Fios do Tempo. O amor prático em bell hooks – por Rita Gonçalo

Falar de amor é um ato revolucionário, sobretudo neste momento em que vivemos, dilacerado por violências cotidianas, injustiças banalizadas e autofechamentos narcisistas, onde as próprias lutas por reconhecimento se ideologizam. Na verdade, antes de falar de amor, o que importa é efetivá-lo em estado prático; afinal, as palavras são, muitas vezes, apenas os adornos que disfarçam a hipocrisia e pavoneiam a sedução.

Neste belo texto, Rita Gonçalo Alves nos traz a centralidade do amor na vida cotidiana, nas instituições e nos movimentos sociais, em especial na luta cotidiana dos movimentos negro e feminista. Para tanto, ela nos apresenta e dialoga com o pensamento de bell hooks, uma intelectual e ativista americana que recentemente nos deixou (1952-2021). Mirando no foco de luz deixado por hooks, lemos em Rita Gonçalo a sábia percepção de que a edificação de uma sociedade livre e igualitária depende da construção de uma ética amorosa, construída na recusa da violência, na abertura radical a quem pensa diferente, no cuidado de si e dos outros, na disponibilidade do tempo próprio, na atenção e no carinho mútuos, na construção da vida familiar e comunitária, na defesa da igualdade social e no zelo de saúde física e emocional.

Desejo, como sempre, uma excelente leitura!

A. M.
Fios do Tempo, 25 de janeiro de 2022



O amor prático em bell hooks

Minha irmã — de sangue, de cor, de lutas femininas,
você compartilha comigo suas alegrias e dores cotidianamente. Seja por mensagens, chamadas de vídeo nos aplicativos digitais, nos seus posts em redes sociais, ou em nossos poucos encontros presenciais nestes tempos pandêmicos. Neste processo eu desejo apenas te ouvir, ter e ser uma escuta atenta à tua voz. Você necessita transbordar. Acolher-te e abraçar-te é o meu exercício de amor. Aliás, o amor é uma partilha. Nós não amamos “a dois”. Em amor agimos e abraçamos a comunidade. O amor atende à comunidade.

***

As lições que bell hooks nos deixou em textos como “Vivendo de amor” (2010) são centrais e incontornáveis para o tempo em que vivemos — num momento em que mazelas como desigualdade, não sororidade, apatia ao outro e desamor assolam o bem-estar individual e coletivo. 

Viver de amor é transbordar e curar o entorno. A gente se cura por dentro, para semear e florescer amor do lado de fora. Abrir o coração para essa cura é uma ação tão individual quanto coletiva. 

Hooks foi uma professora e ativista negra norte-americana, cujo nome de registro era Gloria Jean Walkins. Nasceu em 1952 na cidade de Hopkinsville, estado de Kentuchy (EUA). Adotou o nome de bell hooks em homenagem à avó. Formada em literatura inglesa pela universidade de Standford, fez mestrado na Universidade de Wisconsin e doutorado na Universidade da Califórnia. Ao longo de sua trajetória, hooks foi dando corpo a uma literatura que engloba 40 livros traduzidos para 15 idiomas, explorando temas como a luta de classe, educação, política, feminismo e racismo.

Após seu falecimento, em 15 de dezembro de 2021, senti-me com o compromisso de compartilhar o quanto a escrita de hooks colaborou para que eu me tornasse uma revolucionária amorosa. Força tranquila, ao mesmo tempo potente. Gostaria de considerar especificamente a virada afetiva provocada pelo livro “Tudo sobre o amor”, escrito em 1990 (tradução brasileira: Elefante, 2021), e o ensaio “Vivendo de amor”, de 2010. 

bell hooks olha para toda uma construção do nosso imaginário sobre o que é o amor. A partir da experiência negra estadunidense — onde o movimento negro já lutava contra encarceramento massivo de pretos e pretas, violências física, verbal e simbólica, segregação espacial, sexismo, entre outros —, conseguimos localizar nos dias atuais diversos elementos dessa experiência que hooks nos traz. Ao reunir considerações sobre raça, classe e gênero quando escreve sobre o amor, ela nos apresenta diversas formas de conhecer este conceito. O intuito da autora é deslocar nosso olhar de uma perspectiva eurocêntrica do “amor romântico”, pautado no sentimento, para nos conscientizar sobre o amor como uma ação coletiva.

