade dos conceitos é fundamental para o autor e está diretamente ligada à sua percepção e compreensão da história. Para uma melhor compreensão desta abordagem, importante chave contemporânea para os estudos de representação política, o tópico inovador “As temporalidades plurais do político” é valoroso.6
A confiança é vista como uma hipótese sobre condutas futuras, podendo rapidamente dissociar-se da legitimidade, após o momento eleitoral. Esta é a razão para compreender melhor as formas de desconfiança do poder, neste sentido, objetivo de compreender os diferentes movimentos das experiências democráticas. O estudo da democracia, em linhas gerais, investiga-a como regime ao longo do tempo, não apenas como forma de participação social, mas de acordo com as formas desenvolvidas de promoção da igualdade em dignidade. A cidadania é considerada não apenas uma questão de pertencimento, mas uma forma de poder social. Duas dimensões gerais são apresentadas para abordar estas diversas experiências democráticas. Por um lado, o funcionamento e os problemas das instituições eleitorais representativas, que foram sistematicamente examinados com base nas suas tensões estruturantes, através do exame das “instituições de cidadania, representação e soberania”.7
Por outro lado, o livro também apresenta a proposta de estudo e detalhamento da contrademocracia. A sugestão do autor é que a desconfiança dos cidadãos em relação aos eleitos seria estruturalmente necessária para a democracia. Seria um complemento essencial, ainda que tenso e contraditório, aos mecanismos de representação eleitoral, a possibilidade de enfrentar a tensão inerente à confiança no trabalho de um representante, tendo como perspectiva o mandato livre. Ao discutir a erosão da confiança dos cidadãos nos líderes e nas instituições políticas, o autor retoma algumas das suas caracterizações de uma democracia inatingível e incerta.8 Ao que geralmente se chama de crise, mal-estar e colapso, o autor opõe a proposta de investigar pistas presentes nas democracias atuais, que podem indicar fenômenos e reações dinâmicas das sociedades ao que antes era conceituado como disfunções originais dos regimes representativos. Rosanvallon propõe a observação dos poderes indiretos disseminados no corpo social, que podem ser sistematicamente considerados como a democracia da desconfiança organizada em face da democracia da legitimidade eleitoral. A contrademocracia, então, faz parte do conjunto de instituições democráticas legais que atuam como contraponto e é – lato sensu – uma forma política. Nesta forma política, há um conjunto de práticas com diferentes graus de institucionalização, que combinam os esforços dos poderes sociais informais.9
Da política: espaço de experiências
Compreender a política como um espaço de experiências faz parte daquilo que o autor conceitua como a “história conceitual do político”.10 A política, como parte do político em sentido amplo (du politique), permite-nos investigar as múltiplas formas utilizadas para resolver o problema relacionada às promessas do ideal democrático. A democracia representativa foi uma opção moderna para responder às reivindicações de soberania popular, mas é forçada a reformular-se face às reivindicações sociais. Contemporaneamente, é possível observar formas não convencionais de manifestação, que vão desde petições locais até fóruns globais. Rosanvallon retoma a discussão sobre a representação, entendida como um processo em que a sociedade, ao longo do tempo, ganha forma para a ação.11 A representação política, nas mais diversas sociedades, tem sido ao mesmo tempo um problema e uma solução para a democracia. A democracia tem vida própria, e, o autor enfatiza, também pode ser entendida como um problema a ser resolvido. Esta proposta insere-se na compreensão da história como um “laboratório em atividade” do nosso presente12, e não apenas um esclarecimento sobre o passado. A vida da democracia não é apenas o seu confronto com um modelo ideal, mas a forma como se explora um problema a resolver. Se a intenção de partir da complexidade da realidade e investigar o político (em sentido amplo) é válida, é necessário investigar a constituição daquilo que se convencionou como político. Desse modo, a história apresenta-se como um vasto “campo de experiência e de experimento de representações do mundo”.13
Compreender a política como espaço de experiência permite-nos acompanhar os poderes de vigilância e controle desenvolvidos pelas sociedades em relação aos atores e instituições políticas – em movimento – nas suas atividades. A visão da democracia a partir de duas dimensões permite também o exercício comparativo de como, em cada lugar, se organizam os contrapoderes. Isso inclui também velhos problemas colocados pelo autor, como a questão do atrito entre os princípios sociológicos e políticos da representação. Se olharmos para a investigação dos problemas a resolver na democracia, é possível sublinhar padrões de organização nacionais e históricos. Falar de contrapoderes envolve, portanto, destacar tensões e complementaridades, nas esferas histórica, política e social.
