Publicamos hoje, no Pontos de Leitura do Ateliê de Humanidades, a resenha de André Magnelli sobre o livro “América Latina: um povo em marcha“, de Ángel Rama, número 2 da Biblioteca Básica Latino-Americana (BBLA), um projeto da Fundação Darcy Ribeiro (Fundar) em parceria com o Ateliê de Humanidades e a Tucán Ediciones.
Esta resenha foi publicada originalmente em 2022 no Caderno de Letras da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Trazemos aqui a versão ampliada e atualizada dentro do contexto de retomada da BBLA sob gestão do Ateliê de Humanidades.
Nesta nova fase da BBLA, temos a segunda edição de “América Latina: um povo em marcha” , com uma nova tradução feita por Magnelli.
Pontos de Leitura
27 de novembro de 2023
Ángel Rama,
uma paixão latino-americanista
Resenha de:
Rama, Ángel (2023) América Latina, um povo em marcha.
Organização de Facundo Gómez.
Rio de Janeiro: Biblioteca Básica Latino-Americana (BBLA)
(Segunda edição).
A América Latina é, ao mesmo tempo, um problema, uma realidade, um projeto e uma utopia. A possibilidade de sua existência é desacreditada muitas vezes pelos próprios indivíduos que a habitam, seja por causa de um desprezo colonizado que mimetiza o estrangeiro, seja porque há um desencanto com as promessas de integração nunca cumpridas e quase sempre improváveis. Nesta toada, os ciclos viciosos de promessas e fracassos são alimentados por anti-imperialismos performáticos, provincianismos estéreis, subserviências imediatistas e pensamentos fracos, redutores e autocomplacentes. Todavia, o lado fecundo de nossas ásperas experiências está no fato de que se formou aqui uma tradição cultural na qual os intelectuais se tornaram protagonistas da construção das sociedades latino-americanas, alguns dos quais realizando o árduo trabalho de articulação entre as ideias, os editoriais, as universidades e a sociedade, sendo capazes de mobilizar distintas frentes de ação e organização, conectando pares, tecendo redes, fazendo interpretações e construindo instituições.
Este foi o caso do sociólogo e antropólogo Darcy Ribeiro, cujo centenário celebramos em 2022 e que dispensa apresentações; e este foi o caso também do crítico uruguaio Ángel Rama que, falecido precocemente num acidente de avião em 1983, era, nas palavras de Claudia Gilman, “o grande tecelão da rede latino-americana de intelectuais” de seu tempo (apud Gómez, Facundo, in Rama, 2023, p. 17). Não é por acaso assim que Darcy e Rama foram os primeiros autores publicados na Biblioteca Básica Latino-Americana (BBLA), um projeto editorial da Fundação Darcy Ribeiro em parceria com o Ateliê de Humanidades e a Tucán Ediciones.1
Rama foi um polímata que conjugou as facetas de crítico literário, editor, redator, tradutor, escritor, revisor, gestor cultural, ensaísta, dramaturgo e professor. Apesar de seu amplo reconhecimento e de ter tido um trabalho crucial em projetos editoriais como a Biblioteca Ayacucho, sua obra é pouco acessível ao mercado editorial latino-americano, sobretudo o brasileiro, o que faz com que careça ainda de uma recepção de público e crítica à sua altura. Com exceção de La ciudad letrada (1984, póstumo), traduzido quase de imediato pela editora Brasiliense (A cidade das letras, 1985, esgotado e republicado pela Boitempo, 2015), sua variada obra produzida dos anos 1950 aos 1980 ainda espera ser traduzida para o português. Certamente, desde os anos 2000 ganha corpo sua recepção crítica a