Fios do Tempo. Parte II – A gestão da ambivalência: como Francisco governou a Igreja – Carlos Eduardo Sell

Damos sequência hoje, no Fios do Tempo, à publicação do ensaio de Carlos Eduardo Sell, autor de Para onde vai a Igreja Católica? (Vozes, 2025), sobre o papado de Francisco. Após o texto “‘Reconstrói a minha Igreja’: as quatro grandes reformas de Francisco” (03 de maio), publicamos agora “A gestão da ambivalência: como Francisco governou a Igreja”. Na quarta-feira, 07 de maio, o primeiro dia do Conclave, encerramos a série com “O ‘legado’ de Francisco: um papa carismático e uma Igreja dividida”.

Desejamos, como sempre, uma excelente leitura!

André Magnelli,
Fios do Tempo, 05 de maio de 2025


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A gestão da ambivalência:
como Francisco governou a Igreja

Carlos Eduardo Sell
(Professor da UFSC e autor do livro Para onde vai a Igreja Católica? (Vozes)

Em torno do pontificado de Francisco, cristalizaram-se três grandes leituras interpretativas: a revolucionária1, a imobilista2 e a da ambiguidade.3

  • A primeira – típica de setores da ultradireita católica – enxerga o Papa argentino como o ápice de uma ruptura radical com a tradição da Igreja. Embora marcada por um viés conspiratório, essa visão curiosamente se aproxima, por outro caminho, da interpretação de grupos progressistas, religiosos e seculares, que veem em Francisco o início de uma transformação profunda ainda em curso.
  • A segunda leitura sustenta que, apesar dos gestos reformistas, nada mudou substancialmente na Igreja: ou porque o Papa foi bloqueado por forças conservadoras, ou porque lhe faltou disposição para enfrentar resistências, ou ainda porque a própria estrutura eclesial – incluindo o próprio pontífice – seria intrinsecamente conservadora e impermeável à mudança. Nesse caso, o papado teria sido, no fundo, apenas uma operação simbólica.
  • Por fim, uma terceira interpretação, menos formalizada, percebe em Francisco uma figura ambígua: progressista em sua agenda social e política, mas conservadora em temas morais e doutrinários, sem conseguir articular uma síntese coerente entre esses polos.

Minha posição é que Francisco, descontadas suas inegáveis contradições, não foi nem um revolucionário radical nem um imobilista, mas um reformista dentro da ordem. Alinhou-se à agenda liberal-progressista na Igreja e a levou até onde considerou possível. Seu objetivo não foi reformar a Igreja em sua estrutura, mas realizar reformas no interior dela. O que segue em aberto é o alcance real dessas reformas: até que ponto Francisco estava disposto a ir e, ao mesmo tempo, qual foi o potencial efetivamente disruptivo que suas iniciativas conseguiram produzir.
Para explorar essas questões, utilizarei os conceitos de populismo e de ambivalência: o primeiro ajudará a compreender a lógica profunda que orientou sua condução da Igreja; o segundo permitirá captar, em nível mais prático, o estilo de governo que adotou. É neste segundo aspecto que o alcance das reformas de Francisco pode ganhar alguma luz.

O populismo como lógica profunda

Os críticos mais severos afirmam que o governo de Francisco foi caótico e errático, marcado por ações múltiplas e contraditórias, sem uma linha diretora clara.4 Minha leitura, no entanto, é distinta: há, sim, uma lógica profunda que dá coesão ao seu pontificado, e ela se revela quando se considera o pano de fundo populista de sua visão política e teológica.

Embora o conceito de populismo seja frequentemente usado de forma pejorativa – como sinônimo de uma patologia da democracia –, não é nesse sentido que o emprego aqui. Não se trata, de forma alguma, de uma crítica ou desqualificação de Francisco.
Recorro ao populismo, no sentido de Pierre Rosanvallon5, porque considero essa chave interpretativa essencial para compreendê-lo –, não apenas por sua formação no contexto político argentino, mas sobretudo por sua filiação à chamada “Teologia do Povo”. Sem essa referência, Francisco permanece indecifrável. É isso que pretendo demonstrar a seguir.

