O filósofo, compositor, crítico e poeta Antonio Cicero (nascido em 1945) realizou o ato final da sua decisão de partida do mundo no dia 23 de outubro de 2024. Em homenagem a ele, publicamos, no Fios do Tempo, o singelo depoimento de Marcos Lacerda, “A voz de Antonio Cicero“.
Tendo sido interlocutor de Cicero (que prefaciou um livro seu), Marcos relembra o primeiro contato com o poeta e ensaísta, quando o jovem encantado lhe solicitou calorosamente a leitura em própria voz do poema “O livro de sombras de Luciano Figueiredo“.
Nesta publicação em homenagem, o leitor não apenas conhecerá esta história através das sensíveis palavras de Marcos Lacerda, como também desfrutará da leitura do poema, generosamente feita por Antonio Cicero.
Desta forma, a dádiva do poeta, enviada num e-mail de 01 de fevereiro de 2011, se mostra ressignificada. Oriunda dum declamar fugaz, esta voz transcendeu a finitude do próprio corpo, tornando-se um algo a desfrutar, desde o fim.
Desejamos um deleite de leitura, e escuta!
André Magnelli
Fios do Tempo, 12 de novembro de 2024
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A voz de Antonio Cicero
Morava no Rio, em Copacabana. Era o ano de 2010. Tinha ido ao OI Futuro Ipanema para ver uma exposição, com um poema de Antonio Cicero descrito na parede e que estava disponível também em áudio: “O livro de sombras de Luciano Figueiredo“. Dava para ouvir o poema lido pelo próprio poeta, num fone reservado em um canto da exposição. Lembro de ter ficado literalmente arrepiado ao ouvi-lo pela primeira vez. E de ir repetidas vezes à exposição exclusivamente para ouvir a voz e sentir as palavras de Cicero.
Após ir mais uma vez à exposição e mais uma vez ouvir a sua voz, tomei coragem, escrevi um e-mail dizendo o quão bom era ouvi-lo lendo o poema. O momento de audição tinha algo de íntimo, pessoal, como se a gravação tivesse sido feita para o ouvinte individual. O tom da voz, as pausas, a respiração, tudo dava a sensação de estar diante do poeta, no refúgio da sala de uma casa. Era como se aquela voz fosse nossa, como se pudéssemos tê-la e guardá-la para nós.
No e-mail que escrevi falei sobre o meu gosto pelas suas canções, pelo livro O mundo desde o fim, e que o tinha visto num lançamento de livro na Travessa do Leblon. Era o mês de setembro de 2010. Depois tratei mais propriamente do poema e fiz um pedido inusitado
Mas, este teu poema me arrebatou, e a sua leitura dele é deslumbrante. É a grande arte, é a poesia em seu estado mais forte, denso e belo. Fiquei horas ouvindo, repetidas vezes o poema, e o deslumbre permanecia. Há algum modo de ter este poema em uma versão lida por você?
Cicero logo me respondeu. Caloroso, gentil, doce. Agradeceu o meu gosto pelo poema, a minha exaltação com a sua voz. Disse que ler aquilo o fez bem. E, ainda mais, prometeu fazer uma gravação exclusiva para mim e me mandar num próximo e-mail. Eis as palavras:
Muitíssimo obrigado por palavras tão calorosas. Fizeram-me bem. (…) ando numa roda viva: hoje de manhã participei de uma mesa na UFRJ, à noite fiz uma conferência do ciclo do Adauto Novaes, amanhã estou indo para BH, para fazer uma palestra e, depois, para São Paulo, para a mesma coisa. Mas quando voltar, vou gravar o poema especialmente para você.
Fiquei, obviamente, felicíssimo e incrédulo. Poderia ter o poema lido pelo poeta gravado para sempre, para que pudesse ouvi-lo sempre que quisesse, para que pudesse ter o contato com a poesia, a aproximação com o sublime e a beleza difícil que os seus versos revelavam, em suma, poderia reviver a impressão que me ficou ao ouvir a voz de Cicero na exposição.
Esperei o e-mail com a gravação. O tempo passou. Alguns meses mais propriamente. Estávamos já em fevereiro de 2011. Quando já me dava por satisfeito por ter tido uma conversa com ele, por ter ouvido e prestado atenção ao meu pedido, recebi um novo e-mail, dessa vez com o poema todo gravado, tal qual sonhara vaidosamente, quando o ouvi pela primeira vez.
