Fios do Tempo. Técnica e Humanidade: algumas ideias partindo de Romano Guardini – por Andrea Galluzzi e Licia Paglione

O que o pensamento católico tem a nos dizer sobre nossa sociedade cada vez mais integrada pelos sistemas técnicos? O que cientistas sociais italianos estão a produzir a respeito?

No texto que publicamos hoje, os italianos Andrea Galluzzi e Licia Paglione, ambos pesquisadores do Istituto Universitario Sophia, Florença, fazem uma reflexão sobre a relação entre técnica e humanidade a partir do teólogo e filósofo ítalo-alemão Romano Guardini (1885-1968), autor de obras como Cartas do Lago de Como (1927). Temos aqui também um diálogo com o sociólogo italiano Mauro Magatti, autor do livro Oltre l’infinito. Storia della potenza dal sacro alla tecnica (2018).

Deste modo, pensamos trazer uma dupla contribuição: aumentar nosso diálogo com as ciências sociais e humanidades feitas na Itália; e propiciar uma aproximação a um pensamento católico humanista sobre a tecnologia.

A. M.
Fios do Tempo, 17 de outubro de 2021


Técnica e Humanidade:
Algumas ideias partindo de Romano Guardini

O fenômeno da técnica no mundo contemporâneo tornou-se tão difundido que tem sido tomado como uma chave interpretativa da sociedade, definida por alguns – a partir justamente dessa relevância, mas também com o objetivo de evidenciar seus perigos – “tecno-niilista” (Magatti 2009, 2018).

Essa definição sublinha que o predomínio da tecnologia na vida social inclui, além de uma série de possibilidades, também riscos graves. Estes últimos estão ligados à forma como a potência (“o que pode ser”) na vida social se torna um poder (“o que pode ser feito”) monopolizado por uma visão da realidade focada nos meios e não nos fins e, portanto, desprovida de uma orientação adicional e mais integral que impulsiona e possibilita um futuro imaginado de forma compartilhada, com resultados ambivalentes para os indivíduos e para a vida em comum. Como aponta o sociólogo italiano Mauro Magatti, referenciado por Yuval Noah Harari:

A técnica – que é agora um sistema integrado – vai tornar-se ainda mais poderosa. Autoproclamar-se-á onipotente. Ou seja, prometendo ao homem – feito Deus – torna-se ele próprio onipotente. Mas isso só pode acontecer em um movimento duplo e contraditório: enquanto é liberada, a vontade subjetiva de poder fica simultaneamente aprisionada nas malhas do sistema técnico, cedendo parcelas crescentes de sua autonomia
(Magatti, Mauro, 2018, p. 218).

Retrocedendo os passos históricos que levaram a essa situação, no entanto, podemos ver elementos que sinalizam que este não é o único resultado possível ou o único fruto do amadurecimento de uma capacidade humana que é em si muito positiva.

Já o pensamento clássico, para enfatizar o valor e a grandeza dessa capacidade humana, por meio da figura mítica de Prometeu, descreveu a técnica como um dom divino. Ao longo da história, essa capacidade continuou a ser interpretada como uma “excentricidade”, ou seja, um impulso para ir além e transcender-se (Magatti 2018, p. 11), que permite o devir, que se abre para o futuro, fazendo novas possibilidades imagináveis. Reflexões filosóficas sobre este tema, com o tempo, foram divididas entre posições catastróficas (a maioria), que desejariam um retorno ao passado, e posições integradas que apoiariam a bondade da técnica de forma quase fideística. Para além da postura considerada mais correta, hoje é evidente que o desenvolvimento da técnica aparece cada vez mais como um fenômeno o qual é preciso enfrentar, que exige um olhar capaz de abrir “novos caminhos de reflexão e compreensão” (Magatti, 2018, p. 30), por meio de “lentes” que sabem focar além das posições extremas. Assim, elas podem identificar formas de “manter o poder aberto” (Magatti 2018, p. 212), sem “entregá-lo unilateralmente nas mãos de uma técnica que traduz para uma linguagem própria feita de aumento, competição e performance” (Giaccardi, Magatti, 2019). Desta forma, é possível que a técnica seja implementada em formas diferentes daquelas que o sistema técnico monopolizador está permitindo.

