Começamos a publicar hoje, no Fios do Tempo, o ensaio de Carlos Eduardo Sell sobre o papado de Francisco. Desde 2019 Carlos Sell investiga o catolicismo contemporâneo, do que resultou a publicação de Para onde vai a Igreja Católica? (Vozes, 2025). Orientado por uma autêntica sociologia compreensiva, “com liberdade em relação aos valores” (como Max Weber defendia), Sell faz um balanço sobre o que foi o pontificado de Francisco, com uma ponderada interpretação do conteúdo do Papado, da forma do pontificado e do seu possível legado.
Este ensaio (a ser publicado integralmente nos Cadernos do Ateliê) sai no Fios do Tempo em três partes sucessivas: esta primeira, “‘Reconstrói a minha Igreja’: as quatro grandes reformas de Francisco”, publicada em 03 de maio; em seguida vem a segunda parte “A gestão da ambivalência: como Francisco governou a Igreja”, que sai segunda-feira, 05 de maio; e encerramos a série com “O ‘legado’ de Francisco: um papa carismático e uma Igreja dividida”, a ser publicado na quarta-feira, 07 de maio, o primeiro dia do Conclave.
Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!
André Magnelli,
Fios do Tempo, 03 de maio de 2025
Ou faça um pix e nos fortaleça!

chave: direcao.ateliedehumanidades@gmail.com
“Reconstrói a minha Igreja”:
as quatro grandes reformas de Francisco
Carlos Eduardo Sell
(Professor da UFSC e autor do livro Para onde vai a Igreja Católica? (Vozes)
Imagino que, a esta altura, muitos leitores já estejam saturados de notícias e análises sobre o Papa Francisco e o conclave que se aproxima. Quanto a mim, luto para entender o catolicismo desde 2019, e o que gostaria de apresentar aqui são algumas conclusões de um longo processo reflexivo que, imagino, já esteja suficientemente maduro para oferecer algumas luzes teóricas a quem deseja ir além da cobertura mediática sobre a Igreja Católica.
Ao longo dessa pesquisa, me convenci de que Francisco escapa às etiquetas tradicionais: direita/esquerda, progressista/conservador, e assim por diante. Tentar compreendê-lo, portanto, é um exercício ao mesmo tempo estimulante e desafiador. Também já estou ciente de que ainda é cedo para obtermos um balanço equilibrado e objetivo do que foi, de fato, e qual o legado do pontificado de Francisco – questões que só o tempo e a devida distância histórica poderão responder adequadamente.
Mesmo assim, proponho-me aqui a identificar não apenas os eixos centrais do governo de Francisco, mas também a lógica de governo do primeiro Papa latino-americano da história. Falar dos eixos desse pontificado nos ajudará a vislumbrar o que ele representou em termos de “conteúdo”, enquanto sua “forma” de governo pode nos ajudar a entender o potencial alcance e os reflexos de suas linhas de ação no interior da Igreja e da sociedade global.
Estes objetivos serão cumpridos em três etapas. Nessa primeira parte, realizo uma tarefa preliminar, mas não menos importante, de análise descritiva das principais reformas que Francisco promoveu na Igreja. Na segunda parte (a ser publicada aqui no Fios do Tempo na segunda-feira, 05 de maio), a partir dos conceitos de populismo (Pierre Rosanvallon) e ambivalência (Zygmunt Bauman), analiso a forma dinâmica de governo pela qual Francisco pretendia transformar a Igreja. Por fim, na terceira parte, (a ser publicada aqui no Fios do Tempo na quarta-feira, 07 de maio), a partir da distinção carisma/burocracia, mais do que o legado, discuto alguns reflexos deixados pelo governo de Francisco no conjunto da Igreja.
*
Em termos de conteúdo, o pontificado de Francisco pode ser sintetizado em sua tentativa de promover quatro iniciativas centrais: 1) a reforma administrativa do Vaticano (Cúria Romana); 2) a reforma dos mecanismos de governança da Igreja (sinodalidade); 3) a reforma da moral católica; e 4) o aprofundamento da crítica social da Igreja tanto ao regime neoliberal quanto ao pós-liberal (nacional/populista) de globalização.