Pela interpretação e compreensão segundo bell hooks, parece que estamos vivendo em um contexto contrário ao amor — contexto este permeado pelo ódio, raiva, desespero, desconexão. Nossa subjetividade acabou se tornando muito comprometida com as violências que o ocidente nos condicionou, historicamente construídas com base em grandes guerras e resistência à alteridade, ao diferente. Neste momento, portanto, falar de amor é um ato revolucionário. Especialmente para o povo negro, cujos abusos sofridos pelo racismo, servidão laboral e sexual geraram uma dor histórica que se sobrepôs à expressão do amor. A autora deseja chamar atenção para a premissa de que o amor precisa recomeçar em nós, motivar os negros à celebração quando restauramos a busca pelo amor ao seu lugar de direito no centro das nossas vidas. Para hooks, o amor anuncia a possibilidade de rompermos com a perpetuação de dores e violências e caminharmos para uma sociedade amorosa (HOOKS, 2021 [1990]).

O que isso quer dizer? É através da construção de uma ética amorosa que seremos capazes de edificar uma sociedade verdadeiramente igualitária, fundamentada na justiça e no compromisso com o bem-estar coletivo, e neste sentido a comunidade negra se torna vanguardista por ser autorreferente em outros modos de vivenciar e fortalecer o amor na esfera cotidiana. Hooks tira o amor do lugar de fragilidade e coloca ele num horizonte de potência e revolução. Seja nas relações familiares, românticas e de amizade, a autora defende que o amor é mais do que um sentimento — é uma ação capaz de transformar o niilismo, a ganância e a obsessão pelo poder que dominam nossa cultura. 

Um exemplo singular que ela nos traz é o modelo de autocuidado político, que surge num contexto especifico de sobrevivência — como organizar uma agenda de compromissos para atender à comunidade, separar tempo para estar com a família, cuidar da saúde, gerir seus projetos de escrita e de vida. Tudo isso são ações que vão trazer resultados futuros e longevos para a nossa vida, e isso é também amor. Para bell hooks, portanto, o amor é coletivo, não deve ser direcionado a uma pessoa somente. A autora também nos estimula a valorizar, respeitar e assegurar os direitos civis básicos das crianças, porque é através deles que elas acessam o amor. Para bell hooks, não pode existir amor sem justiça.

Outra manifestação importante trazida por hooks é a defesa da saúde emocional, sobretudo das mulheres pretas. Para ela, o autoamor é tão importante quanto o movimento contra o racismo e o sexismo; na verdade, essas duas experiências — amar a si mesma e reverter cotidianamente as opressões do racismo — estão interligadas. O autoamor se estabelece ao compreendermos o poder pessoal que se adquire com a autoafirmação positiva — reconhecendo aquilo que aprimora nossa autoestima. O amor-próprio é, portanto, a base de nossa prática amorosa. Ao darmos amor para nós mesmas, concedemos ao nosso interior a oportunidade de ter amor incondicional, possibilitando que toda uma comunidade desfrute das correntes de amor que emanam de nós. 

O amor precisa estar presente na vida das mulheres negras, em todas as nossas casas
(HOOKS, 2010, p. 6). 

[…] Num contexto de pobreza, quando a luta pela sobrevivência se faz necessária, é possível encontrar espaços para amar e brincar, para expressar criatividade, para receber carinho e atenção
(ibid., p. 7)

Ilustração: Cynthia Kittler para Adidas, Frankfurt (ALE).

O amor em bell hooks não combina com a lógica de escassez. A proposta que hooks nos traz é pensar o amor como uma ação que a gente oferece deliberadamente, uma prática transformadora. Aa conscientização da arte de amar é um processo, e no processo de resistência coletiva é deveras importante atender as necessidades emocionais de nossas irmãs e irmãos, pensando a nutrição tanto do corpo quanto do coração. 