Contrademocracia em três dimensões
Rosanvallon caracteriza três tipos principais de formas contrademocráticas: vigilância, impedimento e julgamento. Cada um deles contribui para a transformação da legitimidade eleitoral numa forma de legitimidade social mais ampla, algo que é fundamental para a reputação, seja de uma pessoa ou de um regime político. Em última análise, estes são mecanismos que permitem testar a reputação de um poder político. O autor destaca um universo de intervenções e reações políticas, onde é possível observar militantes mais diretamente envolvidos em conflitos políticos e até mesmo um vocabulário característico emergente.14 A contrademocracia e suas linguagens, é possível observar, é influenciada pelas noções de antipoder e contrapoder, a partir de releituras de Michel Foucault: […] “ao mesmo tempo uma linguagem e uma coerência intelectual a esses diferentes universos propondo um contexto sistemático à descrição dessas múltiplas transformações da democracia contemporânea; ele as integra ordenando-as em uma teoria argumentada da democracia [théorie raisonnée de la démocratie]”.15
A atividade democrática deve ser avaliada segundo uma perspectiva da linguagem que engendra uma gramática ampliada do governo comum de homens e mulheres; num tal contexto, o estudo da contrademocracia tem como objetivo ampliar o léxico dos termos conhecidos de vigilância, monitorização, pressão pela abertura de informações, obstrução de mudanças indesejáveis e julgamentos sobre a política. No que diz respeito às formas do primeiro contrapoder, o cidadão-vigilante, a sua legitimidade e a soberania da vigilância, Rosanvallon recorre mais uma vez a Foucault.16 A figura do panóptico na ordem prisional, reminiscente de Jeremy Bentham, simbolizava as formas e métodos de controle, o que, por outro lado, não deveria levar a uma subestimação do caminho oposto. O fenômeno da vigilância do poder pela sociedade, a contrademocracia, mobiliza o controle em benefício da sociedade. Ao mesmo tempo, é possível observar a modificação da vigilância cívica clássica e a sua transformação em vigilância regulatória. A segunda tem contornos difusos, a sua ação manifesta-se num fluxo contínuo de avaliações e críticas à atuação dos governantes por parte dos governados, a nível descentralizado e nos mais diversos campos das políticas públicas em geral. A internet tem contribuído para a multiplicação e circulação de tais ações. A vigilância das ações dos governantes apresenta-se como um nível de intervenção prática dos cidadãos, o cidadão como vigilante do poder aqui extrapola a figura do cidadão como eleitor. As questões de controle do Estado sobre si mesmo, numa perspectiva racionalizadora, e do controle do Estado pela sociedade, na perspectiva da democratização, continuamente se cruzam e misturam. Portanto, o surgimento de formas democráticas insere-se num movimento de competição pelo exercício da vigilância e da responsabilização.17 É possível, portanto, conhecer a história das instituições públicas em diferentes lugares a partir de suas estruturas locais. Investigar informações sobre a história das estruturas municipais e paroquiais seria uma espécie de estudo dos níveis mais elementares, em que seria possível observar a manifestação destes poderes sociais.
