Fios do Tempo. As eleições e o futuro como desafio – Marco Aurélio Nogueira

O Fios do Tempo vai publicar algumas análises de conjuntura política até a finalização do segundo turno das eleições.

Começamos com a bela análise de Marco Aurélio Nogueira, autor de “A democracia desafiada” e “Como melhorar a vida que vivemos“.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!

A. M.
Fios do Tempo, 12 de outubro de 2026

Produtos recomendados

As eleições e o futuro como desafio

Como interpretar o que disseram as urnas do primeiro turno? Como olhar para além delas e do que ocorrerá no segundo turno, com a disputa ácida e vazia de Flávio Bolsonaro e Lula?

1. Os resultados trouxeram perigos e alertas para os atores da política democrática brasileira. Nas eleições legislativas, a maioria formada pelo PL (Bolsonaro) na Câmara e no Senado foi um dado chamativo. Os demais partidos oscilaram. A maioria saiu-se mal, com a exceção do PSOL, que teve bom desempenho e elegeu uma bancada competitiva na Câmara. Já nas eleições para a Presidência, o campo democrático – representado por Lula, pelo PT, pelo PSDB, Rede e Cidadania, além de pedaços do chamado “Centrão” e dos liberais que prezam a democracia — sofreu uma inesperada derrota.

2. Não houve um único culpado pelos resultados do primeiro turno. Foram tantos os fatos que incidiram sobre a eleitorado (os escândalos, as denúncias, a crise moral do STF, as declarações precipitadas, o desarranjo social crescente, os apelos à religião e à religiosidade), que não faz sentido explicar a situação por causalidades simples. Mas os atores principais, por sua própria relevância política, estão forçados a avaliar onde foi que erraram. O PT e Lula não foram os únicos responsáveis pelo esmaecimento do arco de forças democráticas formado após o fim da ditadura. Não ajudaram, porém, a alimentá-lo. Por estarem a governar desde 2002, com um breve intervalo entre 2016 e 2022, os petistas deixaram de lado a blindagem política da democracia. O PT se entregou a Lula como “grande timoneiro”, líder único e insubstituível, cercando-o de dirigentes com reduzida capacidade estratégica e de formulação. Insistiu em se apresentar como a “única verdadeira democracia” e desprezar alianças com os democratas não petistas, a não ser que esses aceitassem ser cooptados. Não soube se renovar e se pluralizar como ator político.

3, As direitas, extremas à frente, mostraram uma força que não se imaginava existir. Varreram o país, deixando Lula praticamente ilhado no Nordeste. Lá, ele respirou e acumulou votos. Em termos políticos, porém, os centros mais pujantes e eleitoralmente mais importantes (o Sudeste e o Sul) ficaram ao lado de Bolsonaro. Somados aos cerca de 20 milhões de abstenções, garantiram a ele a vantagem de 2 milhões de votos no primeiro turno, mostrando a ampla capilaridade da extrema direita.

4. A força da extrema direita não caiu do céu. Frutificou no correr de um processo, apoiado numa espécie de “conservadorismo” entranhado no modo de ser do brasileiro. Ganhou impulso a partir do governo Dilma e das grandes manifestações de 2013. Sua base operacional combinou doses cavalares de antipolítica, uso maciço e competente das redes sociais, incorporação política da religiosidade e apoios da internacional direitista que hoje circula pelo mundo.

5. Seu crescimento coincidiu com uma mudança no padrão da socialidade. Combinou-se com a conversão do país em uma sociedade hipermoderna: mais fragmentada, com novas formas de trabalho, novos comportamentos e aspirações, dúvidas existenciais no terreno moral, guerras culturais incessantes, alterações profundas nas visões de mundo e no modo como se encara a política. Os brasileiros passaram a viver em mudança célere e transferiram isso para a política: mudar se tornou um estilo de vida, uma busca constante por novidades e, por extensão, uma forte rejeição daquilo que é visto como “mais do mesmo”.

6. A revolução digital ajudou a que surgisse um ambiente favorável ao desarranjo social e institucional, como costuma ocorrer nos grandes processos de transição. A rápida disseminação das redes sociais e, agora, das aplicações de IA, alterou o modo como se vive, como se consome, como se trabalha e como se pensa, abrindo espaços generosos para a configuração de um diferente modo de viver a política.

