Fios do Tempo. Batman com Lombroso? Pensar a criminologia através da ficção – por Thiago Pacheco

Como os personagens de HQ expressam questões criminológicas? E como a criminologia, incrementada por uma teoria da narrativa, permite interpretar, de certa maneira, a relação entre o discurso ficcional e a realidade social?

Esse texto de Thiago Pacheco provoca algumas respostas a essas questões. E, não tenho dúvida, irá explorá-las ainda mais em novos textos.

O que Batman tem a ver com Lombroso, mesmo?

Desejo, como sempre, uma ótima leitura!

A. M.
Fios do Tempo, 18 de março de 2024


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Batman com Lombroso?
Pensar a criminologia através da ficção

Acredito que a origem do Cavaleiro das Trevas seja conhecida. Criado em maio de 1939, Batman fez sua estreia na Detective Comics, periódico que, como expressa o nome, tratava de histórias de investigação e crimes.

Aquela revista acabou dando nome a uma das mais famosas editoras de quadrinhos, que nos legou outros personagens de sucesso como Super-Homem, Mulher Maravilha, Aquaman e Lanterna Verde. Foi também, e desde então, instrumento narrativo do confronto entre o Homem-Morcego e uma série de oponentes marcantes que se tornaram tão populares quanto o protagonista.

Populares e, também, excêntricos. A galeria de vilões do Batman, explorada exaustivamente em séries, filmes, animações e games, é composta por um time ameaçador de assassinos em série, femmes fatales, mafiosos, ecoterroristas, neuróticos e obsessivos de vários tipos. Esta legião de dementes e celerados, por sua vez, vivem na não menos famosa cidade de Gotham, retratada como uma megalópole gótica, corrupta, suja, sombria e ineficaz no combate ao crime.

Criminosos numa cidade fervilhante de problemas. Ficção que, resumida na frase anterior, é realidade concreta para muitas pessoas, tanto nos EUA quanto no Brasil. A arte imita a vida?

Neste caso, talvez Cesare Lombroso dissesse que sim. Médico e psiquiatra da segunda metade do século XIX, Lombroso trabalhou no manicômio na cidade de Pesaro e na penitenciária de Turim. Nestas instituições, ele se debruçou estatisticamente sobre as características físicas, mentais e familiares dos internos, cruzando-as com os estudos de outros autores. Pai da chamada Escola Positivista de Criminologia, Lombroso concluiu que o crime é uma espécie de patologia, sendo o criminoso, evidentemente, uma espécie de doente, cujos traços podem ser herdados pela família, se demonstram física ou mentalmente, e podem ser agravados pelas condições sociais. Convicto desta ideia, ele enumerou e descreveu que traços seriam estes, na obra O Homem Delinquente, publicada em 1876.1

Os antagonistas do Homem Morcego, e não somente deste Super-Herói, poderiam tranquilamente figurar entre os tipos descritos por Lombroso. O médico italiano dizia que os assassinos são dotados de ampla veia cômica, o que imediatamente nos remete ao Coringa; destaca os comportamentos bestiais ao mesmo tempo que vaidosos dos meliantes que formam gangues ou máfias, traços inegáveis do Pinguim; e chama a atenção para a associação ao meretrício, o comportamento desobediente e apego desesperado a joias, o que é praticamente a descrição da Mulher Gato.

Iremos abordar mais detalhadamente estas questões, mas, antes, é necessário também apontar outro elemento da mitologia do Batman, que é o palco onde o Cruzado Encapuzado e seus criminosos atuam: Gotham, a tal megalópole gótica, corrupta, sombria e ineficaz no combate ao crime que já mencionamos. Seria tal urbe um arquétipo das cidades norte-americanas? Hollywood nos transmite uma ideia contraditória. Em vários filmes as cores da película são ajustadas, os bairros mais limpos e os horários menos caóticos são escolhidos, a fim de transmitir ao espectador uma ilusão de ordem, de segurança, de desenvolvimento e de civilidade. Tudo isso maquia o fato de que o crescimento das zonas urbanas americanas, desde o início do século XX, resultou na concentração de pobreza em determinados bairros, abandonados, sujos e descuidados, além de um contingente populacional desempregado ou subempregado, que transitava entre a legalidade e a ilegalidade. Estes problemas se somaram a um insuficiente contingente policial, que jamais foi impermeável à corrupção.