Querido Marcos Aurélio,
relendo os e-mails que recebi e guardei do ano passado, encontrei o seu. Fiquei morrendo de vergonha. Não cumpri o que lhe prometi. Acho que foram as viagens que fiz, o acúmulo de trabalho etc. Peço-lhe mil deculpas. Cumpro-o agora, com muito atraso, correndo o risco de que já não lhe interesse mais essa gravação. Nesse caso, simplesmente a apague. Mas fiz com carinho para você.
Um grande abraço,
Antonio Cicero
Enfim tinha em mãos o áudio gravado, com o poema “O livro de sombras de Luciano Figueiredo”, o mesmo que ouvia repetidas vezes na exposição do Oi Futuro Ipanema. Recebi como se recebesse o afago de uma mão leve, macia e terna; como se passasse pelo meu corpo uma boa brisa do mar; como se pudesse saber e estar sempre próximo à quentura das coisas reais. Agora o poema era também meu, eu o tinha em casa, na hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas, em todas as horas possíveis, sempre que quisesse poderia ouvir a voz de Antonio Cicero.
E ouvi-lo novamente agora, em 2024, após a morte desdramatizada, altiva, digníssima do poeta, causa em mim a mesma impressão que causou quando o ouvi pela primeira vez numa tarde distante em Ipanema, no Rio de Janeiro. O tom existencial denso se une à leveza melancólica e à clareza da poesia, da palavra e do seu pensamento filosófico. O poema é doce, mas também seco, maduro e até mesmo resignado. O eu lírico não sabe muito bem o que é, quem é e quais são os seus caminhos, o seu lugar, o campo de identificação que lhe pertence.
Para onde vou, de onde vim?
Não sei se me acho ou me extravio.
Ariadne não fia o seu fio
à frente, mas atrás de mim.
Não será a saída um desvio
e o caminho o verdadeiro fim?
Os fios de Ariadne não têm começo nem fim, geram formas imprevistas, encontros inusitados e revelam a ternura do filósofo erudito, do poeta maior e do ensaísta fino, atento às coisas do Brasil, às movimentações das vanguardas artísticas do mundo, à dignidade da pessoa humana como valor moral inegociável, e ao mistério da vida, da sua vida, que é também um pouco a nossa.
O livro de sombras de Luciano Figueiredo
Antonio Cicero
1
Para onde vou, de onde vim?
Não sei se me acho ou me extravio.
Ariadne não fia o seu fio
à frente, mas sim atrás de mim.
Não será a saída um desvio
e o caminho o verdadeiro fim ?
2
Não é hora de regressos
Não é hora
3
É certo que me perco em sombras
e que, isolado em minha ilha,
já não me atingem as notícias
dos jornais a falar de bolsas,
modas, cidades que soçobram,
crimes, imitações da vida
ou da morte televisiva,
quadrilhas, teias penelópicas
de horrores ou de maravilhas
que dia a dia se desfiam
e fiam sem princípio ou fim
novíssimas novas artísticas,
científicas, estatísticas…
E há na noite quente um jasmim.
4
É aqui, mais real que as notícias, na própria
matéria, na dobradura de uma folha
em que se refolha este meu coração
babilônico, na configuração
da mancha gráfica sobre a tessitura
do papel tensionado, ou onde se apura
o lusco- fusco produzido por linhas
e entrelinhas, entre o preto e o branco e o cinza,
onde cada ideia, cada ponto e vírgula
dos trabalhos e das noites se confunde
com miríades de pontos de retícula
e meios-tons de clichês, entre o passado
que jamais está passado e alguns volumes,
linhas e planos apenas esboçados,
que súbito os elementos mais dispersos
se articulam, claro-escuro filme negro,
entre a pura matemática, o acaso
e a arte (esta árvore já foi vestido
de mulher) onde o delírio é mais preciso,
transparece o meu jornal imaginário.
5
Para onde vou, de onde vim?
Não sei se me acho ou me extravio.
Ariadne não fia o seu fio
à frente, mas sim atrás de mim.
Não será a saída um desvio
E o caminho o verdadeiro fim?

Marcos Lacerda
Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia – UFPel e livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades. Doutorado em Sociologia pelo IESP/UERJ (2011-2015). Foi Diretor do Centro da Música da Funarte / Ministério da Cultura, responsável pelas políticas públicas para a música no Brasil, entre maio de 2015 e março de 2017. Autor de “A sociedade das tecnociências: Introdução à obra de Hermínio Martins” (Ateliê de Humanidades, 2020) e organizador, com André Magnelli, de “Sociologia das tecnociências contemporâneas” (Ateliê de Humanidades, 2020).
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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