Fios do Tempo. Crônicas do Chile – por André Magnelli

Trazemos hoje, no Fios do Tempo, as “Crônicas do Chile“. É uma reunião de cinco crônicas escritas por mim sob efeito da minha estadia no Chile entre 12 e 19 de outubro:

Os anjos peruanos de Santiago
Um colombiano muito malandro
Uma comemoração na penumbra
Segure firme a sua bolsa
Miragens dos Andes

Escrever crônicas será, de agora em diante, parte de minha rotina.

Espero que apreciem. E que haja leitores!

André Magnelli
Fios do Tempo, 14 de novembro de 2024


Ou faça um pix e nos fortaleça!

chave: direcao.ateliedehumanidades@gmail.com


Crônicas do Chile

André Magnelli

Os anjos peruanos de Santiago

Estava na hora de tomar um ônibus de Santiago para Valparaíso. Era quinta-feira de manhã, estávamos sem dados móveis de celular e sem dinheiro físico nas mãos.

Partimos, eu e Ane, da comuna Providência, ao lado do Parque Metropolitano de Santiago, com o objetivo de tomar um metrô até a estação central de ônibus, onde compraríamos a passagem para a cidade litorânea. Mas não conseguimos recarregar nosso cartão de metrô por falta de “efetivo” (dinheiro vivo) e os planos tiveram que mudar.

Decidimos peregrinar então pela Alameda Libertador Bernardo O’Higgins, uma enorme avenida que concentra boa parte dos marcos culturais e turísticos de Santiago. Caminhando em direção à Estação Central, que estava a 7,6km de distância, fomos buscando Wi-Fi para conectar o celular e pedir um Uber (os táxis estavam descartados porque só recebem em dinheiro). A cada insucesso, estaríamos de todo modo nos aproximando a pé do nosso alvo.

Ao longo do percurso fomos pedindo Wi-Fi em cafés, bares, comércios, sempre acumulando as negativas. Naquele lindo dia de primavera, sob um sol chileno que sempre castiga dissimuladamente por causa do clima ameno, já estávamos convencidos de que nossas pernas seriam, uma vez mais, nosso melhor meio de deslocamento. Gostamos disso e, salvo o tempo apertado para a viagem a Valparaíso, não havia nenhum grande mal. A melhor forma de conhecer uma cidade é caminhando, como um passante, por ela.

Conforme nos distanciávamos das áreas nobres da cidade e nos aproximávamos dos meios populares, a paisagem urbana se transformava. Eu não conseguia calcular os kilômetros em meu Google Maps e estava preocupado com que tínhamos aparentemente mais uns 30 minutos a percorrer em uma área menos “confiável” na segurança. Ane viu uma tenda humilde e foi perguntar sobre a distância que estávamos da rodoviária, enquanto eu aguardava desacreditado a respeito de qualquer Wi-Fi a ser emprestado. Estavam nela um jovem casal no atendimento e uma senhora no caixa (mãe de algum dos dois, certamente). O jovem disse que a rodoviária estava próxima, apenas a três quadras. Disseram que podíamos ir a pé mas que tomássemos cuidado com nossos pertences, porque era uma região muito perigosa. Perguntei sem crer se teria Wi-Fi para que eu pedisse um Uber, a fim de não arriscar a surpresa de ter nosso celular roubado. O jovem de pronto compartilhou os próprios dados de celular. Enquanto via a distância e buscava o Uber, comprei uma garrafa de água com cartão e preparávamos para pedir o carro.

O jovem disse então que havia solução melhor: tinha um carro e nos levaria direto, gesto que foi reforçado por sua esposa. Eu disse que não tinha como pagá-lo porque estava sem efetivo, ele respondeu dizendo que não era preciso.

Partimos em seu carro rumo à rodoviária. Perguntei a ele se era chileno. Não, era peruano. Coisa bem aparente para nós, por causa de seus traços indígenas bem demarcados, indicando ser do Peru ou Bolívia. Ele disse que vivia com sua família há muitos anos em Santiago. Perguntei sobre como conseguia viver em Santiago com um custo de vida tão alto. Respondeu falando que acumulava três trabalhos e que, apesar de tudo, havia mais possibilidades de emprego lá do que no Peru.

Quando estávamos chegando na rodoviária reforcei minha gratidão pelo gesto. Sua resposta foi de uma limpidez ética: “sempre quando se pode ajudar, ajuda-se”.

Algo de culpa eu sentia por não poder dar algum dinheiro em suas mãos, em sinal de gratidão e como pequena ajuda a uma vida aparentemente dura. Ou então eu podia ter feito uma compra maior em sua tenda, como forma de compensação…  Sem poder voltar no tempo para isso, essa culpa não me atormentou mais do que alguns segundos, porque estava evidente que não se tratava de nada disso e que o dinheiro não deveria comparecer à cena, mesmo que eu o tivesse em mãos.