partir de interpretações de texto e pesquisas de arquivo2, todavia, a publicação dos estudos críticos, a maioria reconstruindo os diálogos de Rama com interlocutores brasileiros, como Antonio Candido, Darcy Ribeiro e Berta Ribeiro, não repercutiu suficientemente sobre a tradução de seus textos, pois só tivemos até agora as publicações do romance de 1961, Terra sem mapa (Grua, 2008), e da antologia organizada por Pablo Rocca, traduzida do espanhol, Literatura, cultura e sociedade na América Latina (Ed. UFMG, 2008, esgotada).3 Além disso, o pensamento de Rama está em pleno processo de descoberta no próprio contexto hispano-americano, tendo em vista as recentes pesquisas de arquivo, as inéditas compilações e os novos esforços interpretativos.4
Por esta razão, América Latina: um povo em marcha cumpre um importante papel para os estudos críticos sobre Ángel Rama e a reflexão sobre o que podemos chamar de “problemática latino-americanista”. O livro é composto por quatro ensaios, que percorrem o itinerário de Rama desde meados dos anos 1960 até início dos anos 1980, com organização e apresentação de Facundo Gómez.5 A apresentação nos brinda com uma visão sintética da práxis crítica social, cultural, estética e literária de Rama e mostra a heterogeneidade, a pluralidade, as contradições e as dificuldades de seu pensamento, sem deixar de enfatizar a unidade, a coerência e o rigor de sua obra.
O livro possui um leitmotiv que dá sentido e coerência ao conjunto: o desafio da integração cultural latino-americana. Temos aí a elaboração da problemática por múltiplas frentes: (1) a articulação de uma originalidade literária; (2) o plano de uma reforma universitária; (3) a editoração de uma coleção de livros; e (4) a reconstrução de uma formação histórica dinâmica e “em marcha”.
(1)O primeiro ensaio, publicado em 1965, é intitulado Sentido e estrutura de uma contribuição literária original para uma região do terceiro mundo: América Latina e se pergunta sobre se existe uma originalidade na literatura da América Latina e, se sim, qual seria seu sentido e estrutura. Rama compreende a literatura por uma perspectiva que chama de “estrutural”, que é, como ressalta Gómez, uma visão próxima à definição de “sistema literário” de Antonio Candido (e, digamos claramente, alheia àquela do formalismo russo ou do estruturalismo), uma vez que enfatiza a relação entre o autor, a obra, o público e as tradições literárias (nacionais, regionais e estrangeiras).
A abordagem “estrutural” da formação latino-americana aposta na relevância das dualidades em tensão formadora. Neste ensaio, a dualidade é aquela entre, de um lado, a cultura tradicional, rural, oral, conservadora e popular, e, de outro, a cultura moderna, urbana, escrita e cosmopolita (no terceiro ensaio, ele falará da dualidade entre os polos interno e externo). Como afirma Gómez, a dualidade entre o tradicional e o moderno é precária do ponto de vista analítico e, por isso, perderá sua relevância conforme seu conhecimento da região é aprofundado. De todo modo, já se faz presente aí, de forma tímida, o conceito de transculturação, criado pelo cubano Fernando Ortiz e cujo desenvolvimento será uma das principais contribuições da obra de Rama, pois elucida o que ele pensa a respeito da originalidade da criação literária latino-americana. Gostaria de explorar esse viés, pois ele permite mostrar sua atualidade em diálogo com a voga atual do pensamento decolonial.
