Fios do Tempo. A democracia ameaçada – por Elimar Pinheiro do Nascimento

Hoje, Dia Mundial do Meio Ambiente, está sendo realizado mais um debate do ciclo Veredas para o Futuro, promovido pelo Centro do Desenvolvimento Sustentável (CDS). Nesta manhã, tivemos a mesa O Mundo Pós Covid-19, com a participação de Edgar Morin, Alfredo Pena-Vega e Cristovam Buarque. Agora à tarde, teremos a palestra Um Mundo de Riscos e Desafios: Sustentabilidade, Democracia e Nova Exclusão Social“, com Elimar Pinheiro do Nascimento (CDS/UnB).

Aproveitando este contexto, o Fios do Tempo traz mais um artigo de Elimar Pinheiro do Nascimento, onde reflete sobre as ameaças clássicas e contemporâneas às nossas democracias, com atenção especial para o entrecruzamento entre a crise da democracia e a crise ambiental. Está nossa democracia ameaçada? Saberá ela se transformar, esquivando-se do atual processo de autodestruição?

Desejemos uma excelente leitura. Logo disponibilizaremos um áudio-leitura para a escuta!

A. M.
Fios do Tempo, 05 de junho de 2020




A democracia ameaçada

Brasília, 13 de maio de 2020

Após o encerramento da Segunda Guerra Mundial, em que os países democráticos, juntamente com Stalin na URSS, foram vitoriosos, ocorreu uma expansão da democracia em três ondas, segundo Huntington (1994). A primeira, com a transformação dos países do eixo e aliados; a segunda, nos anos 1970/1980, compreendendo países europeus e latino-americanos, Brasil incluído, e, finalmente, a terceira onda, após fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

Essa tendência democrática se exauriu e uma inversão parece se desenhar no mundo. Países com democracia consolidadas sofrem desgastes crescentes, pela emersão de forças autoritárias, e aumenta a desconfiança sobre a eficiência do regime democrático em responder às demandas da população (Levitsky; Ziblatt, 2018).

Estamos em momento similar aos anos 1930, em que o mundo assistiu à ascensão do nazismo e do fascismo? Pergunta pertinente, na medida em que os sinais tradicionais da crise da democracia crescem, porque, aparentemente, as dificuldades de reprodução da democracia saíram do espaço de mudanças no sistema, próprio às transformações da sociedade moderna, para as da reprodução do sistema, típico das situações de crise, como expus alguns anos atrás (Nascimento, 1987).

O artigo traz apontamentos sobre as velhas e, sobretudo, as novas ameaças à democracia.

As velhas, ou clássicas, que ainda persistem, são muito conhecidas e objeto de vasta literatura em ciência política desde o século XIX: Alexis de Tocqueville (2014/1835 e 1840); Maurice Duverger (1954); Giovanni Sartori (1965/1982); Norberto Bobbio (1986/19842); Arend Lijphart (1989/1984).

As novas ameaças surgem nas dobras do século XX ao XXI. Sua lista é longa, mas aqui chama-se atenção apenas para três: a transformação da China em uma referência de sucesso não democrática; os impactos dos processos de inovação tecnológica; e a crise ambiental.

O artigo está dividido em três partes, de tamanhos desiguais, assim denominadas: premissas, assertivas e conclusão.

Premissas

Segundo Edgar Morin (2011), entre outros, o mundo vive uma crise civilizacional expressa em diversas dimensões: econômica, tecnológica, ambiental, política, social, moral e, agora, sanitária. Aparentemente, estamos às vésperas de uma nova civilização, cuja gestação já está em curso e deverá ganhar forma ainda neste século; forma que desconhecemos e que ainda não se pode imaginar. Para os “aceleracionistas”3 será uma civilização da simbiose entre o orgânico e o tecnológico, dando nascimento a uma nova humanidade (Kurzweil, 2018). Nesta tendência há duas trilhas: todos os humanos se transformem ou, o mais provável, apenas alguns. Nesta hipótese, ao invés de uma, teremos duas espécies de humanos, segundo prognósticos de Buarque (1993). Contudo, também é possível que surja uma tendência completamente distinta, e mesmo divergente, em direção a um retorno ao passado, com perda da capacidade humana de se adaptar às mudanças climáticas e extinção biológica, formando-se núcleos de humanos separados, depois do desaparecimento de parte da humanidade. Ou ainda, um terceiro cenário: a inexistência da humanidade, com o avanço da sexta extinção das espécies, ideia que ainda não tem consenso entre os cientistas.