Nos despedimos cordialmente. E cada um seguiu sua vida para nunca mais nos ver.

Naqueles dez minutos de interação, eu e Ane fomos provavelmente só mais algumas pessoas com quem interagem todos os dias, a caírem no esquecimento num cotidiano ocupado. Mas, para nós, estes anjos peruanos de Santiago sempre serão lembrados com gratidão. Dizer um simples “não” seria tão mais fácil e justificável… Que seja dada toda reverência que lhes cabe a estes gestos simplicíssimos de generosidade. E de humanidade, sem rodeios.

20 de outubro de 2024

Um colombiano muito malandro

Antes de tudo, não me falem mal dos colombianos. Estive em Bogotá por dez dias e fui muito bem acolhido por lá. Retorno em breve com certeza.

A força da intelectualidade colombiana já me chegava alguns anos antes da viagem de 2023, devido à minha amizade com Gabriel Restrepo desde 2019, que acabou por gerar uma rede significativa de colombianos e hispano-americanos em geral. Isso se deveu muito em função da generosidade de Gabriel nas suas adjetivações feitas a mim e ao trabalho do Ateliê de Humanidades. Por causa deste contato próximo, inclusive, o Facebook me entrega mais conteúdo em espanhol do que em português, presenteando-me, sem o saber, com um reconhecimento virtual de uma latino-americanidade.

Na minha estadia, a admiração pela vida cultural da Colômbia foi reforçada ainda mais, encontrando intelectuais e artistas em Bogotá, cidade que já foi batizada, por causa de sua intensa vida cultural, como a Atenas da América do Sul. A América Latina tem destas coisas: a alta cultura convive com as mais retrógradas pobrezas e violências. Nesta cidade latino-americana marcada por tais contrastes, cheguei a ir – e comprar livros de história e antropologia do país – a uma livraria que é maior do que a melhor livraria acadêmica de Paris. Foi lá também, em seus Museus, que descobri a riqueza das artes plásticas colombianas e da cultura pré-colombiana. É assim que percebi que não apenas na novelística, como também entre os artistas, os colombianos parecem ter maior reconhecimento internacional do que os brasileiros. Compensamos isso, talvez, com a nossa música popular.

Nessa viagem também tive a oportunidade de conhecer mais a idiossincrasia da Colômbia. Não apenas escutei relatos sobre a sua complexa história social e política, como também descobri, com espanto, a riqueza da sua condição geográfico-cultural: Colômbia é Pacífico e Atlântico, é ao mesmo tempo Andes, Amazônia, Caribe, Costa Pacífica e grandes vales interiores. Compete com o Brasil dentre os países com maior biodiversidade do mundo.

Em Santiago de Chile encontrei apenas um colombiano: foi um Uber que tive que pegar para não me atrasar no deslocamento para a Universidade Alberto Hurtado a fim de participar de uma conversa sobre a teoria da dependência com Alexis Cortes e Martín Arboledo. Sempre quando possível ia a pé, mas neste caso optei por ir de Uber porque eu e Ane atrasamos no almoço. Tive que sair correndo de um excelente restaurante especializado em comida da costa do Pacífico, o Selvado, sem ter podido comer quase nada de um dos pratos que pedimos. Já alimentado pelo ceviche maravilhoso que veio antes, parti para meu compromisso, deixando Ane com um risoto só pra ela.

Sentei no banco da frente. O rapaz que dirigia o Uber foi muito comunicativo desde o início, fazendo muitas perguntas e manifestando interesse pelo estrangeiro que carregava: o que eu estava fazendo no Chile, como era o Brasil, perguntas sobre como eram em português os nomes em espanhol etc. Indagado, identificou-se como colombiano. Comunicava-se sem parar. Com o celular nas minhas mãos, era evidente para ele que eu não tinha conexão de dados. Chegando ao destino, agradeci a corrida e segui em clima afável. Ele se despediu desejando boa palestra e disse que a corrida havia sido encerrada, que não me preocupasse.

Cheguei ao meu compromisso no horário. Assim que sentei na mesa pedi para Alexis me conectar ao Wi-Fi da UAH. Eu precisava acompanhar de perto o tempo que demoraria para me deslocar rapidamente da Universidade Alberto Hurtado até a Universidade de Santiago de Chile (USACH), onde logo teríamos o lançamento do livro Vuelo de tukui (da BBLA, da Fundação Darcy Ribeiro), com a presença da autora, Ana Pizarro, e excelentes comentadoras, organizado por Cristián Jimenéz, grande amigo, editor da Tucán Ediciones.