Para Rama, a possibilidade de uma cultura original está na mútua fecundação das diferentes culturas e, até mesmo, no entrosamento dos intelectuais entre si em nossas terras.6 Este ponto é de fundamental importância, pois dialoga com os pensamentos hoje em voga, mostrando uma capacidade de enriquecer as problemáticas “decoloniais” sem cair em fórmulas retiradas do pós-estruturalismo e dos studies. Para Rama, a América Latina possui uma origem colonizada em distintas dimensões, recebendo “estruturas ideológicas” com as quais teve e tem que lidar, pois é parte inarredável de si mesma. A colonização ocorre de forma dialética, de modo que o povo colonizado também se apropria das armas dos colonizadores e inverte o jogo. De fato, como fala Gómez, sendo tributário da tradição do Cone Sul, Rama está muito preso, nos anos 1960, à ideia da Europa como norte e modelo. Isso o leva a afirmações que soam hoje inaceitáveis, como quando diz que as culturas africanas e as indígenas não têm possibilidade de um desenvolvimento próprio e autônomo, e que estariam destinadas a morrer, devendo passar por uma “inserção de elementos próprios dentro dessa cultura europeia americana, ou ocidental, ou atlântica” (ibid., p. 30). A infeliz formulação será contrabalançada, porém, nos demais ensaios mais maduros. De todo modo, o conceito de transculturação nos possibilita evitar uma compreensão “purificadora” de “descolonização epistêmica” como caminho de criação autônoma.7 Este fato é ressaltado pelo próprio Walter Mignolo, um dos representantes da tese da modernidade/colonialidade que recorre com frequência ao conceito de transculturação para ilustrar sua proposta de um “pensamento das fronteiras” (ver Mignolo, 2012 [2000]). Infelizmente, a atual voga decolonial esquece fácil esta formulação, caindo em variações locais do desconstrucionismo dos studies e do multiculturalismo norte-americano.
(2)No segundo ensaio, de 1972, temos um projeto de integração cultural a ser feito através da reforma das universidades.8 Em Dez teses sobre a integração cultural da América Latina ao nível universitário, o crítico estabelece as diretrizes de uma universidade voltada para uma cultura integradora que seja, também, modernizadora. Neste sentido, Rama faz parte de uma tradição progressista que concebe as universidades como instrumentos da modernidade, mas ele se apoia em uma ideia mais rara, que é comum a seu amigo Darcy Ribeiro: que as universidades devem se orientar por uma “doutrina latino-americanista que reivindique sua cultura como história e como destino”. As universidades devem, assim, trabalhar por condições de liberdade e originalidade da América Latina através de um conhecimento profundo de sua diversidade local, nacional e regional. Aqui reafirma-se um “anti-imperialismo”, que se expressa, no caso das universidades, pela necessidade de romper com uma tradição elitista e abrir-se para as demandas, carências e potencialidades da sociedade.
Poderíamos selecionar do projeto de uma universidade voltada para a integração algumas diretrizes que, ao nosso ver, são mais marcantes e menos datados: (a) a busca de elaboração, desenvolvimento, intercomunicação e enriquecimento das áreas culturais (ou comarcas) da região latino-americana; (b) o incentivo à colaboração integrada da universidade por uma cultura acadêmica inter-, ou mesmo transdisciplinar, que esteja voltada aos problemas da região e das comunidades em que se insere; (c) a formação e capacitação dos professores, estudantes, pesquisadores e quadros administrativos no tocante à América Latina, gerando conhecimento e organização das heranças e dos problemas recebidos e das singularidades da região; (d) a integração, tradução e difusão cultural “latino-americanista”, dando-se atenção especial à extensão universitária, a ser feita em diálogo com as comunidades recolhendo-se as carências e contribuições em um regime de coparticipação cultural dos diversos setores sociais; (e) a criação de universidades regionais com planos de integração, que é uma proposta que ganhou contornos concretos com a criação da Universidade da Integração Latino-Americana – UNILA, cuja experiência expressa a dificuldade institucional e cultural para a efetivação da missão no Brasil; (f) a formação dos quadros técnico-administrativos e dos gestores acadêmicos, criando condições para uma autonomia universitária que seja bem planejada e eficaz no plano da execução; (g) e, por fim, um bom uso dos meios de comunicação de massa para a difusão de “uma cosmovisão cultural latino-americana que traga imagens complexas e dinâmicas de um continente em ebulição” (ibid., p. 124).