Nesta perspectiva, torna-se interessante a nosso ver – e é isso que propomos com esta contribuição – (re) descobrir o pensamento de um autor cuja perspicácia filosófica é constantemente redescoberta e continua a despertar o interesse entre estudiosos contemporâneos: Romano Guardini (Verona, 1885 – Munique, 1968), teólogo e filósofo ítalo-alemão, culturalmente ligado à esfera católica, considerado um das figuras mais significativas da vida cultural europeia do século XX.

O pensamento desenvolvido por Guardini, inspirado na fé cristã e fortemente ligado a uma visão ético-religiosa do mundo, teve e ainda tem a capacidade de abrir novos caminhos para uma leitura da realidade centrada na pessoa humana, considerada não apenas na sua dimensão racional, mas também na afetiva e espiritual. A originalidade filosófica e teológica de seu pensamento pode ser descrita por meio de algumas coordenadas básicas, que também são fundamentais para compreender seu ponto de vista sobre a questão da tecnologia e a relação entre ela e a pessoa humana.

Guardini trata desse tema principalmente por meio de uma coleção epistolar conhecida como “Cartas do Lago de Como” (1927). Na Carta I, o autor descreve o sentimento de algo que se impõe a ele e em toda a parte: a perda de uma cultura que vê o homem harmoniosamente integrado na natureza e o nascimento de um mundo “desumanizado”. Expressa forte consternação pela decadência que encontra sintetizada na imagem de uma paisagem cuja humanização harmoniosa e camponesa é quebrada pela presença de uma chaminé, símbolo plástico da decadência provocada pelo progresso da tecnologia.

É na carta IX, a última da correspondência, que ocorre uma virada decisiva para nosso autor: nessas linhas se expressa a necessidade de uma consciência a favor do humano e a urgência de devolver a técnica ao seu papel original, isto é, uma parte constituinte do concreto vivo e a força motriz de sua atividade. A consequência desta viragem é fazer surgir no homem uma nova autoconsciência e a opção de não fugir da sua época, mas de voltar a apoderar-se da história: “nós próprios somos o nosso tempo! Nosso sangue e nossa alma, este é o nosso tempo” (Guardini, 1993 [1927], p. 95). O fulcro sobre o qual centrar esse recomeço deve, segundo Guardini, ser buscado na interioridade da pessoa: “Uma nova força deve brotar do interior do homem. Em profundidade, onde tudo, entrando em relação, ganhará sentido” (Guardini 1993 [1927], p.102).

A redescoberta de uma dimensão interior leva Guardini ao exercício da inteligência do coração, que é uma união ativa e fecunda de coração e razão, que ele sintetiza com a expressão de um “coração que sabe”, ou seja, um lugar de onde o homem pode conhecer e agir no mundo integrando racionalidade e afetividade, aproveitando um convite muito semelhante ao encontrado na teoria sociológica contemporânea e mencionado inicialmente: encontrar formas de “manter aberto o poder” (Magatti, 2018, p. 212), que é trazer de volta a técnica a serviço do florescimento do humano, iniciando-a em um processo de nova humanização:

Bibliografia

Giaccardi C., Magatti M., La scommessa cattolica, Bologna: Il Mulino, 2019.

Guardini R., Lettere dal lago di Como. La tecnica e l’uomo, Brescia: Morcelliana, 1993 [1927].

Guardini R., La fine dell’epoca moderna-Il potere, Brescia: Morcelliana 1993 [1950-1951].

Guardini R., Mondo e persona. Saggio di antropologia cristiana, Brescia: Morcelliana, 2000 [1939].

Guardini R., L’uomo. Fondamenti di una antropologia cristiana, Brescia: Morcelliana, 2009.

Guardini R., L’opposizione polare. Saggio per una filosofia del concreto vivente, 2a ed., Brescia: Morcelliana, 2016 [1925].

Guardini R., La visione cattolica del mondo, 3a ed., Brescia: Morcelliana, 2018 [1923].

Magatti M., Libertà immaginaria. Le illusioni del capitalismo tecno-nichilista, Milano: Feltrinelli, 2009.

Magatti M., Oltre l’infinito. Storia della potenza dal sacro alla tecnica, Milano: Feltrinelli, 2018.

Nussbaum M. C., La fragilità del bene. Fortuna ed etica nella tragedia e nella filosofia greca, Bologna: Il Mulino, 1996.


Andrea Galluzzi
Istituto Universitario Sophia
andrea.galluzzi@sophiauniversity.org

M. Licia Paglione
Istituto Universitario Sophia
licia.paglione@sophiauniversity.org



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por Anders Noren

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