Assim que acessei a internet veio a surpresa: o app da Uber me indagou se eu estava tendo problemas com a corrida porque o carro se encontrava distante do meu destino. Por supuesto, a ficha caiu na hora: o motorista resolveu me dar uma volta continuando a corrida sem encerrar, passeando pela cidade custeado por meu cartão de crédito. Enquanto estávamos na mesa, escutando com atenção os ótimos comentários de Martín sobre o livro de Teoria da Dependência (organizado por mim, Felipe Maia e Paulo Henrique Martins), me vi obrigado a xingar o colombiano do Uber em minha mente e cancelei a corrida. Acabei de realizar uma denúncia de seu comportamento no app da Uber.

Pois é, desgraças assim também irmanam nossos povos. A casca de amabilidade do colombiano ocultava o interesse de dar um golpe extraindo de mim o máximo que podia. Está aí uma face cruel das nossas culturas, que não poupou nem mesmo um “cascudo” carioca (habitante do Rio de Janeiro), que conhece bem as tramas envolventes da pilantragem dos conterrâneos. Mesmo sabendo como os brasileiros dão “nó em pingo d’água”, caí na conversa do “amigo” motorista.

Todavia, lamento menos pelo dinheiro que ele me tirou indevidamente do que pelo significado deste ato, realizado por um imigrante em terra estrangeira. Ele apenas reforça, no Chile, as pré-concepções já existentes dos chilenos comuns a respeito de males que colombianos e venezuelanos trariam para sua terra.

Por carinho pela Colômbia que conheci e pelos amigos que nela fiz, maldito seja este colombiano muito malandro!

21 de outubro de 2024

Uma comemoração na penumbra

Os chilenos comemoraram, no último 18 de outubro, os cinco anos do “estallido” social, que incendiou o país com ondas de protesto contra a ordem institucionalizada e as condições sociais do país. A violência dos protestos foi tão grande que nem mesmo a pandemia de Covid-19 conseguiu interrompê-los, forçando a classe política à convocação de uma nova constituinte como resposta à crise.

Um sentimento acre pairava no ar cinco anos depois. A experiência da Constituinte se encerrou com o veto da maioria à nova Constituição no referendo popular. Com isso, os caminhos das mudanças mais estruturais se viram bloqueados no Chile, ao passo que o país passou a estar mais preocupado com outras questões, como a imigração e o aumento da violência e da criminalidade. Desencantados com o fracasso da Constituinte e com o próprio funcionamento das instituições, os chilenos temiam o caos que uma nova insurgência popular poderia provocar na cidade. Não poucas vezes, por isso, fomos alertados sobre os perigos de circular em Santiago no dia 18, sobretudo entre partes do centro da cidade, da alameda Bernardo O’Higgins e da avenida Providência, que foram o epicentro da violenta insurgência de cinco anos atrás.

Enquanto Ane saiu para as compras de presentes e lembranças de último dia de viagem, eu saí bem cedo para um dia agradavelmente ocupado. Após um belo café da manhã com o sociólogo Daniel Chernilo, segui direto para uma fala no primeiro encontro do grupo de estudos Vivir en mundos inestables: Latour + Arendt, organizado por Rodrigo Cordero e Francisco Salinas. Após a rica conversa do grupo, ocorrida em formato híbrido a partir de uma sala de reunião da Universidade Diego Portales, e após um almoço agradável com os amigos chilenos num restaurante na proximidade da Universidade, fui encontrar Pablo Marchant e Cristián Jimenéz no Cerro Santa Lucía para fazermos algumas gravações sobre a Biblioteca Básica Latino-Americana (BBLA), da Fundação Darcy Ribeiro, projeto do qual eu e Cristián somos editores e Pablo é o designer. Neste exato momento, começávamos a estar, no meio da tarde do dia 18, de forma talvez bem imprudente, no epicentro do finado estallido social.

Chegando lá, por medidas de segurança, o Cerro Santa Lucía estava fechado. Caminhamos em busca de um bom parque para fazer as gravações, enquanto esperávamos Ane dar notícias de que chegou no Cerro Santa Lucía, lugar em que marcamos de nos encontrar por volta das 15h.

Durante este tempo, eu não lembrava mais dos temores da cidade e tudo transcorria bem. Assim que chegamos num café após as gravações, vem a primeira lembrança: Ane entra em contato dizendo que estava no Cerro e que estava tudo fechado, com pessoas aglomerando para manifestação e muitos carabineiros (um análogo da “polícia” de ação ostensiva do Brasil, mas sem ter um caráter militar). Ela disse que estava com medo e me perguntou onde estávamos. Corri para resgatá-la de imediato, temendo que a situação tivesse se transformado inadvertidamente. Encontrei-a me aguardando na escadaria do Cerro e, após algumas broncas dela e umas explicações minhas de que não havia nada no mesmo local uma hora antes, seguimos tranquilamente para o café na redondeza.

Descansados pelo relato de Ane, que disse ter visto uma manifestação esvaziada com umas cinquenta pessoas passando na Alameda sob um gesto depreciativo de um carabineiro, lá confraternizamos e, após um tempo, fui comprar uns livros sobre Chile numa livraria do outro lado da rua.