As conexões entre Francisco e o populismo estão bem documentadas por seus biógrafos, que destacam sua atuação como diretor da Guarda de Ferro, uma ala da juventude peronista. Essa experiência o afastou da luta armada e o aproximou dos padres que atuavam nas periferias (Villas miseria), espaços que ele, já como arcebispo de Buenos Aires, frequentava regularmente. Essa valorização do povo o levou a privilegiar as periferias como motores de transformação, embora sem aderir ao modelo nacional-desenvolvimentista típico de certos setores do peronismo. Na Fratelli Tutti (2020), Francisco defende o protagonismo dos movimentos populares e da economia solidária, mas não deposita no Estado planejador o papel central da organização político-econômica.

O populismo de Francisco, contudo, é fundamentalmente teológico. Suas raízes estão na vertente argentina da Teologia da Libertação, conhecida como Teologia do Povo, elaborada por teólogos como Lucio Gera, Justino O’Farrell e Rafael Tello, no âmbito da Comissão Episcopal de Pastoral, a partir de 1966. Essa teologia desloca o foco das classes para o povo-nação como sujeito histórico, valorizando a cultura popular e sua religiosidade como força transformadora.6 Francisco manteve até o fim de seu pontificado a convicção de que o resgate da religiosidade popular era essencial para enfrentar a evasão religiosa e fortalecer a presença da Igreja no mundo.

Mas pode-se sustentar que esse pano de fundo populista estrutura os doze anos de seu governo? No plano político-social isso é mais evidente, pois seu magistério apresenta-se como crítica sistemática às elites a partir da perspectiva dos pobres. No campo econômico, ele apoia formas de “economia popular e de produção comunitária” (Fratelli Tutti/FT, 2020, n. 69) como alternativa à “economia que mata” (Evangelii Gaudium/EG, 2013, n. 537), à fé cega no mercado (FT, 2020, n. 168) e à “autonomia absoluta dos mercados e à especulação financeira” (EG, 2013, n. 56), sintomas do “fetichismo do dinheiro” e de uma “economia sem rosto” (idem, n. 55).

Politicamente, Francisco critica os governos de direita radical surgidos durante seu pontificado, mas sem rejeitar a noção positiva de povo. Ele condenou a polarização e a “divisão binária entre populista e não populista” (FT, 2020, n. 156), alertando contra o uso deformado da ideia de povo por certos grupos (idem, n. 160). A categoria povo, para ele, é aberta e dinâmica. Sua defesa da democracia não se alinha ao individualismo liberal, mas tampouco adere à figura do líder carismático. A democracia, em sua visão, deve enraizar-se no vínculo entre povo e participação.

No plano eclesial, por sua vez, essa lógica se expressa na tentativa de descentralizar o poder clerical e fortalecer o protagonismo dos leigos – o chamado “povo de Deus”. Ao propor a sinodalidade como princípio organizador da Igreja, Francisco parte da convicção de que “a totalidade dos fiéis não pode enganar-se na fé”, valorizando o sensus fidei do povo e o “consenso universal em matéria de fé e costumes” (Francisco, 2015). Assim, “cada batizado é um sujeito ativo de evangelização”, independentemente de sua função ou do grau de instrução teológica. A reforma eclesial de Francisco, portanto, busca reativar a base popular da Igreja.

Pode-se questionar se o populismo permite compreender também a abordagem moral de Francisco – uma operação que, evidentemente, exige cautela. É nesse ponto que entra em cena um segundo conceito-chave de seu pontificado: o discernimento. Inspirado na tradição inaciana dos Exercícios Espirituais, o discernimento é, para Francisco, um processo espiritual voltado a identificar a vontade de Deus em contextos concretos, muitas vezes marcados por ambiguidade. Embora envolva o acompanhamento de um sacerdote, a decisão última pertence à consciência do fiel. Com isso, Francisco relativiza o peso das normas fixas e da autoridade institucional, reforçando a autonomia do sujeito. O juízo do povo – ou, mais precisamente, da consciência individual iluminada pela fé – adquire primazia sobre o julgamento impessoal da norma e da hierarquia. Portanto, também nesse ponto, Francisco ativa, em chave espiritual, a lógica do populismo.