A ampliação das possibilidades de experiências de alteridade, como princípios constitutivos da própria noção de vida coletiva, também é parte dos ingredientes do amor proposto por bell Hooks. Vivemos numa sociedade de intolerância, de medo ao outro, que parece negar o imprevisível, ou mesmo reconhece as diferenças de forma absolutamente controlada. Não há uma aceitação da verdade do outro. E o amor, para hooks, pressupõe a gestão da diferença, que é o trabalho de negociar medos e ansiedades, mediando memórias e esperanças, facilitando mudanças e transformação. Para construir uma sociedade amorosa precisamos reafirmar o valor de dizer a verdade e estarmos dispostos a ouvir as verdades uns dos outros. Essa é a via para construirmos laços fortes, de intimidade e confiança uns com os outros.

Quando amamos alguém não devemos partir do pressuposto de que, para fluir as relações, todos devemos pensar de forma igual. No amor como ação refletido por bell hooks, reconhece-se que o conflito é parte de tentar construir um relacionamento com alguém que não é você. Ouvir as vozes dissidentes. Eis aí o paradoxo. 

Parte do que hooks esperava das instituições educacionais era ensinar às pessoas uma abertura radical — termo que ela usava muito em seus livros. A abertura radical permite com que nós possamos discordar totalmente sobre algumas coisas e, contudo, termos outras coisas nas quais concordamos. Quando compartimentalizamos muito uns aos outros estamos nos fechando à ideia de que a outra pessoa pode ter considerações úteis a se escutar. Como nós lidamos com esses diferentes aspectos de quem somos? Essa é uma das razões pelas quais hooks gostava de escrever sobre o amor. 

Mesmo ausente, a doce presença de hooks nos deixou um convite: entender o significado metafísico do amor na vida cotidiana. Aprender definições falhas sobre o amor nos torna adultos pouco amorosos. Por isso torna-se fundamental compreender que o amor mistura vários ingredientes — como carinho, afeição, reconhecimento, respeito, honestidade e comunicação aberta. O conjunto desses elementos faz a gente experimentar o amor prático nas nossas vidas.

O amor, cuidado, carinho, atenção e nutrição (individual e coletiva) é o que pode nos salvar, inclusive politicamente, já que a coesão social está quase desmantelada no Brasil. O amor prático vai além daquilo que nossos olhos meramente veem. Muitas vezes criamos envolvimentos que estão condenados a repetir os dramas amorosos de nossos antepassados — seja nas relações de par, ou coletivas — sem nos darmos conta que o amor é uma construção, partilha, gestão das diferenças. Precisamos desenvolver essa arte essencial de reservar um tempo para conversar com nosso coração. Curar a nós mesmas e, assim, amar todos e todas à nossa volta.

Por todas as formas de cura, desde que elas sejam interseccionais, restaurativas, espontâneas, gregárias, autênticas, benéficas, construtivas, respeitosas, coerentes
(Curando a deusa em mim — Mariana Ruppel, 2020).

Esse é o amor que desejo neste ano de 2022.

Um ano novo suave e lindo pra gente.

Vamos juntas



Principais obras de bell hooks publicadas no Brasil 

Anseios: Raça, gênero e políticas culturais. São Paulo: Elefante, 2019.

E eu não sou uma mulher? Mulheres negras e feminismo. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.

Ensinando a transgredir: A educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 1994.

Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra. São Paulo: Elefante, 2019.

O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.

Olhares Negros: raça e representação. São Paulo: Elefante, 2019.

Teoria feminista: Da margem ao centro. São Paulo: Perspectiva, 2019.Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2021.


Rita Gonçalo Alves

É doutora em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR-Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sócia-proprietária da Zami Projetos Urbanos. Consultora em estudos urbanos e regionais.  Currículo Lattes: https://bityli.com/n7jGYS. E-mail: ritag_alves@icloud.com.
Instagram: @draritaalves



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