Como escutei de alguém, só não lembro quem: o que se passou foi o “estallido del estallido“. Tudo parecia tranquilo, tudo estava normal.

Saindo ao anoitecer, partimos todos para o metrô, em uma rua cheia de gente, sem qualquer problema de segurança aparente, fora alguns gritos individuais de protestos e uns carros de bombeiro passando com a sirene na altura máxima.

Seguimos, então, eu e Ane para a nossa estação, Baquedano, localizada no antigo epicentro do estallido. Descemos na estação e, ao tentarmos acessar a rua pela saída, tivemos a surpresa, junto com vários outros passageiros, de que todos os acessos estavam fechados e que deveríamos retornar ao metrô e ir para outra estação. Um novo sinal de alerta acendeu a me lembrar da advertência dos nossos amigos: deveríamos ter tido cuidado!

Já era noite neste momento e estávamos agora tendo que descobrir como retornar para casa, torcendo para que nenhuma nova surpresa surgisse. Pegamos o metrô de novo e, sem querer, acabamos indo para o sentido que nos conduzia de volta aos arredores do Santa Lucía… A situação ganhou contornos de suspense quando o maquinista passou direto por quatro estações, incluindo a Santa Lucía (da qual tínhamos saído há poucos minutos), avisando para todos fecharem as janelas do metrô como medida de proteção contra o gás lacrimogêneo! Mantivemos nossa calma, descemos na primeira estação que estava aberta, mudamos o sentido e pegamos mais um trem, agora de novo no sentido de Baquedano, passando a terceira vez pelo epicentro para descer na estação mais próxima de onde estávamos hospedados.

Conseguindo alcançar a rua via a estação Salvador, fomos andando pouco mais de um quilômetro e meio numa Santiago esvaziada e desconfiada. Conforme nos aproximávamos do nosso destino, sentíamos o cheiro de coisa queimando e tinha algo de gás lacrimogêneo no ar. Evitamos seguir pela Avenida Providência, que nos levaria até a região da Baquedano, e fomos ao nosso destino por ruas mais de dentro, via a Avenida Bellavista.

Ao nos aproximar da nossa rua, mais uma surpresa: tudo estava na penumbra. Não havia luz no bairro e tivemos que seguir nestas condições a partir de então. Quase tudo estava fechado naquele bairro que deveria estar efervescente. Nos deparávamos com poucas pessoas na rua, algumas conversando, a maioria só se deslocando. Não deixamos de rir com um casal sentado, com lanterna de celular iluminando o menu, no único bar que ainda estava aberto numa região boêmia.

Chegamos ao nosso prédio em meio à escuridão e tivemos mais uma surpresa: como entrar se o meio de acesso é por digitação de senha no interfone? Para não inventar de pular o muro, atravessamos a rua e fomos consultar um guarda de estacionamento sobre o que estava acontecendo. O chileno explicou que a luz foi desligada por protocolo dos carabineiros, que fazem isso antes de soltar as bombas de gás lacrimogêneo e que ela deveria retornar logo. O bairro já estava sem luz há duas horas e deram o prazo de mais uma hora até serem ligadas. Buscamos contactar o amável peruano que cuidava do operacional do nosso alojamento, a fim de descobrir um meio de entrar lá, mas o celular dele estava sem receber mensagem. Tivemos então que sentar na rua, pacientemente, para esperar a luz voltar.

Depois de aguardar uma meia hora, conversando com o guarda para passar o tempo, usando o wi-fi que ele compartilhou e colhendo informações com ele sobre o Chile, vimos um grupo de jovens sair do nosso prédio e os interceptamos na porta. Eram brasileiros, que iam para a rua alegremente para procurar o que comer. Eles nos ensinaram como aprenderam a abrir o portão com um mecanismo de acesso à chave por senha mecânica e quase os acompanhamos na caça aos restaurantes na rua, pois precisávamos comer também. Mas eu estava exausto e convenci Ane de que era melhor esperarmos a luz retornar em nossa cama. Pois bem, acabamos dormindo com fome, porque a luz só retornou no meio da madrugada.

E foi assim que Santiago se despediu de nós em sua última noite, na penumbra, expressando-nos, simbolicamente, a falta de soluções institucionais visíveis para as dificuldades estruturais do país.

Na manhã seguinte, partimos com nossas malas para aquela estação de metrô fechada à noite, a Baquedano. Ao atravessar a avenida Providência, encontramos um senhor varrendo um monte de cinzas no passeio público, aquelas que resultaram provavelmente do fogo que cheiramos na noite anterior. O gari olhou para nós, abrindo um sorriso, e nos disse com um ar irônico: “son las consecuencias!“.

Sorrimos de volta e continuamos caminhando, buscando decifrar, de algum modo, o que isso que ocorreu estava a nos dizer.

