Fios do Tempo. É possível ver em Jesus um negro, e em cada negro violentamente injustiçado, Jesus – por Wellington Freitas

O Fios do Tempo traz hoje um forte texto de Wellington Freitas sobre o racismo no Brasil, que está presente em nossa tradição e é expresso também nas nossas religiões, de ontem e de hoje, em suas distintas formas de necroteologias. Encontramos aqui uma reflexão sobre o racismo que foi escrita em carne e sangue, expondo nossas fraturas histórias e religiosas mas indo além disso, pois se propõe igualmente a “ortopatizar” nosso cristianismo de forma a se guiar efetivamente pelo que o Messias disse e foi. Quando interpretamos o sentimento correto de Deus observado na humanidade do Nazareno, é-nos revelado em Jesus um negro e em cada negro violentamente injustificado, Jesus.

Temos o prazer de dialogar estas reflexões com algumas obras do artista franco-pernambucano Sérgio Bello, trazendo três telas de sua exposição Os Gritos dos Povos e também breves comentários do artista a este texto e ao contexto contemporâneo.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura, ou escuta.

A. M.
Fios do Tempo, 08 de junho de 2020




É possível ver em Jesus
um negro, 
e em cada negro violentamente injustiçado,
Jesus
.

Nova Iguaçu, 07 de junho de 2020

A cordialidade oferecida ao negro, referente ao modo de tratá-lo no cotidiano, pode ser expressa pelas penas do Sérgio Buarque de Holanda, na qual a educação amigável e invasiva – do “jeitinho brasileiro” – oculta a malandragem por detrás de uma boníssima “recepção interesseira”. Isto leva à prática de brincadeira ofensiva, aqui e acolá, e daí esconde-se no discurso dos críticos do “politicamente correto”. Nunca se deve ter vista grossa e fingir desperceber o racismo.

A truculência das instituições político-jurídicas por causa do tom da pele é um fato corriqueiro e é, sem dúvida, retroativa a séculos atrás, quando a escravidão negra se pautava na ética, com uma teologia justificando-a. Tais momentos de estética e ethos europeizados não desapareceram, pois estão presentificados nos discursos institucionais que formam a sociedade. “Pelo caminhar da carruagem”, a sombra do Brasil Colônia e do Império é “gigante pela própria natureza” e o espectro impede uma melhor civilidade. O cidadão negro é impelido a vivenciá-lo por uma lente real, porém é sempre observado por uma ótica virtual.

Recepcionar bem a empregada, trocar carícia e apelido carinhoso… Talvez seja a cordialidade desse país, tratá-la como de casa – só que não. São lugares diferentes onde os cachorros, da patroa, têm melhor tratamento e vigilância do que humanos, de peles negras. Enquanto a empregada cuida dos seus animais, confia o seu filhinho, uma criança negra, à madame, e por descuido da patroa, o menino cai do prédio e morre. Noutro caso, o jovem de 14 anos, João Pedro, brincava em casa com os primos, e, numa operação policial, é morto. Já a menina Ágatha, de 8 anos, voltando para casa foi alvejada pelo poder do Estado através do confronto policial. 

Na geografia invisível – da sociedade urbana – sofre mais aquele no qual fenótipo carrega em si os estigmas sociais do negro. É uma evocação de Cesare Lombroso, higienista e precursor da antropologia criminal na qual indícios de quaisquer delitos estavam mais suscetíveis nos traços corporais robustos (mais grossos). A partir dos estudos de Lombroso, autoridades, por exemplo, como os policiais, para manter a lei e a ordem, não podiam ver na rua negros e nem outras pessoas fora da tipificação afilada europeia. Saiu do adelgaçado modelo: todos são suspeitos suscetíveis à delinquência e à imoralidade sexual. O branco sempre potencialmente justo, candidato a santo.

Jesus, um negro

Jesus, construtor civil e agricultor de subsistência. Tinha o sol escaldante que lhe marcava a pele, revelando-o para as estirpes sociais elevadas, de Jerusalém, como subalterno. A fisionomia, os traços dele, do Nazareno, foge à realidade quando construída pelos europeus com base na realeza francesa – uma normatização de etiqueta e estética, vide o quadro de Luís XIV, onde o estilo de pintura supervaloriza a imagem greco-romana em detrimento das demais. Trata-se de uma deformidade abrupta do Galileu, já que é dada a Jesus toques ou requintes nobres com ar feminino. Isso é um deslocamento, um anacronismo. Um deslocamento imperializado-determinista, do qual uma outra releitura causa sempre espanto e discussão.