(3) Muitas dessas propostas de uma universidade voltada à integração cultural são castelos de areia caso não se assentem em publicações que permitam um conhecimento rigoroso da região em sua unidade e diferença. Não custa lembrar que o “latino-americanismo” (assim como o “decolonialismo”) pode ser uma palavra ao vento enunciada no vácuo de uma ignorância sobre a história, a realidade, a cultura e a intelectualidade latino-americanas. É por isso que um projeto como a Biblioteca Ayacucho (e também a Biblioteca Básica Latino-Americana – BBLA) é fundamental para a integração cultural. No terceiro ensaio, A Biblioteca Ayacucho como instrumento da integração cultural latino-americana, de 1981, Rama apresenta as diretrizes que nortearam a editora venezuelana por ele dirigida.
Ele situa o projeto da Biblioteca Ayacucho à luz de uma práxis crítica que articula passado, presente e futuro. A Biblioteca tem o papel de recuperar as origens comuns e a realidade histórica do continente, selecionando o “repositório de energias vivas” a fim de construir originalmente o passado e elaborar uma visão normativa do futuro, orientando nossa insatisfação com o presente e reconhecendo a capacidade de modificá-lo (ibid., p. 157). O problema que se põe, contudo, é: em quais critérios se baseia a seleção do passado e a projeção do porvir? Afinal, não estamos acostumados a assumir as teorias europeias como modelos a serem aplicados, mesmo nos projetos chamados “progressistas”? Não somos marcados pelo esquecimento compulsivo e a ignorância da própria história? Não vivemos comumente em uma falta de memória coletiva que nos “[…] leva a tropeçar várias vezes nas mesmas pedras e a refazer fantasmagórica e tragicamente o que já foi vivido em outros tempos”? (p. 158). Rama está apontando aqui para um problema clássico de nossa região: como enraizar projetos transformadores em meio ao artificialismo das ideias, o esquecimento sistemático e a pauperização cultural?
Esta é a problemática de partida que justifica os objetivos da Biblioteca Ayacucho. Em primeiro lugar, assim como no ensaio anterior, Rama afirma a importância do trabalho inter- ou transdisciplinar que abranja um amplo escopo temático que mostre como se deu e se dá a criação cultural na América Latina. A Biblioteca deve recolher as contribuições abrangendo não apenas trabalhos científicos, como também os variados gêneros literários. Este critério não parte do abstrato, mas sim de uma constatação concreta: a própria produção intelectual latino-americana mistura, de forma imprevista e criativamente, os saberes acadêmicos (sociologia, política, antropologia etc.) e as distintas formas de narrativa (que inclui a pujança do gênero autobiográfico onde “a história, a narrativa, os documentos justificativos e a controvérsia política estão agrupados”) (ibid., p. 163). Em segundo lugar, quando se trata da relação com o passado, Rama defende a necessidade de uma atitude de reflexividade pós-tradicional orientada por um discurso intelectual coerente, onde o passado não é assumido como memória mítica, mas sim “como uma lição intelectual, consciente e reflexiva”, dada por uma “vontade de conhecimento e, portanto, uma incorporação criteriosa e seletiva, à luz das necessidades do presente, da atividade realizada pela coletividade” (ibid., p. 149). Em terceiro lugar, próximo do ensaio anterior, Rama enfatiza a importância de uma Biblioteca que não se restrinja às elites e que registre, valorize e, se necessário, dignifique as produções culturais de todos os estratos sociais, incluindo testemunhos, relatos, materiais “folclóricos”, mitologias, crônicas, registros orais de comunidades indígenas, negras e camponesas, etc.