No entanto, os sociólogos em geral, não se interessam por isso. Alguns filósofos e os prospectivistas, sim. Para os sociólogos trata-se de um futuro remoto sobre o qual tudo que dissermos pode estar completamente errado, o que tem respaldo na argumentação de Taleb (2008), para o qual o futuro avança pelas trilhas do “cisne negro”, ou seja, pelo imprevisível. Propositura discutível para Silver (2013), que mostra em seus estudos como determinadas áreas do conhecimento humano ampliaram sua capacidade de previsão (meteorologia), e outras não (economia). Interessa aos cientistas sociais as mudanças que estão ocorrendo, seu significado e tendência; a sociedade que se desenha diante de nós, e como ela se transforma. O que acaba conversando com os prospectivistas.

Assim, o texto se sustenta na premissa de que o mundo tem no momento três grandes desafios, e o futuro dependerá em grande parte da resposta construída para enfrentá-los: a crise ecológica; as mudanças tecnológicas; e a sobrevivência, ou não, da democracia (Nascimento, 2020). Defendemos a hipótese de que entre estas três ameaças, a menos propalada e contundente é a crise ecológica. Ela poderá nos conduzir aos dois últimos cenários supracitados: retorno ao passado e extinção.

Assertivas

As assertivas, deste artigo, estão divididas em três partes igualmente desiguais. A primeira – sob o título de Prolegômenos – estabelece algumas ideias preliminares, sob as quais irá se erguer o raciocínio em torno das novas ameaças à democracia. A segunda parte aborda, de forma sucinta, as velhas ameaças, debatidas desde o século XIX. E a terceira, aborda três das novas ameaças, que surgem neste século.

Primeira parte: Prolegômenos

1. É importante deixar claro, desde o início, a distinção que aqui se faz entre transformação e crise. Transformação ou mudança é distinto de crise: mudança refere-se à passagem de um estado a outro, dentro da lógica e dos parâmetros do sistema social vigente. Trata-se do processo de renovação do sistema social. Crise é a dificuldade do sistema social de se reproduzir, de se adaptar a novos contextos, com risco de ruptura. Do ponto de vista geral há dois tipos de crises: a crise no sistema social, que indica dificuldades do sistema em se reproduzir, e assim aproxima-se do conceito de transformação; e a crise do sistema social, que indica dificuldades que conduzem à ruptura do sistema. Neste caso, sendo substituído, gradativamente, por outro com lógica e valores distintos. Não se trata do velho conceito marxista de revolução. (NASCIMENTO, 1987).

2. A sociedade moderna tem duas diferenças drásticas em relação às sociedades pretéritas: a lógica das mudanças e a noção de igualdade A sociedade moderna é a sociedade da mudança, pois, como dizia Marx, nela, tudo que é sólido desmancha no ar. A outra diferença é a noção de que somos iguais. Se no espaço político-jurídico somos, na sociedade moderna considerados como iguais, no espaço da economia somos vistos como legitimamente desiguais e, na dimensão biológica ou fisiológica, somos todos individualmente diferentes. A igualdade é, portanto, uma invenção humana que distancia enormemente a sociedade moderna das sociedades pretéritas, em que imperava a lógica da desigualdade (CALDEIRA, 2017). Verdade que a igualdade é um ideário e não uma realidade, mas ela orienta as decisões e funda os valores ocidentais mais preciosos.

3. A marca que distingue os tempos atuais reside na velocidade das mudanças, que produz insegurança, ansiedade e angústias. Se Weber (2004) percebeu, no começo do século XX, que o homem moderno vivia marcado pela angústia de sua trajetória não previamente definida, ao inverso do que ocorria na Idade Média europeia, agora a tensão é muito maior. Há um século as mudanças ocorriam entre gerações, agora ocorrem no âmbito da mesma geração. Antes, há um século, os humanos tinham uma expectativa de vida em torno de 40 anos, agora aproxima-se, nos países desenvolvidos, de 80. No final deste século poderá ultrapassar 100 anos.

Segunda parte: ameaças clássicas à democracia

4. A democracia é uma invenção moderna4, e desde os seus primórdios tem passado por transformações e crises, a mais importante das quais ocorreu na primeira metade do século XX, no enfrentamento com o nazismo e o fascismo. Vencedores, os países democráticos ressurgiram nos anos 1950 com prestígio, com a emersão do Estado de bem-estar social, principalmente na Europa. A superação da crise deu lugar a um mundo dividido, durante a guerra fria, e depois a um mundo “sem história” (Fukuyama, 1992), sob o domínio americano, que não durou nem duas décadas.