Uma última característica da vigilância seria a denúncia de irregularidades, tão comum nas sociedades contemporâneas. O autor observa que, numa era de política midiática, é necessário prestar atenção e pesquisar a forma como os líderes políticos se apresentam. A exposição pessoal aos meios de comunicação social destaca a vida privada dos políticos como um elemento-chave da sua credibilidade. Os políticos parecem menos preocupados com a ênfase dada à sua pertença a um determinado campo e dedicam muito tempo e esforço para multiplicar provas da sua honestidade pessoal e a demonstrar a sua proximidade aos eleitores. Neste sentido, a simplicidade e a transparência tornam-se valores, virtudes políticas. A reputação do político torna-se uma espécie de capital simbólico, uma variável chave na produção de confiança entre o eleitorado. É ao mesmo tempo um ativo flutuante e frágil que se perde muitas vezes mais rapidamente do que se ganha. Rosanvallon sugere que a reputação do político constitui a principal mediação da organização da confiança. A denúncia torna-se um instrumento político, podendo até funcionar como uma espécie de ostracismo político. O impedimento, segundo o poder contrademocrático do povo, ou povo-veto, manifesta-se na soberania do impedimento que permite à população vetar as decisões e ações dos governantes. As eleições contemporâneas muitas vezes não tendem a selecionar candidatos, mas a eliminar aqueles que não são desejados. Os vetos podem partir de grupos sociais, de forças políticas ou econômicas. O mesmo vale para os casos de adoção de mecanismos de impeachment na Inglaterra e de recall nos Estados Unidos. Por esta razão, aumenta a importância do poder de bloqueio dos diferentes atores sociais. Este tipo negativo de política é um efeito, observa o autor, do “triunfo do liberalismo” e é marcado pela desilusão.18 Mesmo neste contexto, forças ativas e democráticas podem emergir sob novas formas. Por outro lado, haveria também uma face de “politização negativa”, um tipo de participação hostil, com a qual é preciso pensar em como lidar.
O povo juiz, que julga os seus governantes, seria a terceira figura coletiva da contrademocracia. “Julgar consiste em pôr à prova uma conduta ou uma ação”.19 A votação e o julgamento seriam dois processos distintos que visam o mesmo objetivo: decidir um caminho para o bem comum. Existem duas formas políticas, portanto, passíveis de comparação e aproximação. A função de julgar pode ser exercida diretamente, ao participar como jurado num julgamento, ou ao participar nas mais diversas atividades midiáticas ou de intervenção militante durante o procedimento. A justiça recebe da sociedade uma função social de julgamento, ela atua “em nome do povo”.20 De forma mais ampla, o seu exercício acompanha uma atenção coletiva que o coloca num campo de forças onde intervêm e pressionam organizações da sociedade civil e poderes de opinião difusos. Além disso, Rosanvallon não considera a judicialização da política como um contrapoder. Ele a entende como um fenômeno social complexo, mas intimamente ligado às condições sociais e políticas de questionamento da responsabilidade política. O autor destaca dois fatores relevantes para sua compreensão. Inicialmente, a própria natureza das instituições políticas em si. Isto justifica a penalização da vida pública de um país, dado um sistema político com fraquezas e instabilidades características; no entanto, as contradições institucionais também podem tornar problemático o exercício do poder de forma responsável.21 Há um segundo aspecto, mais geral, em que a judicialização da política ocorre onde há um declínio na reatividade dos governos às exigências dos cidadãos. É urgente definir quem é realmente o responsável pela decisão, quem pode ser responsabilizado por alguma coisa. Todas as demandas contemporâneas por responsabilização trazem também o argumento da incapacidade dos governos em responder às demandas sociais. O problema é que a responsabilização criminal é acompanhada de críticas ao aumento do poder dos juízes nas democracias. A este respeito, Rosanvallon observa que é relevante a não generalização e a necessidade de observar e distinguir reações e atitudes em diferentes países, quer relacionadas com a história de cada um, quer relacionadas com instituições locais (há todo um conjunto de fatores: se ou não são eleitos juízes, as formas de constituição do Supremo Tribunal, a participação ou não de membros do parlamento). O autor recomenda uma compreensão da judicialização, considerando que, se a atenção se voltar para o papel dos juízes e para a força do direito nas democracias, surge uma questão central: quais são as propriedades do ato de julgar? Por trás da figura da juíza está o julgamento resultante de sua atuação. Esta seria a característica que emerge das democracias, uma atenção ao julgamento das questões, o julgamento como forma de ação pública, e não uma simples competição institucional entre magistrados e representantes eleitos.22