E, em quarto lugar, ele diz que a Biblioteca deve atuar no discurso cultural latino-americano, gerando um desejo de integração contra uma fragmentação e isolamento seculares. Neste sentido, é preciso gerar comunicações em torno de problemas comuns e mapear a diversidade interna na formação de áreas culturais e comarcas. Rama efetua então uns passos além dos ensaios anteriores: (a) superando um “anti-imperialismo” ingênuo preso às expectativas da revolução cubana, ele propõe uma tarefa editorial que reconheça o tecido contraditório das sociedades latino-americanas em seu complexo de forças; (b) ele inclui o Brasil no projeto de integração, propondo o enriquecimento mútuo das áreas hispano-americana e luso-americana, o que demanda um maior esforço brasileiro, que era e é ainda tímido, na recepção das obras hispano-americanas e na construção de uma cultura integradora; (c) ele ressalta a importância da região não hispânica do Caribe no projeto editorial integrador, que é, segundo ele, um rosário de ilhas que se duplica noutro de línguas e culturas; (d) ele justifica a inclusão de autores estrangeiros, uma vez que suas obras (incluindo as ficcionais) participaram da nossa construção com investigações, descrições e traduções da realidade latino-americana; (e) ele propõe que o editorial reúna em publicações especializadas as produções de movimentos intelectuais e políticos que foram contemporâneos, ainda que tivessem existido sem se conhecerem e comunicarem (f) e, por fim, ele reitera, tal como no primeiro ensaio, o fato de que a América Latina pertence à cultura universal e está articulada por uma pluralidade de focos de influência.
(4) No quarto e último ensaio, América Latina: um povo em marcha, também de 1980, que tem o título que batizou o nome do livro, entramos em contato com outra faceta de Rama, que se mostra fino conhecedor dos problemas econômicos e políticos da história da América Latina. Trata-se de uma ensaio sobre o processo civilizatório do continente, analisando-o historicamente em sua unidade e diversidade através do entrecruzamento de economia, política e cultura. Aqui, Rama faz uma forte interlocução com as teorias latino-americanas do subdesenvolvimento e da dependência, sobretudo a tradição da CEPAL, manifestando uma preocupação com a articulação entre o desenvolvimento cultural e o desenvolvimento econômico.
De partida, ele reconhece a presença interna e externa do estrangeiro na formação latino-americana, a partir da qual se forma uma intelectualidade que nele se referenciou e, muitas vezes, contra ele se afirmou. É assim que, no século XIX, formou-se uma cidade letrada em relação crítica com a Europa e os Estados Unidos mas muito pouco conectada com o resto da sociedade. No início do século XX, a questão nacional ganha força na cultura latino-americana, rompendo aos poucos com um internacionalismo vago para debruçar-se sobre as realidades da região, o que fez surgir tanto os movimentos vinculados à presença negra, indígena e mestiça, que eram renegados no ideal primevo de modernização marcado pelo racismo da colonialidade, quanto também, a partir de 1930, as abordagens científicas da vida social, política e econômica, com a formação e profissionalização crescente do sistema universitário. Rama mostra um rico conhecimento das criações culturais destes dois séculos, proliferando referências a movimentos e autores dos diversos países da América do Sul, da América Central e do Caribe. Gostaria de ressaltar apenas três pontos neste denso ensaio.
Em primeiro lugar, fica claro como ele pensa a relação entre o regionalismo e o modernismo, pois diz que não se trata de dois movimentos intelectuais em conflito, mas de formas de criação cultural em co-influência. O nacionalismo ascendente no século XX se expressa tanto com elementos regionalistas (expressando movimentos nativistas, crioulos, indigenistas etc.), quanto com elementos modernistas sob influência das vanguardas europeias; deste modo, a análise da criação literária deve considerar a relação entre o modernismo e o regionalismo como polos que se compõem com variações de grau e em distintas formas, não sendo movimentos estanques e estáticos, mas sim formas culturais que variam forças e intensidades em função dos contextos nacionais, sociais e individuais. Em segundo lugar, aparece à cena, a partir de meados do século XX, a cultura de massas norte-americana, que cria um polo de valores que reorienta os referenciais da América Latina centrados até então na Europa. A cultura de massas marca um predomínio norte-americano e acaba realizando uma integração cultural, coisa que a tradição elitista da região não soube desenvolver no plano interno. Desta maneira, a indústria cultural implementou o que chama de um “plano monumental de transculturação” mobilizada por interesses comerciais (ibid., p. 215), que incorporou a arte de vanguarda europeia e norte-americana a uma cultura de massas que absorve as “culturas” dos seus mercados consumidores estrangeiros. E, em terceiro e último lugar, ressaltamos que, durante o período de exílio das ditaduras, a Europa chega a se fortalecer como polo de influência, o que ocorre paralelamente com a preocupação crescente dos intelectuais latino-americanos com suas próprias sociedades e com a região. Assim, o “latino-americanismo” se tornou uma força cultural. Mais importante do que isso, contudo, é a constatação, por Rama, de que houve o florescimento da produção literária e artística a partir de meados do século que fez com que a criação latino-americana entrasse no circuito internacional de “alta cultura”, integrando coleções dos centros culturais e gerando um “tesouro inesgotável” que permitiu um encontro da América Latina consigo mesma.
