Fios do Tempo. Kaló taxídi, Rita Codá! (1952-2024) – por André Magnelli

Neste 08 de abril, nós nos despedimos da querida amiga e admirável colega Rita Codá.

Escrevi numa pena só este texto epidíctico em sua homenagem. Feito em memória, de coração.

Como sei que Rita adoraria uma expressão grega como despedida, intitulo-o, com um tom de humor grego: “Kaló taxídi [Boa viagem], Rita Codá!”.

André Magnelli

Fios do Tempo, 08 de abril de 2024


Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial



Kaló taxídi, Rita Codá!

(1952-2024)

A helenista e humanista alagoana Rita Codá era uma rara potência intelectual. Seu caráter vulcânico se manteve até os últimos instantes, mas o coração decidiu se interromper por capricho, contrariando a vontade do espírito por perseverar.

Ela amava as letras e, em especial, os gregos. Possuía uma paixão pela cultura clássica, mas também se encantava pela Grécia atual, um país que, para ela, emana ainda, no mais sutil cotidiano, os traços de um passado glorioso pleno de dádivas à humanidade.

Rita repetia sempre que os gregos amavam profundamente a vida, e que por isso sabiam morrer de forma boa e bela. Eles lamentavam a finitude e apelavam aos deuses clamando pela eternidade; contudo, jamais perdiam a potência das palavras, o sentido das ideias e a alegria por terem existido. Sabiam, por isso, se despedir da finitude com sabedoria e bom humor.

Ela expressava desse modo os motivos pelos quais dedicou toda a vida a uma amizade íntima com eles. Como não amar um povo que tocou a raiz do humano e soube ser universal? Como não se apaixonar por esses homens e mulheres que transformaram suas brevíssimas existências em obras de arte e sabedoria cujas probabilidades nos surpreendem até hoje? Como não ser grato por todos esses acervos inesgotáveis de sentidos e fontes permanentes de criações? E como não lamentar que, com certa idiotia, desprezamos nos apoiar sobre os ombros desses gigantes?

*

Helenofílica, Rita tinha um profundo conhecimento da Grécia arcaica e clássica e de literatura greco-cristã; erudita, trafegava com segurança pelas humanidades modernas. Suas aulas eram uma profusão de ideias e palavras, associadas com velocidade e reiteradas com constância, movidas por uma paixão ansiosa que visava transmitir o que tinha acumulado, tentando nos convencer a seguir com um legado que transmitia com amor.

Quando a escutava, eu tinha uma consciência trágica do caráter precário daquela força idiossincrática com o qual me deparava. Toda aquela erudição classicista, tão rara no Brasil e até na Europa do nosso século, estava destinada a se esvair juntamente com o corpo. Certamente, Rita escreveu artigos e livros, como o Epitáfios gregos, defendeu uma tese e fez a tradução de Exortação aos Gregos, de Clemente de Alexandria. Mas muito pouco do que a sua mente prodigiosa acumulara foi materializado em signos escritos.

Tendo lutado recentemente contra um câncer, Rita e eu sabíamos, sem que isso fosse dito, que Cronos havia anunciado sua força devoradora. Felizmente, atentos a Kairós, tivemos uma sintonia espontânea quando, egressos da Faculdade de São Bento do Rio de Janeiro (FSB-RJ), da qual fomos professores, passamos a promover os cursos de Rita pelo Ateliê de Humanidades. Sentindo-me honrado pela oportunidade do destino, busquei apenas proporcionar um espaço institucional para que ela lecionasse o que sabia, tratando de teatro (O teatro grego: do mito à política), romance (Romance Grego: o surgimento do gênero romanesco na Grécia Imperial), epitáfios (O apelo à eternidade: outro olhar sobre os epitáfios gregos) e retórica (Retórica clássica). 

Era difícil disfarçar a decepção com o baixo interesse do público por saberes tão preciosos. Por essa razão, ela não se animou muito em dar alguns cursos sobre o qual conversamos e não vieram à luz: Poesia grega (Homero e Hesíodo) e Paideia grega. Estando consciente de que seus saberes despertavam o interesse de poucos, e de cada vez menos, Rita não deixava de ter a expectativa de um impacto mais amplo, pois, sendo educadora, almejava uma formação humana. De todo modo, consegui parte do que desejava: registrar algumas das suas palavras para a posteridade. São esses cursos agora, junto com as memórias de alunos e colegas, que conterão a parte mais rica do que ela nos deixou como estudiosa. Ora, não haveria, também aí, algo de bem grego, tratando-se de uma posteridade feita na oratória e transmitida por memória oral?

