Entrevista com François Dubet. Será que a escola pode salvar a democracia?

Publicamos agora a última entrevista legendada em português do Ciclo de Humanidades 2020: ideias de debates em filosofia e ciências sociais, que o Ateliê de Humanidades & a BiblioMaison/Consulado da França no Rio de Janeiro realizam mensalmente desde o início de 2019. No contexto do encontro “Os fins do humano: pensar o sentido da educação em tempos de barbárie“, entrevistamos o sociólogo François Dubet, que é um dos principais teóricos e sociólogos da educação e da sociedade na atualidade. Em uma entrevista com marcante clareza e didatismo, abordamos temas fundamentais para compreender o mundo contemporâneo.

Começamos com uma retrospectiva da geração de sociólogos(as) da qual Dubet faz parte, que vivenciou transformações sociais que conduziram a um crise da própria sociologia. Conversamos sobre o que é a “sociologia da experiência” de Dubet, que nasceu de investigações sobre movimentos sociais, juventude e escola, levando-o a uma nova abordagem da desigualdade social. Neste contexto, tratamos das consequências decorrentes da mudança no ideal de justiça em nossas sociedades, que passou da igualdade de posições para a igualdade de oportunidades. O que ocorre quando as reivindicações de justiça passam a ser muito mais uma busca de “desigualdades justas em uma competição com igual oportunidade” do que uma busca de redução da desigualdade social e da exploração econômica?

Esta questão nos conduz a uma reflexão sobre as fontes da atual economia moral de ressentimento e paixões tristes, que serve de alimento para a autodestruição das democracias. Como explica Dubet, na falta de uma visão compartilhada em que a justiça se constrói por meio de sacrifícios mútuos em favor do bem comum e de uma justiça social, temos cada vez mais uma distância entre nossa indignação individual com relação às desigualdades gritantes e nossas práticas sociais cotidianas favoráveis ao aumento da desigualdade. Assim, como explica, ocorre uma explosão de um sentimento de desigualdade por todos os lados que fomenta movimentos populistas que se apoiam não apenas nos mais ricos, mas também nos próprios pobres. O sistema de desigualdades de hoje em dia se torna, diz ele, um sistema de ressentimentos e indignações individuais, como se a injustiça fosse feita apenas ao indivíduo ou grupo particular, que interpreta seu “fracasso” como decorrente de um desprezo e não reconhecimento pela sociedade e pelas instituições. É assim que vemos as lutas políticas se traduzirem no lema: “não me reconhecem, não me veem, não me ouvem, não me escutam”.

Com a dificuldade de designação de um adversário definido e a falta de clareza com o mal-estar generalizado, temos o fermento para as teorias do complô. Além disso, temos uma crise das instituições tradicionais, decorrente da forma como elas são curto-circuitadas e desinstitucionalizadas pelas manifestações públicas em redes sociais. Neste sentido, Dubet argumenta, com força, que o verdadeiro perigo para a democracia é que as desigualdades explodem mas não encontram meios de expressão política para serem resolvidas, o que “deixa as pessoas loucas” e leva a uma guerra dos mais pobres entre si.

Como sair desta guerra de identidades e de uma economia das paixões tristes? Será que a escola pode salvar a democracia? Este é o ponto abordado ao final da entrevista. Além de propor uma reconstrução dos partidos políticos, Dubet se detém na centralidade da educação elementar e da escola. Analisando as promessas e as contradições da massificação escolar, ele nos propõe não apenas analisar como o sistema escolar se mostra cada vez mais desigual internamente, como também a busca de uma transformação da escola em um espaço de experiência coletiva, que seja capaz de flexibilizar as relações entre a escola e a vida, de modo a romper com a tendência atual de ser apenas uma máquina de triar os alunos para as futuras profissões.

Tempo do vídeo:
39 minutos e 32 segundos

Quem é François Dubet?

François Dubet, nascido em 23 de maio de 1946 em Périgueux, é sociólogo francês e ex-diretor de estudos da École des hautes études en sciences sociales (EHESS). Ele foi professor na Universidade de Bordeaux-II até sua aposentadoria em 2013. Ele pesquisa teoria social, marginalidade juvenil, justiça social, escolas, instituições e solidariedade social. É autor de dezenas de livros, dentre eles: Sociologie de l’expérience (Paris, Le Seuil); À l’école : Sociologie de l’expérience scolaire (avec Danilo Martuccelli, Paris, Seuil;) L’École des chances: Qu’est-ce qu’une école juste ? (Paris, Le Seuil, 2004); Le travail des sociétés (Paris, Seuil, 2009); Injustiça: a Experiência das Desigualdades no Trabalho (Editora da UFSC, 2014); Status e Oportunidades. Como Repensar a Justiça Social (Cidade Nova, 2015); O tempo das paixões tristes (Vestígio, 2020).

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