A lógica da ignorância recíproca é um dos venenos da relação social. Dinamizada pelas redes sociais, ela ocorre também entre grupos que teriam possivelmente um interesse de se conhecerem – e reconhecerem – mutuamente.
Este é o caso evidenciado aqui por Eduardo Regis. Especialista no vodou haitiano e na quimbanda brasileira, ele traz à tona o fato de quem uma noção legítima a princípio – como a categoria de “marmoteiro” – acaba por funcionar, na prática das redes sociais, como uma afirmação ensimesmada diante de uma alteridade incompreendida.
Quando as demais práticas são reduzidas à ideia de que “são apenas a sua própria, só que malfeita”, acabamos diante de sérios problemas levantados aqui pelo autor.
Desejamos, como sempre, uma excelente leitura.
A. M.
Fios do Tempo, 10 de outubro de 2024
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Ciclo vicioso da ignorância:
religiões de matriz africana e
o preconceito interno fomentado pelas redes sociais
As redes sociais, principalmente o Facebook, com suas muitas comunidades, são terreno fértil para as manifestações humanas mais variadas. Alavancados pela suposta “barreira” que o virtual impõe ao real, ou melhor, ao concreto e material, usuários sentem-se particularmente confortáveis em exibir todo seu vasto repertório de ignorâncias e preconceitos, suportados por uma rede formada pelo coletivo dos demais usuários, que, por óbvio, tende a engajar positivamente – com reforço de ideias, por exemplo – no que lhes parece correto ou razoável. Sem surpresas, em uma comunidade sobre um determinado tópico, digamos, automóveis antigos, há de se esperar que os participantes reajam de maneira recompensadora em resposta a uma postagem sobre um belíssimo exemplar de automóvel dos anos 1930, por exemplo. Ao contrário, postagens sobre, digamos, o último lançamento de uma determinada montadora, mesmo que dentro do universo automóveis, provavelmente receberá reações de descontentamento. Tudo isso, portanto, cria um ambiente de retroalimentação do próprio, tornando-se inóspito ao outro. Essa dualidade do próprio versus o outro, do próprio versus o não-próprio, do eu versus eles, tão estudada e tão debatida, é que vai disparar a questão que quero trazer à discussão. Pois há camadas: o “próprio” é relativo e essa noção conduzirá o presente debate.
Até então tudo que escrevi é evidente e sabido. Redes sociais não são um assunto novíssimo. Não sou um estudioso de redes sociais, mas como um dos inúmeros usuários, participo da realidade virtual comunitária por meio da vivência e da experiência, que permitem a qualquer um apreender algumas coisas por mera observação. Embora seja preciso ter cuidado ao realizar julgamentos ou a determinar tendências sem cuidados metodológicos específicos, discutir livremente está liberado e é na discussão livre que muitas das vezes exercitamos os limites das nossas observações e que damos um pontapé importante para que outros nos acompanhem. Portanto, permitam-me, caros leitores, usar o recorte do meu mundo e da minha perspectiva para trazer uma questão que nos revela um problema complexo.
Se o mundo globalizado já era considerado um mundo “pequeno”, no qual o que ocorria no Oriente distante rapidamente era conhecido no Ocidente extremo, com as redes sociais, especialmente Facebook¸ Instagram, Tik-Tok e Whatsapp, o mundo parece ter perdido completamente limitações de tempo e de espaço no que tange à veiculação de informações. Com isso, somos apresentados a realidades diferentes em um ritmo tão frenético que as alteridades se tornam choques. Sem o contexto de um viajante, imerso em outra cultura, ou de um intelectual, que desbravou páginas e páginas sobre teorias e povos, as mais variadas pessoas são apresentadas a diferenças culturais, de ponto de vista, de opinião e a fenômenos completamente novos que, sem qualquer background outro que não sua própria experiência e cultura, interpretam à luz de uma noção similar a um barbarismo. É como se todos fôssemos colonizadores aportando em praias nativas pela primeira vez e fazendo o sinal da cruz diante dos povos originários seminus chacoalhando penachos em suas cabeças. Em outras palavras, a primeira reação, de maneira geral, frente ao novo tão estranho e tão veloz, será: estranhamento, rejeição, gozação, ridicularização e forte apego ao que já é intimamente conhecido. Até aqui estamos lidando com a já conhecida dificuldade na acepção da alteridade. Se bem que. elevada à enésima potência, pelos foguetes sociais que trafegam o ciberespaço sem qualquer aviso ou cuidado e que pousam em portos sem a infraestrutura necessária para tal operação, o resultado é uma confusão generalizada e aguda.
O caso que gostaria de colocar como estudo, com o perdão do uso livre do termo, aqui seria os das comunidades que buscam expor os marmoteiros – os charlatães – das religiões de matrizes africana, a saber, e em especial: Candomblé, Quimbanda e Umbanda. Existem diversas dessas comunidades espalhadas pelas redes sociais, sob os mais diversos títulos, mas todas têm por objetivo primordial jogar ao ridículo e à vergonha aquele que, por qualquer razão, não é reconhecido como legítimo, sério ou verdadeiro. Eu diria que o dito objetivo está até mesmo acima do ideal de proteger possíveis vítimas de golpes e enganações.
