E a Europa, como vai? O que fez, o que faz, o que fará?
No grupo de whatsapp do Ateliê de Humanidades, os pesquisadores conversam bastante sobre o cenário político contemporâneo, com posições distintas e, mesmo, opostas entre si. É nesta diferença de posições argumentadas que se avança, individual e coletivamente, no esclarecimento das questões.
Com o início do novo governo Trump e os desdobramentos da guerra na Ucrânia, a questão europeia se tornou um tema constante entre nós. Consideramos relevante que esta riqueza dialógica se torne, em parte, pública.
Começamos, então, com o artigo contundente de Paulo Henrique Martins. O que está em jogo com a crise da OTAN? Não seria a oportunidade de provincializar a Europa? O que seria feito não contra, mas a favor das experiências democráticas?
Após este “A crise da OTAN e a provincialização da Europa”, de Paulo Henrique Martins, teremos o artigo de “A União Europeia como Império heterodoxo democrático”, de Pablo González Velasco.
Desejo, como sempre, uma excelente leitura!
A.M.
Fios do Tempo, 11 de março de 2025
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A crise da OTAN e
a provincialização da Europa
Desde os anos noventa do século XX, o historiador indiano Dipesh Chakrabarty1 cantava a bola de uma necessária provincialização da Europa. Ele propunha desencantar o universalismo europeu, que tinha sido montado a partir de uma narrativa mítica construída pelo imperialismo moderno e pelo nacionalismo do terceiro mundo. Para ele, este universal europeu foi escrito pelas notas da violência, e a modernidade europeia se constituiu apenas numa “narrativa sustentada pelo exército” (narrative backed up with an army).
Assim, para Chakrabarty, o projeto de provincializar a Europa deveria considerar que a ideia do moderno não foi uma síntese necessária do desenvolvimento cognitivo, tecnológico e cultural da Europa, mas parte de uma história do imperialismo e do colonialismo. Este processo incluiu a organização de uma ampla rede de conquistas que formam a história global, mas cuja narrativa hegemônica foi dada pelo imperialismo europeu. Sabemos que Enrique Dussel também explora esta crítica ao universalismo ao relatar o caso das Américas. Disse o autor que o mito da modernidade seria uma gigantesca inversão pela qual “a vítima inocente é transformada em culpada, o vitimário culpado é considerado inocente”.2
Quarenta anos depois que esta bola da provincialização necessária para liberar o mundo multipolar foi levantada, vemos a profecia se realizar. Isto se dá a partir de uma nova geopolítica mundial que desnuda as razões do imperialismo ocidental e que revela, agora, o universalismo europeu como uma narrativa híbrida, costurada por ambivalências, contradições, violências e tragédias.
Os eventos recentes revelam o quanto este universalismo europeu sobreviveu no pós-segunda guerra graças à decisão dos europeus de se sentar no colo dos norte-americanos na condição de subalternos. A criação da OTAN/NATO (Organização do Tratado do Atlântico Norte), em 1949, objetivou inicialmente proteger os Estados Nacionais europeus com ações políticas preventivas contra eventos traumatizantes como o da Segunda Guerra Mundial. O contraponto da OTAN foi o Pacto de Varsóvia, criado em 1955, que articulava os países simpáticos à União Soviética, contribuindo para reproduzir a “guerra fria”. O fato de que o comando da OTAN era atribuição de militares norte-americanos já indicava os deslocamentos do imperialismo da Europa para os Estados Unidos que passaram a gerir o novo protetorado europeu. Se, inicialmente, a OTAN era mais uma associação política, depois da queda do muro de Berlim, ela passou a funcionar de modo mais agressivo, tanto cooptando países do antigo pacto de Varsóvia, como se tornando um braço armado do imperialismo ocidental. Com a OTAN, os Estados Unidos passaram a orientar mais agressivamente as suas intervenções militares no mundo. A fama dos europeus como povos justos, que faz parte da retórica universalista, ajudou a camuflar a Realpolitik dos norte-americanos. Esta violência militar camuflada sob a bandeira do justiçamento dos infiéis pagãos e antidemocratas facilitou as invasões de territórios que eram marcados com tintas vermelhas como ameaças ideológicas e políticas ao Ocidente livre. As invasões de Iugoslávia, Iraque, Afeganistão, entre outros países, foram carregadas com este tom de uma violência redentora que lembra as Cruzadas contra os mulçumanos.