Identificar o pano de fundo populista do pontificado de Francisco não implica reduzi-lo a esse único fator, como se o populismo fosse uma matriz totalizante à qual todas as suas ações se subordinassem. Francisco não segue uma teologia abstrata da qual tudo se deduz automaticamente, mas obedece a uma racionalidade intuitiva e maleável, mas que não é desprovida de premissas estruturantes. É por isso que se pode afirmar que o populismo é como que a lógica profunda que atravessa e conecta os doze anos de seu governo. Longe de ser errático ou contraditório, o pontificado de Francisco seguiu uma coerência interna que reflete sua formação cultural e teológica na Argentina, de onde os cardeais foram buscar, em 2013, o Papa que conduziu a Igreja até 2025.

A ambivalência como método de governo e transformação

Os críticos internos do governo de Francisco frequentemente lamentaram o que consideram ser um papado marcado por ambiguidade, contradições e confusão doutrinal. Acusam-no de ter semeado perplexidade ao dizer, no voo que o trouxe ao Brasil em 2013, a célebre frase “quem sou eu para julgar?”, ao ser perguntado sobre pessoas LGBTQI+, ou ainda ao afirmar, na Indonésia, que “todas as religiões levam a Deus” – declaração percebida por setores conservadores como uma afronta ao tradicional princípio teológico de que “fora da Igreja não há salvação”. No entanto, não se trata aqui de retomar esse tipo de crítica ou de endossá-la. Muito menos de defender Francisco a partir de um juízo moral ou apologético. Trata-se, antes, de compreender a lógica própria de seu governo, que escapa à clássica racionalidade estratégica e se inscreve em outro regime de ação: o da ambivalência como método.

A ambivalência é uma categoria-chave no pensamento de Zygmunt Bauman8, não apenas como uma condição do mundo moderno. Para o sociólogo polonês, a ambivalência não é um ruído ocasional da linguagem, nem um desvio do pensamento claro e ordenado. Ela é, antes, o efeito colateral inevitável de um projeto moderno de racionalização que visa a domesticar a realidade, eliminando suas zonas de incerteza, seus excessos e ambiguidades. O ideal moderno consistiu, segundo Bauman, em classificar, ordenar, hierarquizar – em nome da previsibilidade e do controle. Já na condição pós-moderna, que Bauman descreve como um tempo de fluidez e de dissolução das certezas sólidas, a ambivalência não é mais vista como algo a ser suprimido, mas como parte constitutiva da experiência social. Não se trata de celebrá-la ingenuamente, mas de reconhecê-la como dado estrutural: a pós-modernidade, nesse sentido, nos força a conviver com paradoxos, a navegar entre tensões e a governar a incerteza.

É justamente neste ponto que o papado de Francisco se mostra singular, pois ele soube mobilizar a ambivalência como linguagem e estratégia. A chave interpretativa dessa postura se encontra numa de suas máximas mais repetidas: “o tempo é superior ao espaço”. Essa máxima expressa uma concepção temporal do poder e da reforma: não se trata de ocupar espaços de autoridade ou impor diretivas doutrinárias de forma imediata e conclusiva, mas de desencadear processos abertos, de longo prazo. Em vez de antever resultados e controlar trajetórias, Francisco prefere lançar sementes – processos incertos, de alcance indefinido, cujos frutos emergirão talvez bem depois de sua passagem.

Essa lógica de governo centrada no tempo, nos processos e na ambivalência encontra expressão paradigmática em dois documentos que marcaram o pontificado de Francisco. Em Amoris Laetitia, resultado do Sínodo sobre a família, Francisco não revoga normas nem altera a doutrina, mas desloca o centro do discurso: da norma objetiva para o discernimento subjetivo; da aplicação rígida de preceitos para o acompanhamento pastoral das situações concretas. Ele não diz claramente “sim” ou “não”, mas introduz uma zona cinzenta que muitos interpretaram como concessão ambígua.

