Muito se fala em “polarização política”, mas pouco se reflete a esse respeito sobre três pontos. Primeiro, qual é o uso da linguagem, tanto à direita quanto à esquerda, que gera uma “polarização”? Segundo, como que a forma corrente de proceder com a linguagem no discurso público está em contradição com a própria natureza da política? E, terceiro, o que as ciências sociais podem fazer diante disso?
Neste artigo, Raphael Castro reflete sobre estas questões, tendo como pano de fundo o seu diálogo de longa data com o pensamento de Hannah Arendt.
Desejo, como sempre, uma excelente leitura!
A.M.
Fios do Tempo, 26 de fevereiro de 2025
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A polarização pelos clichês:
como a sociologia pode contribuir para o debate político?
Nos últimos anos, a polarização política no Brasil tem se intensificado, dificultando o diálogo e tornando os debates públicos cada vez mais inflamados. Um dos fatores que contribuem para esse fenômeno é a forma como a linguagem é utilizada por ambos os espectros políticos. De um lado, a direita tende a utilizar discursos simplificados, enquanto a esquerda frequentemente emprega uma linguagem oriunda da academia, que pode afastar parte da população do debate.
A direita utiliza termos como “lacração”, “cultura woke”, “politicamente correto”, “racismo reverso”, “mimimi” e “vitimismo” para deslegitimar o discurso da esquerda sem fornecer qualquer explicação ou contexto para o uso desses conceitos. Na verdade, o próprio esvaziamento de significado dessas expressões é proposital, pois o objetivo não é fomentar o debate, mas apenas expressar um sentimento de descontentamento que ainda não foi intelectualmente elaborado.
Por outro lado, os chamados militantes de esquerda, que estão mais conectados com a produção acadêmica, utilizam em seus discursos conceitos mais elaborados, como “empoderamento”, “lugar de fala”, “desconstrução” e “estruturas de opressão”, que, embora carregados de significado, perdem seu impacto – e não poucas vezes são esvaziados do significado original – quando utilizados no debate cotidiano, pois não há uma mediação eficaz entre a crítica intelectual e o pensamento corrente.
Com isso, nenhum dos lados contribui para a construção de um espaço no qual as questões políticas possam ser debatidas de maneira produtiva. Os jargões da direita e da esquerda se tornam clichês que funcionam como armas em uma guerra ideológica travada nas redes sociais, muitas vezes colaborando para a doutrinação política. Embora os lados discordem dos meios, é fato que quase todo cidadão brasileiro deseja ter acesso à saúde, à educação, à segurança e ao bem-estar. No entanto, a polarização faz com que esqueçamos o que realmente importa na política, abrindo espaço para que aspirantes a políticos com tendências populistas ou autoritárias se beneficiem desse esquecimento.
Como bem observou a teórica política Hannah Arendt: “As armas e as lutas pertencem ao campo da violência, e a violência, à diferença do poder, é muda. A violência começa onde termina a fala. As palavras usadas para lutar perdem o seu caráter de fala; tornam-se clichês”. Esses clichês se disseminam rapidamente pelas redes sociais por meio de textos curtos presentes em tweets e reels, que, sendo breves demais, pouco informam, mas conseguem transmitir uma mensagem que encurta a reflexão sobre o tema e induz rapidamente o leitor a acreditar que realmente possui uma opinião própria. Além disso, essa mesma informação é compartilhada como se fosse uma ideia autêntica, reforçando a sensação de pertencimento ao grupo ideológico.
No entanto, essa “guerra linguística” não representa apenas a causa do esvaziamento do debate político, mas é, antes, a consequência mais visível da ausência de um projeto social e político no Brasil que seja capaz de unir a população. Somos filhos das promessas não cumpridas de uma democracia racial e do respeito à diversidade cultural e regional, que, na prática, não se concretizaram plenamente. Nos últimos 20 anos, temos vivido um processo de integração racial e social tardio, muitas vezes irritadiço e difícil, fruto de políticas públicas recentes voltadas para ações afirmativas e mobilidade social, que contrastam com a produção histórica de desigualdade ao longo do século XX.
O papel do cientista social ou político nesse contexto não é tomar partido, nem tentar validar opiniões classificadas como direitistas ou esquerdistas, mas demonstrar que os clichês são o alicerce sobre o qual as fake news se propagam. Esses discursos estimulam a identificação irrefletida e a reprodução automática de supostas opiniões que, na realidade, estão desconectadas dos fatos. A polarização obscurece a percepção de que um Estado-nação é regido por fundamentos normativos que precedem a orientação política do cidadão e que, portanto, são anteriores às ideologias partidárias.
O sociólogo pode, por exemplo, mostrar que a acusação de grupos minoritários, como mulheres e negros, de “vitimismo” é injusto, ao apresentar dados sobre violência e desigualdade que os afetam; ao mesmo tempo, pode demonstrar que a militância, mesmo sem intenção, muitas vezes monopoliza o discurso dos direitos, colocando a questão das minorias no seu centro, o que faz com que a direita (e mais amplamente, o próprio povo) se distancie da causa por não se identificar com a associação entre luta das minorias e direitos humanos. Assim, o monopólio do discurso e a falta de identificação são dois lados da mesma moeda e reforçam a polarização. Para avançar no debate, os dois lados precisam ceder ou colaborar, pois a violência e a desigualdade, de uma forma ou outra, afeta a todos, ainda que mais intensamente em determinados grupos.
Portanto, a contribuição da sociologia é revisitar a linguagem corrente, analisando seu sentido e origem de maneira a separar “o joio do trigo”, auxiliando o cidadão a melhorar a qualidade de sua reflexão. O objetivo é desarmar o indivíduo de seus clichês — ou seja, suas armas —, incentivando-o a sair de sua trincheira ideológica para que possa se comunicar e debater respeitando diferentes perspectivas, com vistas à construção de um projeto comum de país. Embora tenhamos criado e vendido para nós mesmos e para o mundo a imagem de uma nação plural e diversa, quando analisamos os fatos, percebemos que vivemos um processo tardio e conturbado de integração social e política.

Raphael Castro é formado em ciências sociais pela UENF e mestre em filosofia pela PUC-RJ. É também livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades.
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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