*

O curso de retórica que Rita lecionou no Ateliê de Humanidades foi parte de um Ciclo: ela ficou com a retórica clássica, e eu com a retórica medieval, moderna e contemporânea. 

Recordar isso me faz lembrar de como a conheci. Lá por 2012, eu propus um curso de extensão sobre A Nova Retórica de Chaïm Perelman na FSB-RJ. Na véspera, fui informado pela coordenação, com certo tom de espanto, que a professora Rita Codá tinha se inscrito e o faria como aluna.

Só percebi depois a responsabilidade que tive sobre os ombros aos 31 anos: ter uma aluna do quilate de Rita. Começamos a travar conhecimento a partir de então, compartilhando os interesses comuns e cogitando, tão logo terminado o curso, a possibilidade de lecionarmos juntos a história da retórica. Quis o destino que só realizássemos isso após uma década, dentro do Ateliê de Humanidades, nascido de uma epifania no início de 2017.

Não foi a primeira vez, e nem será a última, em que reitero a experiência de que os intelectuais mais capacitados não temem os colegas e são os mais humildes e voluntariosos no compartilhamento de conhecimento.

*

Nas últimas semanas, estávamos conversando, Rita e eu, sobre projetos editoriais. Rita queria republicar Pontal da Barra: nossa terra e nossa gente, livro que escreveu em comemoração ao bicentenário da sua cidade, Maceió. Além disso, ela tinha acabado de terminar a tradução das cartas do poeta e pensador grego Níkosz Kazantzákis. Desde que propôs a publicação ao Ateliê de Humanidades, com um sentido de urgência que às vezes parecia excessivo, tivemos diálogos por whatsapp e algumas conversas telefônicas. Cheguei a entrar em contato há alguns dias, sem sucesso, com uma editora grega em busca dos direitos autorais. Tudo indica que será um saga, mas tentaremos, esperando que as dificuldades não sejam em patamares homéricos!

Na nossa última conversa telefônica, realizada no início de uma madrugada, pude escutar velhas e novas histórias sobre sua viagem à Grécia e seus amigos gregos. Sem saber, eu estava tendo a honra de escutar, pela última vez, os relatos em viva voz sobre a força da tradição grega, os rituais de casamento, os costumes de vizinhança, os tipos de caráter, os monumentos históricos, os autores clássicos, dentre outras coisas, até mesmo uma história pitoresca do encontro casual com uma viúva grega, que só falava a língua natal, vivendo em solidão, incompreendida por vizinhos numa moradia popular em Nova Iorque.

Tudo o que Rita queria era recuperar a saúde física para realizar uma última viagem à Grécia, a terra do seu coração, porque embebida em espírito. 

Tragicamente, essa não foi a vontade dos deuses.

*

Rita Codá tinha origem popular, com marcada ascendência negra. Reconhecia-se como parda e mestiça, tal como era. Tinha um repúdio instintivo por toda tentativa de circunscrever o humano nas fronteiras da nação, raça, gênero, religião. 

Contou-me indignada que teve que prestar esclarecimentos na coordenação de uma faculdade porque ensinava Homero, autor que, segundo uma denunciante, seria de extrema direita, branco e racista. Não precisava escutar as críticas gerais sobre o patriarcado porque conhecia profundamente a história grega e romana, incluindo os problemas de gênero, mas se negava a uma história simplista, reducionista, chapada. Erguia-se de imediato, dizendo que a mulher grega era muito mais potente do que se diz, que o que os homens gregos diziam sobre as mulheres era apenas a expressão do temor pela força existente e praticada por elas na sociedade. E, assim, mais uma vez,  a paixão pelos gregos – incluindo as gregas – era um espelho de si mesma. Lembro agora, inclusive, que um dos cursos que ela pensou em dar, mas desistiu, foi sobre as Mulheres na Grécia Clássica

Rita sonhava com um país mais culto, mais amigo dos saberes, mais afeito às letras. Um país cheio de poetas, escritores, oradores, herois. Uma epopeia tecida em palavras com densidade própria. Por que não uma nova paideia, que saiba erguer-se nos clássicos com um sentido contemporâneo? Esse poderia ser o projeto educacional de Rita, caso ela tivesse se dedicado à ação política.