5. Após a segunda guerra mundial o mundo conheceu ondas de expansão democrática. Em 1988, os países democráticos compreendiam 36% no mundo e os autoritários, 38%; em 2008, os países democráticos compreendiam 46% dos países, enquanto os autoritários caíram para 22%. Em 2019 há sinais de inversão, pois, os países democráticos se mantiveram em 45,5%, com menos da metade da população mundial (48,4%), enquanto os autoritários subiram para 32%.5

6. O mundo estará ingressando em uma nova crise da democracia? Um indício da crise da democracia é o crescimento de forças políticas que a desprezam, no âmbito de democracias consolidadas. Partidos neofascistas ou de extrema direita crescem na Europa particularmente na Hungria, Polônia, Áustria, mas também na Alemanha, França, Holanda e países escandinavos6. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (2018) defendem a tese de que as democracias conhecem ameaças de extinção a partir de intervenções do seu interior, e apresentam quatro indicadores para constatar se um político tem ou não perfil autoritário: a) rejeição (ou comprometimento fraco) com as regras do jogo democrático; b) negação da legitimidade dos oponentes políticos; c) tolerância ou encorajamento à violência; d) prontidão para reduzir as liberdades civis dos oponentes, incluindo a mídia. Vários países hoje no mundo, como Brasil, mostram esses sinais nas suas instâncias superiores de poder.

7. Contudo, a principal ameaça à democracia não é o crescimento da extrema direita, mas o esgotamento da própria democracia. Ou seja, o indício mais relevante é a incapacidade dos regimes democráticos em responder às demandas da população, em um mundo mais escolarizado, mais transparente, mais exigente, e em claro declínio da sua dinâmica econômica, agora aumentada com a pandemia.

8. Ao lado dessa incapacidade observa-se a incapacidade de suas instituições, como partidos e Parlamento, em inspirar confiança nos eleitores. A transformação dos partidos de massa em partidos catch all (Panebianco, 2005; Kirchheimer, 2012) e cartel (Katz; Mair, 1994), nos anos 1970, deixaram os eleitores distantes e desconfiados. E a confiança é a base da coesão social. Esta perda de coesão social se reflete no grau de aprovação da democracia. Na América Latina, por exemplo, em 2008, 49% da população estava satisfeita com a democracia, hoje são apenas 29% (LATINO BARÔMETRO, 2017). Apenas 13% da população confia nos partidos políticos, no Brasil.

9. Aos poucos forma-se um ciclo de arrependimento: os eleitores votam e se arrependem, votam e se arrependem. Assim, as autoridades públicas governam, cada vez mais, com minorias. Isso é claro, no caso de Jair Bolsonaro, que governa com o apoio de 1/3 dos eleitores, mas também em outros países como Estados Unidos (Trump) e França (Emmanuel Macron). Apenas a título de exemplos.

10. Por trás destas ameaças não se pode olvidar o crescimento do populismo. Do ponto de vista ideológico o populismo é uma ideologia frágil e para sobreviver tem que se associar a outras, seja o nacionalismo, seja o socialismo. Em um ou outro caso, o jogo institucional, com poderes distintos e balanceados, é eliminado. O populismo é um dos caminhos mais frequentes, na AL, para desmontar os regimes democráticos.

11. Essas ameaças têm suas bases sociais no aumento da desigualdade e consequente definhamento das classes médias. Quanto maior a desigualdade social e menor a classe média mais ameaçada se encontra a democracia. Afinal, foi a classe média urbana das sociedades de consumo, nascida nos anos 1950, o maior esteio da expansão da democracia no século XX. Por outro lado, o dinamismo econômico está em descenso no Ocidente, reduzindo as classes médias e aumentando a desigualdade.

Terceira parte: as novas ameaças à democracia

12. O diferencial,na conjunturaatual da crise da democracia, é o surgimento de três novas ameaças. São ameaças de natureza distinta. Duas delas de caráter global, que exigem uma governança mundial. Estas três ameaças surgem quando algumas das ameaças clássicas se agudizam e uma recente se ergue de maneira hostil, o crescimento de Fake News. Sem contar a atual crise sanitária (Covid 19), e suas consequências sobre a perda de dinamismo econômico (que tem algumas vantagens), aumento do desemprego, da fome e da desigualdade.