Esse esquema, se bem observado, não é aleatório. Ao passarmos do primeiro ao quarto item, notamos que a amplitude dessas iniciativas vai se expandindo, abrangendo esferas cada vez mais amplas: a Cúria, os clérigos (sinodalidade), os católicos em geral (moral) e a sociedade global. Além disso, teoricamente, se adotarmos as lentes analíticas de Niklas Luhmann1, temos aí três distinções entre sistema e meio: Igreja e mundo e, no interior do sistema Igreja, a distinção entre hierarquia e leigos e, de forma mais restrita, no sistema hierárquico, a distinção entre o Papa e a Cúria. Mas, em termos concretos, do que tratam efetivamente estas reformas?
1. Reforma da administração vaticana
Foi para promover a reforma da administração vaticana que Francisco, após o descontrole a que ela chegou nos tempos de Bento XVI, foi eleito. A aposta era que somente um cardeal de fora da Cúria poderia controlar a poderosa máquina burocrática vaticana, estrangulada por desvios financeiros e lutas de poder. A isso se soma o aperfeiçoamento dos mecanismos de punição legal de clérigos que cometem abusos sexuais, questão iniciada, mas não concluída, por Bento XVI.
Através de um Conselho de 09 Cardeais (C-9), chegou-se, em 2022, à redação da Constituição Apostólica Predicate Evangelium, que diminuiu os poderes da Secretaria de Estado, criou uma secretaria de assuntos econômicos em consonância com as regras do mercado financeiro global e deslocou para segundo plano a Congregação para a Doutrina da Fé – órgão mais poderoso até então, encarregado de zelar pela doutrina. Em primeiro lugar, nas intenções do Papa, deveria estar o Dicastério da Evangelização dos Povos, indicativo de que, em sua visão, mais importante do que o controle da doutrina (ortodoxia) é a evangelização (ortopraxia). Por fim, não menos importante, postos da administração vaticana podem agora ser assumidos por leigos, incluindo as mulheres.
Funcionou? É cedo para dizer. O fato é que Francisco foi um Papa hostil à Cúria Romana, que tratou rudemente, chegando a apontar publicamente suas dez mais importantes distorções, num discurso cujo constrangimento para os cardeais é visível. É por isso, afinal, que tantos analistas acreditam que somente um Papa italiano será capaz, novamente, de controlar os interesses de uma burocracia que se rege por sua própria lógica econômica e política.
2. Reforma da governança eclesial
Mas Francisco foi bem mais longe do que desejavam os cardeais que o elegeram, em 2013, para a tarefa acima. Ele procurou implementar um novo conceito de governança eclesial que coloca em xeque a natureza hierárquica da Igreja: a “sinodalidade”. O termo vem do grego sínodo (etimologicamente, “caminhar juntos”) e historicamente se refere às assembleias de bispos, seja em âmbito regional ou mundial (nesse caso, o sínodo é chamado Concílio). Nesse sentido, o termo técnico não é novo, mas para Francisco a sinodalidade diz respeito à participação e corresponsabilidade de todos os batizados na vida da Igreja – ou seja, implica na partilha de poder entre o povo e seus pastores. Trata-se, portanto, de uma nova concepção de Igreja que radicaliza a ideia da Igreja “Povo de Deus”, cuja base é o “sacerdócio comum dos fiéis”, noções presentes na Constituição Dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II.
Francisco não só convocou sínodos para discutir a situação dos jovens (2013), da família (2017) e da Amazônia (2019) – o que outros papas também fizeram –, como também promoveu, em duas etapas, um inédito “sínodo sobre a sinodalidade” (2023-2024), ainda em andamento. A sinodalidade não dissolve a diferença entre bispos, padres e diáconos (os três graus da hierarquia católica) e os batizados, mas introduz uma espécie de “democracia participativa” que, na prática, atenua essas diferenças. Por isso, no sínodo de 2023/2024, Francisco iniciou o processo com consultas nas bases (paróquias e dioceses) e convocou membros de ordens religiosas e leigos para deliberar, subvertendo o que era, até então, um sínodo apenas de bispos. Para um observador externo, as diferenças podem parecer pequenas, mas para a Igreja foram abissais.
