Fios do Tempo. Religiosos que matam Deus: pode o sagrado ser encaixotado? – por Wellington Freitas

Depois dos artigos de Nelson Lellis sobre a antiética evangélica e a distração do capitalismo e de Fábio Costa sobre religião como religare ou relegere, chegamos ao ensaio de Wellington Freitas sobre a natureza do sagrado e sobre os “religiosos” que matam Deus ao encaixotá-lo. Nele, Wellington faz não apenas uma reflexão crítica sobre a religiosidade nas sociedades contemporâneas, como também faz uma importante retomada do conceito de sagrado e das formas de experienciá-lo, percorrendo autores como Rudolf Otto, Kierkegaard e Schleiermacher.

Os três textos possuem diálogos entre si, com complementaridades e divergências, tanto em relação à compreensão da natureza do religioso quanto também no entendimento do que ocorre com as religiões contemporâneas. E é assim, no espírito da reflexão substantiva e no dissenso produtivo, que podemos efetivamente colaborar para o esclarecimento do debate público.

Acompanhe-nos! Desejamos, como sempre, uma excelente leitura.

A. M.
Fios do tempo, 16 de setembro de 2020



Religiosos que matam Deus: 
pode o sagrado  ser encaixotado?

O que é o sagrado?

O que é o Eterno senão aquilo que não se vê e é incompreensível, sendo assim facilmente desacreditado pela sociedade hodierna? Fala-se demais da sua grandiosidade e beleza, porém és imensurável e inefável.

A relação do humano com o sagrado pode se dar de distintos modos, podendo-se distinguir, de forma geral, o modo ocidental e oriental. O religioso ocidental é bastante catafático, quer dizer, tem um olhar teológico positivo naquilo que é belo na história e na cultura que o circunda, correlacionando-as ao potencial de abstração com o sagrado, mesmo que este divino se revele, linguisticamente, imensurável. Pela via oriental cristã nota-se a percepção do apofático: a negação daquilo que o divino não é. Exemplo, o sagrado não é ódio, nem assassino, e nunca é impiedoso. Jamais há afirmação do Eterno a não ser negar aquilo que ele não é. Ratificá-lo em nosso campo de significados é um risco ao erro. Em outras palavras, evita-se expor o Santíssimo ao cognoscível, sendo sinal de reverência não limitá-lo ao nosso entendimento.

Sem sombra de dúvida, é um absurdo a crença num miraculoso porque foge à razão humana. Mas só com a ausência da razão – sem jamais perdê-la ou desorientá-la – é possível a sensação supra-racional da relação com divino. A fé no sagrado excede o entendimento, indo para além das convenções sociais ou dos conteúdos racionalistas do pensamento. Desde as experiências primitivas, o ato de pensar é um tipo de infraestrutura organizacional do religioso que auxilia a espiritualidade intangível à razão. O cerne da experiência com o sagrado não é rigorosamente definível e torna-se consciente segundo a exposição da própria psiquê de quem a vivenciou, daí a limitação e o fato de ser visto como apenas aparente, subjetivo e discutível. Nesta perspectiva, a sensação (por ser subjetiva e ímpar) tem maior profundidade do que apenas um sentir, porque ela não advém apenas dos sensoriais externos que a estimule, mas é algo sui generis, uma pulsão interna inteligente que vem antes da consciência. Como diz Rudolf Otto, autor do clássico O Sagrado: os aspectos irracionais na noção do divino e sua relação com o racional (1917), ele é o numinoso – o santo / o sagrado interventor no espírito humano –, sem ter, inicialmente, qualquer relação com estados de embevecimento moral. Por isso, a ideia com questionamento ético é posterior à experiência do numinoso. Deste modo, para Otto, a mística ultrapassa o psíquico, isto é, está para além do intelectivo, encontrando-se no suprarracional. Portanto, a esfera do santo está lá onde ninguém pode descrever ou explicar, nem os teólogos nem os cientistas sociais, nem os neurocientistas, nem os psicólogos, nem os psicanalistas e nem quaisquer outras especialidades.