13. A primeira nova ameaça chama-se China, o país da quebra dos paradigmas. Aparentemente, nos últimos 40 anos, ela quebrou dois. Em 1978, a China era um país pobre, hoje é a segunda potência mundial. A teoria das trocas desiguais dos anos 1960 não admitia que um país pobre se tornasse rico (Furtado, 1974). Diga-se, a favor de Furtado, que o povo chinês ainda está muito longe do padrão de consumo dos países desenvolvidos. Outro paradigma quebrado pela China é que a teoria política ocidental não admitia a possibilidade de uma economia de mercado sem democracia liberal (Przeworski, 1994). A expansão da economia chinesa não está assentada em uma democracia liberal, nem em seus pilares – o respeito aos direitos humanos e às liberdades individuais. A China tem um regime denominado por Fukuyama de autoritarismo responsivo (Sugeno, 2019). O governo guarda uma relação estreita com a sociedade por meio de seu partido político, que tem cerca de 100 milhões de membros, com um recrutamento baseado na meritocracia, e um sistema de informação e pesquisa sofisticado. O mais importante, porém, é que o partido tem um projeto de nação, que mobiliza e satisfaz a maioria da população. Diga-se, de passagem, que a economia de mercado da China é muito particular, em função da extrema presença do Estado.

14. O problema maior, hoje, é que a China definiu dois novos desafios: a) substituir o sistema de informação da economia de mercado dos preços pelo processamento exponencial de dados; e, b) expandir seu poder de influência econômica, política e ideológica (nova rota da seda).

15. No caso do primeiro desafio, estaríamos às vésperas de uma transformação profunda da economia de mercado e da noção de poder? A economia de mercado se baseia em um sistema de informação frágil e fragmentado, enquanto na China o governo monta um sistema de informação com alta computação e ampla base de dados sobre a sociedade e a população, com câmaras de reconhecimento disseminadas e registros constantes das características, gostos e costumes de cada indivíduo. O sistema deverá se aperfeiçoar com a computação quântica e o Big Data – produção de novas informações a partir dos dados coletados. Uma mudança na noção de poder pode também estar curso. Em Marx (1969), o poder se refere à apropriação dos frutos do trabalho de outrem; em Weber (2004), o poder define-se pela capacidade de influenciar a ação de outros; em Foucault (1979), o poder traduz-se no adestramento do corpo humano às normas vigentes. A China pretende montar um sistema de poder com informações sobre todos os seus habitantes, incluindo ideias, tendências, gostos, costumes e desejos, podendo induzi-los a comportamentos que eles não imaginavam. Uma espécie de poder baseado no controle dos desejos das pessoas, lembrando o clássico de George Orwell – 1984.

16. A segunda nova ameaça reside no processo das inovações tecnológicas. Para os “aceleracionistas” (Kurzweil, 2018) estamos às vésperas da fusão entre o tecnológico e o biológico, que deverá ocorrer nos próximos 25 anos. As máquinas inteligentes, com a nanotecnologia e biotecnologia, tendem, simultaneamente, a aumentar a capacidade dos humanos e a substitui-los em múltiplos trabalhos. Os avanços na Inteligência Artificial e na impressora 3D, na intervenção no corpo humano, na produção alimentar e no uso da água e da energia, na disseminação da nanotecnologia e da ciência da cognição podem criar um mundo de abundância, mas também de subalternidade atroz, sobretudo com as mudanças na capacidade de cognição diferenciada entre os humanos. A desigualdade hoje atroz, mas mensurável, se ampliará de forma exponencial. Se isso vier a ocorrer, serão abertas as portas para o evento da dessemelhança, como diz Cristovam Buarque (1993), o que significará o fim da sociedade moderna. Ter-se-á duas “espécies” humanas: os “tecnobio” e os tradicionais, com capacidades cognitivas e habilidades físicas profundamente desiguais.