De certo modo, este é o desafio que atravessou a reflexão de Rama no conjunto destes quatro ensaios.
***
Existe uma ideia recorrente em Rama: para construir a si mesma, a América Latina teve e tem que responder ao desafio posto pela cultura europeia e pelos centros do poder econômico e cultural que se impõem externamente. E como responder a isso? Da forma como sempre o fez em seus momentos criadores, ainda que inconscientemente: aproveitando o impulso alienígena para coletar, modificar, retrabalhar e transformar a si mesma e ao outro. Para concluir, então, digamos que somos motivados a avançar, com Rama, no esforço de reintegração das influências e atividades culturais, em que a escrita acadêmica é apenas uma das frentes de um esforço muito mais amplo, diverso, disperso e complexo para que assumamos as tarefas de uma cultura latino-americana autônoma que não apenas se integra a, mas cria e enriquece a cultura universal.
De fato, como lembra Gómez, muita coisa mudou desde a partida do crítico, uma vez que houve a globalização das sociedades, a digitalização das relações, a fragmentação neoliberal, a hegemonização desconstrucionista e a profissionalização e burocratização das universidades mundializadas, com suas “fábricas de papers indexados” e “objetos de estudo assépticos, adaptados a modas, parâmetros e normas” (Facundo Gómez, 2023, p. 48); contudo, longe de transformar a obra de Rama em um trabalho datado, essas mudanças nos convidam a revisitá-lo por duas fortes razões, além das outras que são encontradas acima: em primeiro lugar, porque através dele é possível ancorar uma adequada reconsideração do “significado da literatura, da crítica e da cultura [latino-americana] num panorama global que é tão digital quanto dinâmico” (p. 50); e, em segundo lugar, porque “recuperar o trabalho de Rama hoje nos leva a desmantelar as imposições, os fatalismos e as claudicações da cena contemporânea, mais propensa a desconstruções e impugnações totais do que à arriscada aventura de construir alternativas ou forjar novos espaços” (ibid., p. 14).
Rama, um intelectual que se dedicou a construir ideias, redes e projetos, é a boa inspiração que precisamos para começar o trabalho da reconstrução cultural e democrática, após tamanha desconstrução e incontáveis quinhões de vidas e terras devastadas.
Notas
1 Para não tomar por esquecido, existe uma antologia de contos latino-americanos de 1975: Rama, Ángel (seleção, introdução e estudos críticos) (1978) [1975] Os primeiros contos de dez mestres da narrativa latino-americana. Rio de Janeiro. Paz e Terra.