Esta sensação é traduzida também por sentimento, entretanto não é uma mera emoção do senso comum. Quer se referir tal qual a percepção intuitiva do numinoso – e é por este caminho que o presente texto eleva o tom do termo sensação como melhor expressão para pintar a experiência da dependência humana em relação ao eterno. Todavia, dessa mística da nulidade do eu para a ratificação do sagrado, cria-se o sentimento de criaturidade (que se afunda e desvanece) diante do criador-absoluto, aquele acima de toda criatura. Vale ressaltar que esta qualidade de poder avassalador, que é restrito ao campo religioso, foge ao âmbito da racionalidade – ela é inefável; desencadeada na psiquê por uma experiência passada por alguém. De fato, é uma subjetividade, porque é essa sensação de dependência que é empírica e pressupõe uma superioridade externa a ele e inacessível afetando o âmago do homem. A despeito dessa inteligência espantosa, ela, o numinoso que age em nós, pode atuar no imaginário antes de operar no cognoscível. Neste sentido, Rudolf Otto é visceral ao declarar que somente aqueles que ainda creem e possuem vestígios da sensação religiosa, ou de sentimento de criaturidade, são capazes de compreender o que emana antes do intelectivo, caso contrário perceberão apenas a estética, em outras palavras: a casca da religião.

Antes de Otto trabalhar com teoria da criaturidade e de algumas pessoas perderem essa sensação a partir do racionalismo, o teólogo Friedrich Schleiermacher (1768-1834) abordava que a essência da religião não se encontra em dogmas, rituais e formalidades de igreja, mas, sim, em um elemento fundamental, a sensação de ficar completamente dependente de alguma coisa infinita que se manifesta nas coisas e pelas coisas finitas – e essa sensação não se comprova na razão, mas numa consciência íntima profunda da qual toda humanidade tem e sequer precisa de uma tradição ou ortodoxia. Tal experiência universal: “é a consciência distintamente humana de infinito, além do próprio eu, da qual ele depende para tudo”. Teologicamente, é a consciência de Deus que o homem possui. Isto é, o que existe é um senso interior profundo de uma relação de absoluta dependência de Deus. O que se pode dizer desta sensação, quaisquer indivíduos têm abertura para o sagrado já que possui essa consciência experimental como parte do seu religioso a priori, que não é particular e sim intrínseco à própria natureza humana.

Tanto aqueles ligados ao movimento romântico quanto ao iluminismo admiraram a sistemática teológica de Schleiermacher como uma possibilidade de enxergar o infinito sem a rédea curta doutrinária do protestantismo e do catolicismo, nem a necessidade de mergulhar em credos cujos argumentos são frágeis à época. O teólogo mostrou, para os intelectuais, a via de conectar-se ou encontrar-se com a religiosidade existente dentro de cada um – é um convite à descoberta do vínculo com o infinito que já contém dentro deles, isto – sendo a consciência de dependência chamada, por vezes, por Friedrich Schleiermacher de piedade.

Em relação ao cristianismo, KierKegaard (1813-1855) afirma que se fosse apenas uma doutrina não precisaria de fé para se relacionar. A doutrina só se dá no plano intelectual, e é por isto que o filósofo complementa que o cristianismo como instituição vacila porque a fé é deslocada ao domínio da intelectualidade. Para ele, Deus pode ser visto numa abordagem objetiva, onde o cristianismo e sua divindade são analisados conforme ao fato histórico sem paixão ou efervescência espiritual; numa análise fria filosófica ou científica. Na verdade, os fenômenos religiosos são realidades de experiências afetivas dos indivíduos que requerem uma apropriação interna, sendo portanto um risco intelectual. Isso quer dizer que, para ele, é um absurdo fazer confusão entre as verdades: objetiva e subjetiva.

Religiosos que matam Deus: o encaixotamento do sagrado

Deus é o que o religioso projeta na verbalização e em seu comportamento social. Apesar de sê-lo único – enfim absoluto – as lentes do observador, a partir da cultura, dão contornos formando uma aquarela espiritual da divinização. A mística, a experiência com o eterno, difere de um indivíduo para outro, e isto vale para os grupos religiosos. Não há cristianismo no singular, mas no plural: cristianismos, pois, geograficamente, temos alternância teológica e sociocultural até quando é da mesma instituição. Portanto o Sagrado é, na verdade, o que o fiel tem sido eticamente.

Estudando a religião, tem-se a noção de que o santo ultrapassa o conhecimento humano, entretanto, como um sufixo, ele, o sagrado, cai ou serve pragmaticamente na esfera da moralização social definindo-o por uma atitude de bem. O próprio divino acaba sendo normatizado conforme o padrão da sociedade vigente. É neste sentido que devemos atentar para o fato de que Deus simplesmente é o que é – e ponto final –, mas se torna inteligível de forma afirmativa ou negativa conforme a vivência da relação de dependência do homem com este soberano.