17. As máquinas inteligentes substituem a força de trabalho em todos os setores econômicos. Se antes estas máquinas substituíam os operários em trabalho braçal, agora elas substituem trabalhadores intelectuais. Um jornal pode ter robôs escrevendo as notícias que os repórteres, drones e web lhe aportam. O diagnóstico médico pode ser parcialmente feito, com precisão, por uma máquina. O trabalho do contador pode ser em grande parte substituído por máquinas inteligentes, assim como o do advogado ou mesmo do consultor financeiro. É verdade que os reflexos destas mudanças ainda não ocorrem com clareza nos países desenvolvidos, em que as taxas de desempregos são relativamente pequenas, mas já podem ser constatados efeitos indiretos sobre os países em desenvolvimento, latino-americanos incluídos (Salama, 2018). Os riscos do surgimento de uma classe de inúteis (Ford, 2019) ou de uma nova exclusão social (Nascimento, 1994), são hoje mundialmente discutidos. Por isso que um dos temas mais em moda entre os economistas é a renda básica. Tema que ganhou maior dimensão com a pandemia da covid 19, e que deverá crescer com a aceleração da automação produtiva nos setores secundário e terciário.

18. A terceira nova ameaça consiste na crise ambiental. O tratamento dado à resolução desta crise traduz a história do maior fracasso dos humanos no último meio século, e que pode lhes custar muitíssimo caro. Nos anos 1970 os humanos descobriram os limites do crescimento econômico, em meio à euforia do crescimento econômico pós-guerra. Na segunda metade do século XX, o grito dos Meadows (1972) não foi escutado, nem os trabalhos de Georgescu-Roegen (2012)7 ou os resultados da Conferência de Estocolmo sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente (1972). Os alarmes emitidos pela cúpula mundial em 1992 no Rio de Janeiro também não produziram mudanças significativas no modelo econômico imperante desde o século XIX, baseado em um crescimento insano, nem as denúncias do Painel Intergovenamental de Mudanças Climáticas (IPCC/1988). Nos quinze indicadores das atividades humanas globais que incidem com força na degradação ambiental de forma direta ou indireta, como desflorestamento, consumo de combustíveis fósseis, crescimento do cultivo de gado, emissão dos gases de efeito estufa, a humanidade teve desempenho claramente negativo em pelo menos 10 destes indicadores (RIPPLE et al, 2020). Portanto, a crise ambiental cresce, apesar da adoção de novas medidas na direção da descarbonização, da desmaterialização da economia e da renovação das fontes energéticas.

20. Tem-se hoje uma situação muito pior do que há 48 anos, quando os limites do crescimento econômico foram amplamente divulgados, simplesmente porque a base da crise ambiental reside no crescimento econômico contínuo, a verdadeira ideologia de nossa contemporaneidade, e dela os humanos não conseguem se libertar. A ideologia do crescimento é na verdade a grande ideologia do século XX, que envolveu e determinou tanto as ideologias de esquerda quanto de direita, conforme denunciaram desde os anos 1970, Ivan Ilich, Cornelius Castoriadis e tantos outros (Latouche, 2006). Era a expansão da produção e do consumo o que perseguiam, cada um à sua maneira, os dois lados em que se dividiu o mundo após a Segunda Guerra, os EEUU e a URSS.

21. A devastadora destruição ambiental hoje ameaça a humanidade, com o aumento das temperaturas, das águas dos oceanos, das terras inutilizáveis, da poluição e das doenças em geral, incluindo as pandemias. Milhões de pessoas serão atingidas pela piora das condições sanitárias, pelo calor, pela migração, pelas crises hídricas. Aparentemente a democracia atual não tem instrumentos para enfrentar, de forma eficiente, a crise ambiental. As medidas necessárias para enfrentá-la não habitam de forma correta e consistente o horizonte intelectual dos governos e das pessoas, dominados pela ideologia do crescimento. As medidas de combate à degradação ambiental exigem desenvolvimento tecnológico e renúncias de consumo, exigem mudanças na forma de produção e no estilo de vida, que as pessoas não estão espontaneamente dispostas a fazer. O único caminho da humanidade para melhorar sua qualidade de vida, sem destruir a natureza, e, portanto, a si mesmo, é o da prosperidade sem crescimento ou do decrescimento, proposituras extremamente utópicas. Apenas em situações de catástrofe, como uma grande guerra ou uma pandemia, a história tem mostrado, é possível introduzir mudanças antes inimagináveis. O problema é que o desastre ambiental não tem similitudes com uma guerra, não surge de repente, mas de forma homeopática. Como o câncer ou a diabete, surge e progride de maneira silenciosa e quando os seus resultados mais severos se manifestarem talvez seja tarde demais. Mas, por que a democracia não tem condições de enfrentar esta nova ameaça?