Algumas de suas posições poderiam ser enquadradas como de “direita” ou “conservadoras”. Ora pois, ela repudiava esses encaixotamentos e afirmava, repetidamente, que não era nem de direita nem de esquerda, mas uma mulher livre, um ser humano com liberdade para ser, pensar e agir. A forma como lia os clássicos tinha essa característica singular: embora tivesse certa devoção classicista, ela afirmava a honra de se apropriar de textos clássicos sem pudores, fazendo uso da sua capacidade de pensá-los por conta própria, recusando os mecanismos de defesa tão típicos da academia, que se escondem atrás dos comentadores e reputações.

Em essência, isso se explica porque Rita Codá era uma humanista que não admitia desprover cada ser humano de uma individualidade moral e espiritual; e tampouco denegava a potência criadora da qual o cultivo individual é capaz. 

Uma demonstração do humanismo de Rita está em que, mesmo tendo uma posição anti-comunista, ela dedicou o último ano da vida à tradução das cartas de Níkosz Kazantzákis, nas quais são reveladas, com nitidez, as crenças comunistas do poeta e filósofo grego. Ao me contar sobre as perseguições que ele sofreu e a dissimulação que precisou fazer para se proteger, ela mostrava uma admiração ainda maior por este homem, lamentando que tenha sofrido tais coisas sendo o que era: um ser humano de potência criadora, um pensador que deveria expressar-se com liberdade.

O que unia Rita Codá a Níkosz Kazantzákis? Além do fio milenar da cultura grega desde as origens até o século XX, encontramos um amor comum pela humanidade, uma certa comunhão universal de espíritos propiciada pelo mundo das letras. 

Isso é bem expresso no belo epitáfio de Kazantzákis, que podemos considerar agora também como de Rita:

“Espero por nada. Não temo nada.
Estou livre.”
(Δεν ελπίζω τίποτα. Δε φοβούμαι τίποτα.
Είμαι λέφτερος.)

*

Não acredito que Rita Codá tenha escrito um epitáfio a ser posto em sua sepultura. É que ela estava entregue de forma muito confiante à vida. Penso, todavia, que ela ficaria muito satisfeita com o epigrama de Kazantzákis, seu interlocutor último.

Para concluir, gostaria de deixar mais dois epigramas, de Calímaco de Cirene, sobre os quais ela dissertou no nosso curso sobre O apelo à eternidade: outro olhar sobre os epitáfios gregos

Lembro deles porque ela amaria deixar, com um bom humor grego, uma mensagem aos corações maus; e consideraria justo legar uma esperança póstuma pelos homens e mulheres de bem:

Não me fales em saudação, coração mau;
ao contrário, passa adiante!
a tua não-aproximação é igualmente,
para mim, uma saudação. 
(Calímaco de Cirene, Epigrama III)

Aqui, Saón de Acanto, filho de Dícon,
dorme um sono sagrado;
não digas que os homens de bem morrem. 
(Calímaco de Cirene, Epigrama IX)

ANDRÉ MAGNELLI é idealizador, realizador e diretor da instituição de livre estudo, pesquisa, escrita e formação Ateliê de Humanidades (ateliedehumanidades.com). 
 Sociólogo, professor, pesquisador, editor, tradutor, mediador cultural e empreendedor civil/público. É editor do Ateliê de Humanidades Editorial e do podcast República de Ideias. É editor da tribuna Fios do Tempo: análises do  presente. É curador do Ciclo de Humanidades: ideias e debates em filosofia e ciências sociais, co-organizado com o Consulado da França no Rio de Janeiro. Pesquisa na interface de teoria social, tecnociências & sociedade, sociologia histórica do político, teoria antropológica, ética, filosofia política e retórica.

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chave: direcao.ateliedehumanidades@gmail.com

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