22 de outubro de 2024

Segure firme a sua bolsa

Os moradores do Chile, chilenos ou não, têm muitas preocupações com os seus pertences na rua. Sempre quando perguntávamos a direção aos caminhantes, era comum escutar, no final da ajuda, um conselho em forma de alerta: “segure bem os seus pertences, bolsa e celular, próximos ao corpo”. Para nós, brasileiros, oriundos do Rio de Janeiro, parecia haver um descompasso entre o sentimento generalizado de insegurança e o ambiente relativamente seguro das ruas. Mas podia ser que estivéssemos minimizando os perigos reais, como estrangeiros, por causa daquela fé na boa fé que é tanto maior quanto mais ignoramos os riscos objetivos do entorno.

Os chilenos têm um orgulho culpável de longa tradição numa arte: a de realizar furtos. Sim, há no Chile muitos artistas do furto. Dizem até que exportam estes mestres para outros países, Europa ou EUA, que atuam em ambientes públicos pegando desprevenidos os moradores em suas próprias ruas. Isso já deve ter deixado alguns europeus de países com baixa taxa de criminalidade preocupados com os imigrantes de mão-leve; espero, sinceramente, que eles saibam diferenciar bem os artistas do furto em relação aos chilenos comuns, e que este meu texto não gere dificuldades ao chileno que chega em território alheio!

Ora, sabemos bem, este é um dos problemas da imigração no mundo contemporâneo. A imigração sempre traz surpresas, abre novos horizontes, alguns muitos bons, outros nem tanto, e outros, sim, podem ser terríveis. Não existem modos de vida que resistam a uma ausência total de definição do que entra e do que sai, sem uma certa imunologia constitutiva, como nos lembra o brilhante ensaísta germano-coreano Byung-Chul Han.

Pois bem, no caso do Chile, quem anda por lá percebe desde o início que muitas das funções de serviço são realizadas por imigrantes: peruanos, colombianos, venezuelanos e bolivianos. Por razões diversas, Chile, que não é um país fácil para os próprios chilenos, também é uma terra de oportunidades para os vizinhos hispano-americanos. Por sua vez, os brasileiros são os turistas “bem-vindos” porque chegam como os grandes gastadores, que ajudam a sustentar uma economia muito dependente da exportação de minério e vinho. Sinceramente, não sei como os brasileiros têm tanto dinheiro para gastança, só sei que fazem a festa deles e dos chilenos em Santiago e Valparaíso, nem que seja parcelando no cartão de crédito em 12 vezes.

Mas voltando ao assunto da segurança. Com a imigração de venezuelanos e colombianos, começou a surgir um fenômeno novo, que explica um pouco as mudanças da política chilena desde o início do estallido social de 2019 até 2024. Hoje em dia, a questão social perdeu força diante dos temas da imigração e violência. Temos aqui um tema sensível para os mais progressistas. O fato é que os setores mais à direita começaram a associar o aumento da violência e das organizações criminosas no Chile à imigração dos colombianos e venezuelanos. Inicialmente a esquerda rejeitava esta tese, mas os dados vão fazendo o problema ganhar contornos que exigem respostas complexas: de fato, houve migrações não apenas de pessoas individuais em busca de uma vida melhor, mas também de facções inteiras, que passaram a atuar no território. E, com isso, os próprios códigos da criminalidade foram se transformando ao longo do tempo: se antes o perigo se centrava na arte do furto, o que exigia estar atento à sua bolsa e aos seus bolsos, agora os chilenos estão descobrindo, terrificados, que há outras práticas de crime, muito comuns em outros países latino-americanos, incluindo o Brasil: o assalto à mão armada e a banalização da vida, com os assassinatos e latrocínios.

Este tema é delicado, porque toca de frente uma dificuldade do país: a de se abrir para o continente como um todo. Por causa das suas condições geográficas muito particulares, em que a terra habitada se concentra em larga parte entre as cordilheiras e o litoral do Oceano Pacífico, o Chile é quase que uma ilha terrestre, facilmente isolável do restante. Como diz o escritor chileno Luis Oyarzún Peña, em seu Resumen de Chile (1967), o Chile é uma terra longínqua, a mais longínqua do Hemisfério Ocidental, um autêntico Finisterra“. Digamos de outro modo, os chilenos vivem numa espécie de “fim de mundo” (no sentido geográfico do termo) que poderia consistir num grande privilégio, a ser expresso mais ou menos nestes termos: “nós, chilenos, não somos como eles, somos totalmente diferentes, e precisamos garantir o nosso bom isolamento”. Por isso, não há de partida uma grande disposição no chileno comum a conhecer as realidades de seus vizinhos – como as de venezuelanos e colombianos –, mas digamos que isso também não é enfraquecido quando, no interior do fluxo migratório, surge o problema da migração do crime organizado: o que fazer? Como resolver isso?