22. Há uma disfuncionalidade entre a temporalidade do governo e a do câmbio do padrão de produção e do estilo de vida, para enfrentar a crise ambiental. A arte de governar na democracia funciona sob a lógica de meses ou, no máximo, poucos anos, mas a mudança de padrões de produção e de consumo exige muitos anos ou décadas. Os humanos querem emprego e consumo agora, a natureza, para ser preservada, necessita de medidas que se desenvolvem em anos. A temporalidade dos governos exige respostas imediatas a desejos enclausurados nos humanos, a do câmbio da produção e do estilo de vida exige respeito aos imperativos naturais e renúncia a desejos que irão impactar positivamente a vida humana. Mas os humanos, em geral, prisioneiros da ideologia do crescimento, que leva ao consumo irracional, não percebem seus riscos. Caminham fleumaticamente para o precipício.

A título de conclusão

Os riscos imediatos à sobrevivência de democracia advêm das velhas ameaças, como a incapacidade de responder às demandas da população, que deverá crescer com a crise econômica que já se instalou no mundo com a pandemia do coronavirus; mas também de novas ameaças, como a propagação e aperfeiçoamento das Fakes News, que irá embaralhar em definitivo o jogo democrático, criando obstáculos à escolha dos eleitores e impedindo sua melhor decisão.

Do ponto de vista estratégico, o grande risco reside nas consequências do desdobramento da crise ecológica. É da forma como tratamos a natureza, abusando-a ou não, que virá a possibilidade de uma catástrofe para desorganizar a economia e ameaçar a vida, como uma pandemia. A continuar a forma como tratamos a natureza ingressamos no século das epidemias, que podem se transformar em pandemias. Já vivenciamos quatro epidemias e estamos vivenciando a quinta neste século, agora transformada em pandemia. Por isso, a crise ecológica detém a centralidade das ameaças estratégicas à democracia, pois se os humanos tiverem que escolher entre a sobrevivência e a liberdade, com certeza optarão pela primeira. A forma de enfrentá-la reside em adotar o caminho da prosperidade sem crescimento.

Em relação às inovações tecnológicas o grande desafio é o de reorientá-las para a produção de bens essenciais, como alimento, habitação, energia limpa, transporte coletivo, convidando as pessoas que tendem à obesidade alimentar e de consumo em geral a consumirem menos, e a redução da produção de bens nefastos como as armas, as drogas e os bens de ostentação. Com isso, permitir aos que têm bens insuficientes aumentarem seu consumo e, dessa forma, conservar um balanço geral de redução gradativa do uso dos recursos naturais e de energia, poupando a natureza.

Nessa direção, talvez a atração chinesa perca parte de seu glamour, e a democracia sobreviva. Por isso que, qualquer que seja a propositura ao pós-desenvolvimentismo, é indispensável pensar fora da lógica da ideologia do crescimento, porque ela é a expressão da morte e o nosso compromisso é, ou deveria ser, com a vida.

Notas

1 Sociólogo, professor nos Programas de Pós-Graduação das Universidades de Brasília (Desenvolvimento Sustentável) e da Federal da Amazônia (Centro de Ciências Ambientais e Sustentabilidade na Amazônia). Autor do livro: Um mundo de riscos e desafios: conquistar a sustentabilidade, reinventar a democracia e eliminar a nova exclusão social (FAP, 2020).

2 Quando o título tem duas datas, a primeira é a data da tradução consultada e a segunda é a data do original.

3 Termo utilizado pelos seus críticos para denominar aqueles que, como Ray Kurzweil (2018/2005) e Yuval Harari (2016/2014), pregam (ou preveem) a fusão do homem com a máquina.

4 Moderna na sua universalidade, pois esta característica era inexistente na sociedade que inventou da democracia ocidental, a cidade grega de Atenas, no século VI AC.

5 O The Economist/ Intelligence Unit considera em seu ranking 167 países, a ONU reconhece 193.

6 Os termos direita e esquerda são muito imprecisos e variáveis, mas tornou-se lugar comum e é difícil substituí-los, sobretudo pela disseminação de seu uso nas mídias.

7 Sobre a obra de Georgescu-Roegen ver o excelente trabalho de Andrei Cechin (2010)


Referências

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Elimar Pinheiro do Nascimento é sociólogo, com doutorado pela Université de Paris V (Rene Descartes, 1982), e pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. Professor associado dos Programas de Pós-Graduação do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UNB) e do Programa Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Autor do livro: Um mundo de riscos e desafios: conquistar a sustentabilidade, reinventar a democracia e eliminar a nova exclusão social (FAP, 2020).

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