A democracia na Igreja coloca em discussão a estrutura de uma instituição que, por natureza, é hierárquica – como já mostravam Carl Schmitt (a forma jurídica da Igreja representa o divino)2 e Max Weber (há uma afinidade eletiva entre a Igreja entendida como mediação sacramental e a hierarquia sacerdotal).3 Foi nesse ponto crucial que Francisco tocou.
Ao longo de sua realização, os encontros sinodais tornaram-se arenas de confronto entre progressistas e conservadores, que atuaram como grupos de pressão, obrigando o Papa a retirar de pauta temas mais polêmicos (celibato dos padres, ordenação de diaconisas etc.). Apesar de, corretamente, dar mais voz a leigos engajados, entre eles as mulheres, o que representa uma inteligente mobilização de recursos, a Igreja sinodal de Francisco, por outro lado, enfraqueceu o poder dos bispos frente aos leigos, mas fortaleceu a monarquia papal – já que somente ele poderia atuar como árbitro e decidir quais “sugestões” (o sínodo é consultivo) seriam implementadas. Se o objetivo era alcançar a democracia, o resultado a que se chegou foi principalmente o reforço da monarquia papal.
3. Reforma da moral
Embora os 16 documentos do Concílio Vaticano II (1962–1965) tenham modificado profundamente a autodescrição (autoreferência em Luhmann) da Igreja e sua relação com o mundo (heteroreferência em Luhmann)4, um aspecto permaneceu quase intocado: uma doutrina moral fundada nos princípios objetivos do direito natural (de base tomista).
As tentativas de substituir uma moral teleológica por uma moral deontológica de tipo kantiano – fundada na consciência subjetiva (a chamada “moral de consciência”) – falharam, sendo bloqueadas por Paulo VI com a Encíclica Humanae Vitae que, em nome da indissociabilidade entre união conjugal e procriação, não aprovou o uso da pílula anticoncepcional. João Paulo II reforçou essa orientação em 1987 com a Encíclica Veritatis Splendor.
O resultado foi um abismo entre a moral católica oficial e o comportamento efetivo dos fiéis. Com a “revolução dos costumes” simbolizada pela virada de 1968, o regime ético tradicional da Igreja entrou em colisão com um ethos secular emergente, promovido por uma indústria cultural de orientação liberal e estruturado em torno de valores hedonistas e individualistas e que, à luz da análise de Alasdair MacIntyre5, podemos entender como expressão de uma moralidade estético-expressiva, marcada pela subjetivação dos critérios morais e pela primazia da autenticidade individual sobre qualquer autoridade normativa tradicional.
Foi essa tendência que Francisco tentou reverter. Estas iniciativas se concretizaram em dois documentos, os mais polêmicos de seu pontificado. Em 2016, com a Exortação Amoris Laetitia, Francisco deixava ao juízo do próprio fiel (aconselhado por um padre) a decisão sobre receber a comunhão, mesmo em segunda união. Cinco cardeais, publicamente, questionaram essas medidas por meio de uma tradição chamada Dubia. Em 2023, um órgão vaticano publicou a declaração Fiducia Supplicans, que permitia bênçãos a casais do mesmo sexo. A reação, liderada principalmente por bispos africanos, levou o Papa a corrigir a interpretação do documento, limitando a bênção à pessoa individual, não ao casal como tal.
Ao contrário do que afirmam muitos analistas, essas iniciativas, ainda que embrionárias, não são sem consequências doutrinais. Embora a doutrina oficial não tenha sido modificada, Francisco abriu caminho para alterar as bases epistemológicas da moral católica, que passaram – ainda que lentamente – do polo objetivo da lei natural ao polo subjetivo da consciência. Também aqui, Francisco tocou uma pedra angular do edifício católico.