Jesus, ainda bebê, experimentou exílio no Egito. Por sua família ser pobre, de trabalho braçal e com característica identitária semelhante aos grupos operários egípcios (e, possivelmente, à de gente de outros locais instalada ali) não foi difícil camuflar-se. Assim, desde recém-nascido, o Messias é foragido da tirania de Herodes que governava para Roma.

Retornando do exílio, Jesus e a família estabeleceram-se na Galileia – uma região empobrecida e desprestigiada pelos citadinos religiosos-políticos-eruditos e pelos grandes comerciantes de Jerusalém: que eram os ditos defensores da moral, pelo menos, visivelmente. Nesta localidade, tem o minúsculo vilarejo chamado Nazaré, do qual fizeram moradia.

O ministério – a pregação – do Nazareno contrariava os fariseus, os saduceus e os escribas. Tais indivíduos alojavam-se no Sinédrio para tomar decisões conjunturais. É bom lembrar que, na estrutura judaica, diferente da greco-romana, não há distinção no campo da lei: tudo emana do divino. Durante a dominação do Império romano sobre a Palestina, o Sinédrio, sendo uma instituição religiosa, jurídica, política, econômica e administrativa, tornou-se um braço de Roma.

Jesus, da Galileia, sofreu dores da perseguição. Confiou em alguém e foi traído. Sendo cria de comunidade pobre, como todo jovem, de uma zona empobrecida e estigmatizada, leva-se a crer que sequer ele terminou os estudos, pois ajudava no sustento da família. Foi desacreditado por remar na contramão da desigualdade; por denunciar os infernos e a corrupção advindos dos religiosos. O Nazareno sofreu julgamento ilegal. Humilharam e esbofetearam, até expô-lo numa cruz romana e matá-lo. O seu próprio povo o lançou, mediante ao Sinédrio, às mãos dos opressores romanos.

Lendo os Evangelhos e vendo o nosso mundo à luz da Palavra, em cada humilhação, xingamento, porrada, tortura, gemido e asfixia, é possível ver em Jesus um negro, e em cada negro violentamente injustiçado, Jesus. É a força e a violência de um Estado sobre um corpo criado em vielas numa região pobre – onde as políticas públicas não funcionam. Um dos soldados perfurou o Nazareno com uma lança quando ele já estava morto. E quantos soldados, no século XXI exalam a mesma desumanidade, perfurando corpos inocentes marcados por estigmas identitários? Quantos negros e negras ao deparar-se com viatura da polícia ‘não engoliram a seco’ com o medo de sofrer abuso de autoridade ou constrangimento por causa do seu modo de se comunicar, por sua forma de construir um discurso divergente ao padrão? Lembre-se, antes de encarar a via dolorosa, Jesus sofreu perseguição, e escondia-se.

Necroteologias

Quantos negros na história realizaram trabalho forçado e apanharam até a morte “sob os desígnios da Providência”?! Torturas justificadas pela teologia e abençoadas pela eclesiologia. Nossa história é atravessada por necroteologias, realizadas “em nome de Jesus, pela reta doutrina ou a santa igreja”.

Isso foi feito tanto pelas igrejas católicas quanto pelas evangélicas, que nutriam as estruturas sociais escravistas nas quais os corpos negros eram sinônimos de objeto e, dependendo da situação, de abjeto.

Hoje setores do catolicismo, do pentecostalismo e do protestantismo histórico servem de aparelhos ideológicos para o governo bolsonarista. Tais grupos teologicamente não “se bicam”. Neste momento, há uma convergência entre eles devido à pauta sociocultural e educacional-ideológica, mas é um casamento de divórcio marcado. Estes religiosos conservadores flertavam com generais na Ditadura Militar e, agora, nada de novo sob o sol com Bolsonaro. Depois que passar a onda, o bloco se dissolverá e novamente os grupos voltarão a se atacar mutuamente. Nas narrativas dos Evangelhos, herodianos e fariseus são grupos rivais que se juntam quando o intuito é atingir o Jesus.

Com o apoio da fé, mesmo hoje não sendo mais “ético” o racismo, mantém-se na superestrutura da sociedade uma maioria de pessoa cuja pigmentação epidérmica não se oriunda da senzala. As instituições, inclui-se aqui a religiosa, principalmente a cristã, engolem as bizarrices mundano-desumanas – vendando-se os olhos – só para apoiar a permanência de uma moral conservadora. Faz-se uma concessão entre a vida pela morte em prol do engessamento sociocultural semelhante aos fariseus.