2 Ver o ensaio Dez teses sobre a integração cultural da América Latina ao nível universitário.
3 É o que vemos com a publicação de livros como: Ángel Rama: literatura e cultura na América latina (EdUSP, 2001), organizado por Sandra Guardini Vasconcelos e Flávio Aguiar; Transculturação Narrativa – na obra de Ángel Rama (Humanitas, 2007), de Roseli Barros Cunha; Ángel Rama: um transculturador do futuro, organizado por Flávio Aguiar e Joana Rodrigues (EdUFMG, 2013); Diálogos latino-americanos: correspondência entre Ángel Rama, Berta e Darcy Ribeiro (Global, 2015), com organização, estudos e notas por Haydée Ribeiro Coelho e Pablo Rocca; Conversa Cortada: a correspondência entre Antonio Candido e Ángel Rama – O esboço de um projeto latino-americano (1960-1983), organizado por Pablo Rocca e Ernani Ssó (EdUSP, 2017); e Antonio Candido e Angel Rama: críticos literários na imprensa, por Joana Rodrigues (Ed. Unifesp, 2018).
4 Para se ter uma ideia da vastidão de sua obra, a Cronologia y Bibliografia de Angel Rama, organizada por Carina Blixen e Alvaro Barros-Lémez (Montevidéu: Fundación Ángel Rama, 1986), lista mais de 1400 entradas bibliográficas do autor entre artigos, prólogos, antologias, livros, etc.
5 Como ficará claro nesta resenha, compartilhamos com Ángel Rama a ideia de que, além de ser um projeto editorial, uma Biblioteca (como a Ayacucho e a BBLA) é uma ação de reflexividade intelectual, organização cultural e transformação social. É por isso que, além de publicar livros, a BBLA busca apresentá-los, resenhá-los, debatê-los e integrá-los em interpretações e proposições relativas ao passado, ao presente e ao futuro da América Latina e da humanidade. Ver mais informações em https://www.bbla.com.br/.
6 No terceiro ensaio do livro, Rama analisa a relação entre os polos interno e externo do continente, recusando-se de partida a um auto-fechamento da cultura latino-americanista: “é impensável qualquer solução de convivência latino-americana que não assuma como necessária a incorporação, não apenas econômica, mas também amplamente cultural, numa esfera internacional. Mas o papel que nela haverá de desempenhar a América Latina será meramente auxiliar e carente de autonomia e criatividade caso esse polo externo não seja compensado por outro interno, que o equilibra e regula. Esse polo interno está representado, em primeiro lugar, pelas necessidades atuais dos povos latino-americanos, através da demanda por uma plena expansão produtiva; mas, no nível da vida espiritual, o apoio, a energia, a potencialidade dessas demandas revertem para a acumulação que tem sido feita ao longo do tempo e constitui a história comum.” (ibid., p. 159).
7 Vale citar uma exemplificação de Rama que ilustra bem a sua forma de compreender a criação transulturadora: “[O romancista peruano José María] Arguedas […] ilustra melhor do que qualquer outro romancista – como na poesia Nicolás Guillén – o fenômeno da transculturação, emergindo do tradicionalismo para a cultura urbana cosmopolita. No caso do Brasil – estudado por Gilberto Freyre – não há melhor exemplo que o da criação musical” (ibid., p. 69).
8 Facundo Gómez tem uma interpretação do conjunto da obra de Rama em sua tese de doutorado: Gómez, Facundo (2019) Por una crítica latinoamericanista: la praxis intelectual de Ángel Rama. Tesis de Doctorado en Letras. Universidad de Buenos Aires, Facultad de Filosofía y Letras.
Referências
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ANDRÉ MAGNELLI é idealizador, realizador e diretor da instituição de livre estudo, pesquisa, escrita e formação Ateliê de Humanidades (ateliedehumanidades.com).
Sociólogo, professor, pesquisador, editor, tradutor, mediador cultural e empreendedor civil/público. É editor do Ateliê de Humanidades Editorial e do podcast República de Ideias. É editor da tribuna Fios do Tempo: análises do presente. É curador do Ciclo de Humanidades: ideias e debates em filosofia e ciências sociais, co-organizado com o Consulado da França no Rio de Janeiro. Pesquisa na interface de teoria social, tecnociências & sociedade, sociologia histórica do político, teoria antropológica, ética, filosofia política e retórica.
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