Como falou Alexis Cortes, no episódio do programa Diálogos com Marco Aurélio Nogueira – que vai ao ar na próxima terça-feira –, surfando nesta onda, a extrema direita chilena avança no Chile propondo as famosas respostas fáceis para problemas muito mais complexos.

Tendo passado em Valparaíso por um dia, percebi o quanto a situação da insegurança se mostra aguda: o garçom do restaurante, aparentemente o gerente ou dono, nos escoltou pela praça até o Uber porque disse que era muito perigoso e que “eles (os ladrões) apareceriam de toda a parte, de bicicleta, arrancando os pertences”. Por certo, esta situação diz respeito a uma peculiaridade de Valparaíso: Santiago concentra as forças policiais e o interior do país fica deficitário na sua capacidade de policiamento. Este é um dos efeitos da centralização político-administrativa do país. Além disso, Valparaíso é uma cidade com morros e, tal como o Rio de Janeiro, esta geografia facilita as rotas de fuga e as proteções em lugares altos, nos quais a polícia não arrisca subir facilmente (pois se vê numa situação desprivilegiada do ponto de vista tático). De todo modo, por onde passamos, sejam chilenos ou não, havia um certo “eles podem aparecer de qualquer lugar e lhes levar os seus pertences”.

Será isso o efeito de um custo de vida em que a renda mal dá para pagar a alimentação? Será isso o resultado dos descaminhos do estallido, enfraquecido na sua capacidade de transformação e associado, pela nova conjuntura política de direita, a uma caixa de pandora da baderna, delinquência e ausência de ordem pública? Será que isso é o sintoma das neuroses cotidianas de uma população apertada pelas constrições da vida e temerosa pela presença do Outro, o estrangeiro? Será isso a construção de uma mídia politicamente enviesada por interesses políticos direitistas e coberturas sensacionalistas? Ou será, enfim, simplesmente a prova de que a criminalidade violenta sempre vai esgarçar a vida social e enfraquecer a segurança existencial cotidiana quando ascende numa sociedade, seja ela onde for?

25 de outubro de 2024

Miragens dos Andes

Todo viajante se exercita na arte de comparar e contrastar realidades. Nossas experiências prévias dão um molde à percepção do mundo desconhecido que está ali à nossa frente. A fricção entre o já vivido e o que se está vivendo é uma diversão inevitável que enriquece nossa vida. Não temos porque nos lamentar por essa falta de pureza no olhar, pois nossa ingenuidade já começou a ser perdida nos primeiros balbucios desde quando éramos bebês.

Sou míope, mas adoro contemplar os horizontes mais distantes. De óculos, claro! Uma das coisas que mais me encantam é o entremeado da natureza com o urbano e a riqueza geobiológica de uma cidade. Me deslumbro, portanto, com espaços urbanos arborizados nos quais podemos contemplar morros e montanhas à medida que caminhamos.

Não nego que também seja um espetáculo subir neles para observar, à distância compreensiva, os prédios, pessoas e ruas lá embaixo. Os morros, quando os há, possuem uma vocação natural para pôr as cidades em perspectiva, uma função que jamais deve ser atribuída a arranha-céus, coisas que são para mim um esteticídio urbano. A imagem de uma selva de concretos monstruosos, cheios de vigas e vidraças, pode ser vista como o cúmulo da vulgaridade requintada da qual o ser humano é capaz.

Depois dessa confissão, você já presume, com razão, que eu gosto mesmo é de viver com os pés numa casa ao rés do chão. Isso mesmo. Mas prefiro mil vezes subir para o ar das montanhas do que descer para o fervor das praias. O ponto alto, de clima ameno, faz o espírito respirar em gozo. Uma junção desses dois impulsos não é muito complicada: bastaria ter uma casa de retiro fincada em encostas firmes de uma serra esverdeada e bem temperada. Humilde que sou, faço contudo, de modo cotidiano e com paixão, o caminho inverso: o de admirar desde baixo, à mísera altura do corpo humano, a elevação sublime das formas naturais rumo ao céu, poderosas que são em mostrar nossa pequenez enquanto nos convidam sinuosamente a conhecê-las.

As montanhas no horizonte me deixam sempre perplexo. Mesmo um pequeno morro de algumas centenas de metros, feito de pedras ou mata densa, me provoca ruminações: como se pôde subir? por onde? quem foram os desbravadores que abriram caminhos? como e por que fizeram isso? ainda existe algo aí que vive de modo selvagem, distante das mãos humanas e com aspectos desconhecidos? Se eu fico assim diante de pequenos morros, me perguntando feito criança, imagine como minha mente fervilha em face a serras e cordilheiras. Espanta-me esse impulso nômade do ser humano, com sua obstinada engenhosidade em ultrapassar obstáculos e limites; sobretudo porque nossos desbravadores primordiais fizeram isso centenas e milhares de anos antes de povoarmos a terra com engenhocas, mercadorias e confortos em escala industrial.