A ideia era de que qualquer ameaça feita pela Rússia aos europeus seria rechaçada pela OTAN, “o braço armado da liberdade ocidental”. As bases militares dos norte-americanos na Alemanha e na Inglaterra eram símbolos da força do poder imperial. Isto contribuiu para nutrir a russofobia e esconder o fato de que os europeus passaram a depender crescentemente do petróleo e do gás russo para manter sua boa qualidade de vida material, depois da Segunda Grande Guerra. Agora, com a crise continental produzida pela guerra com a Rússia, os europeus estão se dando conta de que são muito vulneráveis e que fica difícil atravessar o inverno pagando caro pelo gás e petróleo importado dos Estados Unidos. Esta não foi uma jogada gratuita. A sabotagem do gasoduto Nord Stream 1 que liga a Rússia à Alemanha pelo Mar Báltico foi a prova maior do caráter ambíguo e mesmo traiçoeiro dos norte-americanos com relação aos europeus, o que deixou a Alemanha muito enfraquecida.
Mas a OTAN tem um lado positivo: ela permitiu que as democracias europeias investissem em mais queijo e vinho e em menos armas, nas últimas décadas. Bom para os democratas da sociedade de consumo que passaram a usufruir de um sistema de segurança eficaz contra as tentações antidemocráticas entre os anos 1950 e 1990. Os gringos asseguravam a sobrevivência da comunidade europeia por um sistema de proteção militar e de vigilância que era oculto para os cidadãos comuns apenas preocupados em consumir o prazer narcisista. O avanço da OTAN para o Leste penetrando Ucrânia e Geórgia aparecia como um desdobramento lógico da evolução histórica das potências livres sobre as áreas infernais e sombrias dos antidemocratas. Mas esta narrativa salvacionista e heroica escondia algo de perverso: o interesse material dos gringos pelo petróleo, terras férteis e outras riquezas da Ucrânia e da Rússia e, também, pela oportunidade de ampliar a produção de armas nos Estados Unidos com forte apoio financeiro dos europeus.
Esta intenção geopolítica de tio Sam era ocultada pela narrativa simpática de que a OTAN ajudaria a levar a democracia para esses países que nunca teriam conhecido esta experiência e cuja vida social permanecia no reino da barbárie. Obrigar, por exemplo, as etnias de língua russa a abandonar a língua materna para falar ucraniano ou mesmo inglês seria uma consequência “natural” deste processo de domesticação dos bárbaros. O que a OTAN parece ter esquecido é que os pertencimentos étnico-raciais e nacionais não se dissolvem apenas com violência armada, dinheiro e corrupção, ou com malandragem política. Como estamos muito embevecidos pelo ideal democrático, terminamos negligenciando o fato de que os norte-americanos sacanearam com os russos desde que se fez o acordo de não expansão dos ocidentais na área de influência russa herdada da antiga União Soviética, nos anos 1990 e neste século XXI. A cooptação dos antigos satélites da União Soviética pelos ocidentais, como Polônia, Hungria, Lituânia etc., foi gerando ressentimentos profundos nos russos. Os seguidos avisos de Putin eram vistos como lorotas pelo comando arrogante da OTAN sob controle dos estrategistas militares norte-americanos.
O resultado negativo desta ambição imperialista dos anarcocapitalistas estava de certo modo inscrito nas memórias de Napoleão e de Hitler. Os estrategistas ocidentais parecem não ter entendido bem porque os eslavos são tão resistentes ao modo de vida utilitarista do ocidental. Somente quem mora no gelo sabe o valor do igualitarismo burocrático para assegurar mantimentos nos invernos sombrios.