O autor propõe uma compreensão das propriedades específicas do julgamento como um tipo de decisão. Tais especificidades podem ser comparadas ao universo do funcionamento político-eleitoral. Podem ser revistas cinco características principais: (a) as condições de justificação (explicações mais detalhadas na justiça do que em locais políticos institucionais); (b) a obrigatoriedade da decisão (o julgamento sempre dará o veredicto, ao passo que as questões debatidas nos espaços da política eleitoral não o fazem necessariamente); (c) a posição sobre os fatos (há um meio termo entre a política de veto e o mundo político eleitoral, o juiz é um espectador que mantém certa distância dos fatos, mas também deve formalizar que tipo de causa irá ratificar e justificar a sua decisão); (d) a forma de teatralização (que é o local, nos tribunais, dedicado ao acompanhamento, à audiência, à presença social do cidadão comum no julgamento); (e) a forma de se referir à particularidade (o julgamento é ao mesmo tempo distinto da dimensão legislativa da atividade governamental política e dispersa, combina simultaneamente o particular e o geral, e esta tensão é constitutiva de uma concepção aberta e construtiva de busca do bem comum). O julgamento contribui para o estabelecimento de critérios democráticos, pois promove a interação de valores e fatos, trazendo à luz situações da vida social e comparando-as com os princípios que as regem. Pode acionar até mesmo uma forma de pedagogia política: ao produzir julgamentos e sentenças sobre questões que estão sendo julgadas, ao participar do júri ou assistir ao julgamento, os cidadãos formam opiniões sobre as questões. As cinco características atribuídas ao julgamento podem servir como uma análise detalhada do que se chama de judicialização da política e permitir-nos compreender a sua possível contribuição para a vida democrática. Existe a possibilidade de proteger as liberdades reconhecidas pela lei, e também uma forma de a justiça participar na instituição de uma sociedade livre. Votar e julgar constituem dois meios de intervenção na organização de uma sociedade democrática, de uma cidade democrática. A assimetria entre o princípio do sufrágio universal, que rege o voto, e o princípio da competência delegada, no qual se baseia a intervenção do juiz, é incontornável. A atividade democrática mais comum, no seu dia a dia, mistura decisões políticas e decisões judiciais; Rosanvallon as considera complementares. A agenda recomendada pelo autor é voltar a atenção para a especificidade do julgamento também como forma política, para melhor atender às razões e à crescente atenção dos cidadãos em relação a ele.
Política e sociedade
Lidar com o lado obscuro da contrademocracia, o “impolítico”23, é lidar com um mal-estar – a malaise – a sensação cotidiana de crise permanente. Paradoxalmente, sociedades civis mais ativas são acompanhadas pela impressão difusa de negação da política. A função contrademocrática é necessariamente plural, formada por organizações heterogêneas, que não precisam se cristalizar em suas funções para produzirem efeitos democráticos: seu caráter intermediário deve ser destacado. Os poderes de vigilância podem manifestar-se de diversas formas, e as inovações incluem organizações militantes que se declaram apartidárias, agências cidadãs que monitoram a política, observatórios, que fazem parte de uma atitude geral de atenção que se desenvolve nas sociedades face às desigualdades, e comportamentos de segregação. Estes podem ser tomados como indícios de ações sociais que constituem uma cidadania ativa e participativa, se consideradas na perspectiva da vigilância do poder. As muitas faces de contestação expressas no livro de Rosanvallon permitem-nos observar como a sociedade funciona sobre si mesma, reflexivamente. A democracia define-se, nos mais diversos lugares, pelo seu trabalho, pela vida das suas estruturas, pelo conjunto de conflitos, negociações, interpretações ligadas à elaboração de regras para o que se considera como a promoção de uma vida democrática coletiva em diferentes lugares. A democracia também pode dar origem à produção de uma linguagem adequada à sua experiência, vale a pena investigar mais a fundo as suas diversas formas de uso, conforme expusemos aqui. Rosanvallon também tentará oferecer respostas aos problemas expostos na tese da contrademocracia em seus livros A legitimidade democrática (2008) e A sociedade dos iguais (2011).24
Notas
1 Publicado em português pelo Ateliê de Humanidades: Rosanvallon, Pierre (2022) A contrademocracia: a política à prova da desconfiança. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades Editorial.
2 Sebastián, Javier Fernández & Rosanvallon, Pierre (2007) Intellectual History and Democracy: An Interview with Pierre Rosanvallon. Journal of the History of Ideas. 68, p.703-715; Faria, Alessandra (2010) On the social and the political: Theories of Political Representation. Saarbrücken: Lap Lambert Academic Publishing AG & Co. KG.
3 Rosanvallon, Pierre (2012) The Test of the Political: A Conversation with Claude Lefort. Constellations ,19 (1), p. 4-15.
4 Rosanvallon, Pierre (2000) La Démocratie Inachevée: Histoire de la Souveraineté du Peuple en France. Paris: Gallimard.
5 Pierre (2022) A contrademocracia: a política na era da desconfiança. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades Editorial, p. 23.