7. Na sociedade hipermoderna movida por tecnologia intensiva, o eleitor (o cidadão) não compreende que seus problemas não podem ser resolvidos com um estalar de dedos dos governos. O eleitor é impaciente e se move por uma lógica de satisfação imediata, lógica essa irmanada com a lógica do capitalismo atual. Quem governa nesse clima está sempre devendo. O que a revolução desorganiza (ou reorganiza), a extrema direita captura, oferecendo uma visão “antissistema” que atrai a indignação e o desconforto de tantas pessoas. Na Europa, ela trabalha para fornecer proteção aos nacionais contra os imigrantes, para valorizar o “branco” em detrimento dos “não brancos”, para criticar o Estado de Bem-estar e a globalização. No Brasil, a extrema direita brada um “nacionalismo” retórico ao mesmo tempo em que se subordina às orientações de Donal Trump. Oculta essa subordinação falando em “defesa nacional”, “Pátria” e proteção do território.

8. Estamos em um tempo de ascensão das direitas autoritárias, iliberais e extremadas. Tempo de distopias e desalento. De dispersão. De movimentação errática. Sem grandes causas. Sem utopias. Sob ataque, a democracia precisa ser protegida e valorizada. A política também. O campo democrático – liberais, socialistas, socialdemocratas, petistas, lulistas, a direita democrática, os ambientalistas, os conservadores democráticos, os progressistas – precisa se interrogar sobre o que vem acontecendo nos últimos anos. É hora de mastigar erros, arrogâncias e presunções, recuperar musculatura, rever estratégias, olhar melhor para a realidade nacional e internacional, voltar a reler o capitalismo, agora em sua fase tecnológica e digital. Sem alguma unidade e uma boa reflexão programática, este campo poderá ficar à margem.

9. Os resultados do primeiro turno traduziram a grave crise institucional em que se encontra o país. É uma crise que, em parte, está associada às transfigurações provocadas pela revolução digital. Mas que reflete, sobretudo, a “despolitização” socialmente instalada, a fraqueza dos partidos, os atritos improdutivos entre as instituições, que passaram a funcionar de modo mais precário, colidindo umas com as outras. Os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) paralisaram-se uns aos outros, trocando a articulação funcional por disparos desfuncionais. A crise do STF desnudou o ponto extremo dessa crise, cujo maior efeito foi a perda de credibilidade da Corte. Sua decomposição moral fez o fogo crepitar e produziu ondas crescentes de decepção e insatisfação, convertendo-se em moeda eleitoral. O fato preponderante é que, no correr de alguns meses, os Poderes se converteram em brigadas alinhadas umas contra as outras, com os conflitos sendo exibidos à luz do dia. A governabilidade e a governança ficaram travadas. A desintermediação fragilizou a democracia e a dinâmica política, sempre conflituosa e cada vez mais polarizada, passou a transcorrer à base de atritos ruidosos entre os Poderes, reverberando na opinião pública e na sociedade.

10. Os brasileiros vocalizaram nas urnas uma expectativa de mudança. Fizeram isso sem clareza sobre o sentido da mudança. Mudar para onde, e de que maneira? Mudança é uma palavra mágica, que precisa ser bem avaliada e qualificada. Os eleitores brasileiros podem ter olhado para trás e se reconfortado com a ideia de que antes “éramos felizes e não sabíamos”, assim como podem ter olhado para a frente e vislumbrado um cenário diferente de tudo o que está aí. Houve mais emoção do que racionalidade. A velocidade das mudanças vindas da revolução digital jogou grande peso, ao incentivar a ideia de que a lentidão das condutas governamentais e políticas colidiria com a rapidez das mudanças socioculturais e existenciais. Uma vida mais “individualizada”, o trabalho em aplicativos de entrega, a propaganda exaustiva e as informações desencontradas fornecidas pelas redes fizeram com que se alargasse a busca por candidatos “novos”, diferentes dos que se conheciam.

11. As duas campanhas principais foram igualmente medíocres. De um lado, o candidato da direita esbravejou contra tudo e todos, esgrimindo as mais diferentes armas contra um suposto “dragão da maldade” (o sistema) e insuflando o ressentimento popular contra o PT. De outro, um Lula cansado de guerra, com uma retórica cheia de promessas envelhecidas, agarrado à sua biografia pregressa – heroica, mas de uma época que já passou –, fechado para o novo mundo em gestação. Nenhum deles apresentou propostas concretas ou “sugestões” sobre o futuro, uma ideia de país e de governo. Contaminados pela polarização, limitaram-se a se atacar reciprocamente. É provável que nada tenham falado porque nada tinham para falar. Entregaram-se por isso à pura e simples agitação, que pode tê-los ajudado a levar mais longe suas “mensagens”, mas nada acrescentou à percepção dos brasileiros e à compreensão do mundo em que vivemos.