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Rio, Bogotá, Lima, Santiago: quatro cidades que me põem a pensar segundo as experiências que delas tenho.

Bogotá está na cordilheira oriental dos Andes colombianos. Construída na região de um antigo lago, 2.640 metros acima do mar, ela tem por referência geográfica os morros (cerros) orientais, avistados pelos caminhantes por todo o canto da cidade. Fui com o amigo Gabriel Restrepo ao cerro Monserrate, ponto geográfico e turístico de Bogotá, que nos eleva a 3.152 metros. De lá podemos avistar, do lado nascente, a cidade como um todo, e, do lado poente, a belíssima cadeia de montanhas em direção ao Oceano Pacífico, no caminho de pontos mais altos como o Nevado del Ruiz (5.321 metros), um vulcão de neve perpétua na cordilheira central dos Andes.

Enquanto mirava os cerros orientais como paisagem urbana, minha mente era remetida de imediato ao Rio de Janeiro, cidade em que também vivemos com a contemplação dos morros como companhia cotidiana. Mas era o contraste entre as duas cidades que me aparecia com mais força: enquanto que os morros de Bogotá compõem um limite externo ao espaço urbano, o Rio existe em meio aos morros, subindo e descendo, espremendo-se e espraiando-se, numa geografia sinuosa bem distinta à geométrica capital colombiana. De um lado, o clima homogêneo, úmido e temperado da Bogotá quadriculada, de outro, a heterogeneidade climática do Rio entremeado, no qual poucos quilômetros separam microclimas tão distintos como praia, serra, tropical-úmido (em áreas arborizadas) e infernal (nesta cidade colonizada, como muitas, incluindo Bogotá, pela perversão do asfalto, concreto e carro). Além disso, quando me dei conta de que subir no cerro Monserrate já nos fazia ultrapassar 3.000 metros em Bogotá, acabei adquirindo uma visão distinta das grandezas naturais: no mesmo instante em que a altura dos Andes foi posta em perspectiva, deixei de menosprezar o tamanho dos morros cariocas (que vão até 1.000 metros de altitude, no ponto mais alto da Floresta da Tijuca, incrustada no meio da metrópole). Assim emergiu um certo encanto com a cidade onde vivo e pela qual tenho sentimentos muito ambivalentes.

Por sua vez, estive por dez dias na gigantesca Lima, em 2019, capital litorânea do Peru, que foi minha primeira viagem internacional pouco antes de eclodir a clausura da pandemia. Não subimos o Cerro San Cristóbal de Lima para ver a cidade do alto e conhecemos a pé apenas o belíssimo distrito abastado de Miraflores. O restante foi desbravado em viagens pelos idiossincráticos táxis peruanos, que são uma aventura por si só. A geografia rochosa do litoral de Lima propicia uma bela vista do Oceano Pacífico a partir de regiões turísticas que estão de costas para as cordilheiras: daquela Lima que conheci, não se vê os Andes, ainda que os Andes sejam o pressuposto da sua existência. Sem dinheiro suficiente e com minha esposa grávida do nosso terceiro filho, não tivemos condições de subir ao Peru andino. Ficou para uma próxima vez, que aguardamos ansiosamente.

Uma das coisas mais encantadoras que vimos em Lima também encontramos em Santiago: a luta humana contra a aridez do clima. Nas duas cidades, vimos um cultivo amplo de flores e plantas que depende de sistemas de irrigação. Sem isso, Santiago teria uma paisagem bem mais pobre e Lima seria composta apenas por variações de cinza e marrom, pois seu clima é desértico devido à cordilheira que impede a precipitação de chuvas. Apesar dessa aproximação, gostaria de ressaltar o contraste: os Andes estão à vista em Santiago, de modo ostensivo, quase ornamental; por onde andamos, miramos aquele monumento natural, imponente, magnífico, com seus picos nevados. Tal como em Bogotá, a cordilheira é a referência natural de localização para todos, o que permite realizar distinções espaciais, baseadas no ciclo solar, entre os lados poente e nascente. Por sua vez, quando nos dirigimos ao contraste entre Santiago e Bogotá, existe também uma diferença na presença estética andina: enquanto que em Bogotá os habitantes já estão na montanha e avistam somente os picos mais elevados da cordilheira em que pisam, os Andes são contemplados em Santiago por um contraste exuberante, pois a cidade está mais próxima do nível mar (500 metros) diante de montanhas de milhares de metros. E quando subimos no ponto mais alto de Santiago, o Cerro San Cristóbal, os Andes se mostram ainda mais impressionantes a partir de um ponto mais elevado, podendo ser contemplado em giros panópticos.