Contudo, o religioso contemporâneo habituou a reduzir as hostes celestiais a uma condição personalista – conforme seu modo de pensar e agir, sem avaliar o coletivo. Ocorre assim a passagem a um tipo de hedonismo do qual o sagrado é humanizado para se negociar. Este modo de experiência com o divino  é um fruto do antropocentrismo de uma sociedade egoísta e etnocêntrica. Nesta relação, Deus é predicado enquanto o homem se torna um sujeito, já que o humano é a única existência sensível e coerente para a sociedade atual. E, nessa lógica, que é bastante insultuoso à esfera da fé, caso não houvesse o sujeito – que nesta circunstância é o homem – não existiria o predicado. Com efeito, isso significa não haver o Divino, porque ele é consequência antropológica da produção da mente humana. Assim, a ausência do homem significa a anulação do sujeito em si, daí, também, o sagrado se encontra diluído como predicação ou produto humanos.

É curioso notar que o pioneiro na demonstração do estudo existencialista do sujeito foi, como se sabe, Ludwig Feuerbach (1804-1972), que estabeleceu uma visão antropocêntrica do divino como fruto da imaginação e do sentimento humanos. Contudo, esta predicação do divino não se faz mais hoje pela via “materialista” dos filósofos alemães, que se baseavam em um ideal de liberdade emancipadora; agora, o sagrado se banaliza pura e simplesmente pela lógica da sociedade de consumo. Portanto, ao relembrarmos a dimensão humana da experiência do divino, não se trata aqui de matar Deus, até porque esta é uma causa impossível, mas sim de ressaltar como os próprios “religiosos” contemporâneos têm levado a imagem do Absoluto a simples desejo e vontade personalistas, projetando um deus narcisista, mesquinho, fascista, genocida, mentiroso e estigmatizador; um Deus bélico, geopolítico e fronteiriço; um Deus consumista, do toma-lá-dá-cá e simples doador de bens materiais. Ou seja, trata-se de perceber que estes religiosos matam Deus.

Parece que o céu – o paraíso – se torna a sociedade de consumo invertida. Portanto, deste “sobrenatural” não advém a misericórdia e a graça, mas a espada e a lei endurecedora, a ponto de o Evangelho bíblico tornar-se um escândalo por sê-lo praticado numa sociedade cujo sentimento e sensação – o clima social – é de desumanidade. Para esses profanadores do sagrado, praticar gestos saudáveis ensinados por Jesus Cristo, como ajudar e amar o próximo ou inclusão social ao marginalizado, é coisa de comunista que não pertence à mesma identidade de pertença deles.

O Evangelho já foi divulgado e permanece a partir de nós. Mas um dos maiores “milagres” hoje é projetar um Deus admirável até por ateísta desprovido de qualquer espiritualidade. Todavia, quando se lê os próprios evangelhos, até mesmo um não religioso com sensibilidade ética e espiritual perceberá que o conteúdo é mais libertador e salutar à vida social do que o discurso de religiosos que engaiolam os fiéis encaixotando o sagrado

Para se experienciar o sagrado – do mundo bíblico –, é necessário exercer um olhar arqueológico de distanciamento sociocultural e temporal em relação ao mundo que vivemos. Ver o Evangelho de modo filosófico e praticá-lo eticamente é algo bom, mas existem usurpadores que recorrem à leitura do evangelho e, sem compaixão, misericórdia e graça, o utilizam para suas próprias benesses no campo religioso e político. E, por vezes, é assim que a sociedade vem assistindo à atuação do divino, já que não dá para descrevê-lo em totalidade pois foge, como dissemos, à nossa capacidade racional.

Lembremos que João ensinava que ninguém nunca viu a Deus, que Ele é invisível e é amor. Quem não tem amor pelo próximo a quem se vê com certeza não ama Deus, pois Deus é amor (1 João 4. 8-20) É isto que os religiosos precisam apresentar à sociedade contemporânea: a ética do amor, da paz e da justiça. Não a desigualdade, a intolerância, o jeitinho brasileiro, a malandragem, a incitação à força e a violência. Ao encaixotar o Sagrado no etnocentrismo bélico-consumista, serão estes “religiosos” embaixadores e arautos de Deus, ou trabalham eles por Sua morte impossível?

Wellington Freitas é livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades e pastor evangélico, especialista em Ciências da Religião. É Também fundador do projeto ESTECI – Escola Cristã de Teologia e Ciências da Religião.


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