Sem entrar na questão dos charlatães, que existem, é evidente, desde a aurora da humanidade, poderíamos ainda assim refletir se, de fato, tais comunidades, cuja filiação é livre, cujas postagens são desreguladas e cujo zelo ou compromisso com um devido levantamento de fatos razoável é nulo, seria, de fato, o fórum razoável para a denúncia de supostos embusteiros. De toda sorte, não é esse o nosso ponto. Pois quero justamente trazer à discussão os não-embusteiros, os não-marmoteiros, pessoas, praticantes de religiosidades, ou regionais ou estrangeiras, ou ainda de popularidade menor, que são massacradas e ridicularizadas por obra de ignorância, intolerância, orgulho e total incapacidade de reconhecer que alteridades existam. Pior: pela total desmotivação ou incapacidade da grande maioria do público dessas comunidades de sequer confirmarem minimamente as fontes e tentar conferir do que realmente se trata o episódio alvo da postagem.
Se no mundo do devido processo legal há a presunção de inocência, no mundo dos grupamentos virtuais parece haver a presunção oposta – todos são culpados de não serem exatamente como aqueles que os observam. Por exemplo, são inúmeros os casos de vídeos de Vodou haitiano, religiosidade própria do Haiti, que são postados nesses grupos e que são alvo de chacota por candomblecistas e umbandistas, pois para eles “isso não se faz na nossa religião – estão destruindo nossa religião”. Chegamos ao ponto de desatenção ou de ignorância tão crítico, que no mundo virtual, pelo menos, as pessoas sequer conseguem reconhecer o que não se trata de sua vivência. Ou seja, não se sabe ao menos bem quem se é. Falta noção de si mesmo. Alguém poderia alegar que esta seria uma tarefa impossível dentro da vastidão de manifestações que ocorrem dentro de uma religião como a Umbanda ou o Candomblé. Até seria uma alegação razoável, mas parece que temos um caso no qual nem mesmo se entende a grande variação possível dentro de uma mesma denominação, ou então, talvez os julgamentos fossem menos céleres e contundentes. É espantoso que, de maneira geral, o que é do outro seja processado e digerido como uma deturpação do nosso (que é, como coloquei, já mal compreendido) e que não se passe jamais pela cabeça de muitos que aquilo possa ser de fato, outra coisa.
Se o Haiti for longe demais e deveras exótico, posso oferecer um exemplo talvez mais próximo, mais familiar e, por isso mesmo, mais chocante. Imagens do Batuque e da Quimbanda afro-gaúcha, ambas do Rio Grande do Sul, também são com frequência alvo de gozação por parte de candomblecistas e umbandistas das demais regiões do Brasil. Muitos sequer ouviram falar do Batuque e nem sonham saber que exista uma Quimbanda típica do Rio Grande do Sul e já entendem, novamente, que estas nada mais sejam do que uma religião sua malfeita. Brincamos que os Franceses dizem que toutes les autres langues sont le français mal parlé, mas parece que no campo religioso brasileiro, especialmente no que tange religiões de matriz africana dominantes ou mais populares, todas as religiões são as nossas mal executadas…
Importante chamar a atenção para esses comportamentos virtuais alarmantes, pois eles reforçam justamente o que as religiosidades de matriz africana no Brasil vêm (muito justamente) lutando contra: preconceito, intolerância e racismo. Ainda, denunciam outra realidade que deveria arrepiar os cabelos de muita gente – pouco se conhece, dentro das próprias comunidades religiosas, sobre o campo religioso brasileiro e mundial. O problema disso é que quando não entendemos o que nos cerca, também nos entendemos muito mal. Uma das grandes provas disso está nessas comunidades que estou aqui denunciando como uma escola de intolerância e que promovem um ciclo vicioso de ignorância, de falta de vontade de aprender e de completo desrespeito. Não é irrazoável pensar que este seja um comportamento que reflete o exato tratamento dado às alteridades religiosas dentro de comunidades como terreiros ou templos de Umbanda pelo Brasil afora. Portanto, se na vida não-virtual, narcocriminosos mandam fechar terreiros, se intolerantes queimam casas de religião de matriz africana, é preciso estar atento para o seguinte: no mundo virtual, que não está acontecendo numa dimensão paralela, mas que tem efeitos inequívocos e concretos na existência, os próprios adeptos de religiões de matriz africana estão alimentando essa mesma fera que insiste em morder a mão de qualquer um que lhe dê de comer. Na prática, não se entende o “próprio” como coletivo, como tanto se arvore em discursos por aí. O “eu” é restrito, é pequeno e é relativo. Em uma dimensão teórica ou para se conseguir algo, o “próprio” é coletivizado, mas dentro desse coletivo, os grupos heterogêneos se estranham tanto que talvez seja um equívoco até mesmo falar em “coletividade”. São camadas e camadas de subgêneros que estão começando a se amontoar e a ruir pela força do peso de sua própria sistematização míope.

EDUARDO REGIS é Especialista em Ciências da Religião (FSB-RJ) e doutorando em Ciências da Religião (UFJF). Atualmente, seus interesses de estudo orbitam o Vodou haitiano e a Quimbanda brasileira.
Catálogo do Ateliê de Humanidades Editorial


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