Por sua vez, quando eles são vistos de baixo, repito a experiência estética fascinante que já mencionei. Novamente, o contraste entre os Andes e o Rio de Janeiro põe minhas percepções em perspectiva. No Rio, os morros nos quais a cidade se entremeia são vizinhos de rua, ao passo que, em Santiago, a cordilheira está numa distância adequada para ser contemplada como uma pintura em plano aberto. Lá no horizonte distante, vistos do chão, os Andes nem pareceriam tão grandiosos se não tivessem neves no topo. Cheguei a perguntar tolamente, por causa da estupefação do que via, se haviam caminhos de subida àquelas montanhas que aparentam ser tão impassíveis e impenetráveis, e se de fato existiam cidades lá. A resposta não surpreendeu a minha racionalidade, embora estivesse em conflito com a sensação imediata: não apenas era possível subir, como também as pessoas nem percebem, às vezes, o quão íngreme é a ascensão na medida em que sobem. Inclusive, conforme a cidade cresceu e se popularizou, as famílias ricas começaram a se isolar nas partes mais altas, aos pés da cordilheira, como na comuna de Vitacura.

Este espetáculo ganhou um novo ato com nossa saída de avião em plena luz do dia. Tendo que ganhar altura da pista ao céu em poucos minutos, para que possa passar por cima da cordilheira, os aviões voam muito próximos das montanhas. Isso permite ver pelas janelas, a olho nu, os picos nevados logo ali embaixo. Não poucas vezes, pela mesma razão, a subida do avião apertada pelas montanhas rumo à altura de “voo de Cruzeiro” gera turbulências incomuns, provocadas pela ação da massa montanhosa a cinco quilômetros de altitude sobre as correntes de ar.

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Tratando-se de crônicas escritas a partir de minha viagem ao Chile, gostaria de encerrá-la trazendo dois grandes poetas deste país notável na arte. Quando penso naquela ínfima parte da cordilheira dos Andes avistada por nós, tenho a plena consciência de que não a conheço em nada. Encontro então no poema Montañas mías, de Gabriela Mistral (Poema de Chile, publicação póstuma, de 1967), uma forma de expressão a contrapelo:

En montañas me crié
con tres docenas alzadas.
Parece que nunca, nunca,
aunque me escuche la marcha,
las perdí, ni cuando es día
ni cuando es noche estrellada,
y aunque me vea en las fuentes
la cabellera nevada,
las dejé ni me dejaron
como a hija transcordada.
Y aunque me digan el mote
de ausente y de renegada,
me las tuve y me las tengo
todavia, todavia,
y me sigue su mirada.

Nascida na pequena cidade de Vicuña (600 metros de altitude), no vale de Elqui, Gabriela Mistral é filha dos Andes. O eu lírico do poema sempre pertenceu e jamais perdeu as montanhas da sua mirada, mesmo que a vida o tenha distanciado. Muito diferente disso, não tenho montanhas minhas; sou somente um filho mestiço da litorânea Rio de Janeiro com a agreste Feira de Santana (Bahia). Contudo, este poema me faz encontrar uma intuição sentimental e ideativa. Sendo mais que uma paisagem para turista, e menos que uma mirada existencial, os Andes aparecem-me como um lugar de miragens. Eles são este espaço distante, de utopia talvez, a respeito do qual não se sabe bem o que é real e o que é imaginário.

Por fim, a experimentação que fiz aqui de conectar cidades da América Latina, com elos entre os Andes, o Pacífico e o Atlântico, encontra uma boa provocação noutro grande da poesia chilena, Nicanor Parra, o antipoeta. Em Tres Poemas (1968, publicado em Poesia Política), ele encerra assim a poesia Chile

[…] y Santiago de Chile es un desierto.
Creemos ser país
y la verdad es que somos apenas paisaje.

Nada melhor do que terminar escritos por questões que abrem para mais. O que Parra pergunta sobre o Chile se aplica a todos nós, da América Latina. Por supuesto, cremos todos ser países, mas agimos mesmo para sermos o que pretendemos ou apenas estamos a sobreviver como paisagens exploráveis, sejam elas desérticas – como largas partes do Chile andino, ricas em minério – ou em vias de desertificação – como este meu Brasil enorme, capturado nas mãos de elites predadoras e ignóbeis?

12-13 de novembro de 2024

ANDRÉ MAGNELLI é idealizador, realizador e diretor da instituição de livre estudo, pesquisa, escrita e formação Ateliê de Humanidades (ateliedehumanidades.com). 
 Sociólogo, professor, pesquisador, editor, tradutor, mediador cultural e empreendedor civil/público. É editor do Ateliê de Humanidades Editorial e do podcast República de Ideias. É editor da tribuna Fios do Tempo: análises do  presente. É curador do Ciclo de Humanidades: ideias e debates em filosofia e ciências sociais, co-organizado com o Consulado da França no Rio de Janeiro. Pesquisa na interface de teoria social, tecnociências & sociedade, sociologia histórica do político, teoria antropológica, ética, filosofia política e retórica.

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