Neste sentido, Gotham seria tão somente a expressão da realidade criminal de cidades como Chicago, Los Angeles ou Nova Iorque, as quais, em várias mídias, surgem também como caldeirões de crime, corrupção e sujeira, inclusive nos inúmeros filmes policiais de Hollywood – daí a contradição, devido ao esforço do cinema americano de criar uma visão clean de suas cidades. Mas seria ingenuidade reduzir Gotham, Batman, Coringa, Pinguim ou Mulher Gato a meros retratos fictícios do real.

Dominique Kalifa (2017), um dos mais brilhantes historiadores a lidar com o crime por uma perspectiva cultural, analisou os chamados bas-fonds, ou seja, o submundo do crime e da boemia. Em seu estudo, Kalifa argumentou que as zonas de meretrício e boemia, frequentadas por elementos marginais da sociedade, embora indicassem dados da realidade, não passavam de representações hiperbólicas do imaginário daqueles que estavam fora de tais segmentos, expressando um misto de fascínio, desprezo e temor, quando retratados na imprensa, nos relatórios policiais, nas análises médicas e assim por diante.

Não é diferente quando falamos de uma cidade na qual um sujeito vestido de morcego persegue outro que, por sua vez, está vestido de palhaço.

Isso significa ser incisivo num ponto óbvio, mas que, também, é fato incontornável: o Batman não existe. Como também não há nenhum Super-Homem, Mulher Maravilha, Aquaman ou Lanterna Verde no mundo real. Nem Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Homem Aranha ou Hulk. Não existiu o Robin Hood das baladas inglesas. Nem Sherlock Holmes dos romances vitorianos. Da mesma forma, não existe Coringa, Arlequina, Pinguim, Mulher Gato ou Charada, como não existiu o Xerife de Nottingham nem o Professor Moriarty. Mas minha insistência em dizer que eles não existem não é uma obviedade que se destina a debochar da inteligência do leitor, embora, em tempos de terraplana e antivacina, dizer o óbvio e o factual tenha se tornado algo não apenas necessário, como um ato político. É apenas para salientar que, se eles não existem, então alguém os inventou. Ou, como gostam de dizer os adeptos de jogos de RPG, alguém construiu ou criou esses personagens.

Então, voltando à questão: a arte também imita a vida quando diz respeito ao crime e ao banditismo? Aqui estamos diante de várias formas de abordar a questão. Paul Ricœur (1994, pp.88-101), argumentava que toda narrativa é produzida a partir da leitura e entendimento, por parte do autor, dos elementos que irão compor esta mesma narrativa. Noutros termos, os personagens de uma determinada narrativa seriam construídos por seus autores a partir da seleção de elementos e do seu entendimento, oriundos do mundo em que estes mesmos autores viviam, no qual situam as suas narrativas.

Por esta ótica, há aspectos da temporalidade que antecedem a narrativa. No caso do Batman, os problemas das grandes cidades americanas, as ondas de assaltos das décadas de 1920 e 1930, o poder da máfia, a emancipação das mulheres sob olhar misógino, o sensacionalismo dos jornais e a popularidade tanto das histórias de detetive quanto da figura do Serial Killer, tudo isso é absorvido por aqueles que criam os personagens e contam suas histórias. Tais aspectos, evidentemente filtrados pelo entendimento, agenda, estilo e personalidade de cada autor, ganham forma coesa pela narrativa dos autores, o que é próprio do que Ricoeur chama de Mimese 2.