4. Uma geopolítica papal multilateralista centrada nas vítimas
Diferentemente do que ocorreu em outras áreas, não se pode afirmar que Francisco promoveu uma guinada radical nas diretrizes sociais e políticas da Igreja. Desde Leão XIII (1891), com a Rerum Novarum, a doutrina social da Igreja tem buscado uma terceira via entre capitalismo e socialismo. Essa tradição permitiu à Igreja enfrentar a questão operária, resistir a regimes totalitários (Quadragesimo Anno), promover a paz (Mater et Magistra), o desenvolvimentismo (Populorum Progressio) e, mais tarde, criticar o neoliberalismo triunfante (Centesimus Annus, Caritas in Veritate).
Francisco insere-se nessa continuidade, mas com acento mais incisivo e influências marcantes do populismo argentino e da teologia do povo, vertente local da teologia da libertação. Como se verá adiante (na segunda parte), essas matrizes moldam seu estilo e prioridades. Destaca-se, por ora, sua crítica contundente ao neoliberalismo – sintetizada na expressão “economia que mata” (Evangelii Gaudium, 2013) – e sua denúncia do fechamento de fronteiras a migrantes e refugiados, simbolizada pela visita a Lampedusa e pelas críticas ao muro entre EUA e México.
Além dessa postura o aproximar de críticas de esquerda à globalização liberal, Francisco também se opôs à nova direita populista e ao negacionismo climático. Herdando a agenda ecológica da Igreja latino-americana, publicou a Encíclica Laudato Si’ (2015). Já na Encíclica Fratelli Tutti (2020), no contexto da pandemia, defendeu o universalismo contra o nacionalismo e a xenofobia.
Contudo, seria um erro interpretar suas posições como alinhadas a governos progressistas ou instituições multilaterais. Sua ambígua resposta à guerra na Ucrânia – sem condenar diretamente a Rússia ou apoiar explicitamente o governo ucraniano – reflete uma diplomacia de equidistância, avessa à legitimação de blocos geopolíticos. Do mesmo modo, sua defesa dos palestinos diante da ofensiva israelense em Gaza decorre menos de adesão ideológica do que de uma geopolítica centrada nas vítimas: migrantes, deslocados e populações vulneráveis. Trata-se de uma ética da paz que rejeita a lógica belicista e afirma a dignidade humana como critério moral autônomo no cenário internacional.
Em síntese, a linha política de Francisco no plano social configura-se como um humanismo cristão engajado, crítico à cultura do descarte e ao neoliberalismo. Sem se vincular a ideologias, ele propõe uma reorientação pastoral da ação social da Igreja, centrada na escuta dos pobres, na justiça socioambiental e na fraternidade universal, com linguagem mais misericordiosa do que normativa.
Notas
1 LUHMANN, Niklas. Sistemas Sociais: Esboço de uma Teoria Geral. Petrópolis: Vozes, 2017.
2 SCHMITT, Carl. Catolicismo y Forma Política. Buenos Aires: Areté Grupo Editor, 2009.
3 WEBER, Max. Economia e Sociedade: Fundamentos da Sociologia Compreensiva. 4. ed. Brasília: UnB, 2004.
4 Posição mais comum entre os intelectuais católicos que militam em favor de Francisco. Dentre os muitos textos, cito como exemplo: https://www.ihu.unisinos.br/651303-a-revolucao-em-pequenos-passos-eis-o-legado-de-francisco-artigo-de-antonio-spadaro.
5 Uma elaboração consistente dessa visão pode ser encontrada no estudo do sociólogo italiano Marco Marzano. Um articulista nacional que expressa o mesmo ponto de vista é Demétrio Magnoli. Fontes: https://www.micromega.net/francesco-il-papa-del-consenso-non-del-cambiamento; e https://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2025/04/a-igreja-fechada.shtml.

Carlos Eduardo Sell é doutor em Sociologia Política e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor de Max Weber e a racionalização da Vida (Vozes, 2013), Sociologia clássica: Marx, Durkheim e Weber (Vozes, 2015) e Para onde vai a Igreja Católica? (Vozes, 2025)
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


Deixe uma resposta para ISRAEL APARECIDO GONCALVESCancelar resposta