Em nosso país o cristianismo é um enlatado estadunidense e europeu, fossilizado em seu núcleo. Machismo, racismo, apego à força e violência são fatos sociais combatidos que foram recalcados e que, quando há oportunidade, soltam à periferia mediante o comportamento preconceituoso. O uso do símbolo da fé – a partir duma leitura bíblica – em moldes fideístas também foi usado à época de Hitler por teólogos e pela igreja Luterana; e isso também ocorreu, no Brasil, durante o Golpe Militar. É uma comunicação determinista que encontra abrigo no discurso governamental que vislumbra o autoritarismo. Entretanto, a leitura de qualquer texto, até o inspirado ou científico, pode ser direcionado conforme a ótica do leitor e utilizá-lo a interesses próprios e institucionais. Vale dizer, que, para o cristianismo, só Deus é absoluto – interpretações ou bandeiras teológicas, não o são.

Ortopatizar

À luz da Bíblia, sem um Jesus estranho aos Evangelhos, é impossível admitir um dirigente político que enaltece o genocídio. As Boas Novas produzem regeneração, arrependimento, o cuidado com o sujeito, quero dizer, a ortopatia – que é o sentimento correto de Deus observado na humanidade do Nazareno.

O Reino apresentado por Jesus gera vida e não a morte; não o racismo; não a misoginia; não a homofobia; e tampouco é contraditório ao amor. Pelo que parece, a teologização histórico-tradicional sobre o cenário político atual é, de um lado, cega, surda e  muda para denunciar a truculência policial com os estigmatizados – principalmente os negros – e, de outro, ela ratifica esta mesma necropolítica ao expor-se em gesto silencioso (que também é um ato de comunicar).

Teólogos e pastores da linha conservadora, como cidadãos, ridicularizavam os seus pares que estavam lotados na gestão petista, dizendo que a postura destes pastores cooptados pelos poderes políticos era inconcebível. Cuspiram para o alto. Agora, eles agem com discrição no governo bolsonarista. Essa ala evangélica histórico-tradicional tem uma cosmovisão determinista. E para implantá-la, faz concessão ao abuso da força e da violência do Estado que, normalmente, escolhe a tonalidade da pele.

Em suas instituições, há negros, mas já emaranhados no discurso do púlpito, sendo tratados com cordialidade por serem adeptos da ortodoxia. Enquanto que os de fora da instituição e marginalizados – aqueles com quem, na Bíblia, Jesus preferiu caminhar e se pôs a ensinar –, quando recebem um projétil ou sofrem com um discurso ofensivo, são vistos como fazendo parte dos Eternos Decretos de Deus? A justificativa pseudo-teológica é uma imoralidade racista, machista e xenófoba, recalcada, tendo, por vezes, no corpo teológico lacunas supridas por ações sociais desumanas.

Com a fim da Colônia, o Brasil Império permaneceu com a escravidão até 1888. Acaba o Império e temos a República tendo por base a sociedade estadunidense – os brancos de outrora permaneceram no poder e os negros à margem. A religião, apesar de influenciar, é construída pela sociedade e teve que também adaptar-se a uma nova exegese não escravocrata; todavia, neste processo de transição, o racismo ficou velado e toma as ruas quando o discurso se concretiza com a morte daqueles que nasceram negros. Cada ato de injustiça é como uma reprodução do Nazareno, de pele azeitonada, sendo esbofeteado e sangrando até expirar.


Comentários de Sérgio Bello

Os gritos em silêncio que estão estampados mas minhas telas de série intitulada “Gritos dos Povos” : são os gritos do Martin Luther King de outrora e do Georges Floyd de agora…
Black Lives Matter !

A sinergia entre o texto do Wellington e as minhas pinturas é como um eco bem lógico… Juntos seremos mais repercutantes !

Sérgio Bello.
Paris, 08.06.2020.


Wellington Freitas é livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades, formado em comunicação pela PUC-RJ e licenciado em filosofia. É teólogo e possui pós-graduação em Ciências da Religião. Atua também como pastor evangélico, sendo idealizador da ESTECI  – Escola Cristã de Teologia e Ciências da Religião, que tem a missão de formação religiosa, moral e intelectual de jovens em comunidade popular de Nova Iguaçu.


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