6 Rosanvallon, Pierre (2000) La Démocratie Inachevée, op. cit., p. 409-414; Faria, Alessandra (2010) On the social and the political, op. cit., p. 84- 94; Cintra, Wendel Antunes (2022) Espelhos do tempo: historiografia do político e teoria democrática na obra de Pierre Rosanvallon. Dados, 65(3); Faria, Alessandra (2020) Teorias da Representação Política. Curitiba: Appris.
7 Pierre (2022) A contrademocracia, op. cit., p. 25.
8 Rosanvallon, Pierre (2000) La Démocratie Inachevée, op. cit., p. 11.
9 Rosanvallon, Pierre (2022) A contrademocracia, op. cit., p. 24.
10 Lynch, Christian (2010) A democracia como problema: Pierre Rosanvallon e a escola francesa do político. In: Rosanvallon, Pierre (2010) Por uma história do político. São Paulo: Alameda, p. 9-36.
11 Rosanvallon, Pierre (1998) Le Peuple Introuvable: Histoire de la Représentation Démocratique en France. Paris: Gallimard, p. 465.
12 Rosanvallon, Pierre (2022) A contrademocracia, op. cit., p. 65.
13 Ibid., p. 45.
14 Ibid., p. 40-1.
15 Ibid., p. 41.
16 Ibid., p. 51.
17 Rosanvallon, Pierre (2000) La Démocratie Inachevée, op. cit., p.
18 Rosanvallon, Pierre (2022) A contrademocracia, op. cit., p. 197.
19 Ibid., p. 209.
20 ibid.
21 Ibid., p. 246.
22 Ibid., p. 248.
23 Ibid., p. 271 e seguintes.
24 Esses dois livros são o segundo e o terceiro volumes da Tetralogia das Mutações da Democracia, publicada pelo Ateliê de Humanidades Editorial.
Referências bibliográficas
Cintra, Wendel Antunes (2022) Espelhos do tempo: historiografia do político e teoria democrática na obra de Pierre Rosanvallon. Dados, 65(3)..
Faria, Alessandra (2010) On the social and the political: Theories of Political Representation. Saarbrücken: Lap Lambert Academic Publishing AG & Co. KG.
Faria, Alessandra (2020) Teorias da Representação Política. Curitiba: Appris.
Lefort, Claude (1972) Le travail de l’œuvre Machiavel. (Vol. 103). Paris: Gallimard.
Lynch, Christian (2010) A democracia como problema: Pierre Rosanvallon e a escola francesa do político. In: Rosanvallon, Pierre (2010) Por uma história do político. São Paulo: Alameda, p. 9-36.
Rosanvallon, Pierre (1976) L’Âge de l’autogestion. Paris: Éditions du Seuil.
Rosanvallon, Pierre (1979) Le capitalisme utopique. Paris: Éditions du Seuil.
Rosanvallon, Pierre (1992) Le Sacre du Citoyen: Histoire du Suffrage Universel en France. Paris: Gallimard.
Rosanvallon, Pierre (1998) Le Peuple Introuvable: Histoire de la Représentation Démocratique en France. Paris: Gallimard.
Rosanvallon, Pierre (2000) La Démocratie Inachevée: Histoire de la Souveraineté du Peuple en France. Paris: Gallimard.
Rosanvallon, Pierre (2006) La Contre-démocratie: la Politique à l’âge de la Défiance. Paris: Éditions du Seuil [tradução brasileira: Rosanvallon, Pierre (2022) A contrademocracia: a política na era da desconfiança. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades Editorial].
Rosanvallon, Pierre (2008) La légitimité démocratique. Paris: Éditions du Seuil [tradução brasileira: Rosanvallon, Pierre (2024) A legitimidade democrática. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades Editorial].
Rosanvallon, Pierre (2011) La société des égaux. Paris: Éditions du Seuil [tradução brasileira: Rosanvallon, Pierre (2024) A sociedade dos iguais. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades Editorial].
Rosanvallon, Pierre (2012) The Test of the Political: A Conversation with Claude Lefort. Constellations ,19 (1), p. 4-15.
Sebastián, Javier Fernández & Rosanvallon, Pierre (2007) Intellectual History and Democracy: An Interview with Pierre Rosanvallon. Journal of the History of Ideas. 68, p.703-715.
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