Neste ponto, Kalifa (2012) apresenta ressalvas de caráter teórico-metodológico. Kalifa fala em representações sociais, numa interface com a História Social. Assim, em termos resumidíssimos, a galeria de vilões do Batman trazida pelos quadrinhos, filmes e games seria expressão de imaginários sociais acerca do crime, no caso, dos criadores dos personagens, dos diretores dos filmes, dos produtores dos games e assim por diante. Contudo, Kalifa rejeita por completo a ideia de mimese de Ricoeur, preferindo o complexo conceito de cotexto (sem o “n”’ mesmo), que seria a relação entre os termos utilizados numa narrativa e também seus significados internos e externos.

Tanto Dominique Kalifa quanto Paul Ricoeur já nos deixaram (o primeiro falecendo em 2020, o segundo, em 2005). Portanto, esta celeuma teórico-metodológica jamais poderá ser debatida pelos autores, cabendo isso aos historiadores ou criminólogos que neles se baseiam. Só que me enveredar na questão seria uma longa digressão para o que está sendo proposto aqui. De minha parte, acredito ser suficiente deixar clara minha discordância de Kalifa quando ele diz que não existem tentativas miméticas de aspectos sociais por parte de quem narra. Contesto isso baseando-me nas representações de dados reais em cada mídia, como crimes que de fato se dão, ou comportamentos e atitudes policiais que fazem parte de nosso cotidiano, retratados em filmes, jornais ou revistas. E, feita essa ressalva, eu me mantenho atento ao seu argumento de que o crime, embora real, é representado de forma fantasiosa pelos segmentos sociais que o retratam: nisso ele não está distante de Ricoeur, que alega que a tessitura da trama nada mais é que o produto do autor da narrativa, que dá o sentido que deseja dar aos aspectos acerca dos quais narra.

Então, se a questão é de a arte imitar a vida, em relação ao crime, ela imita uma forma limitada e filtrada, conforme o que entende, mas, acima de tudo, o que intenta, o autor, nas mesmas proporções caricatas que um comediante como Marcelo Adnet imita um político ou celebridade famosa. Ademais, por vida, se deve levar em consideração não apenas dados da realidade concreta, como, no caso do Batman, o subdesenvolvimento de certas áreas urbanas, os assaltos, a existência da máfia e a ameaça de assassinos seriais. Mas também aspectos ideológicos, culturais e abstratos, como a tendência a ver a independência de mulheres como um comportamento desviante, a tratar o crime como uma patologia ou a reverberar a Ideologia da Defesa Social, na qual o fenômeno do crime se resume a uma maniqueísta batalha do bem – Batman e Comissário Gordon – contra o mal – Coringa e o restante de dementes ou pervertidas que assolam Gotham.

Acredito que já fica claro aqui o quadro a partir do qual analiso estes personagens ficcionais. Costumeiramente, apresento em minhas aulas os excêntricos antagonistas do Homem Morcego como construções a partir de elementos históricos e culturais, tão específicos quanto reais, intermediados pelos – ou até mesmo projetados nos – objetivos artísticos dos autores. Esta é outra forma de dizer que há um mundo por trás das narrativas ficcionais – e, consequentemente, dos personagens – que reproduzem estereótipos e fantasiam a questão do crime, como argumentou Anitua (2016, p.11, 15, 16) em momentos específicos da história urbana norte-americana. Uma vez construídos, os personagens foram figurados em HQs, séries, animações, filmes e videogames, que, enquanto produtos de uma indústria cultural, no sentido proposto por Adorno e Horkheimer (1947), passam a fazer parte da vida da população, tendo os seus conceitos de vilania inculcados num público consumidor acrítico.

É considerando estes fatores que podemos almejar nos valer do processo de criação dos personagens ficcionais para efetuar algumas reflexões dentro do campo da Criminologia e da História do Crime. Tal estudo, na linha do que propõe Machado, Zackseski e Piza (2018, p.8), pode ampliar a compreensão das perspectivas criminológicas expressas nessas figuras, ou ao menos expor como elas se popularizaram e foram introjetadas inconscientemente pelos leitores de HQs, espectadores de filmes e apreciadores de games.

Nota

1 A biografia aqui resumida se encontra na edição utilizada no presente trabalho, tradução de Sebastião José Roque (pp. 1-3).

Referências

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