Essa mesma lógica reaparece, de forma ainda mais clara, em Fiducia Supplicans: o documento é, novamente, ambivalente: por um lado, reafirma que o matrimônio cristão continua sendo a união entre homem e mulher; por outro, reconhece que “elementos positivos” podem estar presentes em outras formas de vínculo afetivo, e que esses vínculos não devem ser privados do cuidado pastoral. A ambivalência como método se manifesta de forma ainda mais evidente no conceito de sinodalidade: ele pode ser interpretado tanto como um redesenho estrutural da Igreja (com novas formas de participação e deliberação), quanto como uma disposição espiritual e pastoral (um estilo de escuta, discernimento e corresponsabilidade).

Ao evitar definições unívocas e ao promover aberturas interpretativas, Francisco colocou em movimento processos que são, por natureza, polissêmicos e sujeitos a leituras contrastantes. Essa ambiguidade gera conflitos interpretativos reais dentro da Igreja – entre setores progressistas e conservadores, entre centros e periferias, entre teólogos, bispos e leigos. Mas é justamente esse caráter tensionado que permite ao Papa posicionar-se como árbitro das forças em disputa. Ao não se alinhar totalmente com nenhum dos polos, ele preserva a autoridade para modular o ritmo, os alcances e os limites das transformações em curso. Dessa forma, Francisco manteve sob controle a direção do processo reformista, garantindo que ele não ultrapassasse seu limite intransponível: a unidade da Igreja. Ao permitir a emergência de conflitos, Francisco os regulou, assegurando que a tensão criativa não se transformasse em fratura irreparável.

Mesmo assim, o gesto reformista de Francisco não é inócuo. A agenda liberal-democrática – antes marginalizada, silenciada ou considerada herética – passa a ser discutível, ou seja, desloca-se da zona do interdito para o campo do possível. Francisco, ao instaurar esses processos, rompeu o silêncio e alterou o regime de visibilidade dentro da Igreja. Nesse novo campo, mesmo o que não é decidido adquire existência, legitimidade e futuro. Ainda que recuos sejam operados ou que certos temas sejam temporariamente bloqueados, o retorno ao estágio anterior torna-se impossível. O processo, uma vez iniciado, segue em fluxo, com seus impasses, acelerações e rearticulações imprevisíveis.

Portanto, reconfigurou as condições de possibilidade do debate eclesial. Ele não redesenhou dogmas de imediato, mas reconfigurou o horizonte do pensável e do discutível dentro da Igreja. Isso não equivale a uma revolução no sentido clássico – mas tampouco é simples manutenção. É uma forma distinta de reformismo, cuja ambivalência deliberada permite que múltiplos sentidos coexistam, disputem e, com o tempo, se transformem mutuamente.

Notas

1 Essa posição é muito bem expressa pela socióloga francesa Daniele Hérvieu-Léger: https://www.ihu.unisinos.br/651218-a-reflexao-sobre-o-balanco-do-pontificado-do-papa-francisco-foi-carregada-de-avaliacoes-contraditorias-desde-as-mais-elogiosas-ate-as-mais-violentamente-ultrajantes-artigo-de-daniele-hervieu-leger.

2 https://www.catholicworldreport.com/2025/04/22/pope-francis-symposium/#Grondelski.

3 ROSANVALLON, Pierre. O século do populismo: história, teoria, crítica. Tradução de Diogo Cunha. Rio de Janeiro: Ateliê de Humanidades Editorial, 2021.

4 SCANNONE, Juan Carlos. A teologia do povo: raízes teológicas do Papa Francisco. São Paulo: Paulinas, 2019.

5 https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html.

6 Bauman, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.

7 SELL, Carlos Eduardo. Poder instituído e potência subversiva: Max Weber e a dupla face da dominação carismática. Revista brasileira de ciências sociais, v. 33, p. e339814, 2018.

8 FAGGIOLI, Massimo; BEOZZO, José Oscar. Vaticano II: a luta pelo sentido. São Paulo: Paulinas, 2013.

Carlos Eduardo Sell é doutor em Sociologia Política e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Autor de Max Weber e a racionalização da Vida (Vozes, 2013), Sociologia clássica: Marx, Durkheim e Weber (Vozes, 2015) e Para onde vai a Igreja Católica? (Vozes, 2025)

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