12. O cidadão médio brasileiro não votou pela democracia. Talvez por não a entender, talvez por não a valorizar, talvez por ter tido sua memória histórica sequestrada e não se lembrar dos anos duros da ditadura militar. Deixou-se levar pela indignação e não encontrou um rumo claro para se posicionar. Não é razoável, porém, dizer que 56 milhões de eleitores se tornaram, conscientemente, de extrema direita, ou “fascistas”. O que há de bolsonarismo no país cavalgou o cansaço e as decepções da população, mas não a organizou de forma sustentável.

13. Ninguém vence uma eleição apertada sem que seu adversário cometa erros importantes. O vencedor do primeiro turno tinha sua cota de malfeitos e relacionamentos suspeitos, mas sua campanha soube blindá-lo. Ele próprio se escondeu, desviando-se da artilharia do lado oposto. Sua campanha soube explorar o maior erro do PT e de Lula: não renovar suas lideranças e seu discurso, confiando excessivamente na lealdade dos brasileiros, sem levar em conta que esses brasileiros se descolaram dos resíduos do século XX e ingressaram no século XXI, na hipermodernidade. O PT não conseguiu abandonar ou neutralizar sua “superioridade moral”. Como não irão nos apoiar, a nós, lulistas e petistas, depois de tudo o que fizemos por esse país? Não precisamos de outros apoios (de uma “frente democrática”, por exemplo), pois nos bastamos a nós mesmos. Além do mais, nosso adversário é um pangaré, não corre tanto quanto o nosso puro-sangue. Autoestima exageradamente elevada combinada com subestimação do adversário. Receita certa para perder votos.

14. Os votos direcionados ao filho de Bolsonaro misturaram antilulismo, ingenuidade, conservadorismo, cansaço, desejo de mudança e indignação social. Formou-se um mix de comportamentos e ideias afetivas, passionais e valorativas, com uma pitada de ideologia, que estendeu um tapete vermelho para a extrema direita. A essa altura, não me parece haver grande densidade organizacional e social no bolsonarismo. A impressão é que ele flutua sobre a realidade brasileira, explorando-a com malícia e competência. Adota uma perspectiva hegemônica curiosa, imperfeita, que não dispõe de grandes intelectuais (substituídos por influenciadores e redes) e depende de uma mobilização social inorgânica, que opera mediante soluços e apostas. Seria algo mais próximo de um “populismo de direita”, mas mesmo esse é carente de uma figura carismática explícita e inquestionável.

15. As redes sociais passaram a ocupar uma posição central na vida atual. Reverberam na política. Têm poder: um poder hostil à política, assentado na estridência, na mentira, na denúncia, na provocação e na crítica retórica. As redes, em boa medida, afastaram de si a política. Fecharam-se para o diálogo democrático. Suas bolhas são autorreferenciadas. Ajudam a desorganizar e a confundir os eleitores. Por outro lado, são bons canais de propaganda, especialmente quando impulsionadas pelo tráfego pago. A extrema direita aprendeu a surfar nas redes e nos canais digitais. Tem bons influenciadores, que se aproveitam da falta de consensos entre os democratas e dos desencontros sociais. Explora com eficiência a indignação e a decepção da população, interagindo com o que há de ruídos e cacofonia na vida atual. Hoje, as informações circulam com rapidez e em excesso, as atenções se dispersam e se deslocam rapidamente. Fala-se muito, diverge-se sobre tudo, ataca-se sem dó todos os que pensam diferente. Dialoga-se pouquíssimo. Não há cooperação política. Os partidos evaporaram, não fazem mais contato com os cidadãos. Olham para o poder, a gestão e as eleições, não chegam à população e não se interessam pela educação cívica.

16. Os eleitores hipermodernos não seguem qualquer tipo de ordem unida democrática. No Brasil, são pouco afetados pelas linguagens governamentais, cuja dissonância os afasta. A antipolítica prolonga o estrago, facilitando o surgimento de condutas hostis a partidos e políticos. Visto em seu conjunto, o eleitorado parece sentir falta daquele arco de forças políticas direcionadas para defender a Constituição de 1988 e governar o país democraticamente. Esse arco foi se desfazendo com o passar do tempo, consumindo-se de polarização em polarização, sem que surgisse um ator com disposição e tirocínio para mantê-lo vivo. “Ah”, poderão dizer, “Lula reavivou a frente democrática para vencer as eleições de 2022”. Fez isso, é verdade, mas ao tomar posse se esqueceu dela. A iniciativa lhe serviu somente como recurso eleitoral.