Não que isto seja um impasse para se construir experiências comunitárias e participativas que valorizem a liberdade democrática. Mas, quando se observa o plano macropolítico, entende-se bem o quanto a imposição de democracia ocidental na marra, a ferro e fogo contra não ocidentais, é uma ameaça. Isto não pode funcionar, apenas gera convulsão. Com golpes ou sem golpes. Não adianta agora a retórica radical da OTAN de classificar a Rússia como a “ameaça mais significativa e direta” à segurança da aliança. Porque simplesmente os europeus estão compreendendo que precisam do gás e do petróleo russo. Vão ter que conversar assim que diminuir a russofobia e vão ter que descobrir que os russos se contentam em manter o controle sobre o Donbass. A hipótese sustentada por Zelensky de que os russos vão avançar sobre os demais países europeus é balela. Os russos querem, sim, recuperar os antigos clientes que os norte-americanos tomaram com vistas a ocupar o mercado de energia e de armas. Não vão perder tempo transformando a Rússia numa indústria de armas. Não são democratas mas possuem o bom senso do nacionalismo eslavo.
E os gringos, que são espertos, resolvem, agora, com Trump abandonar a OTAN pois ela não serve mais na nova ordem geopolítica em que se pode acessar aos bens raros dos eslavos sem considerar os devaneios filosóficos dos europeus. E a Europa, como fica? Fica com o estigma de que foram ingênuos acreditando na boa fé do tio Sam. E ficam com a vergonha de ter que refazer os acordos com os russos, mas sem a OTAN. Como foram claramente incompetentes politicamente para encontrar um caminho de autonomia enquanto comunidade no plano global, o que demandaria uma desprovincianização da Europa, agora precisam negociar com russos, chineses e Brics para ver soluções alternativas para o impasse histórico.
E nós, intelectuais disciplinados nas ideias de Kant e Hegel, como ficamos? Sem progresso histórico, sem metafisica do bem, sem ilusões sobre a superioridade étnica do Ocidente, vamos ter que rever os caminhos da crítica num mundo multipolar com forte influência religiosa, nacionalista e étnica. Vamos ter que repensar os caminhos plurais da vida social num mundo dominado pela IA e pelos grandes oligarcas, superando os identitarismos neotribais. Temos que nos acostumar com os rumos multipolares do planeta para liberar novas subjetividades políticas que sejam emancipadoras. Vamos ter que superar a nostalgia de uma utopia democrática cuja realização dependia mais do narcisismo consumista que das intenções objetivas de produzir solidariedades sinceras e abertas. Não basta ficar indignado com os nossos temores de fim da democracia, temos que desconstruir os estereótipos de raça e de poder para liberar afetos mais solidários e sinceros em favor de uma vida comum mais digna. Temos que aprender algo com os chineses sobre como manter unido um Estado Nacional com uma população de quase um bilhão e meio de indivíduos. Se nos apegarmos à chinofobia, como fizeram os europeus com a russofobia, não vamos entender que é necessário valorizar os horizontes do igualitarismo não democrático para que possamos construir igualitarismos democráticos em ordens nacionais e comunitárias mais justas e que respeitam as diferenças sociais e culturais.
Notas
1 CHAKRABARTY, Dipesh (1992) Postcoloniality and the Artifice of History: Who speaksfor ‘Indian’ Pasts”?. In: Representations, n.37. Special Issue: Imperial Fantasiesand Postcolonial Histories. University of California Press; CHAKRABARTY, D. (2000) Provincializing Europe. Postcolonial Thought andHistorical Difference. Princeton: Princeton University Press.
2 DUSSEL, Enrique (1993) 1492. O encobrimento do outro. A origem do mito da modernidade. Petrópolis: Vozes, p. 79.

PAULO HENRIQUE MARTINS é sociólogo, professor titular de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Foi presidente da Associação Latino-Americana de Sociologia (ALAS) e vice-presidente da Associação Mouvement Anti-utilitariste en Sciences Sociales (MAUSS). É membro do conselho editorial da Revue du MAUSS e co-fundador e co-editor da Revista de Estudos AntiUtilitaristas e PósColoniais (Realis). Publicou pelo Ateliê de Humanidades Editorial: Itinerários do dom: teoria e sentimento (2019); Teoria crítica da colonialidade (2019); Políticas da dádiva: associação, instituições, emancipação (2023); e Crônicas da República (2024).
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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