17. A partir de agora, será preciso aprofundar a reflexão. Atualizar o discurso. Parar de ver conspirações e golpes em todo canto. O eleitor de direita não é um bolsonarista. É somente um cara insatisfeito com o que vê e com o que não recebe dos políticos. Alguém cansado e decepcionado com governos, políticos e juízes, que quer uma mudança que o inclua, nem que seja em termos simbólicos. Flávio Bolsonaro provavelmente não contará com o consentimento de seus eleitores se fizer um governo de “vingança” e compadrio, sem qualidade técnica para entregar políticas de inclusão, de segurança, educacionais, ambientais, sem capacidade de interpretar o mundo que está aí, fora de nossas janelas. Isso quer dizer que o jogo está aberto.

18. Para a democracia brasileira, a eventual vitória de Flávio Bolsonaro em 25 de outubro será um teste. Se ela já está fragilizada, tenderá a ficar ainda mais exposta. Mas devemos pagar para ver o que ele fará. É provável que seja um governante fraco, sem muitas ideias e com um saco de maldades pronto para ser aberto. Poderá travar alguns programas, ameaçar a educação, deixar de financiar a cultura de inclusão. Poderá não ser responsável com as contas públicas. Terá dificuldades com o Congresso Nacional (o Legislativo), mesmo que conte com maioria em ambas as Casas. Afinal, o Legislativo de hoje seguirá sendo o Legislativo de amanhã: um poder interessado em aprisionar e condicionar o Executivo, roubar-lhe recursos mediante emendas suspeitas.

19. Seja quem vencer o segundo turno, terá pela frente muitos desafios. Como administrará os gastos obrigatórios e a dívida pública? Poderá contar com o STF? Como posicionará o Brasil no contexto internacional e na “guerra” entre as grandes potências? Seguirá impulsionando as políticas compensatórias? Adotará com firmeza uma política de segurança que proteja de fato a população e combata o crime organizado? E quanto aos recursos estratégicos, aos minerais críticos e à proteção ambiental? Conseguirá obter consensos para atuar com firmeza nesses diferentes e explosivos terrenos?

20. Um cenário desse tipo, com tantos problemas estruturais e tanta confusão institucional, sugere uma governança mergulhada em crise sucessivas, em impasses procedimentais, pressionada pela indignação social e pela resistência patrimonialista e social, que poderá ser exacerbada pela ausência de propostas ou por uma atuação governamental destrambelhada.

21. Um segundo turno muito disputado é uma arena de combate. Onde se agita, se briga e se torce. Mas é também um momento que requer reflexão e compreensão. Como tudo está exposto – estilos, biografias, campanhas, discursos, promessas, possibilidades, apoios –, devemos começar a pensar no futuro. Nenhum governo governará o país sem que exista uma oposição democrática plural, que não se deixe cooptar e seja propositiva. A não existência dela explica em boa medida o que está ocorrendo nas eleições.

22. A eventual vitória de Flávio Bolsonaro pode não descambar numa ditadura. Pode ser uma forma espúria de autoritarismo. Uma regressão. Nós simplesmente não sabemos o que virá com ele. Não podemos prever o futuro. A sociedade brasileira é complexa demais para ser submetida a uma camisa de força. Nem os militares de 1964 conseguiram fazer isso. E a força que os derrotou veio do voto, das eleições, da democracia. Não foi nenhum exército popular, ou algo do tipo. Foi a resiliência. Foi a política.

23. O prolongamento radicalizado da polarização, incentivada pelos calores do segundo turno, dificultará ainda mais o nascimento de uma oposição democrática e de uma esquerda atualizada. Se tal ocorrer, vença quem vencer, a política e a democracia perderão. O futuro próximo pode ser pensado como uma oportunidade. Poderá ajudar a que os democratas reaprendam a dialogar, a agir de forma articulada e com um causa comum como guia. Não dá mais para tudo ser resolvido a partir de um confronto eterno entre lulismo e bolsonarismo, que foi, a rigor, um dos fatores causadores da devastação de 4 de outubro. Insistir nele, a partir de agora, será fazer o jogo dos antidemocratas.

Marco Aurélio Nogueira é professor titular (aposentado) da Universidade Estadual Paulista-UNESP. Tradutor e articulista do jornal O Estado de S. Paulo. Publicou, entre outros: Como melhorar a vida que vivemos: pensar, agir, dialogar (Ateliê de Humanidades Editorial, 2026) e A democracia desafiada: recompor a política para um futuro incerto (Ateliê de Humanidades Editorial, 2023).


Últimos posts

Deixe um comentário

Acima ↑

Descubra mais sobre Ateliê de Humanidades

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo